25 de fevereiro de 2013

Obrigado!

E com o fim da fanfic "O Feiticeiro", termina também este blogue.

A todos os que acompanharam e leram, um muito obrigado. Espero que tenham gostado da viagem.

Se só agora deram com esta pérola no meio do mar cibernáutico, poderão seguir o que aqui foi escrito consultando o arquivo, por ordem cronológica.

Foi uma aventura e tanto.

Até à próxima!

24 de fevereiro de 2013

Epílogo - Parte 2. Memória.


Hoje lembrei-me de Trunks… Lembrei-me e fiquei triste, porque ele só tinha metade do Medalhão de Mu para se lembrar de mim. Eu não.
Podia ter regressado à Dimensão Z sempre que quisesse através de “Dragon Ball”, mas nunca mais conseguira rever qualquer um dos episódios do anime. Temia embarcar numa lembrança perigosa e ser esmagada por toda a tristeza que eu lutara para enterrar numa cova bem funda onde plantara, por cima, flores imaginárias. Devia continuar com a minha vida insonsa, decidira continuar.
Ele também me tinha pedido que eu o fizesse.
Até porque a minha vida, semanas depois de ter regressado da Dimensão Z, dera uma cambalhota e deixara de ser insonsa.
Tinha descoberto o que significava interagir. Nesse dia chorei de alegria, pulando como louca, berrando e bailando. Depois, chorei de saudade e gritei pelo nome dele e contei-lhe o que era interagir. E compreendera as palavras que, uma vez, Zephir me tinha dirigido. Ah, o maldito feiticeiro também sabia…
Limpara as lágrimas, acalmara-me. Enfrentava o futuro, sem qualquer medo, até porque eu era invulgarmente corajosa, dissera-me um certo príncipe e não podia deixar-me abater. Em mim repousava a responsabilidade de zelar pela união entre duas dimensões.
Que mais haveria a fazer a não ser continuar?
Olhei para a mesinha ao lado da cama. A segunda metade do Medalhão de Mu estava ali, a corrente enrolada, o triângulo dourado em cima da corrente. Abandonara-o por um instante, só por um instante.
Sorri.
Que mais haveria a fazer a não ser reaprender a sorrir?
Olhei para os meus braços.
Aquela coisinha pequenina que segurava resumia todo o amor que sentia por ele e, arriscava orgulhosa, por todos eles. Era aquele o milagre supremo da vida.
Vegeta haveria de ter gostado de saber que o descendente do seu filho era um rapaz. Trunks haveria de ter gostado de saber que tivera um filho.
Chamei-lhe Tiago.




FIM

Epílogo - Parte 1. O sonho.


Duas pancadas ligeiras soaram na janela do quarto e ele despertou. Não era ela, só podia ser ele. Levantou-se, esfregando os olhos. Vestiu umas calças e só depois foi abrir a janela, porque também podia ser ela. Apesar de se terem despedido naquela tarde e prometido encontrar-se no dia seguinte, havia vezes em que a ausência pesava demasiado. Ela aparecia e visitavam a cascata das montanhas Paozu.
Era o amigo, não era ela. Convidou-o a entrar. Antes, ele entrava a causar espalhafato, dono do espaço, a falar alto e a admirar-se depois sem perceber por que razão devia falar baixo. Mas ele agora estava diferente, mais sorumbático.
- O que é que se passa, Trunks? Outro sonho?
- Não foi um sonho...
O amigo sentou-se na cadeira que se encostava à secretária e Goten fechou a janela. Sentou-se, por sua vez, na cama, entrelaçou os dedos, à espera que o amigo começasse. Trunks tinha o queixo colado ao peito e as mãos metidas nos bolsos do casaco. Mas ele não começava e Goten perguntou:
- Porque é que dizes que não foi um sonho?
- Porque falei com ele. Fez-me perguntas… Acho que ele veio.
- Ele não pode vir sem a máquina do tempo. E ele deixou de vir há tanto tempo… Deve ter reconstruído a vida dele lá onde mora, na linha temporal alternativa, e tu também deves reconstruir a tua.
- Não consigo.
Goten zangou-se.
- Trunks-kun, não podes dizer essas coisas. Até parece que queres desistir…
Suspiro prolongado, sofrido.
- Já desisti… Limito-me a arrastar a minha carcaça pelos dias.
- Tu és um saiya-jin, um príncipe como o teu pai. Os saiya-jin não desistem.
- Isso é fácil dizer quando tens a vida organizada e preenchida.
Não se encaravam enquanto falavam.
Goten fez um esgar. Não conseguiu rebater o argumento do amigo, porque ele perguntou de seguida, para mudar de assunto:
- Como está a Maron?
Foi surpreendido com o interesse de Trunks. Respondeu hesitante:
- Eh… Está bem.
- A minha mãe comentou, num destes dias, que vão casar dentro em breve.
- Mais um ano ou dois. Não está assim tão para breve. Ela tem de completar dezoito anos e eu tenho de acabar os meus estudos.
- Quem impôs essas condições?
Goten encolheu os ombros.
- Ora… A minha mãe e o pai dela. Quem mais?
- Acho que têm razão, sabes?
Trunks deu-lhe uma cotovelada amigável e Goten viu que lhe sorria. Tentava sorrir como antes, mas o esforço era tremendo para imprimir uma genuína alegria naquele sorriso. Goten concordou:
- Mas eu também acho. E a Maron é da mesma opinião. Às vezes zango-me com ela por querer ir ao cinema com as amigas e não querer passar mais tempo comigo, mas depois lembro-me que só tem dezassete anos.
- Ah… E tu, Son Goten, és muito mais maduro que ela com vinte e um?
- Apetece-me outras coisas – remoeu.
- Apetece-te estar numa casinha bonitinha com ela. Olha que a Maron é rapariga da cidade.
- Eu sei, eu sei!
- Ela gostava de mim, sabes?
A revelação apanhou-o de surpresa. Sentiu-a como um soco no peito. Goten gaguejou:
- Na-nani?
- Quando me apercebi que era mesmo verdade que gostava de mim, eu já estava apaixonado pela Ana. Não teria qualquer futuro. No entanto, nunca te iria trair.
Os olhos azuis do amigo eram duas safiras brilhantes.
- Nunca aconteceu nada… Ela não te contou?
Goten negou com a cabeça.
- Provavelmente, não encontrou a oportunidade e não achou que seria preciso contar-te. Algum dia, vai dizer-te. Acredito que sim. Ela gosta muito de ti. Mas tens razão… ainda é uma miúda.
Goten sentiu uma segunda cotovelada.
- Ei… Não fiques a pensar nisso. Não tem importância.
- Porque é que me contaste?
- Não tenho segredos contigo, Goten-kun.
- Isso aconteceu na Dimensão Real?
- Hai.
Analisou-lhe a reação. A tensão de Trunks era visível numa pequena veia pulsando na testa, nos músculos dos braços desenhados sob o tecido do casaco, as mãos continuando escondidas nos bolsos.
- Ainda não te esqueceste da Ana.
- Nunca o farei, Goten.
- Já se passou um ano, Trunks-kun – observou numa voz com um timbre tão infantil que o amigo olhou para ele, pestanejando furiosamente.
Por momentos, tinham sido apenas dois meninos que queriam ser mais fortes, sem aquelas preocupações desnecessárias. Trunks respondeu:
- Hai, um ano. Trezentos e setenta e sete dias, para ser exato. O que significa que se passaram trezentos e setenta e sete meses na Dimensão Real. Pelas minhas contas, qualquer coisa como trinta anos. Ela agora tem a idade da minha mãe. Provavelmente, já deve ser avó… e já me esqueceu.
Goten reparou no breve brilho lançado pela corrente dourada que o amigo tinha ao pescoço. Já sabia o que aquilo era, tinha apanhado um susto quando o vira com uma das metades do Medalhão de Mu, mas depois ele explicara-lhe que era uma recordação e que ela tinha ficado com a outra metade.
- Eu também lhe pedi que me esquecesse.
- Mas tu não o fazes.
- Uma vez, Goten, quando era miúdo, ouvi o meu pai dizer à minha mãe que, quando os saiya-jin escolhem uma companheira, é para a vida toda. A minha mãe andou radiante durante uma semana, mesmo que o meu pai, durante esse tempo, tenha ido treinar-se para um local remoto e não se tivessem visto. Tu sabes que assim é com a Maron. O teu pai com Chi-Chi-san, o teu irmão com Videl-san. E eu também já escolhi… É para a vida toda, Goten.
- Mas poderás… tentar encontrar a felicidade noutro lado.
Encolheu os ombros.
- Pois posso. Fingir que me esqueci… Mas a ligação ficará sempre. Impossível de desfazer.
Goten remexeu-se na cama, incomodado com o sofrimento do amigo. Por vezes, sentia-se culpado por estar tão feliz e Trunks tão triste.
Deviam mudar de assunto, mesmo que o que tinha em mente não fosse mais agradável.
- Queres contar-me esse teu último sonho? – Pediu.
Trunks respirou fundo.
- Já te disse… Não foi um sonho.
- Conta-me lá.
Fechou os olhos, como que a querer convocar todos os detalhes, para que o relato fosse fiel ao que tinha realmente sucedido. E Trunks contou:
- Tinha ficado a estudar até tarde e acabei por adormecer em cima dos livros. E então, começou o que parecia um sonho… Era de noite, corria numa floresta e estava escuro. Corria muito depressa, sentia o vento na cara. Quanto mais corria, mais me apetecia correr. O meu coração batia depressa, parecia que queria saltar do peito… Usava o Medalhão de Mu inteiro, ao pescoço, e dava-me muito poder, maior que o poder de qualquer super saiya-jin… De repente, o chão fugiu-me e comecei a cair. Fechei os olhos. A minha energia aquecia-me o corpo…

