30 de setembro de 2012

Capítulo IV - IV.4 O pedido.


Vegeta entrou no quarto, mas não se deitou logo. Ficou na porta, a observar os contornos do corpo de Bulma tapado pelos lençóis. Era ainda uma mulher muito bela, apesar da idade. Pequenas gotas de água escorriam-lhe dos cabelos negros para o corpo musculado. Tinha acabado de tomar um duche depois dos treinos na câmara de gravidade.
Bulma mexeu-se na cama. Sentiu o olhar dele e abriu um dos olhos. Sorriu quando o viu. Afastou o lençol, deu duas palmadinhas no travesseiro vazio e disse com a voz sonolenta:
- Vegeta… Vem deitar-te. Já é tarde…
Nem sempre dormiam juntos. Vegeta tinha um quarto só para ele que gostava de utilizar para se isolar – apreciava a solidão, pois passara grande parte da vida sozinho e, por vezes, sentia necessidade desse estado extremo – mas ela mantinha um segundo travesseiro na cama, esperando por ele todas as noites. A dedicação era curiosa. Ficou um pouco mais a observá-la, na penumbra. De seguida, acatou o conselho e estendeu-se em cima do colchão. Mas não iria dormir enquanto não falasse com ela… O assunto não poderia esperar até ao dia seguinte.
Bulma passou os braços por cima da cintura dele e aconchegou-se com um suspiro. Vegeta ficou de olhos abertos a sentir o respirar da mulher junto ao peito, a cabeça aninhada no seu ombro, acendendo os sentidos e despertando um desejo latente.
- Bulma, preciso falar contigo.
Ela estremeceu. Pronto! O que temia, estava a acontecer. Vegeta fartara-se dela, ia-se embora, ia deixá-la… Regressava à vida errante pelo espaço. Ao fim de tantos anos, porquê? Não quis pensar nas razões dele. Instintivamente, abraçou-o com mais força. Não queria que ele se fosse embora. Vegeta sentiu-se, de repente, sufocado. Mas o que é que lhe tinha dado para o apertar assim?
- Sobre Bra – disse ele.
Bulma abriu os olhos, afugentando o sono.
- Bra? – Indagou, sem levantar a cabeça.
E, em segredo, suspirou de alívio.
Vegeta notou como ela aligeirava a pressão do abraço.
- Vou treiná-la.
Bulma sentou-se na cama e olhou indignada para Vegeta.
- Vais treinar a nossa filha? Porquê?
- Porque tem sangue saiya-jin e chegou o momento certo.
- Desde que nasceu que Bra tem sangue saiya-jin. Em sete anos, nunca te interessaste por ela. É quase tão invisível, quanto eu. O que é que te deu agora para quereres treiná-la?
- Não sou eu que quero. É ela.
- A Bra quer ser treinada por ti? – Disse Bulma perplexa.
- Foi hoje até à Câmara de Gravidade fazer o pedido.
- Não acredito.
- Não conheces a tua filha, Bulma.
Ela deitou-lhe um dos seus habituais olhares fulminantes, mas Vegeta nem estremeceu.
- Como te atreves a dizer uma barbaridade dessas?
- A Bra já luta há algum tempo, contou-me. Está a ser treinada pela neta de Kakaroto.
- Oh, Vegeta! Se pretendes irritar-me… – disse ela entre dentes.
- Que ganho eu em ver-te irritada?
- Bra não precisa de saber lutar! Ela é uma menina!
- Mas é ela que quer saber lutar.
Bulma cobriu a cara com as mãos, rugindo zangada, cotovelos espetados como um aviso de que não se deveriam aproximar ou havia explosão. Mas Vegeta, que a conhecia e sabia como fintar o mau feitio, anunciou com a mesma calma com que mantivera a discussão:
- Sabes que irei treiná-la. Quer tu queiras, quer não… Por isso, começa a mentalizar-te e aceita o facto de que a tua filha é uma guerreira.
Bulma sentiu-se explodir de raiva.
- Se a tua decisão já está tomada, por que raios vieste falar comigo?
- Porque queria que tu soubesses.
A fúria desvaneceu-se, como o ar a escapar-se de um balão. Bulma deixou cair os braços moles.
- Eu não queria que a Bra se metesse nessas coisas – suspirou. – Estava a criá-la para ser uma princesinha. A joia da família.
- Que coisas?
- Tu e Trunks já me chegam como guerreiros nesta família, para se meterem nas aventuras malucas para salvar a Terra, ao lado de Goku.
- A Terra está em paz, Bulma. – E Vegeta lembrou-se subitamente como a sua vida era monótona. – As aventuras malucas acabaram.
- Nunca se sabe, Vegeta.
- Hai. Posso sempre reunir as sete bolas de dragão e pedir a Shenron que me conceda um inimigo digno de combater comigo.
- Tens Goku.
- Kakaroto está entretido na ilha, com o seu aprendiz.
- Quando Ubo-kun estiver preparado, passas a tê-lo também. Poderão divertir-se os três juntos, como se tivessem cinco anos, lutando até caírem – atirou, ressentida, voltando-lhe as costas e puxando o lençol até ao pescoço. – Mas Bra e Trunks ficam fora disso!
- Só se eles quiserem. Não podes dizer a um saiya-jin o que fazer.
- Oh, sim, já sei! O apelo do sangue é demasiado forte. Quando farejam um combate, são imparáveis.
- A tua filha está a sentir o apelo. Não a podes censurar.
- Para com isso. Não quero saber as razões de Bra.
Suspirou. Não havia nada a fazer, sabia-o. Ela estava rodeada daqueles guerreiros desmiolados das estrelas. Ah! Quando se lembrava como censurara Goku por andar sempre atrás de novos combates e de novos desafios. Agora, vivia com um igual a Goku e tinha que lhe aturar as mesmas manias. E tivera os filhos dele, não tivera? Não havia outro remédio senão habituar-se à ideia de que todos eles eram saiya-jin e que todos eles eram iguais.
Vegeta afastou o lençol, puxou-a para si, prendeu-a num abraço que a esmagou e venceu. Antes de a beijar, murmurou:
- Vou fazer de Bra uma grande guerreira. Vais ter orgulho na tua filha, Bulma.

Capítulo IV - IV.3 Sorte inesperada.


