- Bra! Bra, vem cá! Quero ver se já estás vestida.
Bulma guardou o batom na
caixa de maquilhagem. Com um dos dedos ajeitou a cor nos lábios, delineou a
pintura com cuidado, apagando os excessos nos cantos da boca. Olhou-se ao
espelho demoradamente. Já não era jovem, mas continuava a ser bonita. Uma
mulher atraente para quem já tinha passado os cinquenta anos. Suspirou. Agarrou
num lenço de papel e começou a limpar o dedo. Sempre que se lembrava da sua
idade, sentia-se duplamente abatida.
- Bra! Não me ouviste chamar? – Gritou.
Estava atrasada e isso irritava-a. Mais aquela história de estar velha
e pôs o assunto de lado. Agarrou na escova e começou a ajeitar o cabelo. Não,
ainda não era velha. Continuava a ser bela e interessante. Sorriu. A prova de que
não perdera os seus principais atributos era o facto de Vegeta ter ficado ao
seu lado. Nunca se casaram, logo nada o prendia. Mas ele ficou e ajudou-a, do
seu modo peculiar, a criar os filhos.
Ao pensar no saiya-jin, Bulma
tornou a suspirar. Pousou a escova no toucador e espreitou a porta fechada, por
cima do ombro direito. Vegeta já estaria pronto? Ultimamente fazia-lhe aquelas
surpresas. Aceitava os convites dela para ir ver um filme ao cinema da cidade e
comer um gelado depois. Se isso acontecesse alguns anos atrás, Bulma
consideraria um milagre, mas Vegeta estava diferente. Já não vivia obcecado
pela Câmara de Gravidade e por Son Goku. Ainda passava dias inteiros lá
enfiado, mas Bulma achava que era mais como uma distração e porque a sua
condição de saiya-jin o compelia a
tal, do que seria para tornar-se no guerreiro mais forte do Universo e assim
aniquilar todos os seus inimigos.
Fora com a chegada de Majin Bu,
há treze anos atrás, que tudo mudara. Claro que também tinham havido mudanças
no carácter tempestuoso do saiya-jin
depois do torneio do Cell, mas fora durante a batalha com o monstro Majin Bu que Vegeta amadurecera.
Conseguira o tão ansiado segundo combate contra Goku e o facto de ter passado
uma boa temporada no Outro Mundo e de ter unido, no fim, as forças ao maior
rival, ajudaram essa mudança.
Bulma ficara feliz por Vegeta ter voltado no fim dessa batalha. Temia
que algo fosse diferente, mesmo depois de o saiya-jin
já ter provado os seus sentimentos muito especiais em relação a ela no fim
do torneio do Cell. Nessa altura, tinha-a ajudado a criar o pequeno Trunks e
encarregara-se dos treinos do miúdo nas artes marciais. Depois de Majin Bu, Vegeta também regressara. E
ficara durante aqueles anos todos, tiveram uma filha. A irrequieta Bra… Agora,
passado tanto tempo ao lado do saiya-jin,
Bulma sentia-se desejada à medida que ele se tornava cada vez mais próximo,
aceitando sair com ela de dia para ir às compras no Centro Comercial ou à noite
para um passeio.
Bra irrompeu pelo quarto, a correr aos saltinhos. Veio para junto do
toucador e Bulma abriu um enorme sorriso quando a viu. Como é que se podia
achar velha se ainda tinha uma filha de sete anos, tão alegre e espontânea como
Bra?
- Deixa-me olhar para ti – disse com meiguice.
- Vesti o vestido que me disseste para usar para ficar bonita quando a
Maron chegar, ’kaasan – explicou Bra,
agarrando nas pontas da saia, puxando-as para cima.
- Muito bem. És uma menina muito bonita, Bra!
A porta abriu-se e Vegeta apareceu. Bulma olhou para ele e a garganta
apertou-se. Sentiu-se corar como se fosse uma adolescente. Enigmático,
majestoso e altivo no seu silêncio, o príncipe dos saiya-jin pareceu-lhe mais atraente do que nunca. Os anos não
passavam por ele. Ao mesmo tempo que ele entrava no quarto, o intercomunicador
emitia um aviso sonoro que indicava que Maron acabava de chegar.
- Vegeta, vai recebê-la, por favor, enquanto acabo de arranjar a Bra –
pediu e virou-se para a filha.