***

O ar era pesado. Trunks sufocou no início, pois o corpo pesava uma tonelada, a mesma sensação de quando estivera na Dimensão Real. Depois, compreendeu que era a força da gravidade multiplicada por um número absurdo que ele não decifrou no monitor da máquina da câmara onde o seu pai se treinava todos os dias. Transformou-se em super-saiya-jin e foi mais fácil. Ao abrir os olhos, e não se lembrava de ter estado de olhos fechados, estranhou o local, não era onde o seu pai se treinava todos os dias. A claridade ofuscou-o no início. Lutou contra o frio e o calor, contra o sono e a vigília, contra uma exultação estranha que lhe chupava toda a força que tinha. O tempo congelou e passou num corrupio. Gritou, fazendo tremer tudo em redor.
A Sala do Espírito e do Tempo estendia-se diante dele, na sua imensidão nua. Anos atrás combatera ali Majin Bu. Ele e Son Goten.
- Goten!!!
Nem o eco lhe respondeu. Estava sozinho. Endureceu os músculos do corpo, cintilando como uma estrela em rápida combustão.
Do vazio, surgiu ele. No momento em que o viu enormes pedaços de gelo irromperam da ilusão do chão. Trunks fixou nele um olhar intenso, ele postou-se à sua frente, desafiando-o.
Trunks e mirai Trunks entreolhavam-se e partilhavam o impossível.
- Vieste na máquina do tempo?
- Não. Vim porque alguém me pediu que viesse.
- Quem?
- Pensei que tivesses sido tu.
- Talvez. Por causa de uma rapariga. Ela amou-te através de mim…
- Queres combater comigo por causa dela?
O ódio inquinou-lhe a alma magoada.
- Quero! – Gritou.
- Não posso combater contigo. Eu e tu somos um só…
- Não!!!
Trunks atacou o seu espelho. A imagem desfez-se em fumo e reapareceu noutro ponto da imensa paisagem branca. Mirai Trunks enviou um ataque flamejante. Uma explosão. Trunks saltava para escapar das labaredas. Lutaram no céu. Lutaram na terra.
A sua respiração tornou-se irregular, não estava a aguentar a força da gravidade. Sem ar nos pulmões sofridos, caiu inanimado. Nas traseiras de um pesadelo de fogo, todo ele incendiando-se no centro de um anel de gelo, escutou a voz de mirai Trunks:
- Não posso combater contigo. Não existe nenhum motivo suficientemente forte… Nem mesmo ela.
- Cala-te!
A atmosfera vibrou. Ele estava outra vez de pé e disparou um raio vermelho com as mãos. O adversário desviou o raio e socou-o, enchendo-lhe a boca de sangue.
Mirai Trunks puxou-lhe os cabelos, apertou-lhe o pescoço com um braço, imobilizou-o. Segredou-lhe com uma voz firme e autoritária:
- O ódio que sentes por mim não tem razão de ser. É ridículo e inútil… Tão inútil como este combate.
- Eu… vou derrotar-te…
- O que pretendes provar com isso? Mesmo que me derrotes… ela não vai voltar.
- Solta-me!
- Trunks, ouve-me. Conheci-te quando eras apenas um bebé. Houve um dia em que olhei para ti e invejei-te. Irias ter tudo o que eu nunca tivera. Irias ser feliz… Não desperdices o que conquistei para ti, todos os sacrifícios que foram feitos.
A dor foi mais forte e deixou-se cair de joelhos. Chorou.
- Como está Vegeta?
A voz de mirai Trunks soou-lhe estranhamente familiar. Era a sua própria voz, compreendeu amargamente.
- O… o meu pai…?
- Hai. Como está Vegeta?
Levantou-se. Mirai Trunks sentava-se numa árvore tombada. A Sala do Espírito e do Tempo dissolvera-se e estavam agora na mesma floresta onde ele tinha corrido, mas a escuridão tinha-se ido embora e era de dia.
Sentia-se tonto. Sentou-se no chão, ao lado da árvore tombada. Respondeu com a cabeça entre as mãos.
- Vegeta continua a treinar-se… Todos os dias.
- E Bulma?
- Distrai-se a trabalhar nas suas máquinas esquisitas e a gerir a Capsule Corporation. Pensa em ti muitas vezes.
Foi capaz de sentir o sorriso do outro, queimando-o por dentro, luminoso e perfeitamente sincero. Ouviu-se a acrescentar:
- Eu… tenho uma irmã.
- Uma irmã? Como é que ela se chama?
- Bra. Tem quase nove anos.
- Preferia ter um irmão.
- Também tenho um irmão. Considero-o como um irmão… Chama-se Son Goten, é o filho mais novo de Son Goku. Tem menos um ano que eu.
Encarou o outro que lhe pedia sério, como se não tivesse sorrido antes:
- Diz-lhes que o meu mundo está em paz e que sou feliz.
- A Ana desejava que fosse assim… Queria muito que fosses feliz.
- Não acredito que ela não te tenha amado. Houve, pelo menos, algum momento, em que isso aconteceu.
- Porque é que dizes isso?
- Porque é a verdade.
- E que sabes tu?
Mirai Trunks levantou-se.
- Vais voltar? – Perguntou-lhe, aflito porque ele se ia embora. Não queria ficar outra vez sozinho.
- Não. Tu já não queres que volte.
- Vieste cá por causa de mim?
- Chamaste-me, lembras-te?
- Não… Não me lembro.
- Quando despertares, irás lembrar-te…Irás também saber porque é que eu vim hoje ter contigo.
Mirai Trunks acrescentou vacilante:
- Diz a Vegeta que… Não. Não ficou nada por dizer.
O remoinho gigante que varreu a floresta levou-o. Mirai Trunks era uma miragem que se diluía no horizonte com o pôr-do-sol. E o seu corpo brilhava, porque estava transformado em super saiya-jin