O telefone tocava com apitos intermitentes. Goten chegava a casa e ouviu a voz de Chi-Chi desde a cozinha.
- Goten-chan? És tu?
- Hai, ’kaasan.
Não queria que a mãe o visse, pois descobriria o nariz inchado e começaria com a habitual enxurrada de perguntas. Gritou:
- Eu atendo!
Levantou o auscultador e ouviu a voz do irmão do outro lado da linha.
- Gohan!
- Goten-kun. Como é que tens passado?
- Estamos todos bem por aqui.
Houve uma curta pausa. Goten aproveitou para espreitar para a cozinha para se certificar que a mãe continuava entretida com o jantar.
- Ontem a mãe veio fazer-me uma visita e falou-me que estás a ter algumas dificuldades com os estudos.
- Ela disse-te isso? – Goten ficou atrapalhado.
- Pediu-me que te ajudasse. Sabes que não me importo nada em te ajudar. A época de exames começou e podemos combinar para vires cá a casa para estudarmos juntos. A minha biblioteca tem bastantes livros.
- Não é preciso…
Goten não queria que Gohan pensasse que ele não era inteligente. Não conseguia ser o génio que o irmão era, mas esforçava-se o suficiente para tirar nota positiva nos testes e passar de ano, vencendo os obstáculos, um de cada vez.
- Não é preciso estares à defensiva comigo, Goten-kun. Eu sei que os exames são complicados, já passei por eles.
- Mas vou conseguir, nii-chan – afirmou, com a mão no auscultador a tremer. – Só preciso de me aplicar um pouco mais no estudo. Sabes que estudar… aborrece-me… e que sou distraído.
Gohan perguntou:
- Estás constipado?
- Constipado? – Admirou-se Goten.
- Sim, tens a voz fanhosa.
Apertou o nariz com dois dedos e doeu-lhe. O sangue deixara de correr, contudo. Disfarçou:
- Sim, estou constipado. Dormi destapado, ontem à noite. – Espreitou novamente a cozinha. A mãe cantava enquanto preparava a comida. Tinha de se decidir, senão o irmão nunca mais desligava o telefone e não o deixava ir lavar o nariz e mudar de roupa. – Está bem. Vou ter contigo amanhã… Pode ser?
- Sim, pode ser – completou desconfiado. – Mudaste de ideias tão depressa.
- Fica combinado para amanhã à tarde.
- Estou à tua espera, Goten-kun.
- Até amanhã, nii-chan.
- Até amanhã.
Quando pousou o auscultador, suspirou de alívio. Agarrou nos livros que tinha colocado em cima da mesa, voltou-se e deu de caras com a mãe que lhe perguntou:
- Quem era ao telefone? Era o teu irm… – O tom amável da pergunta mudou para uma voz estridente quando reparou na cara dele. – Son Goten! O que foi que te aconteceu ao nariz?
- Bem… Foi um combate.
- Andaste outra vez a combater com Trunks?
- Não foi com Trunks… – respondeu Goten intimidado.
- Foi com quem, então?
- Acho… acho que não te posso dizer, ´kaasan.
A fúria desapareceu subitamente quando a mãe perguntou, unindo as mãos sobre o peito:
- Foi com o teu pai?
- Não…
Goten engoliu em seco. Queria ir tratar do nariz que lhe estava a doer e não adiantava esconder-lhe a verdade, que haveria de descobrir tudo, mais cedo, ou mais tarde, e depois haveria de ser bem pior, porque o castigo seria a dobrar. E quanto mais enrolasse, mais tempo ficaria ali preso e mais o nariz lhe doeria.
- Com quem andaste a lutar? – Insistiu ela.
- Com… Com a Maron.
- Maron?! A filha de Kuririn?
O coração de Chi-Chi deu um salto. Depois olhou para Goten e descobriu que o seu bebé estava crescido. E ela também já não era nova. Era mãe de dois filhos já adultos, era avó… Oh! Como o tempo passara depressa! Passara-o dedicada a um grande guerreiro, que prezava e estimava do fundo da alma, que presentemente não estava com ela, mas que prometera voltar… Son Goku! Lembrou-se do dia em que ficaram noivos, naquele torneio. Tinham combatido os dois, ele vencera. Lembrou-se do primeiro dia em que conhecera Videl… Depois daquele torneio, em que Videl participara, também o seu filho Gohan e ela se tornaram inseparáveis. Agora, Goten… Combatera com uma rapariga que, se calhar, era a rapariga de quem gostava. Os pequenos detalhes do destino era algo que não se devia menosprezar.
- A Maron sabe lutar?
- Pelos vistos… – E Goten apontou para o nariz inchado.
Chi-Chi sorriu divertida e Goten espantou-se.
- Aprendeu a lutar com a mãe, número 18 – completou ele.
- E parece que o fez muito bem, pois foi capaz de te atingir. Estavas transformado em super saiya-jin?
- Hai – balbuciou Goten. – Mas também lhe acertei. O combate terminou empatado.
- E a Maron acertou no nariz de um super saiya-jin?
Chi-Chi apoiou as mãos nas ancas, sentenciando:
- Espero bem que esse combate não te tenha afetado os exames.
- Está tudo bem com os exames. Amanhã vou estudar para a casa de Gohan. Era ele, há pouco, ao telefone.
- É uma ótima ideia. – Regressou à cozinha, mas antes ainda disse: – Vai lavar-te. O jantar está quase pronto e o ojiisan deve estar a chegar.
- Hai, ’kaasan
Goten ficou parado no meio da sala. Aparentemente, estaria tudo bem e não ouvira o sermão que era típico naquelas ocasiões. Não percebia a mãe. Era capaz de ficar zangada como um dragão quando sabia que ele andava a lutar, mas também sabia ignorar o facto quando a razão lhe parecia válida. E não faria mal, segundo a ótica da mãe, combater com uma rapariga? Que estranho…
A porta da rua abriu-se e Gyumao entrou com o seu habitual ar bonacheirão e simpático. Goten cumprimentou-o e correu para o quarto, a pensar que aquele era o seu dia de sorte, até que o nariz lhe voltasse a doer e pensou também que a sorte era uma noção algo subjetiva, no seu caso.

29 de setembro de 2012

Capítulo IV - IV.2 O sangue guerreiro.


O controlador de gravidade começou subitamente a apitar. Alguém abrira a porta do exterior. Vegeta, suspenso no ar, sentiu a pressão dentro da câmara a baixar, até igualar a pressão da atmosfera terrestre. Era um dispositivo de segurança, para não esmagar os visitantes com a força da gravidade que utilizava nos treinos. Ele e Trunks estavam habituados, mas poderia aparecer alguém que não o estivesse.
Desceu lentamente, até apoiar os pés no chão. Estava de costas voltadas para a porta. Talvez fosse o filho que vinha treinar um pouco. Agora, era muito raro treinarem juntos, desde que entrara na universidade. Cruzou os braços, zangado. Para Vegeta, estudar era a coisa mais inútil que um saiya-jin poderia fazer. Lembrava-se imediatamente de Gohan e ficava ainda mais zangado.
Alguém entrava timidamente, quase a medo. Leu a aura de quem entrava e não era a de Trunks. Vegeta voltou-se e deu de caras com a filha.
- Bra?
Ela nunca entrara naquela câmara.
- Que fazes aqui? Não sabes que não gosto de ser interrompido quando estou a treinar?
- Sei. – Apertou as mãos atrás das costas. – Mas preciso muito de falar contigo, ‘tousan.
- Agora, não. Sai!
Bra não se intimidou com a ordem. Estava a perder capacidades quando não se conseguia fazer obedecer por uma pirralha de sete anos e Vegeta fungou agastado. Preparava um grito, mas aquele olhar azul determinado travou-o.
- Quero treinar-me contigo!
Fora como se alguém o tivesse atingido com um soco no peito.
- Nani?! Queres treinar-te comigo?
- Hai!
Vegeta olhou para a filha de cima a baixo. Cabelo azul preso num rabo-de-cavalo, vestido laranja com uma gola branca e folhos na saia, meias rendadas, sabrinas com lacinhos. Os joelhos unidos, as mãos continuavam atrás das costas, no rosto redondo um olhar mimado, trejeitos de boneca de porcelana, uma mãe em miniatura, delicada e perfumada como uma flor.
- Para que raios queres tu treinar? Não passas de uma… menina!
- Tu treinaste o nii-chan.
- Com Trunks foi diferente.
- Porque ele é um menino?
- HaiSim.
- Mas mesmo que eu seja uma menina, também sou saiya-jin, como Trunks. As meninas saiya-jin não lutam?
Vegeta fez um esgar de desagrado, lembrando-se das mulheres da sua raça, tão longe de serem fêmeas mimadas, delicadas e perfumadas.
- Todos os saiya-jin lutam – respondeu.
- Então, podes treinar-me.
A arrogância da filha irritou-o. Inclinou-se e vincou cada palavra:
- Eu disse que as mulheres saiya-jin lutam!
- Eu também sei lutar.
- Tu? – Vegeta abriu muito os olhos. – E aprendeste a lutar com quem?
- Com Pan-chan.
- Com Pan? A neta de Kakaroto?
Bra fez uma cara esquisita. Depois lembrou-se que o pai chamava a Goku-san de Kakaroto e sorriu, acenando que sim com a cabeça. Nunca entendera por que razão o pai dava esse nome ao avô da amiga e porque era o único que o fazia, de entre todos os amigos da mãe.
- Há quanto tempo treinas com Pan?
- Há quase um ano.
Vegeta cruzou os braços, observando novamente a filha. Custava-lhe acreditar que ela lutava vestida daquela maneira. Era uma cena estranha e cómica que ele não conseguiu visualizar corretamente. Perguntou:
- A tua mãe sabe disso?
- Não. Só o nii-chan
- Trunks sabe? Mas não me contou nada!
- O nii-chan não quer saber de mais nada, a não ser estudar na universidade.
O comentário arrancou uma risada a Vegeta. Foi o bilhete de entrada para o reduto particular dos treinos do príncipe dos saiya-jin. Convencido, mas não querendo transparecer que o estava, resolveu prolongar a angústia da filha. Recuou um pouco e disse:
- Mostra-me primeiro o que vales.
Bra concentrou o ki e a energia vital que reuniu naqueles curtos segundos agitou a saia do vestido, revelando as coxas fortes. A seguir, atacou. Vegeta defendeu calmamente todos os golpes, analisando a técnica da filha. Era insipiente, mas havia ali potencial e ficou agradado com o que testava. Vegeta distraiu-se por um segundo e o punho de Bra roçou-lhe a face direita. Levou a mão à cara e descobriu um ténue rasto de sangue. Bra, diante dele, adotara uma posição defensiva, aguardando o contra-ataque. Mas Vegeta fez-lhe sinal que o exame tinha terminado e Bra descontraiu-se.
- Gostei do que vi – revelou.
A filha sorriu satisfeita.
- Isso quer dizer que me vais treinar?
Vegeta sentiu-se orgulhoso. Nunca pensara que, um dia, a filha, iria pedir-lhe que a treinasse para se converter na guerreira que nascera para ser. Disse, sem transpirar um pingo de emoção:
- Primeiro tenho de falar com a tua mãe.
E Vegeta sabia que a conversa com Bulma não iria ser pacífica.