Ele enfiou as mãos nos bolsos e dirigiu-se para a saída do quarto,
contrariado. Bulma não se importou, sabendo que se tratava apenas do feitio
rebelde dele, que gostava de cultivar para manter a aparência que o fizera
outrora tão temido. Antes de sair, Vegeta reparou que Bra lhe sorria. Um
sorriso tão terno e inocente que não resistiu e sorriu-lhe de volta.
Maron entrava no salão, acompanhada por um dos robots que povoavam a Capsule Corporation. Aqueles engenhos
eletrónicos, invenção de Bulma e do Dr. Brief, seu pai, existiam por todo o
lado, desempenhando qualquer tarefa. Havia robots
de todos os tipos, destinados aos trabalhos puramente domésticos, como limpar
ou cozinhar, programados para proteger o complexo ou outros, mais sofisticados,
que auxiliavam nos laboratórios e nas oficinas.
- Komba-wa, Vegeta-san –
cumprimentou Maron.
- Olá, Maron.
O robot que trouxera a
rapariga deu meia volta e sumiu-se pelo corredor. Vegeta afastou-se e Maron
entendeu que estava a convidá-la a entrar. O saiya-jin era de poucas palavras e ela também. Maron desceu os
poucos degraus que conduziam ao centro da sala, onde se estendia um enorme
tapete felpudo coberto de almofadas em frente a uma televisão de ecrã gigante.
Ao lado do tapete, havia uma mesa redonda, rodeada de sofás que formavam um
meio círculo. Ao fundo, uma estante. Plantas envasadas emprestavam um verde
viçoso ao local. Vegeta foi atrás dela, admirando-lhe os passos e o porte
seguro. A filha de Kuririn estava bem crescida e cada vez mais parecida com número
18, a mãe. Nos gestos e na expressão, onde sobressaíam uns bonitos olhos
escuros.
Vegeta torceu o nariz. Nunca fora muito com a cara de número 18, que o
tinha derrotado em tempos. O saiya-jin
cerrou os punhos dentro dos bolsos. Considerava esse dia como um dos piores da
sua vida. Ser batido e humilhado num combate, por uma mulher e com assistência.
Eles tinham visto tudo. Piccolo, Kuririn, Ten Shin Han, Trunks… Vegeta
acalmou-se. Esse Trunks que conhecera havia vinte anos, o seu filho que viera
do futuro… O que seria feito dele?
Os pensamentos foram interrompidos por Bulma e Bra que chegavam à
sala. Bulma cumprimentou Maron cordialmente e antes que a rapariga pudesse
devolver o cumprimento, Bra largou a mão da mãe e correu para os seus braços,
que a levantou no colo a rir. Ora ali estava uma coisa que fazia Maron perder a
pose compenetrada: crianças!
Bulma deixou as últimas indicações – Bra deveria estar na cama dali a
uma hora, não deveria comer doces, nem ver muita televisão – e depois saiu com
Vegeta.
Bra escorregou pelos braços de Maron, saindo do colo, deixando-se
ficar de mão dada com a rapariga.
- Maron-san – começou entusiasmada –, há muito tempo que estava à
espera que viesses brincar comigo. Tenho um jogo novo! Chama-se “Aventura no
País das Flores” e é mesmo uma aventura. Fazemos de guerreiro muito forte…
Assim como o meu pai ou o pai de Pan ou o avô de Pan… Ou mesmo como o meu irmão
e Goten-san. Queres jogar comigo?
Maron fez que sim com a cabeça.
- Hai, Bra-chan. Eu jogo
contigo.
A miúda soltou uma gargalhada cristalina.
- Ah! Que bom! Nessa aventura temos de salvar a princesa e combater os
monstros e é o guerreiro que faz tudo isso. Os nossos guerreiros vão
encontrar-se! – Exclamou. Fingiu ficar séria e completou: – Aviso-te,
Maron-san, que o meu guerreiro é… como é que se diz… é uma palavra esquisita
que ouvi uma vez o ’tousan dizer… Ah,
já sei! O meu guerreiro é impiedoso!
Desta vez, foi Maron que desatou a rir.
- Terei cuidado.
- E vai ser o meu guerreiro que vai salvar a princesa. Sabias que
também sou uma princesa?
- Ah, sim? Não, não sabia.