***

- …Lutei contra muitos fantasmas. O combate pareceu durar uma eternidade, tinha os braços dormentes mas não podia parar ou os fantasmas engoliam-me. Acordei sobressaltado, a suar, com febre. Os livros espalhavam-se pelo chão do quarto. Deitei-me na cama e dormi a noite inteira, a manhã inteira e só acordei quando a minha mãe apareceu a abanar-me, a dizer que eu tinha faltado ao exame e que lhe tinham telefonado da universidade, porque não sabiam o que era feito de mim. Eu não percebia nada do que ela me estava a dizer. Disse-lhe que mirai Trunks me tinha vindo visitar. Ela deu-me um beijo na testa e disse-me que eu devia mesmo descansar…
Goten perguntou:
- E o que foi que aconteceu a seguir?
- Descansei. Depois de tanto dormir, estava como novo… Menos dor no coração, não te sei bem explicar. Tinha de vir contar-te isto.
- E já sabes por que é que tiveste esse encontro com ele?
- Acho que sim… Mirai Trunks apareceu para me dar paz.
- Paz?
- Hai. – Inspirou ruidosamente. – Curiosamente, sinto-me melhor. Mais tranquilo… Cheguei a odiá-lo, mas agora compreendo que estava só a ser estúpido. Ele não é mais do que um fantasma do passado… Não me pode magoar mais do que já magoou.
- Por causa da Ana.
- Hai.
- Pensas nela todos os dias?
- A todas as horas, talvez…
Trunks levantou-se, Goten acompanhou-o. Pousou-lhe uma mão no ombro.
- Sempre que precisares conversar, eu estou aqui, amigo.
- Eu sei, irmão.
Abraçaram-se. Goten sentiu Trunks estremecer, sacudia a tristeza com determinação, mas ela haveria de regressar e então ele haveria de o acordar noutra noite, batendo-lhe na janela do quarto. Quando fosse casado, não saberia muito bem como é que esse esquema funcionaria, mas haveria de arranjar uma maneira de ter aquelas conversas noturnas e clandestinas.
Trunks olhou-o com um brilho novo nos olhos intensamente azuis.
- Desafio-te para um combate. Agora.
O rosto de Goten abriu-se num sorriso.
- Estava a ver que nunca mais falavas nisso.
Os dois rapazes saíram para o exterior, escolheram uma clareira nas cercanias. Transformaram-se em super saiya-jin em simultâneo. A energia a inundar-lhes o corpo, a engrandecer-lhes a alma, fazia-os recordar que vinham de um longínquo planeta perdido na poeira dos tempos. O fluxo selvagem da vida pulsava com eles quando se sentiam puramente saiya-jin.
O combate começou.
E, por um instante, tudo voltou a ser simples, verdadeiro e natural, como naqueles dias descontraídos, antes de Zephir e antes do Templo da Lua.

23 de fevereiro de 2013

Capítulo X - X.7 O último dia.