Capítulo IV - IV.1 Coisas perdidas.


Era incrível a quantidade de coisas velhas que se juntavam num baú!
Kuririn detestava arrumações, mas, sempre que as havia em casa, ajudava número 18 nessa tarefa, porque tinha-lhe prometido que o fazia e ele não era homem de faltar à palavra dada. Hoje era um desses dias.
Aquele baú era o último. Tinha acabado de vasculhar armários, estantes e um sem fim de gavetas. Kuririn abriu a tampa do baú, tossiu um pouco com o pó que se levantou no ar. Teria de escolher aquilo que ficava e aquilo que era para ir fora. Começou por retirar tudo o que estava dentro do baú. Livros antigos da filha, uma boneca velha, alguns brinquedos de plástico de quando Maron era bebé, roupas de número 18 que ela tinha posto de lado por terem passado de moda, roupas dele. Um bocado de tecido vermelho, entre as blusas da mulher, chamou-lhe a atenção e agarrou nele com as duas mãos, elevando-o à altura dos olhos.
O seu dogi! O uniforme de combate que não utilizava havia vinte anos. Sorriu ao fixar os olhos no kanji da escola de Mutenroshi. Passara tempos agradáveis com aquele dogi… e tempos difíceis também. Uma boa parte da sua vida… ao lado do grande amigo Son Goku. Fechou os olhos e lembrou-se dos momentos em que o vestira. Não necessariamente aquele, porque apenas um dogi não sobreviveria à violência de alguns dos combates, mas outros iguais àquele.
Os torneios de artes marciais… O combate contra os saiya-jin, Nappa e Vegeta… A viagem a Namek… Os humanos artificiais do Dr. Gero… Kuririn riu-se. Fora então que conhecera número 18… o torneio do Cell…
Depois, retirara-se. Guardara o dogi. A paz havia regressado à Terra e quando participara naquele torneio de artes marciais, em que Goku viera visitá-los desde o Outro Mundo, em que conheceram Kaio Shin e souberam da existência de Majin Bu, já não o usara. Nunca mais. Kuririn tornou a suspirar. Dobrou o dogi com cuidado e colocou-o entre as coisas que eram para ficar.
Bons velhos tempos.
A porta da rua abriu-se. Kuririn voltou-se e viu Maron entrar em casa, com a mão que segurava os livros a tapar o nariz. Vinha distraída e Kuririn viu como se esgueirava sorrateiramente pela casa, em direção ao quarto.
- Maron – chamou.
Ela assustou-se. Os livros espalharam-se pelo chão. Tirou a mão do nariz e um fio de sangue começou a correr-lhe pela boca e pelo queixo. Kuririn exclamou alarmado:
- Maron! O que foi que te aconteceu?
- Nada, papa – respondeu, passando rapidamente os dedos pelas narinas.
- Nada? Estás a sangrar e dizes que não é nada? – A voz de Kuririn era quase histérica.
Ela virou-se para apanhar os livros do chão e tentar escapar-se, mas Kuririn já tinha ligado o alarme e só o desligaria quando obtivesse respostas.
- Com quem andaste à pancada?
Respirou fundo a encará-lo.
- Eu, andar à pancada? Que ideia a tua! Tropecei e bati com a cara num poste da luz. Foi isso o que aconteceu.
Kuririn cruzou os braços.
- Não me mintas, Maron. Consigo ver que andaste a lutar com alguém. Desde que a tua mãe te ensinou artes marciais, que não perdes uma oportunidade para te exibires para os rapazes da tua turma.
- Não é verdade – murmurou, engasgada por ter sido apanhada
- Só que, desta vez, não foi com os rapazes da tua turma. Nenhum deles te consegue atingir. Com quem foi, Maron?
Os dezasseis anos ainda frescos não davam a Maron o estofo necessário para o enfrentar naquele confronto psicológico. Kuririn apreciava a autoridade que vinha com o estatuto de pai e mais contente ficou quando arrancou a confissão da filha:
- Foi… com Son Goten.
- Son Goten! – Gritou. – Andaste a lutar com Son Goten?
Maron sacudiu o rabo-de-cavalo.
- Hai.
- Porquê?
- Foi um desafio. Ele e Trunks…
- Trunks também estava lá?
- Era o árbitro do combate.
Kuririn espetou um dedo, cingiu os sobrolhos, inclinou a cabeça e repreendeu a filha, como fazia quando ela tinha cinco anos e acabava de fazer uma asneirada qualquer lá em casa:
- Maron, essa história dos combates terminou. Não quero descobrir que a minha filha não passa de uma arruaceira, que gosta de provocar lutas no recreio da escola.
- Mas, papa, eu não provoquei…
- Shhh! Ainda não terminei. Uma coisa era medires forças com os rapazes da tua turma. Achei que era útil saberes uma ou outra técnica de combate, porque és uma menina e as meninas precisam saber defender-se de rapazes com menos escrúpulos. Outra coisa bem diferente é envolveres-te em combates contra Trunks ou contra Goten.
- Mas, papa!
- Calada! Ainda não terminei. – Agitava o dedo, enquanto falava. – Ouviste-me bem e não quero nunca mais ouvir-te falar neste assunto. Esta noite, irei falar com a tua mãe, para que ela deixe de te encorajar.  
- Porque é que combater contra Trunks ou contra Goten é diferente?
- Eles são saiya-jin!
- Eu sei! São os melhores adversários que poderia ter para testar as minhas capacidades. – E Maron abriu os braços impaciente.
- Já viste o que aconteceu? – Guinchou Kuririn. – Ficaste com o nariz a sangrar!
- Mas eu também deixei Goten com o nariz a sangrar.
- Nani?
- Sim. O combate terminou empatado. Ele esmurrou-me o nariz, mas eu também esmurrei o dele. E Goten estava transformado em super saiya-jin!
A revelação surpreendeu Kuririn, o dedo autoritário amoleceu. Sem saída do beco onde se enfiara, só lhe restou ser prepotente.
- Isso não interessa. Estás de castigo. Uma semana sem televisão e este fim-de-semana não sais de casa.
- Papa!!
- Para o teu quarto!
Maron rugiu, frustrada, pois achava que estava a ser injustiçada. Mas ele não vacilou. Tornou a estender o dedo, a indicar a escadaria que conduzia ao piso superior da casa. Ela subiu-a a correr, rugindo cada vez mais alto até gritar a plenos pulmões antes de bater com a porta do quarto.
Kuririn olhou para o dogi vermelho, dobrado no chão, junto a uma boneca que ele sabia ser um brinquedo de estimação de Maron. E compreendeu, com um sorriso amargo, que a filha crescera. As coisas que os baús encerravam, coisas perdidas… Depois, contrariado, sentiu-se cheio de orgulho. Maron devia ser realmente uma excelente lutadora para se ter batido de igual para igual com o super saiya-jin Son Goten. A miúda saíra a número 18, sem dúvida…

28 de setembro de 2012

Capítulo III - III.7 O sobrevivente.


