Não dormi mais que duas
horas. Nem senti falta de dormir durante mais tempo. Levantei-me, tomei um
duche demorado, de água a ferver e vesti o mesmo vestido que tinha usado para
ir ver a magia das estrelas. Calcei também os mesmos sapatos embonecados,
levantei a ponta dos pés para admirar os lacinhos, mas, desta vez, já não
sorri. Escondi o Medalhão de Mu debaixo do decote e olhei uma última vez para o
quarto desarrumado. Os cheiros já se tinham desvanecido todos e as lembranças
pareciam querer refugiar-se num lugar onde não as podia convocar.
Chegava o dia de todos os
adeus e eu não me sentia preparada. Tinha sido mais fácil destruir Zephir.
Um pequeno monitor azul
piscou junto à porta, acendendo-se com um apito breve. Transmitia uma mensagem
de Bulma que indicava que a viagem na máquina das dimensões estava agendada
para as onze horas da manhã e que a partida ocorreria no relvado das traseiras.
Era uma espécie de convocatória e de lembrete, como se eu me pudesse
eventualmente esquecer. Ou provavelmente pretendia que eu o fizesse, que
acabasse por repensar a minha decisão depois da noite passada com o filho e
que, em vez de ir embora, iria divertir-me na festa e que logo agendaria outra
data no calendário para experimentar a sua máquina.
Mas eu não iria desistir, especialmente
depois da noite passada com Trunks.
Conferi a hora no mesmo
monitor, um pequeno retângulo branco onde estava um relógio digital, com
algarismos também brancos. Passavam sete minutos das dez horas da manhã. Tinha
mais ou menos uma hora até à minha viagem, mas não sabia muito bem o que fazer
com esses longos sessenta minutos, uns agonizantes três mil e seiscentos
segundos. Fiquei a marcar o tempo contado pelo relógio, hipnotizada pelo piscar
dos dois pontos entre o número das horas e o número dos minutos. Não me mexi,
paralisada na mesma posição estupidificante, vendo o tempo passar no seu ritmo
normal.
Dez horas e dezanove
minutos.
Pestanejei. Levei uma mão ao
cabelo. Estava rebelde, tinha-o secado ao ar depois do duche com a água a
ferver. Cheirava a alfazema e lembrei-me da cor do cabelo de Trunks.
Agarrei numa fita larga de
cor preta e apertei o cabelo, afastando-o da cara. Olhei-me ao espelho grande
pendurado por cima da cómoda. Pisquei o olho, ensaiei um sorriso de boneca que
combinava na perfeição com os sapatos. Dei um estalido com a língua e disse
para o meu reflexo de desenho animado:
- Vou ter saudades tuas,
linda!
Saí do quarto. O relógio
marcava dez horas e vinte e dois minutos.
Ao contrário do final do dia
anterior, os corredores da Capsule Corporation apresentavam-se luminosos e
animados. Dirigi-me para as traseiras, tentando acertar à primeira com o
caminho, pois aquela casa era grande como um palácio. Mas, desta vez, não havia
como me enganar, bastava seguir a música e a atividade que se concentrava toda
no relvado das traseiras.
Antes de descer um lanço de
escadas espreitei pela janela panorâmica e retangular que tinha à minha direita.
Dali conseguia-se ver o local da festa. A primeira coisa que fixei foi a
máquina das dimensões. A fuselagem nova brilhava e tinha luzes vermelhas e
azuis a piscar. Um grosso cabo negro ligava-a a uma espécie de bateria gigante.
Ao lado havia ainda uma estrutura com vários monitores e uma enorme consola,
pejada de botões e de interruptores. Vi as mesas compridas, cobertas com
toalhas brancas, enfeitadas com flores, onde se exibiam as iguarias que iriam
ser servidas no banquete. Vi os grupos de convidados, vestidos com os melhores
fatos e os melhores vestidos, garridos como conjuntos de balões, de vários
feitios e tamanhos.