Não dormi mais que duas horas. Nem senti falta de dormir durante mais tempo. Levantei-me, tomei um duche demorado, de água a ferver e vesti o mesmo vestido que tinha usado para ir ver a magia das estrelas. Calcei também os mesmos sapatos embonecados, levantei a ponta dos pés para admirar os lacinhos, mas, desta vez, já não sorri. Escondi o Medalhão de Mu debaixo do decote e olhei uma última vez para o quarto desarrumado. Os cheiros já se tinham desvanecido todos e as lembranças pareciam querer refugiar-se num lugar onde não as podia convocar.
Chegava o dia de todos os adeus e eu não me sentia preparada. Tinha sido mais fácil destruir Zephir.
Um pequeno monitor azul piscou junto à porta, acendendo-se com um apito breve. Transmitia uma mensagem de Bulma que indicava que a viagem na máquina das dimensões estava agendada para as onze horas da manhã e que a partida ocorreria no relvado das traseiras. Era uma espécie de convocatória e de lembrete, como se eu me pudesse eventualmente esquecer. Ou provavelmente pretendia que eu o fizesse, que acabasse por repensar a minha decisão depois da noite passada com o filho e que, em vez de ir embora, iria divertir-me na festa e que logo agendaria outra data no calendário para experimentar a sua máquina.
Mas eu não iria desistir, especialmente depois da noite passada com Trunks.
Conferi a hora no mesmo monitor, um pequeno retângulo branco onde estava um relógio digital, com algarismos também brancos. Passavam sete minutos das dez horas da manhã. Tinha mais ou menos uma hora até à minha viagem, mas não sabia muito bem o que fazer com esses longos sessenta minutos, uns agonizantes três mil e seiscentos segundos. Fiquei a marcar o tempo contado pelo relógio, hipnotizada pelo piscar dos dois pontos entre o número das horas e o número dos minutos. Não me mexi, paralisada na mesma posição estupidificante, vendo o tempo passar no seu ritmo normal.
Dez horas e dezanove minutos.
Pestanejei. Levei uma mão ao cabelo. Estava rebelde, tinha-o secado ao ar depois do duche com a água a ferver. Cheirava a alfazema e lembrei-me da cor do cabelo de Trunks.
Agarrei numa fita larga de cor preta e apertei o cabelo, afastando-o da cara. Olhei-me ao espelho grande pendurado por cima da cómoda. Pisquei o olho, ensaiei um sorriso de boneca que combinava na perfeição com os sapatos. Dei um estalido com a língua e disse para o meu reflexo de desenho animado:
- Vou ter saudades tuas, linda!
Saí do quarto. O relógio marcava dez horas e vinte e dois minutos.
Ao contrário do final do dia anterior, os corredores da Capsule Corporation apresentavam-se luminosos e animados. Dirigi-me para as traseiras, tentando acertar à primeira com o caminho, pois aquela casa era grande como um palácio. Mas, desta vez, não havia como me enganar, bastava seguir a música e a atividade que se concentrava toda no relvado das traseiras.
Antes de descer um lanço de escadas espreitei pela janela panorâmica e retangular que tinha à minha direita. Dali conseguia-se ver o local da festa. A primeira coisa que fixei foi a máquina das dimensões. A fuselagem nova brilhava e tinha luzes vermelhas e azuis a piscar. Um grosso cabo negro ligava-a a uma espécie de bateria gigante. Ao lado havia ainda uma estrutura com vários monitores e uma enorme consola, pejada de botões e de interruptores. Vi as mesas compridas, cobertas com toalhas brancas, enfeitadas com flores, onde se exibiam as iguarias que iriam ser servidas no banquete. Vi os grupos de convidados, vestidos com os melhores fatos e os melhores vestidos, garridos como conjuntos de balões, de vários feitios e tamanhos.
Respirei fundo. Iria enfrentar a tal audiência respeitável. Sem medo, Ana. Afinal, tinha sido eu que destruíra o feiticeiro. A segunda metade do Medalhão de Mu tremeu e eu combati a tentação de vincar as suas arestas na palma da mão. Ajeitei o decote para esconder a corrente dourada. Aquele era um segredo meu e de Trunks. O último segredo…
Desci as escadas. Uma porta dupla escancarava-se para a rua e dava acesso ao relvado das traseiras. Vi o último relógio antes de sair. Dez horas e trinta e um minutos. Teria tempo para conversar com todos os convidados, ou adiantaria a primeira viagem da máquina das dimensões. Optei decididamente pela segunda hipótese.
Os sapatos embonecados pisaram a relva, afundaram-se no terreno mole e orvalhado, fazendo-me andar cada vez mais devagar e quase a arrastar-me entrei no palco. Vi as cabeças voltarem-se na minha direção, as vozes calarem-se, como ficaram todos a observar-me, entre a reverência, a admiração e a curiosidade. Parei. Tive a tentação de fazer uma vénia com um sorriso pintado no rosto pétreo e de acenar um adeus com uma pirueta, mas seria excessivo e despropositado. Procurei desesperada por uma cara conhecida, ou pelo menos mais familiar. Primeiro, não encontrei Trunks. Segundo, não consegui reconhecer ninguém. Era tudo um borrão colorido. Estava demasiado calor e eu comecei a sentir-me mal.
- Ana-san, bem-vinda querida. Estávamos à tua espera.
Bulma sorria-me. Perguntou, entrelaçando o braço no meu, puxando-me suavemente para o centro do relvado:
- Vamos cumprimentar os nossos amigos? Querem saudar a rapariga da Dimensão Real que nos salvou e têm estado à tua espera.
- Eu só me quero despedir.
Pareceu-me desiludida.
- Oh… Mas ainda faltam alguns minutos para as onze horas.
- Eu sei. Podemos ir fazendo os últimos preparativos, as últimas verificações.
Soltou-me o braço.
- A máquina está pronta – disse, indicando o local onde repousava o veículo que me levaria a atravessar as dimensões. Explicou-me apontando para o aparato que eu tinha espreitado desde a janela: – Estou a verificar os níveis de energia e o aplicativo que irá permitir a viagem. Como te prometi, irei monitorizar todo o trajeto a partir daquele computador que está ali. Tem um aspeto antiquado, mas é extremamente preciso e fiável. Vai correr tudo bem.
- Eu confio em ti, Bulma.
- Ainda bem, querida.
Passei rapidamente os olhos pelos convidados.
Fiquei impressionada. Estavam lá todos.
Vi Yajirobe e Karin. Chaozu e Ten Shin Han, acompanhavam uma Lanch morena e cândida. Yamucha tinha Puar em cima do ombro e juntava-se ao velho mestre de artes marciais, Mutenroshi, que tinha vindo com a inseparável tartaruga do mar e com Oolong, que enfiava as mãos nos bolsos das calças com um ar enfastiado.
O tamanho de Piccolo impunha-me respeito e fiquei tensa quando o descobri. Com ele estavam Dende e Mr. Popo que me sorria e a tranquilidade do seu sorriso acalmou-me.
Também lá estava número 17 com a irmã número 18, ao lado de Kuririn. Maron voltava-se ligeiramente para Son Goten e os dois olhavam-se embevecidos, ocultando sorrisos. 
Chi-Chi fingia ignorar o deslumbramento do filho mais novo. Estava com o pai, o enorme e simpático Gyumao de barba grisalha, e com o marido, Son Goku, tão engraçado enfiado num fato claro, usando uma gravata verde garrida, calçando sapatos polidos, a suar desesperado dentro daquele uniforme. Ao lado deles, Videl e o pai, Mr. Satan. Conheci finalmente o grande campeão. Tinha um aspeto apagado e pareceu-me um homem velho e cansado. Mr. Bu acompanhava-o, o cão Beh preguiçava sonolento aos pés dele.
Com Videl estava Gohan. Pan e Bra davam as mãos e atrás delas postava-se Ubo, vestido também de fato e gravata, tão sério e solene que me impressionou. Aquele trio representava a próxima geração de guerreiros, o futuro da Terra.
Olhei para o lado esquerdo e descobri Vegeta. Piscou-me o olho discretamente, com uma carranca de meter medo. Entreabri os lábios admirada. O príncipe dos saiya-jin não piscava o olho para toda a gente.
Continuava sem encontrar Trunks.
Gohan aproximou-se de mim e de Bulma, arrastando o irmão Goten que despegou finalmente os olhos de Maron. Goku também veio, atrás dos filhos, aligeirando o nó da gravata que estava a estrangulá-lo.
- Ana-san, gostei muito de te conhecer – disse Gohan. – Quero agradecer-te por tudo o que fizeste por nós.
- Também gostei muito de te conhecer, senhor professor.