A frescura da água encheu-lhe todos os poros da pele. A água mágica do lago. Os dedos enegrecidos apertaram a terra molhada e a sensação devolveu-lhe o alento ao peito, o bater ao coração, o calor ao corpo. Ainda estava vivo…
Teria de ser muito forte para continuar vivo. Aquela era a mais dura prova que enfrentava na sua curta vida. Não podia falhar, pois dele dependia tanta coisa.
Rastejara até ali. Devagar, como uma vulgar lesma. Ninguém se apercebera que fugia, o que queria dizer que a sorte o acompanhava. Estava destinado a viver. Ele que já tinha abraçado a morte, desiludido com os acontecimentos.
O sol desaparecia por detrás da floresta. O dia acabava, mas ele não estava acabado. Haveria de regressar e haveria de derrotar o ímpio.
Terrivelmente ferido, as energias num perigoso mínimo, nem soube como se conseguiu pôr de pé. Pediu mais um esforço. Pelo menos, que os passos o levassem para longe do Templo da Lua e de Zephir.
Sobreviver.
Os olhos focaram o caminho que descia até à orla das árvores. Acreditava no futuro, numa hipótese de vitória.
E, apoiado nessa fé, Toynara partiu.

27 de setembro de 2012

Capítulo III - III.6 No Salão da Luz.


Era pelo esplendor luminoso, pela magnificência inigualável e pela beleza transcendental que chamavam àquele enorme salão retangular, rodeado de finas colunas esculpidas, o Salão da Luz. A dominá-lo, sobre um estrado de mármore, estava o Trono de Marfim.
No Trono de Marfim, sentava-se o Sumo-sacerdote do Templo da Lua.
Desde que ali tinha entrado, Zephir não movera um músculo. Fitava com altivez o homem que se sentava naquele trono, consciente que a vitória estava a escassos minutos de distância, sabendo que o outro também tinha essa noção, medindo-se num silêncio cúmplice e acusador. Atrás do feiticeiro, Kang Lo não conseguia esconder a admiração, observando boquiaberto a maravilha daquele salão enorme cheio de brilho.
- Estava à tua espera, Zephir – disse o Sumo-sacerdote, por fim.
Zephir não ripostou.
- Sabia que este dia viria. Surpreende-te que não tenha feito nada para impedir a tua vinda?
- Não me surpreende. Não esperava menos de um cobarde.
O Sumo-sacerdote levantou-se do Trono de Marfim e desceu o estrado. O enorme manto vermelho, ricamente bordado, ondulou atrás dele.
- O Templo da Lua é teu – anunciou num brado, como um trovão a rasgar o céu.
Zephir arreganhou os dentes.
- Porque é que me estás a entregar o templo?
- Porque sei que é inútil resistir. O teu fiel servo assassinou todos os outros que habitavam este recinto sagrado e fiquei sozinho diante da magia poderosa que utilizas. A vitória é tua.  
- Continuas a mostrar a mais básica das cobardias. Se pensas que te irei poupar por te mostrares tão generoso, enganas-te.
- Não quero que me poupes. Termina a tua vingança e acaba comigo. Não tenho ilusões, sei o que vai acontecer. Os oráculos da Deusa já me tinham revelado a tua vinda, Zephir, e o que sucede a seguir.
O feiticeiro deu uma gargalhada triunfal.
- Sim, a Deusa está do meu lado. Sempre esteve! Os oráculos também te revelaram que serei o Senhor do Universo e sabes que qualquer resistência é, de facto, inútil. Estás a contemplar um prodígio e ajoelhas-te ante a minha glória.
- Conquistaste o Templo da Lua facilmente. Mas não vai ser tão fácil alargares as tuas conquistas. A Terra está protegida – e como se fosse um eco da voz de Toynara –, por poderosos guerreiros das estrelas.
A felicidade de Zephir diluiu-se no ácido do ódio onde nadava a sua alma tresloucada. Toldado pela ira, horrorizado pela ameaça velada, atacou o Sumo-sacerdote com um raio que disparou da mão aberta. Atingido no torso, o grande senhor tropeçou nos próprios pés e caiu junto ao Trono de Marfim. Fechou os olhos, com resignação.
O feiticeiro voltou-se para Kang Lo. Era altura de acabar com aquela farsa, de uma vez por todas. Não estava ali para resolver os enigmas do Sumo-sacerdote, mas para começar o seu reinado sobre o mundo. A vitória era agora inevitável. Ordenou a morte dos cinco monges que Kang Lo aprisionava na manápula e este não se demorou. Despertou-os primeiro, porque o mestre lho ordenou. Obrigou-os a reconhecer Zephir, para que soubessem por que razão iriam perder a vida. Quatro imploraram que fossem poupados, o que lhes tornou o fim mais lento. Morreram por asfixia. O último monge enfrentou-se a Zephir cheio de bravata. Ergueu-se ferido sobre as pernas bambas e troçou:
- Tens medo, feiticeiro. Porque nós sabemos o teu segredo.
Kang Lo preparava o golpe, torcendo os dedos da mão, transformando-a numa garra medonha. Zephir, curioso, quis saber mais e susteve a mão ansiosa do lutador. O monge completou:
- O grande Zephir, aquele que quer ser o Senhor do Universo, quando estava a ser sovado … implorou por misericórdia!
As pálpebras do feiticeiro fecharam-se e Kang Lo atacou o monge corajoso. Enfiou-lhe a garra pelo abdómen e arrancou-lhe as tripas. O infeliz morreu com um sorriso de troça. Despeitado, mas nunca perdendo o controlo, Zephir desfigurou-lhe o rosto para apagar aquele sorriso que zombava dele.
Houve, a seguir, uma estranha calma em redor.
Faltava, contudo, o derradeiro ato de crueldade, o encerrar daquela peça macabra.
Zephir estendeu um dedo assassino na direção do Sumo-sacerdote.
Sem abrir os olhos, porque conseguia ver para além da escuridão que se auto impusera, o Sumo-sacerdote esboçou um sorriso ténue, como se acreditasse que aquele não seria o fim. Tinha a certeza que, apesar de toda a maldade, o bem haveria de triunfar. A Deusa vingaria todos aqueles que ali tinham perecido.
Um silvo cortou o silêncio do salão quando o raio foi disparado, certeiro, ao coração daquele homem bom. O rosto do Sumo-sacerdote crispou-se. Tornou-se transparente e rígido. O corpo resvalou inerte pelos degraus do estrado que conduziam ao Trono de Marfim. Morria em silêncio.
Zephir aproximou-se do estrado. Dobrou-se sobre o cadáver e arrancou-lhe do pescoço o soberbo colar dourado – as Insígnias Sagradas da Lua. Depois, com um pé empurrou-o e afastou-o do caminho.
Subiu os degraus e sentou-se exausto no Trono de Marfim.
A vitória não teve o sabor que esperava. Fora demasiado fácil.

26 de setembro de 2012

Capítulo III - III.5 Um estranho combate.


