31 de janeiro de 2013

Capítulo VIII - VIII.1 A troca.


Era um livro velho e sem graça, com letras na capa preta onde se podia ler que pertencera a Babidi, a criatura que viera até à Terra, no passado, para despertar Majin Bu. Era agora utilizado por Zephir, o manual que seguia para conquistar o Universo, segredara-me Trunks. Nada mais que um simples murmúrio, pois estávamos todos solenemente a presenciar a cena como se fosse um ritual muito sagrado.
Devia-o ser para Toynara.
Quando Bulma lhe entregou o livro e lhe explicou do que é que se tratava, o jovem sacerdote sorriu. Mas não era um sorriso de satisfação, era mais de maldade e tive medo dele.
Encostei-me a Trunks para me aconchegar no calor do corpo dele e assim sentir-me a salvo das intenções esquisitas e das ideias secretas que Toynara devia estar a alimentar enquanto folheava o livro para ler atentamente as suas páginas, decorando-as certamente. Trunks deixou que eu me aconchegasse. Já não estava aborrecido comigo. Demonstrara-o sem qualquer dúvida quando eu tinha regressado à Capsule Corporation no início da tarde, com Gohan e Pan. Abraçara-me, entalara-me a cara entre as mãos, perguntara-me ansioso:
- Estás bem, Ana? Está tudo bem contigo? Não estás ferida? Estás mesmo bem?
Quisera chorar, emocionada. As arranhadelas nas mãos e nos braços já não me incomodavam e eu não me importava com os farrapos da minha roupa. Não lhe conseguira responder. Os meus olhos encheram-se de lágrimas, ele entendera que eu estava assustada, voltara a abraçar-me, derretera-me nos braços dele, fechando os olhos, esquecendo o mundo todo, esquecendo-me até de Gohan com uma Pan febril nos braços, de Goten, que tinha acabado de chegar e que estava com o amigo.
Depois, Gohan entregara o livro a Goku, que também estava na Capsule Corporation. Vegeta ordenara-lhe que trouxesse imediatamente Toynara do Palácio Celestial para que viesse ler aquele livro. Goku sumira-se com a Shunkan Idou, mas levara o filho e a neta para que Dende os curasse, apoquentado com o estado lastimoso que apresentavam. Antes, Bulma perguntara por Bra, Gohan dissera-lhe que não a tinha visto. Ela voltara-se para Vegeta e implorara-lhe que fosse procurar pela filha, Vegeta recusara-se, alegando que Bra descendia da casa real dos saiya-jin e que sabia desenvencilhar-se sozinha, mesmo que só tivesse sete anos como argumentara Bulma e que haveria de regressar pelo seu próprio pé. Bulma enfurecera-se, berrara, esperneara, mas não conseguira demover Vegeta da sua posição. Goten encolhia-se ao meu lado e ao lado de Trunks. E então, Goku regressara com Toynara e também com Piccolo, com Gohan e Pan totalmente restabelecidos. Entregaram o livro a Toynara que fizera aquele sorriso e fomos todos para o laboratório. Bulma amuara, pois ficara a saber que Bra tinha ido com Pan até ao Templo da Lua. Vegeta acrescentara mais um argumento à sua tese: Bra teria conseguido fugir e regressava a casa, em breve estaria ali com eles. Bulma gritara-lhe que não queria mais conversas por aquele dia e Vegeta ignorara-a pomposamente. A cara de Goku a presenciar aquela discussão era engraçada. Goten e Trunks mostravam-se embaraçados, Gohan estava indiferente, ou assim queria parecer, junto a Piccolo, dando a mão a Pan. Mas a cara engraçada de Goku mudara quando soubera que Ubo fora enfeitiçado e que lutava agora do lado de Zephir e que tinha sido ele que me tinha raptado. O olhar tornara-se sombrio e recolhera-se em pensamentos, cabisbaixo, braços cruzados, um pé assente na parede e eu não gostara de o ver assim. Era tão estranho ver Son Goku triste e preocupado.

