Chegara o primeiro dia da época de exames.
Nos edifícios da universidade já não havia conversas alegres e
brincadeiras provocadoras entre estudantes descontraídos. Andavam todos atarefados
pelos corredores, em pequenas corridas. Um semestre inteiro de trabalho e de
aulas resumia-se àquele mês em que os conhecimentos iriam ser postos à prova.
Tão apressado e ansioso quanto os colegas, Goten saiu do edifício
principal, carregando livros e pastas atascadas de folhas soltas. Olhava para o
papel que lhe tinham dado na secretaria, onde se discriminavam as salas, os
exames e a hora de cada um. Ia tão concentrado na tabela colorida que nem
reparou em Trunks que o esperava junto às escadas que acabara de descer.
- Eh! Goten!
Levantou a cabeça. Quando viu o amigo, fez-lhe uma careta entre o
cómico e o zangado. Afastou-se sem o cumprimentar, dirigindo-se para o complexo
de pavilhões identificados por letras, pois o primeiro exame iria acontecer aí,
dizia-lhe o horário, dali a cerca de dez minutos.
- Espera! Que bicho te mordeu?
- Afasta-te de mim, Trunks-kun!
Mas Trunks conseguiu alcança-lo e pondo-se à frente dele, obrigou-o a
parar.
- Estás aborrecido comigo por causa de ontem à noite?
- O que é que te parece?
Após uma rápida observação, Trunks assobiou.
- Estás com uma cara horrível! Que cara de enjoado e que olheiras… Não
dormiste bem?
- O que é que te parece?
- A Maron ocupou-te os sonhos?
- Estive a estudar, baka!!
Goten olhou para o amigo e desesperou por vê-lo sem livros a
atravancar-lhe os braços e tão calmo como se estivesse num qualquer dia de
aulas e não no primeiro dia da época de exames. Irritou-se e desatou numa
berraria:
- Graças à tua magnífica ideia, cheguei tarde a casa. Fui apanhado
pela minha mãe, que me obrigou a estudar a noite toda. Se eu não me deitei, ela
também não. Vigiava-me com uma chibata na mão, como se eu tivesse ainda sete
anos! E não serviu de nada, porque estou tão cansado que o que estudei durante
a noite foi-se a seguir ao pequeno-almoço. Para piorar as coisas, esqueci-me em
casa dos apontamentos das fórmulas para o exame. E agora já não tenho tempo
para fazer outros! Não percebo nada desta porcaria! Se chumbar, vou ouvir a
minha mãe durante meses e aturar as suas comparações com Gohan!
- Calma, Goten-kun.
- Não consigo acalmar-me! E onde estão os teus livros? Não vais ter
exames?
- Vou, mas isso não significa que tenha que me apresentar num estado
de nervos lamentável. Então, saiya-jin?
Controla-te!
- Para de me chamar saiya-jin.
Irrita-me ainda mais!
Trunks desatou a rir, mas o seu riso também não servia para acalmar
Goten, que o fulminou com um olhar demolidor. Afastou o cabelo da testa,
pensando no que poderia fazer para ajudar o amigo que se desfazia em cacos
nervosos diante dele, com os braços atados a livros e pastas, a camisa
desfraldada, os cabelos despenteados, o corpo a exigir descanso. A universidade
não era, de facto, desafio para Son Goten. Este, por seu turno, desistiu de
permanecer ali, porque achava que Trunks continuava a troçar dele e que
falsificava toda a preocupação que mostrava. Deu meia volta.
- Olá, rapazes.
A voz dela congelou-lhe os próximos movimentos. Trunks exclamou:
- Maron!
Sorria-lhes com malícia, mas estava mais bonita do que Goten alguma
vez se lembrava de a ter visto. Corou e, para que ela não se apercebesse como o
atingia fatalmente, encolheu-se e pôs-se a cismar com o chão, com os sapatos e com
os livros que carregava.
- O que fazes aqui? – Perguntou Trunks. – Não devias estar nas aulas?
- Devia… Mas vim ver como estão a correr os vossos exames.
- Ainda não começaram.
- Ah… Melhor. Assim não chego demasiado tarde.
Levou a mão direita ao bolso de trás das calças e retirou um papel
dobrado, escrito de um lado e outro com várias fórmulas e equações. Prendeu-o
entre dois dedos e exibiu-o como um prémio. Goten arregalou os olhos.
- Os meus apontamentos! – Exclamou.
- Perdeste isto, ontem à noite, na Capsule Corporation – disse, mas
continuava a olhar para Trunks. – Calculei que fosse importante.
- É mesmo… muito importante…
Tinha as mãos ocupadas e não conseguiu recolher o papel que Maron
ostentava, mas tentou, deslocando os livros de um braço para o outro, sem
conseguir desembaraçar-se dos calhamaços e sentiu-se ridículo por se mostrar
tão atrapalhado. Trunks retirou uma mão do bolso do blusão, levantou-a para
agarrar no papel, mas Maron moveu o braço e afastou-o.
- Então? Vais devolver isso ao Goten, ou não?
- Com uma condição.
Trunks fez uma segunda tentativa, um gesto rápido e traiçoeiro, mas
ela estava atenta e, inacreditavelmente, conseguiu ser mais rápida que ele.
Tinha bons reflexos…
- Não estás em posição de exigir nada – ameaçou Trunks. – Se eu
quiser, tiro-te o papel e tu nem saberás como o fiz.