Ou sabia? Maron tentou recordar algum pormenor das histórias que o seu
pai lhe contara, quando era mais nova, para a ajudar a adormecer nas noites de
tempestade. Kuririn costumava levar horas a fio a relatar-lhe as suas aventuras
ao lado de Goku-san. Eram histórias tão compridas que ela esquecia as trovoadas
e adormecia em poucos minutos.
- Sou uma princesa porque o meu pai é um príncipe – explicou Bra com
um ar afetado.
A filha de Kuririn sorriu. Se soubesse que Vegeta-san era um príncipe,
de certeza que já se tinha esquecido. Logo perguntaria ao pai… Sentiu um puxão
no braço e olhou para Bra que lhe exigia atenção.
- Olha, vou buscar o jogo, enquanto tu preparas as pipocas.
- Pipocas?
- Hai. Pipocas…
A alegria de Bra diluiu-se ao ver Maron cruzar os braços, num estilo
autoritário.
- Mas Bulma-san disse que não queria que comesses doces.
- Eu sei. Mas a okaasan não
precisa saber das pipocas e só ficará a saber se lhe contares, mas tu és minha
amiga e se tu me contasses um segredo, eu não contava a ninguém, nem mesmo ao
meu pai que, às vezes, faz uma cara tão malvada que me causa pesadelos.
O discurso de rajada desarmou Maron.
- Eu também sou tua amiga, mas…
- Então, está combinado! Será um segredo só nosso Faz as pipocas. Já
venho!
Bra sumiu-se do salão numa corrida, praguejando, pelo corredor, com um
dos robots que apitava atrás dela,
avisando-a, com uma mensagem metálica, que não deveria correr. Maron sorriu.
Adorava o feitio atrevido e alegre da filha de Bulma e de Vegeta, gostava de a
conquistar com pequenos agrados, transgressões inocentes que as tornavam, de
certo modo, cúmplices. Bra adorava partilhar segredos, como se fossem tesouros,
guardando-os ciosamente, recordando-se de todos os que colecionara nas noites
em que ela tinha sido a sua babysitter.
A diferença de idades era grande, nove anos, Maron fazia-se obedecer sempre que
era preciso, mas, apesar da autoridade que lhe reconhecia, Bra via nela mais
uma irmã e menos uma educadora, o que era agradável.
Passado pouco tempo, Bra regressava ao salão e estendia o tabuleiro do
jogo ao lado do tapete felpudo. Maron carregava uma larga tigela cheia de
pipocas fumegantes, acabadas de fazer, quando escutou vozes no corredor. Olhou
para a miúda que suspendeu a montagem do tabuleiro.
- Estás à espera de visitas, Bra-chan?
A miúda negou com a cabeça, enquanto segurava o grande bloco que
representava o castelo da princesa.
A porta do salão abriu-se e apareceram Trunks e Goten. A cena foi, de
certo modo, cómica. Bra de joelhos, Maron especada com as mãos ocupadas com uma
tigela, Trunks a sorrir como um idiota e Goten a empalidecer como se fosse
desmaiar.
- Ah… Maron. Estás aqui hoje? – Apontou Trunks.
- Nii-chan… Não tinhas ido
ao cinema com os teus amigos da universidade? – Perguntou Bra, a piscar os
olhos, para se certificar que estava realmente a ver o irmão.
Goten forçou-se a engolir. Deu uma cotovelada no amigo e perguntou
baixinho:
- O que é que se passa aqui? Mas não me disseste que estavas a estudar
para o exame de amanhã e que te fartaste do estudo e que te apetecia ver um
filme e que foi por isso que me foste buscar a casa?
- Calma…
- Calma? Baka! Enganaste-me!
- Não te enganei nada. Eu estava a estudar…
- Mas a tua irmã diz que tu tinhas saído para ir ao cinema! Com quem,
se todos os nossos colegas devem estar a estudar para o exame? Só nós os dois é
que devemos estar de passeio… Vou ter uma linda nota, no exame. A minha mãe vai
matar-me!
Trunks semicerrou os olhos. Conversavam por meio de sussurros.
- Pensei que não gostavas da universidade.
- E não gosto! Mas isso não quer dizer que não me aplique, quando é
necessário. Como agora, que começa a época dos exames. A minha mãe vigia o meu
estudo como uma águia. Se ela descobre que estou aqui…
- Calma, Goten-kun.