Gohan riu-se, empurrando os óculos com um dedo, num gesto que lhe dava um encanto especial.
- Vou tentar praticar o japonês que me ensinaste - acrescentei. – E nunca me esquecerei das nossas aulas proibidas, quando não era suposto eu encontrar-me com vocês. Foram noites tão… especiais.
Abraçou-me de repente. Murmurou-me comovido:
- Cuida de ti, Ana-san… onegai shimass.
- Hai
Quando se afastou, tinha Goten inclinado sobre mim a bafejar-me a cara com um beijo rápido, mas nem por isso menos carinhoso. Gracejou:
- Trunks vai matar-me por eu te ter dado um beijo.
Ele estava diferente. Estreitei os olhos, analisando-o, alcançando a mudança subtil. Sorri-lhe, abracei-o. Senti-o a endurecer de vergonha entre os meus braços. Segredei-lhe ao ouvido:
- A Maron é uma rapariga cheia de sorte. Desejo sinceramente que sejam muito, muito felizes os dois. E lembra-te de mim, Son Goten, porque eu irei lembrar-me de ti. Adorei aqueles dias na cabana das montanhas.
Gohan arrastou Goten de volta, porque ele tinha ficado pregado ao chão e estava tão vermelho que parecia ter sido pescado de uma banheira de lava.
Fiquei com Bulma e com Son Goku.
Olhei para os dois. Tinha sido com eles que “Dragon Ball” começara e seriam eles os últimos a se despedirem de mim. A ironia era deliciosa e agonizante.
Os últimos, pois Trunks tinha resolvido não aparecer.
- Ana, desejo-te boa sorte. Nunca nos vamos esquecer de ti e de tudo o que fizeste por nós – disse-me Bulma, com um olhar azul aguado que me enterneceu.
- Vocês também fizeram tanto por mim. Deram-me… uma aventura inesquecível. Mas não podia esperar menos, já que têm tantas aventuras inesquecíveis para contar.
- Oh, mas preferia mais momentos de paz. Tanta aflição e tanta apoquentação faz-me velha antes do tempo. Dispensava essas rugas, querida.
Fez-me rir e foi tão bom rir-me com ela.
Voltei-me para Son Goku. A presença dele continuava a confundir-me. Aquele sorriso era uma delícia, um tesouro.
- Djá ná, Ana-san.
- Goku…
- Não te esqueças daquilo que eu te disse.
- Hai. Voltaremos a encontrar-nos.
- Não chores.
O sangue fugiu-me da ponta dos dedos que ficaram gelados, juntou-se todo no coração que desatou a bater descompassado e ensurdecedor. Acredito que se conseguia ouvir o meu coração naquele silêncio. Apertei os dentes, neguei com a cabeça. Retive as palavras. Se falasse acabava por não fazer o que me dissera, que acabaria mesmo por chorar.
Goku ficou sério. Observava-me intrigado, com os olhos muito abertos que piscava amiúde, mais vezes do que era habitual. Debruçou-se ligeiramente e sussurrou-me:
- Não te posso dar um beijo aqui, Ana-san.
Eu reagi atrapalhada, corando indecentemente:
- Oh… Mas eu não…
Vegeta escondia um sorriso enviesado.
Devia ser o tal cheiro que enviava mensagens esquisitas para o cérebro dos saiya-jin. Recuei um passo, embaraçada com o que eu pudesse estar a transmitir a Son Goku que estava tão próximo de mim, com o que pudesse estar a insinuar a Vegeta que estava um pouco mais afastado. Não desejava causar nenhum incidente naquela festa. Mas Goku sorriu-me para me descansar, não voltaria a acontecer mais nada entre nós, e eu sorri-lhe de volta, selando aquele adeus.
Voltei-me para Bulma. Respirei fundo e anunciei, num tom de voz alterado pois começava seriamente a ficar nervosa:
- Estou preparada.
Ela franziu o sobrolho. Sabia que faltava ainda uma despedida, devia estar como eu, intrigada por ele ainda não ter aparecido, mas eu já me tinha convencido que ele não iria mesmo aparecer. Não o censurava, não podia depois da noite anterior.
- Podes ficar mais alguns minutos.
Olhei para os monitores acoplados à enorme consola. Dez horas e quarenta e sete minutos.
- Se a máquina está pronta… Eu também estou, Bulma-san.
Ela olhou de relance para os convidados. Encaminhou-me suavemente para junto da máquina, pressionando uma mão entre as minhas omoplatas.
- A viagem será incómoda, mas não durará mais que um minuto, dois no máximo. Lembras-te de como se faz para ligar a máquina e iniciar a sequência que permitirá a viagem entre dimensões?
- Hai. Assim que a cabina ficar fechada e completamente isolada do mundo exterior, carrego no botão amarelo.
- Perfeito.
- Bulma…
- Sim, querida? – Perguntou ansiosa.
- Eu… Obrigada pela roupa. Acho que não vou conseguir devolvê-la.
Os ombros dela estremeceram. Esperava que fosse alguma mensagem para o filho. Devia estar a achar tão estranho eu não querer despedir-me de Trunks, nem sequer mencioná-lo.
- Estás preocupada… com isso? – Perguntou admirada.
- Pois… Um pouco – menti.
- Querida, considera essa roupa como um presente meu.
Dez horas e cinquenta minutos.
- Hai.
Ficámos a olhar uma para a outra. Apertei as mãos, estavam suadas. Estava cheia de medo daquela viagem que nunca tinha sido experimentada antes. Um dos vértices do triângulo dourado picou-me a pele e eu sustive a respiração.
Bulma disse:
- Muito bem. Vamos lá, então…
E quando se afastou de mim, quando se dirigiu para a consola, eu vi-o.
Trunks estava ali.
O meu coração explodiu.
As minhas pernas fraquejaram.
Ficámos só nós os dois e a máquina das dimensões.
O que podia eu dizer-lhe ou ele dizer-me a mim que já não tinha sido dito?
Apertou uma madeixa do meu cabelo entre os dedos. Estava triste, tal como mirai Trunks e eu sentia-me a desfalecer.
Fui eu que quebrei o silêncio:
- Disseste que irias ficar sempre comigo… Que não irias abrir mão de mim. Nunca…
- E tu também disseste que não irias a lado nenhum - rebateu.
O meu sorriso foi penoso.
- Mentimos os dois, não foi?
- Eu nunca te menti.
Continuava a atingir-me com a verdade, dura como aço. E eu a desfazer-me em células, a reconstruir-me desesperadamente colando tudo com fita-cola, os remendos visíveis, mascarando as feridas, inventando que era ele que se iludia, mas a culpa continuava a ser minha, só minha. A ilusão era também minha. O castigo por ter ousado entrar na fantasia.
Ah, mas trocaria eu aquela parcela de tempo ridícula, talvez menos de um segundo, em que fizera a escolha? Não, não… Renegaria a primeira imagem que vira dele, ocultado pela névoa da impossibilidade, quando me tinha salvado do assaltante na rua escura? Não! De costas para mim e eu vira a jaqueta azul, as calças escuras, as botas amarelas. Mirai Trunks na sua gloriosa presença e a mentira ria-se na minha cara ingénua, siderada, agoniada.
Roçou os lábios na minha testa. Murmurou:
- Sayonara… Ana-san.
- Trunks.
- Lembra-te de mim.
- Todos… - Arquejei, os olhos enchiam-se de água. – Todos os dias.
Mas prometera a Goku não chorar e haveria de não chorar.
Entrevi a corrente dourada do Medalhão de Mu, disfarçada sob a blusa que Trunks vestia naquele dia. Ele também viu a minha corrente dourada. Seria o nosso elo inquebrável, apesar de todas as distâncias e de todas as diferenças.
Afastei-me dele.
Acenei à audiência muda com uma mão, como se fosse indispensável fazê-lo. Voltei-me para a máquina das dimensões.
Bulma sentava-se diante dos monitores a operar a consola. Deu-me a indicação de que podia ocupar o meu lugar. Subi pelas escadas metálicas prateadas. Uma rajada de vento levantou-me a saia do vestido, revelando ao mundo as minhas cuecas brancas com florzinhas azuis.
Entrei na cabina, acomodei-me na cadeira vermelha. A cúpula baixava devagar. A máquina vibrava. Procurei por um cinto de segurança mas não o encontrei. Aconcheguei a saia do vestido, encaixei-me no assento vermelho. Na cúpula havia uma janela redonda de vidro verde por onde se podia ver o exterior, semelhante à escotilha de um navio.
Um estalido e estava fechada dentro da máquina das dimensões. No pequeno monitor onde corriam linhas de código piscava um relógio no canto superior esquerdo. Dez horas e cinquenta e quatro minutos. Seis minutos antes do horário. Era importante cumprirmos os horários, antecipá-los se possível, ganhar tempo.
Através da escotilha, vi Trunks e só o vi a ele.
Sem vacilar, agora. E sem lágrimas, Ana-san.
Carreguei no botão amarelo.
Os olhos azuis de Trunks foram a derradeira imagem que levei da Dimensão Z.