Respirei fundo. Iria
enfrentar a tal audiência respeitável. Sem medo, Ana. Afinal, tinha sido eu que
destruíra o feiticeiro. A segunda metade do Medalhão de Mu tremeu e eu combati
a tentação de vincar as suas arestas na palma da mão. Ajeitei o decote para
esconder a corrente dourada. Aquele era um segredo meu e de Trunks. O último
segredo…
Desci as escadas. Uma porta
dupla escancarava-se para a rua e dava acesso ao relvado das traseiras. Vi o
último relógio antes de sair. Dez horas e trinta e um minutos. Teria tempo para
conversar com todos os convidados, ou adiantaria a primeira viagem da máquina
das dimensões. Optei decididamente pela segunda hipótese.
Os sapatos embonecados
pisaram a relva, afundaram-se no terreno mole e orvalhado, fazendo-me andar
cada vez mais devagar e quase a arrastar-me entrei no palco. Vi as cabeças
voltarem-se na minha direção, as vozes calarem-se, como ficaram todos a
observar-me, entre a reverência, a admiração e a curiosidade. Parei. Tive a
tentação de fazer uma vénia com um sorriso pintado no rosto pétreo e de acenar
um adeus com uma pirueta, mas seria excessivo e despropositado. Procurei
desesperada por uma cara conhecida, ou pelo menos mais familiar. Primeiro, não
encontrei Trunks. Segundo, não consegui reconhecer ninguém. Era tudo um borrão
colorido. Estava demasiado calor e eu comecei a sentir-me mal.
- Ana-san, bem-vinda
querida. Estávamos à tua espera.
Bulma sorria-me. Perguntou,
entrelaçando o braço no meu, puxando-me suavemente para o centro do relvado:
- Vamos cumprimentar os
nossos amigos? Querem saudar a rapariga da Dimensão Real que nos salvou e têm
estado à tua espera.
- Eu só me quero despedir.
Pareceu-me desiludida.
- Oh… Mas ainda faltam
alguns minutos para as onze horas.
- Eu sei. Podemos ir fazendo
os últimos preparativos, as últimas verificações.
Soltou-me o braço.
- A máquina está pronta –
disse, indicando o local onde repousava o veículo que me levaria a atravessar
as dimensões. Explicou-me apontando para o aparato que eu tinha espreitado
desde a janela: – Estou a verificar os níveis de energia e o aplicativo que irá
permitir a viagem. Como te prometi, irei monitorizar todo o trajeto a partir
daquele computador que está ali. Tem um aspeto antiquado, mas é extremamente
preciso e fiável. Vai correr tudo bem.
- Eu confio em ti, Bulma.
- Ainda bem, querida.
Passei rapidamente os olhos
pelos convidados.
Fiquei impressionada.
Estavam lá todos.
Vi Yajirobe e Karin. Chaozu
e Ten Shin Han, acompanhavam uma Lanch morena e cândida. Yamucha tinha Puar em
cima do ombro e juntava-se ao velho mestre de artes marciais, Mutenroshi, que
tinha vindo com a inseparável tartaruga do mar e com Oolong, que enfiava as
mãos nos bolsos das calças com um ar enfastiado.
O tamanho de Piccolo
impunha-me respeito e fiquei tensa quando o descobri. Com ele estavam Dende e
Mr. Popo que me sorria e a tranquilidade do seu sorriso acalmou-me.
Também lá estava número 17
com a irmã número 18, ao lado de Kuririn. Maron voltava-se ligeiramente para
Son Goten e os dois olhavam-se embevecidos, ocultando sorrisos.
Chi-Chi fingia ignorar o
deslumbramento do filho mais novo. Estava com o pai, o enorme e simpático Gyumao
de barba grisalha, e com o marido, Son Goku, tão engraçado enfiado num fato
claro, usando uma gravata verde garrida, calçando sapatos polidos, a suar
desesperado dentro daquele uniforme. Ao lado deles, Videl e o pai, Mr. Satan. Conheci
finalmente o grande campeão. Tinha um aspeto apagado e pareceu-me um homem
velho e cansado. Mr. Bu acompanhava-o, o cão Beh preguiçava sonolento aos pés
dele.
Com Videl estava Gohan. Pan
e Bra davam as mãos e atrás delas postava-se Ubo, vestido também de fato e
gravata, tão sério e solene que me impressionou. Aquele trio representava a
próxima geração de guerreiros, o futuro da Terra.
Olhei para o lado esquerdo e
descobri Vegeta. Piscou-me o olho discretamente, com uma carranca de meter medo.
Entreabri os lábios admirada. O príncipe dos saiya-jin não piscava o olho para toda a gente.