Maron deixou a tigela das pipocas em cima da mesa. Perguntou,
ligeiramente irritada:
- Porque é que estão a falar em voz baixa? Querem esconder alguma
coisa?
Os dois rapazes olharam simultaneamente para a figura altiva da filha
de Kuririn.
- Não temos nada a esconder – respondeu Trunks animado. – Olha, já
temos pipocas para a nossa festa!
- As pipocas são minhas! – Protestou Bra.
O olhar censurador de Maron fez Goten corar. Enfiou as mãos nos bolsos
e pregou os olhos na biqueira dos sapatos e no chão.
- A tua mãe julgava que ias chegar mais tarde esta noite, Trunks –
prosseguiu Maron. – Por isso, mandou-me chamar. Se contavas estar em casa a
estas horas, podias muito bem cuidar da tua irmã… Pois já percebi que estás
desocupado.
- Oh! Não gostas de vir até à minha casa, Maron?
- Nani?
- A minha irmã Bra gosta muito que cuides dela. És a sua babysitter favorita.
- Sou a única, que eu saiba. Não te estou a achar piada, aviso-te.
- Não te faças de difícil. Não tinhas nada melhor para fazer esta
noite e é sempre um excelente programa a inscrever na tua aborrecida agenda
vires até à Capsule Corporation.
A arrogância dele deixava-a furibunda e Maron cerrou os dentes. Não
suportava aquele rapazinho rico e mimado, que fazia o que bem entendia e que
gostava de manobrar os que o rodeavam conforme os seus caprichos, como aquele
idiota do Son Goten, que o acompanhava sempre e que nunca lhe dizia que não,
mesmo que, no fim, saísse prejudicado. Conteve a ira, em consideração à miúda
que observava a cena, repartindo a atenção, rodando a cabeça como um autómato
entre os três. Atirou a tentar manter a compostura:
- Por acaso, tinha um encontro com um rapaz da minha turma, que tive de
desmarcar para vir até aqui, porque o senhor
mente aos seus pais pois não quer cuidar da sua própria irmã, preferindo andar
a dar voltinhas com os seus amiguinhos universitários.
Goten reagiu com aquela resposta. Encarou Maron e estremeceu por vê-la
tão zangada.
- Trunks-kun, vou regressar a casa. Tenho de estudar. O exame, amanhã…
- Espera, Goten. – E travou-o pousando uma mão no ombro. – A Maron
quer que fiques. Não é, Maron?
A guerra estava, definitivamente, perdida. A rapariga sentou-se no
chão, ao lado de Bra. Cruzou as pernas e respondeu indiferente:
- Façam o que bem entenderem. Estou aqui para cuidar dela e é isso que
vou fazer. Já me estragaste a noite, por isso, vou aproveitar o melhor que
puder aquilo que resta.
Trunks aproximou-se da mesa, Goten permanecia pregado ao chão, junto à
porta. Enfiou uma pipoca na boca e comentou:
- Eu minto? Tu também, a inventares essa de teres um encontro.
- Ei! As pipocas são minhas! – Gritou Bra.
Maron indignou-se:
- Porquê? Achas que não sou rapariga para ter um encontro?
Trunks enfiou outra pipoca na boca.
- Ei! – Tornou Bra a gritar.
- O teu pai não te deixava. Afinal… Só tens dezasseis anos.
- Ah, que descaramento! Pois fica sabendo…
Trunks comeu uma terceira pipoca, cortando:
- Escusas de me tentar impressionar. Já tive a tua idade, sabes?
- Tu és impossível!
- Dizem que saio ao meu pai.
- Podes crer, baka!
Levou a mão pela quarta vez à tigela das pipocas, mas o gesto foi
travado por um grito estridente. Bra tinha-se levantado e tremia de tão
zangada.
- Larga as minhas pipocas!!
Reposto do susto, Trunks mostrou-lhe um sorriso amarelo:
- Bra-chan, não devias estar na caminha? Já é tarde.
- Não! A ‘kaasan disse que
podia brincar durante uma hora com a Maron-san e é o que vou fazer. E para de
comer as minhas pipocas!
- Está bem, está bem… Mas não vês que Son Goten está aqui connosco?
Tínhamos combinado ver um filme com a Maron-san e é um filme para gente crescida,
não o podes ver. Por isso, tens de ir já para a cama.