Goten passou por ele e sussurrou-lhe:
- Isto é uma péssima ideia!
Trunks torceu o nariz, enfiou as mãos nos bolsos do blusão e concordou:
- Também acho. Não se encaixa na minha noção de um encontro romântico, mas é o melhor que te consegui arranjar.
- Já te tinha dito que não preciso da tua ajuda neste assunto!
- Não é isso que vejo…
- Só estás a atrapalhar-me.
- Sem mim, também estavas atrapalhado.
Do outro lado do campo, mãos apoiadas na cintura, uma perna diante da outra, Maron gritou-lhes:
- O que é que estão para aí a discutir? Vamos começar este combate, de uma vez por todas!
A atitude molenga de Goten indicava que não estava totalmente concentrado e Trunks assentou-lhe as mãos nos ombros, olhando-o nos olhos.
- Lembra-te. Não a subestimes. Ela quer lutar a sério.
- Eu não posso lutar a sério com a Maron. Fazia-a em pedaços e não quero… – Corou. – Magoá-la.
- Mas não podes aligeirar a guarda. Lembra-te do que aconteceu há três anos atrás, no torneio, com a tua sobrinha Pan.
- Então, rapazes?
Trunks disse, sem se voltar:
- Só mais um pouco! Estamos a preparar-nos.
- Nunca pensei que um saiya-jin precisasse de tanto tempo para se preparar!
Goten suspirou descontente. Não queria lutar com ela, mas também não queria fugir do desafio. Trunks prosseguiu, apertando-lhe os ombros:
- Não podes deixar que ela te vença. Se te humilha, nunca mais te vai respeitar e fica tudo perdido. Depois desta, convida-a para sair… Vais ver que vai aceitar.
- Mas não quero sair com ela… – E corou ainda mais.
- Tu não gostas dela? Como é que queres que comece a gostar de ti se não sais com ela? Um cinema, para começar… Uma coisa simples.
- Para começar, temos o combate – disse inquieto.
- Rapazes…?
- Estás em terreno favorável. Desenvencilhas-te melhor a combater do que numa saída ao cinema. Tens tudo para brilhar… Preparado? Mostra-lhe do que és capaz!
Trunks voltou-se, exibiu o polegar a indicar que estava tudo preparado. Afastou-se e sentou-se na relva, num local que estava entre o amigo e a filha de Kuririn. Levava a sério o seu papel de árbitro daquele combate.
Estavam no campo verdejante dos arredores de West City para onde ele e Goten costumavam fugir das aulas da universidade e que utilizavam para curtas sessões de luta. Um sítio perfeito e suficientemente discreto.
Maron passou uma mão pelo rabo-de-cavalo, para verificar se o cabelo estava bem preso. Cerrou os punhos e os ossos dos dedos estalaram. Goten respirou fundo, avaliando-a. Deveria terminar depressa com aquilo. Brincaria um pouco, deixaria que a vantagem fosse dela por algum tempo e quando chegasse o momento certo, lançaria o golpe definitivo que acabaria com o combate. Dobrou os cotovelos ligeiramente e preparou-se para investir – seria dele a iniciativa, duvidava que a rapariga fosse afoita ao ponto de o atacar – mas a voz de Trunks estilhaçou-lhe o ímpeto.
- Vamos estabelecer as regras.
- Regras? – Goten arqueou as sobrancelhas. – Quais regras?
Maron cruzou os braços, aborrecida.
- Este combate tem de ter regras. Como saberemos que chegou ao fim e como é que se encontra um vencedor?
- Tens razão – disse Maron, subitamente animada. – Vamos lá, senhor árbitro. Como é que se decide o vencedor?
Após um momento de pausa, Trunks anunciou:
- Com o primeiro sangue!
- O quê? – Gritou Goten. – Sangue?!
- Aquele que derramar sangue primeiro, perde – explicou, percebendo que manipulava a situação.
- Isto não vai ter sangue! – Exclamou Goten.
- Quem disse?
- Maron, não vamos lutar até chegar a esse ponto.
- Estás com medo?
- Ela não está com medo, Goten…
- Cala-te, Trunks! Isto não vai ter sangue.
- Vai, sim! – E Maron arregaçou as mangas.
Trunks gostou de ter acicatado os ânimos. Murmurou, entre dentes, dividindo a atenção pelos dois adversários:
- Não a subestimes, palerma…
Maron descontraiu-se e perguntou:
- Não estás a pensar em levar este combate a sério, Son Goten?
- Estou…
- Então, luta a sério!
Atravessou o espaço que a separava do adversário com um salto, de punho em riste. Goten desviou-se no último instante, admirado com a ferocidade dela e com o facto de o primeiro ataque ter partido, efetivamente, de Maron, ao contrário do que pensara. Não colocou bem os pés, desequilibrou-se e caiu quando ela tentou um segundo soco. Trunks espantou-se com a velocidade de Maron.
A rapariga pediu a Goten que se levantasse, com um gesto brusco. Estava irritada e desiludida, porque achava que ele lhe mentira – não estava nada a levar o combate a sério. Ele olhou-a acanhado, percebendo como estava furiosa. Tentou explicar-lhe o seu ponto de vista, pois nunca quisera aquele combate, mas abriu uma brecha na defesa e apanhou com um terceiro soco em cheio nos queixos que o fez cair de traseiro na relva.
- Não a subestimes, palerma! – Gritou Trunks, colocando as mãos em concha na boca.
De mãos na cintura, pernas ligeiramente afastadas, Maron inclinou-se para Goten, que esfregava a cara. Disse-lhe zombeteira:
- Faz o que o teu amigo te diz. Ou vais perder!
Teve a impressão de que, para além de Maron, também Trunks zombava dele e sentiu uma ferroada no orgulho. Os cabelos na nuca arrepiaram-se. Cerrou os dentes, levantou-se e atirou:
- Eu não vou perder contigo!
- Se sangrares primeiro, vais.
- Isso não vai acontecer.
- Transforma-te em super saiya-jin.
O pedido assustou-o.
- Não… Não posso, Maron!
- Se não o fizeres, nunca saberei se mereço lutar contra ti. – Apontou para Trunks. – Ele lutaria comigo transformado em super saiya-jin.
- Podes crer – anuiu Trunks.
- Mas ele é filho de Vegeta-san.
- E tu és filho do maior saiya-jin que alguma vez existiu.
Goten hesitava. Maron disse:
- Não percebes? Se não o fizeres, vais mesmo perder este combate.
Os ramos das árvores agitaram-se com a brisa super aquecida. Trunks abriu a boca ao olhar para Goten. Maron conseguira o que queria, o que era uma enorme conquista dada a relutância dele em relação a tudo aquilo. O corpo de Goten brilhava, rodeado pela capa de energia característica dos super saiya-jin. Os cabelos dourados ondulavam com rebeldia no ar, os olhos negros eram agora verdes. A cara estava incrivelmente mais séria e concentrada.
- Está bem. Era assim que querias?
Maron sorriu.
- Não te farei concessões, Maron! – Avisou Goten.
Algumas faíscas saltaram dos braços e das pernas dele. Maron conseguia sentir aquela energia na própria pele.
- Se mas fizesses – ripostou ela –, iria desprezar-te para o resto da minha vida.
- Prepara-te para perder. Acabarei rapidamente com esta farsa!
Trunks apreciou a mudança de humor do companheiro. Conhecia-o há muitos anos, eram os melhores amigos do mundo, mas nunca se conseguira habituar aos modos envergonhados e ligeiramente saloios de Goten. Embaraçava-o. Mas quando Goten convocava o ego saiya-jin, assumia em pleno a herança desse sangue guerreiro, o que chegava a ser um alívio.
A rapariga concentrou energia, por sua vez. Soltou um enorme grito, o ki disparou. Trunks percebeu-lhe a força e susteve a respiração. Afinal, talvez ela não fosse assim tão fraca como tinham julgado.
Goten e Maron atiraram-se para cima um do outro, unindo as palmas das mãos quando se encontraram, medindo as forças mutuamente, sem desfitarem, por um segundo sequer, os olhos do adversário. E um sorriso apareceu nos lábios dele. E ela também sorriu.
As simpatias duraram pouco. O punho de Maron dirigiu-se para a cara de Goten. Golpe fácil e previsível, que ele esquivou. Tentou socá-la, mas ela defendeu-se com ambas as mãos. Girou sobre si própria – um movimento que o apanhou desprevenido – e derrubou-o com um pontapé.
Goten sorria, enquanto se levantava, contente por ver que ela sabia o que estava a fazer. Desta vez, Maron não lhe devolveu o sorriso. Correu para ele e atacou-o sem descanso, com todo o tipo de golpes – mãos, braços, pernas, pés.
Goten defendeu-se de todos facilmente.
A falta de experiência dela animou-o. Bastava explorar um pouco mais as aberturas flagrantes na estratégia dela e a vitória pertencer-lhe-ia. Mas arregalou os olhos, estupefacto, ao ver na mão de Maron uma bola de energia a brilhar. Fez aparecer uma segunda bola, na outra mão.
Trunks tinha o coração a bater no peito de tanta excitação. Se, no início, apostara claramente na vitória de Goten, agora já não sabia qual seria o desfecho daquele confronto singular.
Goten recuou, sem deixar de olhar para Maron que seguia cada movimento seu. Se uma daquelas bolas lhe acertasse, iria sangrar… e perderia! Aumentou o ki, saltaram mais faíscas, o chão tremeu. Maron não se deixou impressionar e atirou as duas bolas luminosas ao mesmo tempo. Goten esticou os braços e parou-as com as mãos, anulando-as. Não se tinha refeito do ataque e já vinha outro a caminho. Maron despejou uma saraivada de outras bolas de energia.
Goten amorteceu mais um par de ataques energéticos. Desapareceu de onde estava com a ajuda da super velocidade que dominava e correu para as costas dela.
Assim que viu que Goten já não se encontrava à sua frente, Maron gritou. Sentiu-o atrás de si e a defesa foi instintiva. Levantou os braços à altura da cara e foi com eles que aparou o soco de Goten. O impacto fez Maron vacilar. Goten notou-lhe a insegurança. Rasteirou-a e derrubou-a, mas ela levantou-se logo a seguir. Afastaram-se um do outro para recuperar o fôlego.
- Vês? Sou muito superior a ti quando estou transformado em super saiya-jin – disse Goten.
- O combate ainda não terminou! – Respondeu Maron, sentindo os braços dormentes, mas ocultou o facto.
Tinha o semblante carregado quando o atacou. Os dois envolveram-se num combate corpo-a-corpo. Os golpes eram tão rápidos que deixaram Trunks boquiaberto. Entregavam-se ao combate com sanha. Nem um, nem outro, queria perder. Tanto um, como outro, queriam ganhar.
Mas o combate estava a demorar demasiado e o cansaço ameaçava o desempenho. Após uma sucessão de socos desferidos e defendidos, Goten e Maron encontraram-se frente a frente, completamente indefesos. Os dois recolheram ao mesmo tempo, num movimento sincronizado, a mão direita fechada para que o golpe tivesse mais balanço. O som do contacto. Breve, oco. Dois gritos abafados de dor.
Goten e Maron saltaram para trás, também ao mesmo tempo. E como se um fosse o reflexo do outro levaram a mão ao nariz. Os dois gemeram, sem desfitar o adversário.
Duas gotas de sangue caíram do nariz de Goten e do nariz de Maron.
Ele arregalou os olhos. Ela também. Apontaram o dedo um ao outro.
- Sangue! – Exclamaram em uníssono.
Trunks olhava para os dois, alternadamente. Estavam os dois a sangrar. Goten e Maron. Isso queria dizer que…
- Sangue! – Insistiu Maron fanhosa. – Estás a sangrar! Ganhei eu.
- Olha para ti! – Protestou Goten, igualmente fanhoso. – Tu também estás a sangrar. Fui eu que ganhei!
Trunks resolveu intervir.
- Acho que foi um empate – sentenciou, levantando-se.
Goten e Maron olharam para ele, sem tirarem a mão dos respetivos narizes. O sangue pingava, a dor incomodava, mas nenhum se queixava.
- O quê? – Reagiu Maron, levantando-se.
Goten levantou-se atrás dela. Voltou ao estado normal – os cabelos deixaram de ser dourados, os olhos deixaram de ser verdes.
- Um empate?
Ela olhou para Trunks.
- Empatámos?
- Hum-hum… – confirmou a verificar os estragos. Aparentemente, o combate terminara com um par de narizes magoados e apenas isso. Maron aceitou o resultado.
- Goten, acho que a nossa amiga está de parabéns. Aguentou um combate contra um super saiya-jin.
O elogio arrancou um sorriso à filha de Kuririn, que ficou engraçada com um fio de sangue a escorrer-lhe pela boca, que não tentou limpar, como se fosse um troféu daquele combate, exibido com orgulho. Corou quando Trunks lhe sorriu de volta e ele estranhou a reação. O instinto fê-lo retrair-se. Estavam ali por causa de Goten e porque Goten gostava dela e ele tentava aproximar os dois. Não podia haver variações. Virou-se para o amigo que passava as costas da mão pelo nariz. Não se apercebera de nada.
Maron perguntou:
- Gostaram da exibição, rapazes?
Goten sorriu, derretendo-se como neve debaixo do sol da primavera.
- És fantástica, Maron! Deves continuar a treinar, para aperfeiçoar a técnica, mas já sabes desenvencilhar-te bem. Se te inscrevesses num torneio de artes marciais, terias poucos adversários que te fizessem frente.
- Vou pensar nisso. Não me importaria de ganhar um ou outro prémio
Girou sobre os calcanhares, uniu dos dedos à testa e despediu-se.
- Djá ná, rapazes! E boa sorte com os vossos exames.
Goten ficou a olhar para ela, enquanto Maron se afastava com uma corrida. Agarrou no nariz dorido, sentindo o coração bater de alegria. Aquela rapariga dava-lhe completamente a volta à cabeça!
Mas Trunks, de braços cruzados, ficara pensativo.

