- Zephir!... Não pode ser!
O feiticeiro esboçou um sorriso diabólico ao ver o terror estampado no
rosto de Toynara. Como fora insensato. Nunca o deveria ter traído. Agora, iria
saber qual o preço dessa traição.
- Não… podes estar aqui.
- Não faças essa cara, Toynara. Não estás a ver um fantasma. Sou tão
real, como tu.
O jovem sacerdote pestanejou várias vezes para se certificar que não estava
a ter uma visão. Havia alguns dias que jejuava e as tonturas poderiam estar a
criar ilusões entre as sombras. Mas aquele que estava ali, com os olhos vermelhos
de desprezo e de raiva, era mesmo Zephir, em carne e osso, o sacerdote maldito
que tinha sido expulso do Templo da Lua. Mais osso do que carne, pois
emagrecera desde a última vez que o vira.
- Não estavas à espera de voltar a ver-me. Pois não?
Toynara levou uma das mãos à mesa, onde estavam espalhadas as flores
brancas, para não cair.
- Julgavas que ardia para sempre no Inferno – continuou Zephir. – E mesmo
que estivesse no Inferno, viria para te atormentar.
As palavras enchiam-lhe os ouvidos, gritos a serem semeados no
cérebro.
- Naquele dia, quando te vi no Salão da Luz, ao lado do Sumo-sacerdote,
envergando os símbolos sagrados dos sacerdotes, jurei a mim mesmo que haveria
de regressar para me vingar. Não te deixaria impune por aquilo que me fizeste,
traidor. Nas montanhas, onde me deixaram para morrer, era o teu nome que me
animava e foi o teu nome que me fez lutar pela vida. Enquanto a escuridão me
rondava, lembrava-me de ti e combatia a morte. E assim, clamando pelo maldito
do teu nome, sobrevivi. Vais ser o primeiro a cair sob a minha magia.
E, sem aviso, disparou um raio amarelo da mão que não segurava o
livro. O ataque fez Toynara espetar-se contra a parede daquela exígua câmara,
derrubando a mesa e espalhando as flores brancas. Ergueu-se cambaleante e
sorriu.
- É isto a tua magia? – Perguntou provocador.
O feiticeiro não respondeu.
- A tua magia já foi mais poderosa – prosseguiu Toynara. – Chegaste a
ser muito respeitado no Templo da Lua. Até que a ambição te cegou e perdeste
tudo.
- Regresso para recuperar o que perdi.
- E julgas que te vão deixar apoderar facilmente do templo? Poderás
passar por cima de mim, derrotar-me e eliminar-me, mas eu sou fraco. Existem
outros muito mais fortes do que eu e que não terão dificuldade em travar a tua
investida, que se apoia nessa magia de segunda classe.
O feiticeiro disparou novo raio. Mas Toynara estava atento e parou-o
com as mãos, fazendo-o desaparecer no ar numa nuvem de fumo que subiu até ao
teto.
- Agora, sou muito mais forte do que antes! – Exclamou, embriagado
pelo poder que sentia crescer dentro de si. – Vais morrer às minhas mãos!
Apesar do arrepio que o gelou, Toynara disse:
- Estou preparado para te enfrentar.
- E não terei qualquer piedade! – Completou, rosnando.
Os olhos de Zephir encheram-se de um brilho diabólico. Atirou para o
chão o livro de capa negra que carregava e estendeu os braços esqueléticos. O
ar ondulou num ritmo preciso até Toynara, que não se moveu, admirado com o
movimento, tentando perceber o que era para conseguir enviar uma réplica. Não
teve tempo. Atingido pelo feitiço, soltou um grito e caiu de joelhos no chão,
agarrado à cabeça. A dor era indiscritível. Sacudia furiosamente a cabeça, com a
sensação de ter o cérebro a desfazer-se em mil bocados.
- Mas quero que a peças! – Gritou Zephir insano. – Pede piedade.
Implora-me que te salve a vida, meu querido aprendiz!
Pelo meio da aflição, Toynara conseguiu estender dois dedos, desenhar um
sinal mágico e anular o ataque. O feiticeiro sentiu o baque, perdeu o
equilíbrio e caiu de costas.
- Só isto? – Soprou Toynara, fingindo que não tinha sido demasiado
atingido pelo feitiço.
- Isto… – E Zephir levantou-se. – Isto é só o princípio.
Antes de se conseguir pôr de pé, Toynara foi atingido no peito por um
raio quente e brilhante. Gritou com a queimadura que lhe abriu um buraco na
túnica branca.
- Levanta-te!
Apesar de sentir o corpo dormente, Toynara levantou-se.
Zephir era demasiado forte. Recordou-se que o tinha admirado, em
tempos, quando era um rapazinho crédulo e carente, que buscara naquele homem
esquivo e solitário apoio e companhia, principalmente ensinamentos e
experiência. Ser o discípulo favorito do grande Zephir, do Senhor das Trevas,
tinha-o tornado presunçoso. Fora enganado, desviara-se irremediavelmente do
caminho da luz que lhe oferecia a deusa bondosa. Mas ele sentia ambição no
coração, queria ser mais do que era, elevar-se acima de quem o espezinhava.