***

A viagem entre dimensões começou.
Agarrei-me à cadeira. As engrenagens tinham sido postas em movimento, o sistema arrancava. A cabina tremia terrivelmente e julguei que a máquina se ia desfazer. Fechei os olhos.
O ronco ensurdecedor dos motores encheu a cabina e eu já não sabia se devia utilizar as mãos para me segurar à cadeira, se para tapar os ouvidos.
Com um solavanco maior olhei para a escotilha verde. Já não havia nada, apenas uma mancha indefinida e cinzenta, como se estivesse a atravessar uma gigantesca pastilha elástica. Com um segundo solavanco, o corpo ficou colado à cadeira, todo esticado, a força da gravidade a multiplicar-se e o meu peso a aumentar até à raia do insuportável. Gritei sufocada.
A máquina chiou, imobilizando-se repentinamente.
Inspirei uma golfada de ar que me provocou uma tosse seca. Estava afogada, um peso medonho no peito, nos braços, nas pernas e no corpo todo. Mexi-me devagar, habituando-me à sensação de ter entrado noutra existência. Reparei nas mãos crispadas na cadeira vermelha. Eram as minhas mãos verdadeiras.
Levantei a cabeça.
A Dimensão Real.
O vidro da escotilha partiu-se. A cabina abriu-se com um rangido assustador e eu saltei da máquina, esquecendo-me que tinha uma escada metálica prateada para ajudar-me a sair do veículo. Aterrei de joelhos no relvado, gemendo com a dor. Olhei para trás. A fuselagem estava toda retorcida e, poucos segundos depois de a ter abandonado, a máquina desfez-se em sucata. Fugi dali, esfregando os joelhos magoados.
Estranhei o frio e abracei-me aos braços despidos. O vestido que tinha escolhido não era o mais indicado para um dia pardacento e húmido de outono e dei um estalido com a língua. Devia ter-me lembrado desse detalhe, que não estava programado no computador de Bulma.
A urbanização das Gambelas estava silenciosa.
Regressava aos poucos, respirando a medo aquele ar diferente, reocupando o meu lugar naquela existência, reconstruindo recordações, reorganizando a mente, preenchendo-a com as cenas a preto e branco do telescópio e colorindo-as no processo, apossando-me daquilo que eu já tinha tão resolutamente descartado. A máquina das dimensões estava agora irreconhecível, convertida numa amálgama enferrujada, uma relíquia arqueológica. Não passava de um pedaço de lixo a enfeitar o jardim de uma vivenda. Reconheci o lugar e senti o rosto arrepanhar-se. Era a vivenda de Trunks…
O meu carro estava no sítio onde eu o tinha estacionado, depois de ter vindo da praia. Entrei no carro para me proteger do frio. Tinha a mala no banco do pendura. Que inconsciência! E, ainda por cima, com o carro destrancado. Encontrei as chaves, liguei o motor, agarrei-me ao volante. Conferi a data e a hora. Os cálculos de Bulma estavam corretos, tinha acabado de fazer uma viagem no tempo.
Bem, estava na altura de voltar para casa.
Aumentei o volume do autorrádio.
Escutei uma canção dos Oasis, muito na moda por aqueles primeiros dias do outono de 1996, “Don’t look back in anger”. Pois, devia voltar para casa…
Olhei desesperada para as janelas do primeiro andar da vivenda.
Solucei, ainda mais desesperada.
Nós ainda estávamos ali. Eu… e Trunks. Nos braços um do outro, saboreando a primeira vez que nos tínhamos amado. Dormitando com a cabeça cheia de sonhos. Sem música, porque não tinha havido ninguém disponível para mudar o lado da cassete enfiada na aparelhagem.
E então lembrei-me, numa erupção de som e de luz, qual era a canção que acompanhou os nossos primeiros beijos, a nossa descoberta, as carícias dele nas minhas costas nuas, as minhas mãos pousadas no peito macio dele.