25 de setembro de 2012

Capítulo III - III.4 O ódio e a vingança.


- Zephir!... Não pode ser!
O feiticeiro esboçou um sorriso diabólico ao ver o terror estampado no rosto de Toynara. Como fora insensato. Nunca o deveria ter traído. Agora, iria saber qual o preço dessa traição.
- Não… podes estar aqui.
- Não faças essa cara, Toynara. Não estás a ver um fantasma. Sou tão real, como tu.
O jovem sacerdote pestanejou várias vezes para se certificar que não estava a ter uma visão. Havia alguns dias que jejuava e as tonturas poderiam estar a criar ilusões entre as sombras. Mas aquele que estava ali, com os olhos vermelhos de desprezo e de raiva, era mesmo Zephir, em carne e osso, o sacerdote maldito que tinha sido expulso do Templo da Lua. Mais osso do que carne, pois emagrecera desde a última vez que o vira.
- Não estavas à espera de voltar a ver-me. Pois não?
Toynara levou uma das mãos à mesa, onde estavam espalhadas as flores brancas, para não cair.
- Julgavas que ardia para sempre no Inferno – continuou Zephir. – E mesmo que estivesse no Inferno, viria para te atormentar.
As palavras enchiam-lhe os ouvidos, gritos a serem semeados no cérebro.
- Naquele dia, quando te vi no Salão da Luz, ao lado do Sumo-sacerdote, envergando os símbolos sagrados dos sacerdotes, jurei a mim mesmo que haveria de regressar para me vingar. Não te deixaria impune por aquilo que me fizeste, traidor. Nas montanhas, onde me deixaram para morrer, era o teu nome que me animava e foi o teu nome que me fez lutar pela vida. Enquanto a escuridão me rondava, lembrava-me de ti e combatia a morte. E assim, clamando pelo maldito do teu nome, sobrevivi. Vais ser o primeiro a cair sob a minha magia.
E, sem aviso, disparou um raio amarelo da mão que não segurava o livro. O ataque fez Toynara espetar-se contra a parede daquela exígua câmara, derrubando a mesa e espalhando as flores brancas. Ergueu-se cambaleante e sorriu.
- É isto a tua magia? – Perguntou provocador.
O feiticeiro não respondeu.
- A tua magia já foi mais poderosa – prosseguiu Toynara. – Chegaste a ser muito respeitado no Templo da Lua. Até que a ambição te cegou e perdeste tudo.
- Regresso para recuperar o que perdi.
- E julgas que te vão deixar apoderar facilmente do templo? Poderás passar por cima de mim, derrotar-me e eliminar-me, mas eu sou fraco. Existem outros muito mais fortes do que eu e que não terão dificuldade em travar a tua investida, que se apoia nessa magia de segunda classe.
O feiticeiro disparou novo raio. Mas Toynara estava atento e parou-o com as mãos, fazendo-o desaparecer no ar numa nuvem de fumo que subiu até ao teto.
- Agora, sou muito mais forte do que antes! – Exclamou, embriagado pelo poder que sentia crescer dentro de si. – Vais morrer às minhas mãos!
Apesar do arrepio que o gelou, Toynara disse:
- Estou preparado para te enfrentar.
- E não terei qualquer piedade! – Completou, rosnando.
Os olhos de Zephir encheram-se de um brilho diabólico. Atirou para o chão o livro de capa negra que carregava e estendeu os braços esqueléticos. O ar ondulou num ritmo preciso até Toynara, que não se moveu, admirado com o movimento, tentando perceber o que era para conseguir enviar uma réplica. Não teve tempo. Atingido pelo feitiço, soltou um grito e caiu de joelhos no chão, agarrado à cabeça. A dor era indiscritível. Sacudia furiosamente a cabeça, com a sensação de ter o cérebro a desfazer-se em mil bocados.
- Mas quero que a peças! – Gritou Zephir insano. – Pede piedade. Implora-me que te salve a vida, meu querido aprendiz!
Pelo meio da aflição, Toynara conseguiu estender dois dedos, desenhar um sinal mágico e anular o ataque. O feiticeiro sentiu o baque, perdeu o equilíbrio e caiu de costas.
- Só isto? – Soprou Toynara, fingindo que não tinha sido demasiado atingido pelo feitiço.
- Isto… – E Zephir levantou-se. – Isto é só o princípio.
Antes de se conseguir pôr de pé, Toynara foi atingido no peito por um raio quente e brilhante. Gritou com a queimadura que lhe abriu um buraco na túnica branca.
- Levanta-te!
Apesar de sentir o corpo dormente, Toynara levantou-se.
Zephir era demasiado forte. Recordou-se que o tinha admirado, em tempos, quando era um rapazinho crédulo e carente, que buscara naquele homem esquivo e solitário apoio e companhia, principalmente ensinamentos e experiência. Ser o discípulo favorito do grande Zephir, do Senhor das Trevas, tinha-o tornado presunçoso. Fora enganado, desviara-se irremediavelmente do caminho da luz que lhe oferecia a deusa bondosa. Mas ele sentia ambição no coração, queria ser mais do que era, elevar-se acima de quem o espezinhava.
Cerrou os punhos com força, endireitou as costas. Recuperara a tempo a orientação certa no caminho da magia. Ele não era mau, como Zephir. Ele tinha um coração que conhecia a bondade e a caridade. As lágrimas que chorara no amplexo restaurador do Sumo-sacerdote mostraram-lhe que não estava a proceder erradamente enquanto traía o mestre. As mesmas lágrimas inundavam-lhe agora a mente, numa recordação dolorosa e vergonhosa. Não podia baixar os braços quando estava em jogo a honra do templo e a sua própria honra… Toynara não era suficientemente forte e dotado para derrotar Zephir, mas iria resistir até ao fim.
- Já estás recuperado? – Perguntou Zephir, dando um ênfase irritante às palavras. – Ótimo, sacerdote! Ótimo. Não queria que isto acabasse depressa. Quero saborear a vingança convenientemente.
Toynara agitou os braços em gestos elaborados, desenhando figuras geométricas no ar com os dedos, combatendo a dor que latejava em cada centímetro da pele. Zephir aguardou, sorrindo e desdenhando. Ao parar os gestos, deixou ficar as mãos suspensas no vazio, os dedos esticados. A cara foi inexpressiva durante longos segundos, até que um espasmo lhe insuflou os olhos de vida e todo ele se agitou num estremecimento. Utilizava o feitiço mais forte que conhecia.
O ar vibrou em redor de Zephir, que não desfitava o adversário, expectante.
- Então? Estou à espera do teu ataque!
- Vê por ti mesmo, Zephir.
Não teve tempo para se voltar. Antes de conseguir mover-se, o feiticeiro sentiu os braços e as pernas apertados por fortes garras. Gritou, estrebuchou furioso. Mas quanto mais se mexia, mais as garras se cravavam nos membros e mais aprisionado ficava entre dois enormes espíritos negros, que serpenteavam sem forma e que o cobriam por inteiro.
- São espíritos das trevas – explicou Toynara, ofegante. – Entreguei-te a eles, Zephir. E só eu te poderei salvar da sua vontade. Irão devorar-te.