Cerrou os punhos com força, endireitou as costas. Recuperara a tempo a
orientação certa no caminho da magia. Ele não era mau, como Zephir. Ele tinha
um coração que conhecia a bondade e a caridade. As lágrimas que chorara no
amplexo restaurador do Sumo-sacerdote mostraram-lhe que não estava a proceder
erradamente enquanto traía o mestre. As mesmas lágrimas inundavam-lhe agora a
mente, numa recordação dolorosa e vergonhosa. Não podia baixar os braços quando
estava em jogo a honra do templo e a sua própria honra… Toynara não era
suficientemente forte e dotado para derrotar Zephir, mas iria resistir até ao
fim.
- Já estás recuperado? – Perguntou Zephir, dando um ênfase irritante
às palavras. – Ótimo, sacerdote! Ótimo. Não queria que isto acabasse depressa. Quero
saborear a vingança convenientemente.
Toynara agitou os braços em gestos elaborados, desenhando figuras
geométricas no ar com os dedos, combatendo a dor que latejava em cada
centímetro da pele. Zephir aguardou, sorrindo e desdenhando. Ao parar os gestos,
deixou ficar as mãos suspensas no vazio, os dedos esticados. A cara foi inexpressiva
durante longos segundos, até que um espasmo lhe insuflou os olhos de vida e
todo ele se agitou num estremecimento. Utilizava o feitiço mais forte que
conhecia.
O ar vibrou em redor de Zephir, que não desfitava o adversário,
expectante.
- Então? Estou à espera do teu ataque!
- Vê por ti mesmo, Zephir.
Não teve tempo para se voltar. Antes de conseguir mover-se, o
feiticeiro sentiu os braços e as pernas apertados por fortes garras. Gritou,
estrebuchou furioso. Mas quanto mais se mexia, mais as garras se cravavam nos
membros e mais aprisionado ficava entre dois enormes espíritos negros, que
serpenteavam sem forma e que o cobriam por inteiro.
- São espíritos das trevas – explicou Toynara, ofegante. –
Entreguei-te a eles, Zephir. E só eu te poderei salvar da sua vontade. Irão
devorar-te.
- Maldito!
O conjuro era poderoso. Aqueles espíritos eram imbatíveis. Uma vez
presos a alguém, nunca mais o largariam e bastava uma simples palavra de quem
os convocara para transportarem o prisioneiro para um lugar de esquecimento
eterno, uma prisão gelada inviolável, da qual ninguém, nunca, conseguira
escapar. Era um mistério como um sacerdote imberbe como Toynara conhecia aquele
conjuro.
Como se lhe lesse os pensamentos, Toynara disse:
- Sou um sacerdote do Templo da Lua. Sou um feiticeiro, como tu.
- Ganhaste as insígnias dos sacerdotes sem mérito. És um falso
feiticeiro.
- Pelo menos, não sou um traidor.
- Não és um traidor? – Atirou Zephir, sufocado por um braço de fumo
negro que se enrolava no pescoço. – Traíste o teu mestre!
- Foste um dia o meu mestre. Mas deixaste de merecer o meu respeito quando
traíste o Templo da Lua. Por isso, não te traí. Reduziste-te a nada, por
seguires o teu enorme egoísmo e a tua falta de escrúpulos. Ao desejares reinar
no Universo aproveitando a generosidade do templo, deixaste de ser meritório
dos seus ensinamentos.
- Não entendes… Ninguém entende! O Trono de Marfim será o Trono do
Universo!
A energia que mantinha os espíritos era imensa e Toynara começou a
sentir que fraquejava. Mexeu os dedos e os espíritos apertaram o prisioneiro com
mais violência. Zephir urrou, agitou-se e, de repente, ficou quieto. Toynara
julgou que o tinha finalmente dominado, pois ficara de olhos fechados,
inconsciente e alquebrado. Respirou fundo, a preparar mentalmente a última
parte do conjuro e terminar com a provação do antigo mestre.
Nisto, Toynara sentiu resistência. O corpo do feiticeiro continuava
pendurado entre os espíritos, mas o movimento viera do mundo invisível. Soube
que tinha perdido o combate e entrou em pânico. A voz de Zephir ecoou naquela
câmara, vinda das profundezas:
- Eu, Zephir, sacerdote do Templo da Lua, invoco o poder da lua…
- Não! – Gritou Toynara horrorizado. – Não o podes fazer!
- Invoco o poder da lua e das trevas.
Os espíritos negros cresceram desmesuradamente, até encherem a câmara
toda, do chão até ao teto. As garras ainda se cravavam nos braços e nas pernas,
mas Zephir percebeu que quebrara o conjuro do jovem sacerdote ao olhar para a
sua cara lívida.