Earth angel, earth angel,
 Will you be mine,
 My darling dear,
 Love you all the time
 I’m just a fool, a fool in love with you.

 Earth angel, earth angel,
 The one I adore
 Love you forever, and ever more

A música, que sempre nos acompanhara na minha dimensão, vinha para me assombrar, juntamente com o passado prenhe de memórias dispersas, colagens sem nexo num imenso álbum de fotografias.
Quebrei a promessa feita a Son Goku.
Apertei o volante até a pele das mãos estalar. Os soluços pareciam que me iam estilhaçar as costelas. O rio que despejava dos olhos ameaçava inundar-me o carro.
O meu anjo… O meu anjo perdido.

Take that look from off your face…

Dei um murro no autorrádio para calar o meloso Noel Gallagher, que foi acertar no botão da sintonização automática. Os números correram no mostrador e segundos depois pararam na estação mais próxima.
Ofeguei. Devia ter continuado com o meloso Noel Gallagher.

When the night has come
 And the land is dark
 And the moon is the only light we see

Olhei estarrecida para o autorrádio que transmitia “Stand by me” de Ben E. King. As ironias prosseguiam para me secar a alma. Soluçava, chorava. A última canção que ouvira antes de ter sido sugada para a Dimensão Z.
Olhei para a vivenda. Ainda estávamos ali, os dois, eu e Trunks. Eu escutava aquela canção enquanto me vestia. Ele tinha ido até à cozinha para preparar um lanche, pois eu gastara-lhe as energias e estava esfomeado.
A minha voz tremeu:
- “…No I won’t be afraid… Just as long, as you stand… stand by me…”
Um clarão, um estalido.
A Porta dos Mundos abriu-se e fechou-se.
O silêncio foi ainda maior. Sólido, como uma nuvem de algodão sufocante. Escutei um trovão ao longe, o prenúncio de chuva.
Tinha de voltar para casa. Era tarde… Tarde demais.
Não me apetecia voltar, tinha medo de não me adaptar ao que era a minha vida. As minhas amigas, o trabalho, a vida enfadonha de solteira a morar na casa dos pais, ser a ex-namorada do André.
Sentada no carro, agarrada ao volante, a recordar, a tentar agarrar o momento que já tinha sido, a saber que a aventura tinha mesmo finalizado. Eu e Trunks. Eu e a Dimensão Z.
Apoiei a testa no volante. A corrente dourada mexeu-se e o triângulo dourado saltou para fora do decote. Já não palpitava, estava morto e frio como o meu coração.
A Dimensão Z sumira-se na espiral do Universo, misturara-se com as demais dimensões, transformara-se no lugar mais remoto do cosmos.
Num lampejo de loucura, implorei ao espírito despedaçado do feiticeiro:
- Zephir, faz-me regressar…
Só o vento me respondeu num uivo, gelando-me até aos ossos.
A dor rasgava-me em duas e compreendi que, apesar de ser o meu desejo mais fervoroso, não os veria nunca mais.
Nunca mais.
Continuava a chorar.
As minhas lágrimas, porém, eram partículas minúsculas naquele Universo que eu tinha ajudado a salvar.

Capítulo X - X.6 Compromisso eterno.


Ouvia-se o barulho da cascata.
Goten não conseguia parar de sorrir. Nunca se tinha sentido tão feliz na vida. Tinha-a ali, junto ao peito, enroscada nos seus braços como um pequeno gato, confiando na proteção dele, aceitando a companhia dele e, sobretudo, o amor dele. Conseguira conquistá-la e ainda não tinha percebido bem como fora que tudo acontecera. Ou talvez nunca percebesse. Maron despertou. Deslizou para se libertar e ele deixou-a ir, contrariado. Pôs-se de pé a ajeitar o blusão, a sacudir a erva das calças. Ele calçou as sapatilhas, manteve os atacadores desapertados.
Ela disse a observar o horizonte.
- Tenho de voltar a casa. De preferência antes de o sol nascer. Se o meu pai sabe que passei a noite contigo…
- Eu falo com ele.
Ela levantou uma mão.
- Vamos com calma. Nós não temos ainda uma relação oficial e eu só tenho dezasseis anos.
- Podemos tornar isto oficial, na festa de hoje.
Maron sorriu-lhe. Goten corou.
- Há… algum problema?
- Não sei. Poderá parecer repentino. Não achas?
Ele coçou a cabeça, revirando os olhos. Murmurou:
- Bem, depois daquilo que fizemos esta noite… Acho que temos mesmo de tornar isto oficial.
Ela ficou zangada, espetou-lhe um dedo no peito.
- Ah, mas sem qualquer dúvida, Son Goten.
- Nani?
- Tu vais ser o meu namorado e sem protestar!
Ele retraiu-se:
- Mas eu quero casar contigo, Maron…
Ela retirou o dedo como se o tivesse queimado. Foi a vez de ela admirar-se.
- Na-nani?!
- Eu quero casar contigo – repetiu ele no mesmo tom acanhado. – Sei que só tens dezasseis anos, mas eu não me importo de esperar. O tempo que tu quiseres… O teu pai dá-me uma sova se eu não me comprometer contigo, depois do que andámos a fazer.
Maron desatou a rir, para aligeirar a tensão criada.
- O meu pai, a dar uma sova num super saiya-jin?
- A tua mãe, então…
O riso dela era divinal. Sorriu, totalmente enamorado daquela menina que se tornava numa mulher ao lado dele, com quem haveria de partilhar uma vida inteira. Não se queria separar dela, o coração apertava-se-lhe só de pensar que teria de a deixar ir para casa e que só a veria dali a algumas horas, na festa de Bulma-san e que haveria de passar dias inteiros sem a ver.
Entreolharam-se. Ela estava com os braços colados ao corpo, mãos refugiadas nos bolsos do blusão, encolhida como no início, como se estivesse com frio. Ele quis abraçá-la, mas ela já se estava a despedir e afastara-se um pouco.
- Bem… Vemo-nos na festa, Goten.
- Hai. Posso… falar contigo, na festa?
- Claro.
- Eu queria muito que… me aceitasses como teu namorado… na festa.
- Se o quiseres…
- Eh… Quero, claro que quero.
- Então, está bem.
- Mas assim, os teus pais…
- Ficam logo a saber. – E ela encolheu os ombros.
- Ficam logo a saber, o quê? – Perguntou ele em pânico.
- Que tu e eu namoramos.
- Ah… Pois. Isso.
- Pensavas o quê, Goten?
- Nada…
- Esta noite vai ser um segredo nosso.
- Hai.
- Mas não me importo de me convidares para outra noite igual.
Ela piscou-lhe o olho e ele corou.
- Mas desta vez, vais tu bater na janela do meu quarto. Combinado?
- Combinado, Maron.
A separação estava a ser difícil. Mas teria, inevitavelmente, de acontecer.
Goten tinha um ar desamparado. Ela deu-lhe um beijo de raspão na face, levantou voo e foi-se embora. Teve de ser assim, de repente, senão nunca mais se iria embora. Ele aceitou a partida dela, estava triste por sabê-la longe, mas também se sentia repleto, satisfeito, feliz, imbecilmente feliz. Também levantou voo e dirigiu-se para casa.
Se antes não conseguia dormir, agora ser-lhe-ia impossível.
O barulho da cascata ficou para trás, desvaneceu-se na madrugada.
Mas o que tinha acontecido naquela noite seria eterno.