- Terás este papel de volta, se prometeres uma coisa – insistiu Maron,
não se intimidando com a ameaça dele.
- Mas eu preciso do papel para o meu exame – lamuriou-se Goten.
A teimosia era admirável e Trunks aguardou que ela falasse.
- Promete que nunca revelarás o segredo de Bra.
- Porque é que haveria de te prometer isso?
Maron tornou a mostrar o papel.
- Promete, Trunks-kun! – Pediu Goten em pânico. – Promete! Eu prometo,
Maron. Nunca contarei a ninguém que Bra aprende a lutar com Pan. Prometo!
- Vês? – Disse Maron vitoriosa, continuando a olhar apenas para
Trunks. – O teu amigo sabe ser razoável.
- Bem, ele que prometa o que quiser. É ele quem precisa do papel.
- Trunks-kun!
Maron recuou um par de passos, agitando o papel entre os dedos.
- Boa sorte para o exame, Goten!
- Trunks-kun! – Tornou Goten cada vez mais desesperado, voltado para o
amigo, os livros a pesarem-lhe toneladas.
- Se não lhe devolves o papel, ele desafia-te para um combate.
- Nani?!! Trunks-kun, o que é
que estás a dizer?
- Ouviste-me, Maron.
Ela parou de recuar. Assentou as mãos na cintura, provocadora e
divertida.
- Desafia-me para um combate?
- Não desafio nada… – murmurou Goten, a fixar-se ansioso no papel dos
apontamentos que continuava na mão de Maron.
- Sim, um combate.
- E porque não és tu a desafiar-me, Trunks?
- Os apontamentos são dele. Amanhã, ao fim da tarde. Marcamos o vosso
encontro para aqui, os jardins da universidade. Escolheremos depois o local
mais apropriado para o combate.
- Tu também vais estar presente?
- Claro! O combate precisa de um árbitro, para decidir quem venceu no
fim. E também serei uma testemunha do que irá acontecer.
Maron abanou a cabeça para afastar o cabelo da cara, endireitou as
costas e disse com presunção:
- Se pensas que tenho medo de me enfrentar a Son Goten, estás muito
enganado. Vou aparecer e iremos lutar, no local que o senhor árbitro escolher.
- Está combinado, Maron.
Virou costas. Atirou o papel por cima do ombro e despediu-se, com um
risinho trocista. Afastou-se calmamente, percorrendo os jardins da universidade
num andar tão sensual que Goten perdeu a força das pernas enquanto a
contemplava. Trunks apanhou o papel.
- Bolas, Goten! Ao pé da Maron ages como um autêntico idiota. Assim,
ela nunca vai reparar em ti.
- E o que queres que faça? – Murmurou, concordando com Trunks.
Realmente, a filha de Kuririn fazia de conta que ele era invisível sempre que
se encontravam e que Trunks estava por perto.
- O que vale é que te estou a ajudar.
- Não preciso da tua ajuda!
Pelo canto do olho espreitou as horas que marcava o relógio que Trunks
usava no pulso e soltou um guincho.
- Estou atrasado! O exame vai começar daqui a dois minutos!
Trunks deu-lhe uma cotovelada.
- Calma!... Temos de pensar no teu combate. Ela é maluca, sabes?
Acabou de aceitar um combate contra um saiya-jin.
- O exame!
- Para de falar no exame. Vais lutar contra a Maron amanhã. E sabes o
que é que isso significa?
- Significa que vou chumbar. O exame vai começar daqui a dois minutos,
não sei a matéria, vou chegar atrasado e, por isso, não vou ter tempo de o
acabar.
- Significa que é o primeiro passo. Ela vai ficar caidinha por ti depois de lhe mostrares quem manda. Uns quantos
truques de saiya-jin serão
suficientes para que fique domesticada. Está demasiado convencida nas suas
capacidades, se queres que te diga.
Enfiou o papel entre os dentes de Goten, a única maneira de o
entregar, visto este ter as duas mãos ocupadas. Prosseguiu, analítico:
- Não a subestimes, contudo. A mãe dela deu, em tempos, uma tareia ao
meu pai. E o pai dela treinou-se ao lado do teu. Tem genes de lutadora, tanto
como tu.
Goten resmungou qualquer coisa que Trunks não percebeu, porque, com o
papel preso entre os dentes, as palavras ficavam guardadas na boca. Concluiu,
assentando-lhe uma palmada nas costas:
- Vai ser um excelente desafio. Maron disse que sabia lutar. Pode não
ser nada de especial, afinal luta com a minha irmãzinha e tem pouca
experiência, mas não sabes do que ela é capaz. Se entrares demasiado confiante,
pode acontecer que sejas derrotado… Tal como aconteceu há três anos atrás,
naquele último torneio, quando lutaste contra a tua sobrinha Pan e perdeste.
A lembrança fez Goten corar de vergonha. Tornou a resmungar. Trunks
mostrou-lhe o relógio e disse:
- Um minuto. É melhor despachares-te. Os pavilhões ainda ficam longe.
Goten guinchou mais uma vez e desatou a correr, livros debaixo do
braço, papel preso nos dentes. Trunks sorriu. Trauteando uma cançoneta alegre
que estava na moda, enfiou as mãos nos bolsos e também se dirigiu para os
pavilhões, logo atrás do amigo. O combate entre Goten e Maron prometia ser
divertido.
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