Continuava sem encontrar Trunks.
Gohan aproximou-se de mim e
de Bulma, arrastando o irmão Goten que despegou finalmente os olhos de Maron.
Goku também veio, atrás dos filhos, aligeirando o nó da gravata que estava a
estrangulá-lo.
- Ana-san, gostei muito de
te conhecer – disse Gohan. – Quero agradecer-te por tudo o que fizeste por nós.
- Também gostei muito de te
conhecer, senhor professor.
Gohan riu-se, empurrando os
óculos com um dedo, num gesto que lhe dava um encanto especial.
- Vou tentar praticar o
japonês que me ensinaste - acrescentei. – E nunca me esquecerei das nossas
aulas proibidas, quando não era suposto eu encontrar-me com vocês. Foram noites
tão… especiais.
Abraçou-me de repente.
Murmurou-me comovido:
- Cuida de ti, Ana-san… onegai shimass.
- Hai…
Quando se afastou, tinha
Goten inclinado sobre mim a bafejar-me a cara com um beijo rápido, mas nem por
isso menos carinhoso. Gracejou:
- Trunks vai matar-me por eu
te ter dado um beijo.
Ele estava diferente. Estreitei
os olhos, analisando-o, alcançando a mudança subtil. Sorri-lhe, abracei-o.
Senti-o a endurecer de vergonha entre os meus braços. Segredei-lhe ao ouvido:
- A Maron é uma rapariga
cheia de sorte. Desejo sinceramente que sejam muito, muito felizes os dois. E lembra-te
de mim, Son Goten, porque eu irei lembrar-me de ti. Adorei aqueles dias na
cabana das montanhas.
Gohan arrastou Goten de
volta, porque ele tinha ficado pregado ao chão e estava tão vermelho que
parecia ter sido pescado de uma banheira de lava.
Fiquei com Bulma e com Son
Goku.
Olhei para os dois. Tinha
sido com eles que “Dragon Ball” começara e seriam eles os últimos a se
despedirem de mim. A ironia era deliciosa e agonizante.
Os últimos, pois Trunks
tinha resolvido não aparecer.
- Ana, desejo-te boa sorte.
Nunca nos vamos esquecer de ti e de tudo o que fizeste por nós – disse-me
Bulma, com um olhar azul aguado que me enterneceu.
- Vocês também fizeram tanto
por mim. Deram-me… uma aventura inesquecível. Mas não podia esperar menos, já
que têm tantas aventuras inesquecíveis para contar.
- Oh, mas preferia mais
momentos de paz. Tanta aflição e tanta apoquentação faz-me velha antes do
tempo. Dispensava essas rugas, querida.
Fez-me rir e foi tão bom
rir-me com ela.
Voltei-me para Son Goku. A
presença dele continuava a confundir-me. Aquele sorriso era uma delícia, um
tesouro.
- Djá ná, Ana-san.
- Goku…
- Não te esqueças daquilo
que eu te disse.
- Hai. Voltaremos a encontrar-nos.
- Não chores.
O sangue fugiu-me da ponta
dos dedos que ficaram gelados, juntou-se todo no coração que desatou a bater
descompassado e ensurdecedor. Acredito que se conseguia ouvir o meu coração
naquele silêncio. Apertei os dentes, neguei com a cabeça. Retive as palavras.
Se falasse acabava por não fazer o que me dissera, que acabaria mesmo por
chorar.
Goku ficou sério. Observava-me
intrigado, com os olhos muito abertos que piscava amiúde, mais vezes do que era
habitual. Debruçou-se ligeiramente e sussurrou-me:
- Não te posso dar um beijo
aqui, Ana-san.
Eu reagi atrapalhada,
corando indecentemente:
- Oh… Mas eu não…
Vegeta escondia um sorriso
enviesado.
Devia ser o tal cheiro que
enviava mensagens esquisitas para o cérebro dos saiya-jin. Recuei um passo, embaraçada com o que eu pudesse estar a
transmitir a Son Goku que estava tão próximo de mim, com o que pudesse estar a
insinuar a Vegeta que estava um pouco mais afastado. Não desejava causar nenhum
incidente naquela festa. Mas Goku sorriu-me para me descansar, não voltaria a
acontecer mais nada entre nós, e eu sorri-lhe de volta, selando aquele adeus.