- Maldito!
O conjuro era poderoso. Aqueles espíritos eram imbatíveis. Uma vez presos a alguém, nunca mais o largariam e bastava uma simples palavra de quem os convocara para transportarem o prisioneiro para um lugar de esquecimento eterno, uma prisão gelada inviolável, da qual ninguém, nunca, conseguira escapar. Era um mistério como um sacerdote imberbe como Toynara conhecia aquele conjuro.
Como se lhe lesse os pensamentos, Toynara disse:
- Sou um sacerdote do Templo da Lua. Sou um feiticeiro, como tu.
- Ganhaste as insígnias dos sacerdotes sem mérito. És um falso feiticeiro.
- Pelo menos, não sou um traidor.
- Não és um traidor? – Atirou Zephir, sufocado por um braço de fumo negro que se enrolava no pescoço. – Traíste o teu mestre!
- Foste um dia o meu mestre. Mas deixaste de merecer o meu respeito quando traíste o Templo da Lua. Por isso, não te traí. Reduziste-te a nada, por seguires o teu enorme egoísmo e a tua falta de escrúpulos. Ao desejares reinar no Universo aproveitando a generosidade do templo, deixaste de ser meritório dos seus ensinamentos.
- Não entendes… Ninguém entende! O Trono de Marfim será o Trono do Universo!
A energia que mantinha os espíritos era imensa e Toynara começou a sentir que fraquejava. Mexeu os dedos e os espíritos apertaram o prisioneiro com mais violência. Zephir urrou, agitou-se e, de repente, ficou quieto. Toynara julgou que o tinha finalmente dominado, pois ficara de olhos fechados, inconsciente e alquebrado. Respirou fundo, a preparar mentalmente a última parte do conjuro e terminar com a provação do antigo mestre.
Nisto, Toynara sentiu resistência. O corpo do feiticeiro continuava pendurado entre os espíritos, mas o movimento viera do mundo invisível. Soube que tinha perdido o combate e entrou em pânico. A voz de Zephir ecoou naquela câmara, vinda das profundezas:
- Eu, Zephir, sacerdote do Templo da Lua, invoco o poder da lua…
- Não! – Gritou Toynara horrorizado. – Não o podes fazer!
- Invoco o poder da lua e das trevas.
Os espíritos negros cresceram desmesuradamente, até encherem a câmara toda, do chão até ao teto. As garras ainda se cravavam nos braços e nas pernas, mas Zephir percebeu que quebrara o conjuro do jovem sacerdote ao olhar para a sua cara lívida.
- Não o podes fazer, Zephir! Já não pertences ao templo…
- Pelo poder da lua! – Insistiu.
O corpo de Zephir sacudiu-se numa convulsão repentina. Toynara já não controlava os espíritos. Tentava desesperado fazê-lo, de braços estendidos que tremiam, mas os espectros bailavam agora, ao sabor de uma brisa imaginária, embalados pela magia que oscilava entre os dois.
- Pelo poder supremo do Makai! – Gritou Zephir, despertando do transe em que mergulhara.
- Ma… Makai?!
Num enorme estrondo, os fantasmas dissolveram-se. As garras soltaram o corpo esquelético de Zephir e Toynara gritou, apavorado com a derrota. Os arrepios gelados tinham o prenúncio da morte e o jovem sacerdote começou a tremer. Não teve muito tempo para saborear esse terror. Um raio vermelho atingiu-o em cheio e derrubou-o. Quando tentou arrastar-se e escapar-se, levou com novo raio vermelho e deixou-se ficar, percebendo que, a partir daquele momento, não valia a pena lutar contra o destino.
Uma gargalhada diabólica feriu-lhe os ouvidos, enquanto um sem fim de faíscas da cor do fogo lhe envolviam e lhe queimavam o corpo. Contorcia-se, aos gritos, a tentar proteger a cara, as mãos, o tronco, os braços, amaldiçoando-se por estar a ceder à fraqueza da carne que lhe era arrancada dos ossos. Não queria que Zephir o ouvisse gritar, mas as dores eram insuportáveis e o outro ria-se com o seu sofrimento. Os raios mortais roubavam-lhe a vida. As gargalhadas roubavam-lhe a honra.
Um derradeiro raio, um último grito. Toynara arquejou, com os pulmões ressequidos e a garganta ensanguentada. Os dedos queimados ainda esgravataram as lajes da câmara, mas as forças acabaram por abandoná-lo e deixou-se ficar.
Recebeu um pontapé nas costelas que o voltou de barriga para cima. Ofegante, Zephir acercou-se do rosto de Toynara, para verificar os estragos. O ataque cansara o outro e o jovem sacerdote sorriu.
- Porque sorris? Vais morrer.
- Estás cansado… Para acabares comigo, ficaste sem energia. E o Templo da Lua não sou só eu… Existem mais sacerdotes, monges… guerreiros. O Sumo-sacerdote. Não poderás com todos eles.
- Imbecil! Achas que vim sozinho?
Toynara engasgou-se.
- O Templo da Lua será meu antes do sol se pôr no horizonte – sentenciou Zephir.
- Não…
No corredor ouviu-se o som de passos arrastados. Kang Lo espreitou para dentro da câmara.
- Que fazes aqui, Kang Lo? – Perguntou Zephir endireitando-se.
- Sensei, já acabei com todos eles.
Primeiro, Zephir sorriu. Mas depois lembrou-se de um pormenor e ficou vermelho de raiva.
- Todos? – Berrou.
- Todos, não – respondeu Kang Lo. Ergueu um braço e exibiu cinco monges inconscientes presos na sua manápula pelos hábitos esfarrapados.
Toynara viu os irmãos feridos e teve vontade de chorar. Fechos os olhos, retendo um soluço, apertando os lábios rebentados. Zephir afastou-se para seguir o brutamontes e prosseguir o massacre. Antes de perder os sentidos, Toynara murmurou:
- Não o conseguirás, Zephir… A Terra está protegida. Se a quiseres conquistar terás de passar pelos seus protetores… Pelos poderosos guerreiros das estrelas que a guardam.
O feiticeiro voltou-se irado com o descaramento da ameaça do moribundo, uma bola vermelha na mão, o golpe final que acabaria com aquele odiado sacerdote. Mas como Toynara ficou imóvel, exalando um longo e doloroso suspiro, poupou o golpe.
Passou por Kang Lo e caminhou pelo longo corredor, apanhando o livro de capa negra. O lutador seguiu-o sem perguntar nada.
Alguns metros mais à frente pararam junto a uma enorme porta dupla, ricamente trabalhada. Zephir apoiou as mãos nos pesados batentes em forma de argolas e empurrou-os. A porta abriu-se de par em par.
A luz do interior do enorme salão cegou-o no início. Piscou os olhos para os habituar à claridade e quando viu o Trono de Marfim à sua frente, o magnífico trono que desde sempre cobiçara, o coração disparou. Atrás dele, Kang Lo soltou uma exclamação de assombro. Nunca tinha visto uma sala tão bela como aquela.
No Trono de Marfim, estava sentado o Sumo-sacerdote, usando as Insígnias Sagradas da Lua. O feiticeiro fitou-o com desprezo.
- Que sejas bem-vindo, Zephir!