- Não o podes fazer, Zephir! Já não pertences ao templo…
- Pelo poder da lua! – Insistiu.
O corpo de Zephir sacudiu-se numa convulsão repentina. Toynara já não
controlava os espíritos. Tentava desesperado fazê-lo, de braços estendidos que tremiam,
mas os espectros bailavam agora, ao sabor de uma brisa imaginária, embalados
pela magia que oscilava entre os dois.
- Pelo poder supremo do Makai! – Gritou Zephir, despertando do transe
em que mergulhara.
- Ma… Makai?!
Num enorme estrondo, os fantasmas dissolveram-se. As garras soltaram o
corpo esquelético de Zephir e Toynara gritou, apavorado com a derrota. Os
arrepios gelados tinham o prenúncio da morte e o jovem sacerdote começou a
tremer. Não teve muito tempo para saborear esse terror. Um raio vermelho
atingiu-o em cheio e derrubou-o. Quando tentou arrastar-se e escapar-se, levou
com novo raio vermelho e deixou-se ficar, percebendo que, a partir daquele
momento, não valia a pena lutar contra o destino.
Uma gargalhada diabólica feriu-lhe os ouvidos, enquanto um sem fim de
faíscas da cor do fogo lhe envolviam e lhe queimavam o corpo. Contorcia-se, aos
gritos, a tentar proteger a cara, as mãos, o tronco, os braços, amaldiçoando-se
por estar a ceder à fraqueza da carne que lhe era arrancada dos ossos. Não
queria que Zephir o ouvisse gritar, mas as dores eram insuportáveis e o outro
ria-se com o seu sofrimento. Os raios mortais roubavam-lhe a vida. As
gargalhadas roubavam-lhe a honra.
Um derradeiro raio, um último grito. Toynara arquejou, com os pulmões
ressequidos e a garganta ensanguentada. Os dedos queimados ainda esgravataram
as lajes da câmara, mas as forças acabaram por abandoná-lo e deixou-se ficar.
Recebeu um pontapé nas costelas que o voltou de barriga para cima. Ofegante,
Zephir acercou-se do rosto de Toynara, para verificar os estragos. O ataque
cansara o outro e o jovem sacerdote sorriu.
- Porque sorris? Vais morrer.
- Estás cansado… Para acabares comigo, ficaste sem energia. E o Templo
da Lua não sou só eu… Existem mais sacerdotes, monges… guerreiros. O Sumo-sacerdote.
Não poderás com todos eles.
- Imbecil! Achas que vim sozinho?
Toynara engasgou-se.
- O Templo da Lua será meu antes do sol se pôr no horizonte –
sentenciou Zephir.
- Não…
No corredor ouviu-se o som de passos arrastados. Kang Lo espreitou para
dentro da câmara.
- Que fazes aqui, Kang Lo? – Perguntou Zephir endireitando-se.
- Sensei, já acabei com
todos eles.
Primeiro, Zephir sorriu. Mas depois lembrou-se de um pormenor e ficou
vermelho de raiva.
- Todos? – Berrou.
- Todos, não – respondeu Kang Lo. Ergueu um braço e exibiu cinco
monges inconscientes presos na sua manápula pelos hábitos esfarrapados.
Toynara viu os irmãos feridos e teve vontade de chorar. Fechos os
olhos, retendo um soluço, apertando os lábios rebentados. Zephir afastou-se
para seguir o brutamontes e prosseguir o massacre. Antes de perder os sentidos,
Toynara murmurou:
- Não o conseguirás, Zephir… A Terra está protegida. Se a quiseres
conquistar terás de passar pelos seus protetores… Pelos poderosos guerreiros
das estrelas que a guardam.
O feiticeiro voltou-se irado com o descaramento da ameaça do
moribundo, uma bola vermelha na mão, o golpe final que acabaria com aquele
odiado sacerdote. Mas como Toynara ficou imóvel, exalando um longo e doloroso
suspiro, poupou o golpe.
Passou por Kang Lo e caminhou pelo longo corredor, apanhando o livro
de capa negra. O lutador seguiu-o sem perguntar nada.
Alguns metros mais à frente pararam junto a uma enorme porta dupla,
ricamente trabalhada. Zephir apoiou as mãos nos pesados batentes em forma de
argolas e empurrou-os. A porta abriu-se de par em par.
A luz do interior do enorme salão cegou-o no início. Piscou os olhos
para os habituar à claridade e quando viu o Trono de Marfim à sua frente, o
magnífico trono que desde sempre cobiçara, o coração disparou. Atrás dele, Kang
Lo soltou uma exclamação de assombro. Nunca tinha visto uma sala tão bela como
aquela.
No Trono de Marfim, estava sentado o Sumo-sacerdote, usando as Insígnias
Sagradas da Lua. O feiticeiro fitou-o com desprezo.
- Que sejas bem-vindo, Zephir!
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