Voltei-me para Bulma.
Respirei fundo e anunciei, num tom de voz alterado pois começava seriamente a
ficar nervosa:
- Estou preparada.
Ela franziu o sobrolho.
Sabia que faltava ainda uma despedida, devia estar como eu, intrigada por ele
ainda não ter aparecido, mas eu já me tinha convencido que ele não iria mesmo aparecer.
Não o censurava, não podia depois da noite anterior.
- Podes ficar mais alguns
minutos.
Olhei para os monitores
acoplados à enorme consola. Dez horas e quarenta e sete minutos.
- Se a máquina está pronta…
Eu também estou, Bulma-san.
Ela olhou de relance para os
convidados. Encaminhou-me suavemente para junto da máquina, pressionando uma
mão entre as minhas omoplatas.
- A viagem será incómoda,
mas não durará mais que um minuto, dois no máximo. Lembras-te de como se faz
para ligar a máquina e iniciar a sequência que permitirá a viagem entre
dimensões?
- Hai. Assim que a cabina ficar fechada e completamente isolada do
mundo exterior, carrego no botão amarelo.
- Perfeito.
- Bulma…
- Sim, querida? – Perguntou
ansiosa.
- Eu… Obrigada pela roupa.
Acho que não vou conseguir devolvê-la.
Os ombros dela estremeceram.
Esperava que fosse alguma mensagem para o filho. Devia estar a achar tão
estranho eu não querer despedir-me de Trunks, nem sequer mencioná-lo.
- Estás preocupada… com
isso? – Perguntou admirada.
- Pois… Um pouco – menti.
- Querida, considera essa
roupa como um presente meu.
Dez horas e cinquenta
minutos.
- Hai.
Ficámos a olhar uma para a
outra. Apertei as mãos, estavam suadas. Estava cheia de medo daquela viagem que
nunca tinha sido experimentada antes. Um dos vértices do triângulo dourado
picou-me a pele e eu sustive a respiração.
Bulma disse:
- Muito bem. Vamos lá,
então…
E quando se afastou de mim,
quando se dirigiu para a consola, eu vi-o.
Trunks estava ali.
O meu coração explodiu.
As minhas pernas
fraquejaram.
Ficámos só nós os dois e a
máquina das dimensões.
O que podia eu dizer-lhe ou
ele dizer-me a mim que já não tinha sido dito?
Apertou uma madeixa do meu
cabelo entre os dedos. Estava triste, tal como mirai Trunks e eu sentia-me a desfalecer.
Fui eu que quebrei o
silêncio:
- Disseste que irias ficar
sempre comigo… Que não irias abrir mão de mim. Nunca…
- E tu também disseste que
não irias a lado nenhum - rebateu.
O meu sorriso foi penoso.
- Mentimos os dois, não foi?
- Eu nunca te menti.
Continuava a atingir-me com
a verdade, dura como aço. E eu a desfazer-me em células, a reconstruir-me
desesperadamente colando tudo com fita-cola, os remendos visíveis, mascarando
as feridas, inventando que era ele que se iludia, mas a culpa continuava a ser
minha, só minha. A ilusão era também minha. O castigo por ter ousado entrar na
fantasia.
Ah, mas trocaria eu aquela
parcela de tempo ridícula, talvez menos de um segundo, em que fizera a escolha?
Não, não… Renegaria a primeira imagem que vira dele, ocultado pela névoa da
impossibilidade, quando me tinha salvado do assaltante na rua escura? Não! De
costas para mim e eu vira a jaqueta azul, as calças escuras, as botas amarelas.
Mirai Trunks na sua gloriosa presença
e a mentira ria-se na minha cara ingénua, siderada, agoniada.
Roçou os lábios na minha testa.
Murmurou:
- Sayonara… Ana-san.
- Trunks.
- Lembra-te de mim.
- Todos… - Arquejei, os
olhos enchiam-se de água. – Todos os dias.
Mas prometera a Goku não
chorar e haveria de não chorar.
Entrevi a corrente dourada
do Medalhão de Mu, disfarçada sob a blusa que Trunks vestia naquele dia. Ele
também viu a minha corrente dourada. Seria o nosso elo inquebrável, apesar de
todas as distâncias e de todas as diferenças.
Afastei-me dele.