24 de setembro de 2012

Capítulo III - III.3 Duas amigas inseparáveis.


No jardim da escola, Bra sentou-se num banco de pedra, debaixo de uma árvore frondosa. Abriu a lancheira e os olhitos azuis brilharam. Lambeu os lábios e retirou um bolo de arroz com ambas as mãos. Começou a comê-lo devagarinho, para prolongar o prazer de estar a comer aquela guloseima. Estava tão entretida que nem reparou que alguém se aproximava dela.
- Koniichi-wa, Bra-chan!
Assustou-se, atrapalhou-se com o bolo e este acabou no chão, onde se desfez numa papa branca.
- O meu bolo! – Choramingou.
Pan olhou para o chão.
- O que é que tem o bolo?
- Caiu! – Gritou Bra furiosa.
- Esquece o bolo.
- Mas era o meu lanche!
Cruzando os braços, Pan suspirou.
- Queres vir treinar comigo, ou não?
A proposta repentina sacudiu Bra. Abriu um sorriso para responder um imediato Hai!, mas depois encolheu-se a fazer beicinho.
- O que foi? – Perguntou Pan espantada com aquela atitude. – Já não queres treinar comigo?
- Quero… mas não posso.
- Porquê?
- O meu irmão descobriu o nosso segredo e disse que contava tudo à minha mãe se eu me portasse mal e dissesse que Goten-san esteve lá em casa ontem à noite, porque tinham de estar a estudar para os exames da universidade e não a passear.
- Aquele Trunks – resmungou Pan, erguendo um punho fechado. – Qualquer dia, rebento-lhe com os dentes!
Bra desatou a rir, tapando a boca com a mão, num estilo mimado tão do agrado da sua mãe, que gostava de dizer que ela era a princesinha da casa.
- Não eras capaz. O nii-chan é muito forte.
- Sim, forte como o meu tio e fui capaz de derrotar Goten-san naquele torneio de artes marciais, quando só tinha cinco anos.
- Mas esse combate não foi a sério…
- Quem disse? – Pan, muito vermelha, pôs-se em bicos dos pés.
- O meu pai – explicou Bra. – Disse que Goten-san não utilizou todo o seu poder e que foi estúpido por confiar demasiado e não pensar que tu serias capaz de o derrotar. Disse que Goten-san era uma vergonha para os saiya-jin, assim como Gohan-san.
- O teu pai qualquer dia também vai engolir os dentes – ameaçou Pan mostrando novamente o punho fechado. – Ele não fala mal do meu pai!
A cara inocente de Bra acabou com a fúria de Pan. Sentou-se ao lado da amiga, no banco de pedra.
- Como foi que Trunks-san descobriu que nós treinamos juntas?
A resposta foi um encolher de ombros.
- Achas que foi Maron-san?
- Não – negou Bra com veemência. – Maron-san nunca me trairia.
- É muito estranho. Eu não disse a ninguém e tu disseste-me que apenas Maron-san conhece o segredo.
- Se calhar, alguém nos espiou.
- Trunks-san?
Novo encolher de ombros.
- Bem, se o segredo já se sabe, não há mais nada a fazer. Por isso, mais vale aproveitarmos o tempo e continuar a treinar. Mais cedo, ou mais tarde, os nossos pais vão descobrir. E quando o fizerem, devemos ser muito fortes, que assim eles vão ficar tão impressionados que já não nos põem de castigo.
Bra fechou a lancheira com cuidado, colocou-a em cima dos livros. Após uma curta pausa, a resposta foi um aceno afirmativo. Pan ficou radiante. Não desejava perder a companheira de treinos. E ficou espantada quando ouviu a amiga dizer, pensativa:
- Não te preocupes. Acho que já sei como resolver esta situação…
- O que vais fazer? - Inquiriu Pan curiosa.
- Logo te conto! Vou enganar o nii-chan.
- Vai rebentar-lhe com os dentes?
- Vou fazer uma coisa melhor.
As duas desataram a rir.
Soou a campainha da escola, a anunciar que acabava o intervalo da manhã. Todos os meninos e meninas deveriam regressar ao edifício para retomarem as aulas. As duas entreolharam-se com cumplicidade durante algum tempo.
- Ah! – Disse Bra a fingir uma cara séria. – Se Videl-san souber disto!
- E se Bulma-san souber disto! – Anuiu Pan a imitar a cara de Bra.
Bra pulou para as costas de Pan e disse-lhe entusiasmada:
- Vamos embora!
Pan verificou se não estava ninguém a espiá-las, voltando a cabeça de um lado para o outro. Em breve, o caminho estaria livre, pois todos corriam para a entrada da escola, abandonando o jardim. Pan anunciou, enquanto ajeitava a amiga nas costas, passando os braços pela curva dos joelhos para a segurar.
- Hoje, vou ensinar-te a voar!
Nas cavalitas de Pan, Bra soltou um grito de alegria.