Goten passou por ele e sussurrou-lhe:
- Isto é uma péssima ideia!
Trunks torceu o nariz, enfiou as mãos nos bolsos do blusão e
concordou:
- Também acho. Não se encaixa na minha noção de um encontro romântico,
mas é o melhor que te consegui arranjar.
- Já te tinha dito que não preciso da tua ajuda neste assunto!
- Não é isso que vejo…
- Só estás a atrapalhar-me.
- Sem mim, também estavas atrapalhado.
Do outro lado do campo, mãos apoiadas na cintura, uma perna diante da
outra, Maron gritou-lhes:
- O que é que estão para aí a discutir? Vamos começar este combate, de
uma vez por todas!
A atitude molenga de Goten indicava que não estava totalmente
concentrado e Trunks assentou-lhe as mãos nos ombros, olhando-o nos olhos.
- Lembra-te. Não a subestimes. Ela quer lutar a sério.
- Eu não posso lutar a sério com a Maron. Fazia-a em pedaços e não
quero… – Corou. – Magoá-la.
- Mas não podes aligeirar a guarda. Lembra-te do que aconteceu há três
anos atrás, no torneio, com a tua sobrinha Pan.
- Então, rapazes?
Trunks disse, sem se voltar:
- Só mais um pouco! Estamos a preparar-nos.
- Nunca pensei que um saiya-jin precisasse
de tanto tempo para se preparar!
Goten suspirou descontente. Não queria lutar com ela, mas também não queria
fugir do desafio. Trunks prosseguiu, apertando-lhe os ombros:
- Não podes deixar que ela te vença. Se te humilha, nunca mais te vai
respeitar e fica tudo perdido. Depois desta, convida-a para sair… Vais ver que
vai aceitar.
- Mas não quero sair com ela… – E corou ainda mais.
- Tu não gostas dela? Como é que queres que comece a gostar de ti se
não sais com ela? Um cinema, para começar… Uma coisa simples.
- Para começar, temos o combate – disse inquieto.
- Rapazes…?
- Estás em terreno favorável. Desenvencilhas-te melhor a combater do
que numa saída ao cinema. Tens tudo para brilhar… Preparado? Mostra-lhe do que
és capaz!
Trunks voltou-se, exibiu o polegar a indicar que estava tudo
preparado. Afastou-se e sentou-se na relva, num local que estava entre o amigo
e a filha de Kuririn. Levava a sério o seu papel de árbitro daquele combate.
Estavam no campo verdejante dos arredores de West City para onde ele e
Goten costumavam fugir das aulas da universidade e que utilizavam para curtas
sessões de luta. Um sítio perfeito e suficientemente discreto.
Maron passou uma mão pelo rabo-de-cavalo, para verificar se o cabelo
estava bem preso. Cerrou os punhos e os ossos dos dedos estalaram. Goten respirou
fundo, avaliando-a. Deveria terminar depressa com aquilo. Brincaria um pouco,
deixaria que a vantagem fosse dela por algum tempo e quando chegasse o momento
certo, lançaria o golpe definitivo que acabaria com o combate. Dobrou os
cotovelos ligeiramente e preparou-se para investir – seria dele a iniciativa,
duvidava que a rapariga fosse afoita ao ponto de o atacar – mas a voz de Trunks
estilhaçou-lhe o ímpeto.
- Vamos estabelecer as regras.
- Regras? – Goten arqueou as sobrancelhas. – Quais regras?
Maron cruzou os braços, aborrecida.
- Este combate tem de ter regras. Como saberemos que chegou ao fim e
como é que se encontra um vencedor?
- Tens razão – disse Maron, subitamente animada. – Vamos lá, senhor
árbitro. Como é que se decide o vencedor?
Após um momento de pausa, Trunks anunciou:
- Com o primeiro sangue!
- O quê? – Gritou Goten. – Sangue?!
- Aquele que derramar sangue primeiro, perde – explicou, percebendo
que manipulava a situação.
- Isto não vai ter sangue! – Exclamou Goten.
- Quem disse?
- Maron, não vamos lutar até chegar a esse ponto.
- Estás com medo?
- Ela não está com medo, Goten…
- Cala-te, Trunks! Isto não vai ter sangue.
- Vai, sim! – E Maron arregaçou as mangas.
Trunks gostou de ter acicatado os ânimos. Murmurou, entre dentes,
dividindo a atenção pelos dois adversários:
- Não a subestimes, palerma…
Maron descontraiu-se e perguntou:
- Não estás a pensar em levar este combate a sério, Son Goten?
- Estou…
- Então, luta a sério!
Atravessou o espaço que a separava do adversário com um salto, de
punho em riste. Goten desviou-se no último instante, admirado com a ferocidade
dela e com o facto de o primeiro ataque ter partido, efetivamente, de Maron, ao
contrário do que pensara. Não colocou bem os pés, desequilibrou-se e caiu
quando ela tentou um segundo soco. Trunks espantou-se com a velocidade de Maron.