- Eu não estou aqui para ver filmes contigo – corrigiu Maron. – Estou
aqui para cuidar da tua irmã. Depois de brincar um pouco com ela, vou deitá-la
e espero pelos teus pais, que foi isso
que ficou combinado.
Goten notou que Maron não mencionara o seu nome. Então, ela só não
queria ver o filme com Trunks, não com ele. Mas talvez estivesse a ignorá-lo e
não a poupá-lo ao seu desprezo. Pensando bem, Goten não sabia o que fazia ali
com Trunks.
- Isso não tem graça nenhuma! – Alegou Trunks aborrecido. – Maron,
esquece essa conversa de babysitter
por hoje. Eu estou aqui, eu cuido da minha irmã…
Maron fingiu não o ouvir. Começou a jogar um qualquer jogo idiota com
Bra, enquanto fazia de conta que ele não estava ali. Enfiou uma mão cheia de
pipocas na boca, a raciocinar depressa para salvar a noite. O seu plano não
estava a resultar. Nisto, ocorreu-lhe uma ideia… A única ideia, na verdade.
Trunks fez um sinal a Goten para se sentar ao pé da irmã. O outro não
se mexeu, intrigado com o gesto do amigo. Trunks agarrou na tigela das pipocas
e sentou-se junto a Maron. Disse forçando uma espécie de sorriso inocente:
- Acho que o filme pode ficar para depois de a Bra ir-se deitar.
Ficamos também a jogar com vocês.
Goten abriu a boca de espanto. Maron imitou-o. E Bra deixou cair um
enorme cubo vermelho que acabava de tirar da caixa onde estavam as outras
peças.
Maron perguntou:
- Tens a certeza que queres jogar connosco? Isto é um jogo para
crianças.
- Sim. Tenho a certeza. Quero jogar, eu e Goten. Não é verdade, Goten?
- Eu? – E Goten apontou um dedo a si próprio.
- Sim, ele quer jogar. Perfeito! Vai ser perfeito… – meteu mais uma
mão cheia de pipocas na boca.
- Só estás a comer as minhas pipocas, nii-chan – protestou Bra.
- Hum… Parece-me que bateste com a cabeça nalgum sítio. Ele bateu com
a cabeça, Goten-kun?
A pergunta de Maron acendeu-lhe luzes e campainhas no cérebro. Era a
primeira vez que falava com ele, naquela noite.
- Não. Ele… parece-me bem – gaguejou Goten acabrunhado, sem olhar para
ela.
Maron resmungou, pouco convencida.
O jogo não teve muita história. Metade do tempo foi ocupado com as
explicações de Bra sobre as regras e as formas de jogar, enchendo o relato com
pormenores desnecessários sobre cores e números. Enquanto falava, olhava
sobretudo para Goten, que se mostrava tímido e pouco à vontade, mas Bra adorava
Goten, pois Goten era tio da sua melhor amiga. A outra metade, em que
efetivamente jogaram, consistira nos esforços de Maron para não ganhar à miúda
e nas piscadelas de olho que lançava aos rapazes para que fizessem o mesmo e
deixassem Bra tomar a dianteira em todas as jogadas. Trunks ria-se quando Goten
corava por causa desses sinais inocentes.
No fim do jogo, Maron anunciou a Bra que deveria esquecer o país das
flores e que deveria seguir para o país dos sonhos. A miúda bocejou, correu
para Trunks e atirou-se-lhe ao pescoço, implorando mais uns minutos no salão.
Mas Trunks explicou-lhe que a mãe ficaria muito aborrecida com ela se a
descobrisse acordada quando voltasse a casa. Bra choramingou, fungou, mas
acabou por concordar em ir deitar-se, desde que fossem os três a levá-la para o
quarto. Depois de receber um beijo de Maron, Goten e Trunks, por esta ordem, já
deitada e abraçada ao peluche favorito, disse, de olhos fechados e sonolenta:
- Vocês são os melhores amigos do mundo. Depois de Pan-chan…
Trunks reparou que Maron sorrira quando a irmã falara na filha de
Gohan. Quando atravessavam o corredor de volta ao salão, perguntou-lhe:
- O que é que tu sabes que eu não sei?
- Do que é que estás a falar? – Admirou-se Maron.
- Sobre Pan e a minha irmã.
- Sei que são grandes amigas.
- Isso já eu sei. Mas há mais…
- Porque é que dizes isso?