Acenei à audiência muda com
uma mão, como se fosse indispensável fazê-lo. Voltei-me para a máquina das
dimensões.
Bulma sentava-se diante dos
monitores a operar a consola. Deu-me a indicação de que podia ocupar o meu
lugar. Subi pelas escadas metálicas prateadas. Uma rajada de vento levantou-me
a saia do vestido, revelando ao mundo as minhas cuecas brancas com florzinhas
azuis.
Entrei na cabina,
acomodei-me na cadeira vermelha. A cúpula baixava devagar. A máquina vibrava. Procurei
por um cinto de segurança mas não o encontrei. Aconcheguei a saia do vestido,
encaixei-me no assento vermelho. Na cúpula havia uma janela redonda de vidro
verde por onde se podia ver o exterior, semelhante à escotilha de um navio.
Um estalido e estava fechada
dentro da máquina das dimensões. No pequeno monitor onde corriam linhas de
código piscava um relógio no canto superior esquerdo. Dez horas e cinquenta e
quatro minutos. Seis minutos antes do horário. Era importante cumprirmos os
horários, antecipá-los se possível, ganhar tempo.
Através da escotilha, vi
Trunks e só o vi a ele.
Sem vacilar, agora. E sem
lágrimas, Ana-san.
Carreguei no botão amarelo.
Os olhos azuis de Trunks
foram a derradeira imagem que levei da Dimensão Z.
***
A viagem entre dimensões
começou.
Agarrei-me à cadeira. As
engrenagens tinham sido postas em movimento, o sistema arrancava. A cabina
tremia terrivelmente e julguei que a máquina se ia desfazer. Fechei os olhos.
O ronco ensurdecedor dos
motores encheu a cabina e eu já não sabia se devia utilizar as mãos para me
segurar à cadeira, se para tapar os ouvidos.
Com um solavanco maior olhei
para a escotilha verde. Já não havia nada, apenas uma mancha indefinida e
cinzenta, como se estivesse a atravessar uma gigantesca pastilha elástica. Com
um segundo solavanco, o corpo ficou colado à cadeira, todo esticado, a força da
gravidade a multiplicar-se e o meu peso a aumentar até à raia do insuportável.
Gritei sufocada.
A máquina chiou,
imobilizando-se repentinamente.
Inspirei uma golfada de ar
que me provocou uma tosse seca. Estava afogada, um peso medonho no peito, nos
braços, nas pernas e no corpo todo. Mexi-me devagar, habituando-me à sensação
de ter entrado noutra existência. Reparei nas mãos crispadas na cadeira
vermelha. Eram as minhas mãos verdadeiras.
Levantei a cabeça.
A Dimensão Real.
O vidro da escotilha
partiu-se. A cabina abriu-se com um rangido assustador e eu saltei da máquina,
esquecendo-me que tinha uma escada metálica prateada para ajudar-me a sair do
veículo. Aterrei de joelhos no relvado, gemendo com a dor. Olhei para trás. A
fuselagem estava toda retorcida e, poucos segundos depois de a ter abandonado, a
máquina desfez-se em sucata. Fugi dali, esfregando os joelhos magoados.
Estranhei o frio e abracei-me
aos braços despidos. O vestido que tinha escolhido não era o mais indicado para
um dia pardacento e húmido de outono e dei um estalido com a língua. Devia
ter-me lembrado desse detalhe, que não estava programado no computador de
Bulma.
A urbanização das Gambelas
estava silenciosa.
Regressava aos poucos, respirando
a medo aquele ar diferente, reocupando o meu lugar naquela existência, reconstruindo
recordações, reorganizando a mente, preenchendo-a com as cenas a preto e branco
do telescópio e colorindo-as no processo, apossando-me daquilo que eu já tinha
tão resolutamente descartado. A máquina das dimensões estava agora
irreconhecível, convertida numa amálgama enferrujada, uma relíquia
arqueológica. Não passava de um pedaço de lixo a enfeitar o jardim de uma
vivenda. Reconheci o lugar e senti o rosto arrepanhar-se. Era a vivenda de
Trunks…
O meu carro estava no sítio
onde eu o tinha estacionado, depois de ter vindo da praia. Entrei no carro para
me proteger do frio. Tinha a mala no banco do pendura. Que inconsciência! E,
ainda por cima, com o carro destrancado. Encontrei as chaves, liguei o motor,
agarrei-me ao volante. Conferi a data e a hora. Os cálculos de Bulma estavam
corretos, tinha acabado de fazer uma viagem no tempo.