A rapariga pediu a Goten que se levantasse, com um gesto brusco.
Estava irritada e desiludida, porque achava que ele lhe mentira – não estava
nada a levar o combate a sério. Ele olhou-a acanhado, percebendo como estava
furiosa. Tentou explicar-lhe o seu ponto de vista, pois nunca quisera aquele
combate, mas abriu uma brecha na defesa e apanhou com um terceiro soco em cheio
nos queixos que o fez cair de traseiro na relva.
- Não a subestimes, palerma! – Gritou Trunks, colocando as mãos em
concha na boca.
De mãos na cintura, pernas ligeiramente afastadas, Maron inclinou-se
para Goten, que esfregava a cara. Disse-lhe zombeteira:
- Faz o que o teu amigo te diz. Ou vais perder!
Teve a impressão de que, para além de Maron, também Trunks zombava dele
e sentiu uma ferroada no orgulho. Os cabelos na nuca arrepiaram-se. Cerrou os
dentes, levantou-se e atirou:
- Eu não vou perder contigo!
- Se sangrares primeiro, vais.
- Isso não vai acontecer.
- Transforma-te em super
saiya-jin.
O pedido assustou-o.
- Não… Não posso, Maron!
- Se não o fizeres, nunca saberei se mereço lutar contra ti. – Apontou
para Trunks. – Ele lutaria comigo transformado em super saiya-jin.
- Podes crer – anuiu Trunks.
- Mas ele é filho de Vegeta-san.
- E tu és filho do maior saiya-jin
que alguma vez existiu.
Goten hesitava. Maron disse:
- Não percebes? Se não o fizeres, vais mesmo perder este combate.
Os ramos das árvores agitaram-se com a brisa super aquecida. Trunks
abriu a boca ao olhar para Goten. Maron conseguira o que queria, o que era uma
enorme conquista dada a relutância dele em relação a tudo aquilo. O corpo de
Goten brilhava, rodeado pela capa de energia característica dos super saiya-jin. Os cabelos dourados
ondulavam com rebeldia no ar, os olhos negros eram agora verdes. A cara estava
incrivelmente mais séria e concentrada.
- Está bem. Era assim que querias?
Maron sorriu.
- Não te farei concessões, Maron! – Avisou Goten.
Algumas faíscas saltaram dos braços e das pernas dele. Maron conseguia
sentir aquela energia na própria pele.
- Se mas fizesses – ripostou ela –, iria desprezar-te para o resto da
minha vida.
- Prepara-te para perder. Acabarei rapidamente com esta farsa!
Trunks apreciou a mudança de humor do companheiro. Conhecia-o há
muitos anos, eram os melhores amigos do mundo, mas nunca se conseguira habituar
aos modos envergonhados e ligeiramente saloios de Goten. Embaraçava-o. Mas
quando Goten convocava o ego saiya-jin,
assumia em pleno a herança desse sangue guerreiro, o que chegava a ser um
alívio.
A rapariga concentrou energia, por sua vez. Soltou um enorme grito, o ki disparou. Trunks percebeu-lhe a força
e susteve a respiração. Afinal, talvez ela não fosse assim tão fraca como tinham
julgado.
Goten e Maron atiraram-se para cima um do outro, unindo as palmas das
mãos quando se encontraram, medindo as forças mutuamente, sem desfitarem, por
um segundo sequer, os olhos do adversário. E um sorriso apareceu nos lábios
dele. E ela também sorriu.
As simpatias duraram pouco. O punho de Maron dirigiu-se para a cara de
Goten. Golpe fácil e previsível, que ele esquivou. Tentou socá-la, mas ela defendeu-se
com ambas as mãos. Girou sobre si própria – um movimento que o apanhou
desprevenido – e derrubou-o com um pontapé.
Goten sorria, enquanto se levantava, contente por ver que ela sabia o
que estava a fazer. Desta vez, Maron não lhe devolveu o sorriso. Correu para ele
e atacou-o sem descanso, com todo o tipo de golpes – mãos, braços, pernas, pés.
Goten defendeu-se de todos facilmente.
A falta de experiência dela animou-o. Bastava explorar um pouco mais
as aberturas flagrantes na estratégia dela e a vitória pertencer-lhe-ia. Mas arregalou
os olhos, estupefacto, ao ver na mão de Maron uma bola de energia a brilhar. Fez
aparecer uma segunda bola, na outra mão.
Trunks tinha o coração a bater no peito de tanta excitação. Se, no
início, apostara claramente na vitória de Goten, agora já não sabia qual seria
o desfecho daquele confronto singular.