Trunks travou-lhe os passos, barrando-lhe a passagem. Ficaram muito
próximos, entreolhando-se. Goten observava-os, de mãos nos bolsos, a pensar
como era incapaz de falar daquela maneira tão natural com Maron. Sempre que
tentava dizer-lhe alguma coisa, era como se a língua desse um nó e se
esquecesse de como articular uma frase coerente.
Maron desviou o olhar.
- Não te posso contar… Vou trair a confiança de Bra se o fizer. É um
segredo dela, percebes?
- Quero lá saber. Trata-se da minha irmã.
O silêncio continuou. Trunks exasperou-se:
- E trata-se da sobrinha de Goten. O que poderá se passar entre duas
pirralhas de sete e oito anos que seja assim tão mau?
Ela hesitava.
- Maron...
Goten ia sair em defesa da filha de Kuririn, quando ela revelou num
repente:
- Pan ensina artes marciais a Bra.
- O quê? – Gritou Trunks incrédulo. – A minha irmã sabe lutar?
Maron mordia o lábio inferior.
- Se Bra sabe que fui eu que te contei… Não lhe digas nada, por favor
– pediu arrependida por ter cedido tão indecorosamente.
Goten admirou-se:
- Existe algum problema? A Pan sabe lutar.
Trunks explicou:
- O problema é a minha mãe. Não quer que a sua filha querida se
transforme num saiya-jin que só pensa
em combater. Para ela, já basta o meu pai e eu…
- Mas ela é saiya-jin –
disse Goten.
- A minha mãe gosta de fazer de Bra uma versão mais pequena dela
própria. Trata-a como uma pequena bonequinha e mima-a com prendas e aquelas
coisas inúteis que as raparigas gostam.
Maron cruzou os braços, olhando-o de esguelha.
- Acho que nunca vi a minha irmãzinha vestir algo diferente de
vestidos às florzinhas. Se a minha mãe sabe que ela luta com Pan…
- Mas não vai saber, porque tu não vais dizer nada – avisou Maron.
- Eu não digo, se tu também não abrires a boca.
- Se não a abri até aqui…
- Mas não foi muito difícil fazer-te falar – provocou Trunks com desdém.
- Cala-te!
- Algum dia, Bulma-san vai descobrir.
Os dois olharam para Goten.
- Bem, afinal Bra-chan é saiya-jin,
como eu e tu – disse, olhando para o amigo, pois evitava, sempre que podia,
encarar Maron. – Os instintos de lutadora apareceriam, mais cedo, ou mais
tarde. Se não estivesse a aprender a lutar com a minha sobrinha, poderia
aprender contigo… Ou com o teu pai, Trunks.
- Talvez tenhas razão. Mas no dia que a minha mãe descobrir, a Capsule
Corporation vai abaixo com a histeria dela.
- Vegeta-san vai intervir – disse Maron –, porque vai ficar orgulhoso
de saber que a filha está à altura da sua herança saiya-jin e a histeria poderá não ser tão grande como julgas. Além
do mais, porque Bra luta bem.
- E como é que sabes? – Indagou Trunks.
- Porque já lutei com ela!
- Nani?!!
- Qual é o espanto?
- Tu também sabes lutar?
- Claro. Foi a minha mãe que me ensinou. – E deu um jeito à cabeça
para afastar o cabelo da cara que era igualzinho ao de número 18.
- Bem, tantas surpresas esta noite – troçou Trunks.
- É verdade – acrescentou Maron, voltando-lhe as costas. – A começar
por vocês aqui, a estragarem uma noite que poderia ter sido perfeita.
Como ficara de frente para ele, Goten, baixou imediatamente a cabeça
que fervia de tão corada, enfiando as mãos nos bolsos e apertando os punhos
para se ir aguentando naquela provação.
- Mas ainda vai ser perfeita – corrigiu Trunks, começando a andar. –
Vou preparar mais pipocas. Entretanto, podem ir andando para o salão.
Quando ele desapareceu no fim do corredor, Maron disse:
- Tu não tens de ir estudar, ou qualquer coisa parecida?
Goten engoliu uma grande porção de saliva que acumulara na boca.
Sentia-se nervoso por estar ali sozinho com Maron. Respondeu:
- Sim… Amanhã tenho um exame…
- E o que é que fazes aqui?
- Vim ver… um filme.