Bem, estava na altura de
voltar para casa.
Aumentei o volume do
autorrádio.
Escutei uma canção dos
Oasis, muito na moda por aqueles primeiros dias do outono de 1996, “Don’t look back in anger”. Pois, devia
voltar para casa…
Olhei desesperada para as
janelas do primeiro andar da vivenda.
Solucei, ainda mais
desesperada.
Nós ainda estávamos ali. Eu…
e Trunks. Nos braços um do outro, saboreando a primeira vez que nos tínhamos
amado. Dormitando com a cabeça cheia de sonhos. Sem música, porque não tinha
havido ninguém disponível para mudar o lado da cassete enfiada na aparelhagem.
E então lembrei-me, numa
erupção de som e de luz, qual era a canção que acompanhou os nossos primeiros
beijos, a nossa descoberta, as carícias dele nas minhas costas nuas, as minhas
mãos pousadas no peito macio dele.
“Earth angel, earth angel,
Will you be mine,
My darling dear,
Love you all the time
I’m just a fool, a fool in love with you.
Earth angel, earth angel,
The one I adore
Love you forever, and ever more”
A música, que sempre nos
acompanhara na minha dimensão, vinha para me assombrar, juntamente com o
passado prenhe de memórias dispersas, colagens sem nexo num imenso álbum de fotografias.
Quebrei a promessa feita a
Son Goku.
Apertei o volante até a pele
das mãos estalar. Os soluços pareciam que me iam estilhaçar as costelas. O rio
que despejava dos olhos ameaçava inundar-me o carro.
O meu anjo… O meu anjo
perdido.
“Take that look from off your
face…”
Dei um murro no autorrádio
para calar o meloso Noel Gallagher, que foi acertar no botão da sintonização
automática. Os números correram no mostrador e segundos depois pararam na
estação mais próxima.
Ofeguei. Devia ter
continuado com o meloso Noel Gallagher.
“When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we see”
Olhei estarrecida para o
autorrádio que transmitia “Stand by me”
de Ben E. King. As ironias prosseguiam para me secar a alma. Soluçava, chorava.
A última canção que ouvira antes de ter sido sugada para a Dimensão Z.
Olhei para a vivenda. Ainda
estávamos ali, os dois, eu e Trunks. Eu escutava aquela canção enquanto me
vestia. Ele tinha ido até à cozinha para preparar um lanche, pois eu gastara-lhe
as energias e estava esfomeado.
A minha voz tremeu:
- “…No I won’t be afraid… Just as long, as you stand… stand by me…”
Um clarão, um estalido.
A Porta dos Mundos abriu-se
e fechou-se.
O silêncio foi ainda maior.
Sólido, como uma nuvem de algodão sufocante. Escutei um trovão ao longe, o
prenúncio de chuva.
Tinha de voltar para casa.
Era tarde… Tarde demais.
Não me apetecia voltar,
tinha medo de não me adaptar ao que era a minha vida. As minhas amigas, o
trabalho, a vida enfadonha de solteira a morar na casa dos pais, ser a
ex-namorada do André.
Sentada no carro, agarrada
ao volante, a recordar, a tentar agarrar o momento que já tinha sido, a saber
que a aventura tinha mesmo finalizado. Eu e Trunks. Eu e a Dimensão Z.
Apoiei a testa no volante. A
corrente dourada mexeu-se e o triângulo dourado saltou para fora do decote. Já
não palpitava, estava morto e frio como o meu coração.
A Dimensão Z sumira-se na
espiral do Universo, misturara-se com as demais dimensões, transformara-se no
lugar mais remoto do cosmos.
Num lampejo de loucura,
implorei ao espírito despedaçado do feiticeiro:
- Zephir, faz-me regressar…
Só o vento me respondeu num
uivo, gelando-me até aos ossos.
A dor rasgava-me em duas e
compreendi que, apesar de ser o meu desejo mais fervoroso, não os veria nunca
mais.
Nunca mais.
Continuava a chorar.
As minhas lágrimas, porém, eram
partículas minúsculas naquele Universo que eu tinha ajudado a salvar.