22 de fevereiro de 2013

Capítulo X - X.5 Sob as estrelas.


Estava de olhos fechados, a respirar devagar o perfume que exalava da pele que eu acariciava. Descansava momentaneamente sobre o corpo dele, macio, forte, quente, real. Mexeu um pouco as pernas e eu oscilei como se estivesse a descansar num colchão sobre as ondas do mar. Sorri, adorando cada pormenor daquela intimidade. Nunca tinha feito amor daquela maneira com ele, em que se tinham ultrapassado todos os limites e em que o tinha deixado fazer tudo o que lhe apetecia fazer, entregando-me sem regras.
- Ana, estás acordada?
- Hum?… Estou.
- Ainda bem. Não quero que adormeças.
- Sim, meu senhor.
Assentei o queixo sobre o peito dele. Beijou-me.
- Não podemos adormecer – reforçou. – Ou perdemos o tempo que ainda nos resta juntos.
- Tens mesmo de me lembrar disso?
A noite corria mágica e desenfreada. Apetecia-me amá-lo mais uma vez, mas ele levantou-se da cama com um salto. Ordenou-me que me vestisse enquanto ia recolhendo as suas roupas que se espalhavam pelo quarto.
Senti falta do calor, do perfume dele. Queria era tê-lo comigo, dentro de mim, ao meu lado, debaixo de mim, sobre mim, dormindo ou acordado, queria era simplesmente tê-lo. Mas também saí daquela cama alvoroçada, manchada e amarrotada, que tinha o odor peculiar de sexo consumado várias vezes.
- Vamos passear.
- Passear? – Admirei-me.
- Hai. Não querias que eu te desse as estrelas? Pois vou dar-tas.
Fui até ao roupeiro e vesti um vestido, cobri-me com um casaco porque era de madrugada e tinha arrefecido, calcei uns sapatos com um laço, tão embonecados que sorri para os meus pés. Apanhei a mão que ele me estendia, fomos até à janela, abriu-a. Agarrei-me a ele, segurou-me pela cintura e saltámos para o vazio. Não consegui evitar um grito ao sentir a ausência da gravidade, mesmo que a queda fosse controlada. Escutei a gargalhada que soltou e aninhei-me na curva do ombro dele, respirando novamente o perfume adorável, aconchegando-me no calor tentador.
A brisa noturna carregou-nos pelos céus. Sobrevoámos West City, vi o jardim onde tinha estado com Son Goku naquela tarde, entrevi a cúpula da Capsule Corporation, apreciei deliciada o meu último voo. Pois com quem iria eu voar na Dimensão Real, por cima das cidades e dos montes?
Trunks aterrou numa pequena colina de um bosque das cercanias. No horizonte escuro tremeluzia um mar de luzes que pertencia à grande metrópole ocidental que nunca adormecia verdadeiramente. Por cima de nós tínhamos o esplendor da abóbada celeste e ele abriu os braços, exibindo todas as estrelas que me conseguia ofertar naquele instante.
- Oh, Trunks! Tão… bonito!
Ficámos a contemplar aquele espetáculo, estendidos no chão, num silêncio reverencial. As estrelas moviam-se devagar no céu violeta e acho que adormeci embalada nesse movimento lânguido. Sei disso porque despertei estremunhada com um beijo que me inundou a boca de calor.
- Eu disse-te que não podias adormecer.
- Gomen nasai… - balbuciei.
Sorria-me, debruçado sobre mim. Pensei que iria arrancar-me o vestido e que iríamos fazer amor mais uma vez, mas observou-me simplesmente. Depois disse melancólico, como se fosse um pensamento que se lhe tivesse escapado:
- Amanhã regressas à tua dimensão e eu nunca mais te vou ver.
Sentei-me.
- Trunks… Não quero falar disso agora. É a nossa… última noite.
- Mas temos de falar, precisamente porque é a nossa última noite. Ou então vão ficar coisas por dizer.
- Vão sempre ficar coisas por dizer. É impossível falarmos tudo o que temos para dizer um ao outro.
- Acho que não.
- Tu és tão…
Olhou-me com um meio sorriso.
- Convencido! – Acrescentei irritada.
- Tu adoras-me assim.
- Isso chega a ser insuportável, Trunks Brief.
Estávamos os dois sentados, ele tinha os braços sobre os joelhos fletidos. Baixou a cabeça entre as pernas, pareceu-me definhar de tristeza. Disse-me:
- Julgas que não aceito a tua decisão, mas aceito-a. Não concordo é que o faças já amanhã, podias esperar mais uns tempos e só depois ires embora… Depois de saber o que te vai acontecer, prefiro que partas, mesmo que isso me desgrace o coração. Prefiro saber-te viva, mas longe de mim, a saber-te morta por teres ficado comigo.
As lágrimas apareceram, tão inesperadas e inoportunas. Limpei a cara num gesto seco, aborrecida por ter sucumbido à emoção daquela confissão.
- Vou sentir tanto a tua falta… Trunks.
- Eu também vou sentir a tua falta. Sabes que te amo, Ana.
Era a primeira vez que dizia que me amava. Endireitei as costas, sentia-me tensa. Ia responder-lhe, mas ele interrompeu-me acrescentando:
- Quero que te lembres de mim.
- Todos os dias. Todos…
- Vou dar-te uma coisa que quero que uses, na tua dimensão. Vai ajudar-te a que nunca te esqueças de mim, de todos os momentos que passámos juntos.
- Mas eu não me vou esquecer de ti.
- Oh, quem sabe?… Haveremos os dois de reconstruir as nossas vidas… Mais tarde, quando a dor acabar. E depois a memória vai ser tão distante, que até nem vai parecer memória, mas um sonho louco de uma tarde de outono.
- Não! – Gritei horrorizada.
Sorriu-me. Levou a mão ao interior da blusa que vestia. Mostrou-mo e arrepiei-me quando o vi brilhar sobre a palma das mãos dele.
- O Medalhão de Mu! - Exclamei.
Os dois triângulos estavam separados, as correntes douradas balançavam levemente e o sol desenhado no centro estava apagado. Após a surpresa inicial, recordei que aquele era um objeto perigoso para ele. Assustei-me e roubei-lhe o medalhão.
- Tu não podes tocar nisto!
- Só se estiver unido.
- Como é que o encontraste, Trunks? Pensei que depois do fim de Zephir isto se tivesse desintegrado. Havia tanta luz…
- Encontrei-o nos escombros do pátio onde foi utilizado no altar mágico. Foi mesmo antes de virmos embora, vi qualquer coisa a brilhar e descobri admirado que era o medalhão. Como estava separado, apanhei-o. Escondi-o, não contei nada a ninguém. Acho que por as duas metades estarem na Terra, nesta dimensão, irão continuar por aqui.
Apertei os triângulos como me habituara a fazer, reconheci o toque e estremeci de satisfação. Era delicioso, fazia-me regressar ao passado, transportava lembranças de quando fizera o mesmo. As memórias que era suposto emular. A mão de Trunks agarrou a minha, a que segurava a segunda metade do amuleto.
- O Medalhão de Mu tem duas metades. Eu ficou com uma, tu ficas com a outra. Essa é a tua metade.
- Hai - concordei.
Com dedos trémulos enfiei a corrente dourada da segunda metade do Medalhão de Mu pela cabeça. Era a metade mais especial, pelo menos para mim. Tinha sido uma dádiva de Shenron e das magníficas bolas de dragão. Ele colocou ao pescoço a primeira metade do Medalhão de Mu e anunciou:
- Quando o Medalhão de Mu se voltar a unir, nós voltaremos a ver-nos.
Abracei-o num impulso, enchendo-me de perfume e de calor. Queria-o para sempre naquele abraço. Os dois triângulos tocaram-se, retinindo ao de leve. Senti o metal palpitar, reagindo à proximidade da outra metade. Apesar de nos unir, também nos separava e empurrei Trunks assustada com uma possível reação do medalhão que acabasse por prejudicá-lo. Ele riu-se.
- Não sabia que o medalhão fazia isto.
- Às vezes, parece que está vivo – confessei.
- Interessante. Vou aprender a conviver com esta coisa.
- Vais usá-lo sempre?
- Tu também o vais fazer.
- Oh… Claro que sim.
Voltei a cabeça para oriente e descobri uma faixa azul clara que indicava que o dia ia nascer. Empalideci. O tempo tinha passado inexorável e tinha-se esgotado. E eu tinha estado distraída, ocupada, docemente alheada. Talvez tivesse sido melhor assim, não sentira a picada dos segundos a passar, a areia a escoar-se para a metade inferior da ampulheta. Trunks estava levantado.
- Temos de regressar.
- Para onde? – Perguntei.
Levantei-me com a ajuda da mão que ele me estendia. Olhou-me com uma expressão vazia.
- Tens de ir dormir alguma coisa, Ana. Não vais fazer a maior viagem da tua vida num estado lastimoso. Quero-te bonita, porque vais enfrentar uma audiência respeitável. Todos os amigos da minha mãe vão lá estar e eles querem ver a heroína que nos salvou de Zephir. Não podes aparecer como uma condenada à morte a subir o cadafalso.
Estranhei:
- Que conversa é essa?
- Vamos. Mais uns minutos e estamos em casa.
- Trunks…
- O dia que escolheste para a viagem é perfeito. Vais tê-los a todos para te dizerem adeus.
- Explica-te, não te estou a perceber.
- Os heróis de “Dragon Ball”… nena.
Falou-me em castelhano, com o timbre da voz que tinha quando eu o conhecera, porque não sabia ainda falar português. Pensava que ali, na dimensão onde pertencia, ele só soubesse falar com o timbre da voz japonesa.
- Como é que fizeste isso?
Não me esclareceu. Agarrou em mim e dirigimo-nos para West City, voando calados e sem qualquer resquício do romantismo inocente do primeiro voo. E foi em silêncio que percorremos os corredores da Capsule Corporation, de mão dada. Com passos resolutos encaminhava-me para o meu quarto. Depois de me ter obrigado a comer, haveria de me obrigar a dormir e comandava-me como se eu precisasse de um guia para me orientar as atitudes.
A aurora clareava tudo, afastando a noite mais inesquecível da minha vida. E talvez o dia acabasse por quebrar o encantamento da noite e mudasse o Trunks que eu conhecia para aquele rapaz distante, calculista e frio como um pedaço de gelo. Ou estava disposto a transformar-se nesse rapaz, para suportar a minha ausência.
Inesperadamente, puxou por mim. Parámos.
Perguntou-me:
- Quem é o teu personagem favorito de “Dragon Ball”?
Dei uma risada.
- Ora… És tu!
Repetiu a pergunta:
- Quem é o teu personagem favorito de “Dragon Ball”?
- És tu.
- Quem é o teu personagem favorito?
Fazia-me a pergunta sério, quase rude. Acabei com o sorriso, mas insisti na resposta:
- És tu, Trunks.
Ele respirou fundo, contrariado.
- Quem é o teu personagem favorito de “Dragon Ball”?
Engoli em seco.
- Porque é que me estás a perguntar isso?
Pressionou-me os dedos da mão. Estava a irritá-lo e as sombras do corredor tornavam-no assustador.
- Responde ao que te perguntei.
Baixei os olhos.
- Mirai Trunks.
Tornou a pressionar-me os dedos da mão.
- Porquê? E quero que olhes para mim quando me responderes.
Fiz o que ele me ordenava.
- Porque… precisava ser amado. Tinha perdido quase tudo o que lhe era querido, era demasiado solitário… Introspetivo. Mas continuava a sentir esperança. Tinha o orgulho do pai, a força da mãe, a sabedoria do mestre, havia gentileza nos seus gestos. Tinha uma tenacidade sem igual. Era bonito… na sua solidão. Lutou e cresceu sozinho, suportou todas as tristezas que era possível suportar, mas acabou por vencer. Acredito que deve ser feliz, agora. Quero que seja feliz, pois ele merece sê-lo.
Houve silêncio, que foi físico e esquisito. Movi a mão para me libertar de Trunks. Por um momento, não quis que ele me tocasse.
Sorriu-me, os olhos azuis dele estavam brilhantes.
- Mas esse Trunks… não sou eu, Ana.
Admirei-me. Continuava sem perceber o que queria ele provar com aquela conversa.
- Eu sei que não és tu.
- Mas cheguei a ser, não foi? Quando me conheceste na Dimensão Real e quando me chamava Tiago.
- Não te estou a perceber…
- Através de mim… conseguiste amar o teu querido mirai Trunks. Que precisava de ser amado.
Foi ele que acabou por me soltar a mão. Acariciou-me a face com dois dedos, numa carícia ligeira, como se tivesse medo de me partir em mil pedaços.
- Não digas isso – pedi-lhe.
- É ele que tu amas, não sou eu. Este Trunks convencido, presunçoso e que consegue sempre, sempre… tudo o que quer.
Não fui capaz de rebater o que me dizia. Não me indignei, protestei, nem sequer neguei o que me afirmava tão convicto.
- Minha doce Ana. Jamais te esquecerei.
Fiquei muda, a tentar encontrar um argumento que conseguisse provar, sem qualquer margem de dúvida, que ele estava errado, quando ao mesmo tempo confirmava dentro de mim, no meu interior calado e resignado, que aquela era a verdade, sim, que eu gostava era de mirai Trunks.
E a nossa despedida foi aquela.
- Perdoa-me se te dececionei.
- Tu não…
Calou-me com um beijo.
As nossas bocas ficaram unidas numa humidade doce, que nunca mais se iria repetir. Sentia-lhe a mágoa nos lábios, quase como se a saliva fosse parte das lágrimas que não queria chorar ao pé de mim, por causa de mim.
Segurava-me na cara com ambas as mãos, olhou-me. Acho que me sorriu ao de leve, mas também podia ter sido apenas confusão das sombras do corredor.
Afastou-se, às arrecuas, a aumentar o plano sobre a minha pessoa, um grande realizador de cinema a amar a sua atriz favorita com a câmara, captando-a no silêncio de um palco nu, a reter o meu rosto, o meu busto, o meu corpo inteiro e perpétuo no filme da sua mente. Aquele preciso instante, a Ana da Dimensão Real, de pé, no corredor da Capsule Corporation.
Continuava a parecer-me que me sorria ao de leve, a mágoa vestindo-o de cima a baixo.
Foi-se embora.
Deixou-me sozinha e foi o princípio do meu mundo sem ele.