Escutou um suspiro dela e acanhou-se um pouco mais. Se tivesse uma
carapaça, como uma tartaruga, tinha-se enfiado lá dentro para se escapar
daquela situação.
- Não podes deixar que ele mande em ti, tão à descarada.
- Ele não manda em mim. Somos amigos…
- Fazes sempre o que ele te diz para fazer. Isso, para mim, é mandar.
- Nem sempre…
- Não entraste na universidade por causa dele?
Goten olhou para Maron, ofendido. Estaria a considera-lo estúpido?
- A minha mãe também quer que eu estude.
- E tu queres estudar?
Sim, estava a considera-lo estúpido.
- Quero! – Afirmou, contrariamente ao que, efetivamente pensava. De
repente, apercebeu-se de como estava perdido.
Maron sorriu.
- Muito bem, estudante universitário. Então, sugiro que vás embora
para casa e que vás estudar, porque tens um exame amanhã.
- E o filme?
Ela atirou as mãos ao ar.
- Ah!... Mas tu não percebes mesmo nada, pois não?
Definitivamente, um grandessíssimo estúpido!
Trunks apareceu no fundo do corredor. Estacou.
- Ainda estão aí? Vamos para o salão. As pipocas estão quase prontas.
- Ele vai-se embora – anunciou Maron, indicando Goten com a cabeça,
noutro trejeito emprestado de número 18. – Amanhã, tem um exame.
- Eu também tenho um exame – disse Trunks.
- Então, também deverias ir estudar.
Trunks aproximou-se dos dois.
- E deixar-te sozinha?
- Consigo sobreviver…
- Não seria um bom anfitrião.
- Esta noite, nunca chegaste a ser um bom anfitrião.
- Oh, queria remediar isso com um filme – e piscou o olho.
Maron reagiu como se tivesse acabado de ser picada por um inseto. A
tensão daquele encontro falhado tornou-se deveras insuportável e Goten disse,
com a voz esganiçada:
- Ela tem razão, Trunks-kun. Tenho de ir para casa. Ainda fica longe,
a minha casa… Até amanhã! Encontramo-nos na universidade.
E foi-se embora numa corrida rápida. Maron reparou que, com a pressa,
Goten deixara cair do bolso de trás das calças um papel branco dobrado. Achou
que devia conter alguns apontamentos do estudo interrompido de Goten daquela
noite, pois conseguia ver os rabiscos de fórmulas e equações. Trunks não dera
por nada.
Trunks bufou, contrariado:
- Bem, parabéns! Conseguiste livrar-te de um. Só falto eu.
Maron encolheu os ombros.
- Faz como entenderes. Estás na tua casa, que eu saiba.
- E o que é que vais fazer?
- Vou esperar pela tua mãe. Foi isso que combinei com ela. Cuidar de
Bra-chan até ela chegar.
- Se quiseres ir embora, estás à vontade. Eu estou aqui, vigio a minha
irmã.
- Não, obrigada.
Trunks girou sobre os calcanhares.
- Podemos aproveitar para ver o filme… - sugeriu ela divertida.
Mas ele respondeu-lhe ácido:
- Não, obrigado!
O papel de Goten continuava no chão. Maron apanhou-o e guardou-o.
Quando Bulma e Vegeta regressaram, ela aguardava no salão sozinha,
distraída com um programa musical que passava na televisão, estendida no tapete
felpudo. A segunda tigela de pipocas estava intocada. Trunks tinha-se refugiado
no quarto e não aparecera mais. Ficara furioso por ela lhe ter estragado o que
quer que tinha pensado para aquela noite.
Bulma perguntou-lhe como correra e Maron contou-lhe que Bra portara-se
como um anjinho. Bulma riu-se. Atrás dela, Vegeta estava sério e Maron
observou-o, pelo canto do olho. Talvez fosse ele a rir se soubesse como Bra
gostava de lutar e que estava longe de ser o anjinho sonhado pela mãe. Só
esperava que Trunks não revelasse o segredo. Nessa questão, teria de ser Bra a
fazê-lo. A miúda tinha o seu orgulho. Vegeta descobriu-a a olhar para ele e
fixou-lhe um olhar intenso que fez Maron corar. O orgulho do pai, sem dúvida.
Maron despediu-se e deixou a Capsule Corporation com um troféu – os
apontamentos de Son Goten.
Sem comentários:
Enviar um comentário