Goten recuou, sem deixar de olhar para Maron que seguia cada movimento
seu. Se uma daquelas bolas lhe acertasse, iria sangrar… e perderia! Aumentou o ki, saltaram mais faíscas, o chão
tremeu. Maron não se deixou impressionar e atirou as duas bolas luminosas ao
mesmo tempo. Goten esticou os braços e parou-as com as mãos, anulando-as. Não se
tinha refeito do ataque e já vinha outro a caminho. Maron despejou uma
saraivada de outras bolas de energia.
Goten amorteceu mais um par de ataques energéticos. Desapareceu de
onde estava com a ajuda da super velocidade que dominava e correu para as costas
dela.
Assim que viu que Goten já não se encontrava à sua frente, Maron gritou.
Sentiu-o atrás de si e a defesa foi instintiva. Levantou os braços à altura da
cara e foi com eles que aparou o soco de Goten. O impacto fez Maron vacilar.
Goten notou-lhe a insegurança. Rasteirou-a e derrubou-a, mas ela levantou-se
logo a seguir. Afastaram-se um do outro para recuperar o fôlego.
- Vês? Sou muito superior a ti quando estou transformado em super saiya-jin – disse Goten.
- O combate ainda não terminou! – Respondeu Maron, sentindo os braços
dormentes, mas ocultou o facto.
Tinha o semblante carregado quando o atacou. Os dois envolveram-se num
combate corpo-a-corpo. Os golpes eram tão rápidos que deixaram Trunks boquiaberto.
Entregavam-se ao combate com sanha. Nem um, nem outro, queria perder. Tanto um,
como outro, queriam ganhar.
Mas o combate estava a demorar demasiado e o cansaço ameaçava o
desempenho. Após uma sucessão de socos desferidos e defendidos, Goten e Maron encontraram-se
frente a frente, completamente indefesos. Os dois recolheram ao mesmo tempo,
num movimento sincronizado, a mão direita fechada para que o golpe tivesse mais
balanço. O som do contacto. Breve, oco. Dois gritos abafados de dor.
Goten e Maron saltaram para trás, também ao mesmo tempo. E como se um
fosse o reflexo do outro levaram a mão ao nariz. Os dois gemeram, sem desfitar
o adversário.
Duas gotas de sangue caíram do nariz de Goten e do nariz de Maron.
Ele arregalou os olhos. Ela também. Apontaram o dedo um ao outro.
- Sangue! – Exclamaram em uníssono.
Trunks olhava para os dois, alternadamente. Estavam os dois a sangrar.
Goten e Maron. Isso queria dizer que…
- Sangue! – Insistiu Maron fanhosa. – Estás a sangrar! Ganhei eu.
- Olha para ti! – Protestou Goten, igualmente fanhoso. – Tu também
estás a sangrar. Fui eu que ganhei!
Trunks resolveu intervir.
- Acho que foi um empate – sentenciou, levantando-se.
Goten e Maron olharam para ele, sem tirarem a mão dos respetivos
narizes. O sangue pingava, a dor incomodava, mas nenhum se queixava.
- O quê? – Reagiu Maron, levantando-se.
Goten levantou-se atrás dela. Voltou ao estado normal – os cabelos
deixaram de ser dourados, os olhos deixaram de ser verdes.
- Um empate?
Ela olhou para Trunks.
- Empatámos?
- Hum-hum… – confirmou a verificar os estragos. Aparentemente, o
combate terminara com um par de narizes magoados e apenas isso. Maron aceitou o
resultado.
- Goten, acho que a nossa amiga está de parabéns. Aguentou um combate
contra um super saiya-jin.
O elogio arrancou um sorriso à filha de Kuririn, que ficou engraçada
com um fio de sangue a escorrer-lhe pela boca, que não tentou limpar, como se
fosse um troféu daquele combate, exibido com orgulho. Corou quando Trunks lhe
sorriu de volta e ele estranhou a reação. O instinto fê-lo retrair-se. Estavam
ali por causa de Goten e porque Goten gostava dela e ele tentava aproximar os
dois. Não podia haver variações. Virou-se para o amigo que passava as costas da
mão pelo nariz. Não se apercebera de nada.
Maron perguntou:
- Gostaram da exibição, rapazes?
Goten sorriu, derretendo-se como neve debaixo do sol da primavera.
- És fantástica, Maron! Deves continuar a treinar, para aperfeiçoar a
técnica, mas já sabes desenvencilhar-te bem. Se te inscrevesses num torneio de
artes marciais, terias poucos adversários que te fizessem frente.
- Vou pensar nisso. Não me importaria de ganhar um ou outro prémio
Girou sobre os calcanhares, uniu dos dedos à testa e despediu-se.
- Djá ná, rapazes! E boa
sorte com os vossos exames.
Goten ficou a olhar para ela, enquanto Maron se afastava com uma
corrida. Agarrou no nariz dorido, sentindo o coração bater de alegria. Aquela
rapariga dava-lhe completamente a volta à cabeça!
Mas Trunks, de braços cruzados, ficara pensativo.