***

No laboratório, num silêncio forçado, observávamos Toynara a ler o livro mágico. Aquilo não passava de um exercício monótono e entediante, enquanto fingíamos, muito mal, que não estávamos, efetivamente, a observá-lo.
Fiquei curiosa se lia mesmo todas as palavras, pois folheava-o com rapidez, maquinalmente, demorando sensivelmente o mesmo tempo em cada página, como um autómato. Talvez lesse apenas os títulos, os grandes temas, os feitiços mais importantes. Ou talvez tivesse uma capacidade enorme de reter o que ali estava escrito apenas se passasse os olhos por cima da imagem da página, aproveitando-se da vantagem de possuir uma rara memória fotográfica. O que quer que fosse que o fazia ser eficiente naquela leitura que se exigia célere, contudo, nunca o saberíamos, pois Toynara era mais misterioso e inacessível que Zephir. Pois desse Zephir sabíamos que queria conquistar o Universo a todo o custo e de Toynara não sabíamos qual era a sua verdadeira motivação. Vingança e honra pareciam-me demasiado evidentes e, por isso, inverosímeis naquele caso. As duas noções auto excluíam-se.
Tinham passado duas horas quando Toynara fechou o livro devagar. Pousou a mão na capa preta, tapando o nome de Babidi com os dedos.
Piccolo disse:
- Toynara?
O jovem sacerdote encarou o namekusei-jin com uma altivez que me arrepiou. Pressionei-me de encontro a Trunks, tanto que ele gemeu ligeiramente. Ao meu lado, Goten corou.
- Diz-nos o que encontraste no livro que nos poderá ser útil.
- Tanta coisa… - respondeu evasivo.
- Começa pelo Medalhão de Mu.
Toynara estreitou o olhar vazio. Novo arrepio. Decididamente não gostava daquele rapaz. Apertei instintivamente, como se o quisesse proteger e preservar, o triângulo dourado que usava ao pescoço.
- Neste livro existe um capítulo inteiro sobre esse medalhão. Foi assim que Zephir aprendeu tudo quanto existe para saber do amuleto. Tomou conhecimento da Dimensão Real, da Dimensão Z, da existência do deus Mu e do seu poderoso medalhão, do laço entre as duas dimensões, o sangue de amizade, a proibição de interagir. Depois, a fortuna também lhe sorriu, pois uma das metades do medalhão estava guardada no Templo da Lua e conseguiu, inesperadamente, percorrer metade do caminho até à glória final.
- Queremos saber se, nesse capítulo, também explica uma maneira de utilizar o medalhão contra quem pretende transformar-se num deus – insistiu Piccolo.
- Hai.
Vegeta espevitou-se.
- Nani? Utilizar o medalhão contra Zephir?
- Como, Toynara-san? – Perguntou Gohan.
- Comecemos pelo início. O livro contém vários avisos sobre a mistura entre as duas dimensões. O mais importante é sobre o tempo. Calculo que todos vocês devem saber que um dia na Dimensão Z equivale a um mês na Dimensão Real.
- Hai, sabemos isso demasiado bem – resmungou Vegeta.
- Sabem também que todos aqueles que pertencem à Dimensão Z ficam para sempre na Dimensão Real ao fim de um ano, pois a porta entre os dois mundos fecha-se definitivamente ao fim desse tempo. Existe ainda o aviso inverso, ou seja, quando alguém da Dimensão Real viaja para a Dimensão Z ao interagir com alguém desta última dimensão. Na essência, o aviso acaba por ser o mesmo. O tempo limite é sempre um ano. Ninguém da Dimensão Real pode ficar mais de um ano na Dimensão Z.
Trunks saltou atrás de mim. Fiquei gelada, fechei os olhos, apertei mais o triângulo dourado.
- Porquê? - Quis saber ele.
- Ao fim de um ano nesta dimensão, o peso do tempo apodera-se da pessoa da Dimensão Real. Se um dia na Dimensão Z equivale a um mês na Dimensão Real, ao fim de um ano, terão passado trezentos e sessenta e cinco meses, o que equivale, se não me falharem as contas, a cerca de trinta anos.
- E o que é que acontece?
- Os dias equivalentes ao tempo na Dimensão Real passam no tempo de um segundo e esse golpe é mortal. - Olhou para mim sem qualquer resquício de emoção. - Se alguém da Dimensão Real ficar na Dimensão Z mais de um ano, perde a vida.
Gaguejei num murmúrio:
- N-nani?!...
Senti uma aflição horrível no coração, o sangue a secar nas veias, o corpo a murchar.
A conversa na sala converteu-se numa tagarelice longínqua.
- Esses detalhes não interessam agora - disse Vegeta impaciente. - Quero saber como é que podemos utilizar o medalhão para destruir o feiticeiro.
- Ah… - disse Goku. – Também estás interessado nessa solução?
- Estou interessado em todas as soluções, Kakaroto!
- Ainda bem.
- Não quer dizer que utilize as mais – e vincou – fáceis!
Goku levantou um sobrolho. Toynara explicou:
- Bem, primeiro, o feiticeiro precisa da pessoa da Dimensão Real para unir as duas metades do amuleto. Mais ninguém o poderá fazer… Depois, o Medalhão de Mu unido deverá ser colocado num altar especial também por essa pessoa e invocar, no processo, o nome daquele que pretende a bênção do medalhão. Um feixe de luz mágica será criado e concederá o dom da imortalidade e da divindade àquele cujo nome foi invocado.
Encontrei os olhos de Trunks.
- Mas… - prosseguiu Toynara. – Mas para criar o altar mágico, Zephir precisa deste livro. O conjuro do altar é muito difícil e tem passos minuciosos a seguir. Basta um pequeno erro e o altar não fica perfeito. Acredito que Zephir não decorou o conjuro, nunca considerou que o livro lhe pudesse ser roubado.
- Como é que sabes que Zephir ainda não criou o altar? – Perguntou Bulma.
Eu não podia ficar na Dimensão Z. Se ficasse, morreria.
- Existe uma ligação entre o medalhão e o altar. Assim que este for criado, os raios do sol desenhado no medalhão mudam de cor, ficam alaranjados, simulando brilho. Ora, parece-me que isso ainda não ocorreu.
Trunks olhava-me e eu olhava-o a ele. A nossa tragédia nada significava naquela sala, na Dimensão Z, para Toynara, para nenhum deles.
- E se o altar não ficar perfeito, o que é que acontece? – Perguntou Piccolo.
- O Medalhão de Mu poderá conceder tanto a divindade, como a morte. Dependerá da escolha da pessoa da Dimensão Real.
Goku franziu a testa. Perguntou:
- Isso quer dizer exatamente o quê?
- O Medalhão de Mu unido tem a figura de um triângulo equilátero. Se o altar for criado sem erros, surgirá neste um espaço com essa forma, para aí ser colocado o medalhão. Mas se o conjuro apresentar falhas, o altar terá um espaço em forma de losango. Aplicando o Medalhão de Mu com o vértice principal para cima, a luz emitida será benéfica e concederá a divindade. Pelo contrário, se for aplicado com o vértice principal para baixo, a luz será maléfica e trará a destruição.
- Hum - Vegeta carregou no sorriso cínico.
- Pelo que nos acabaste de contar - disse Goku apreensivo. –, a Ana tanto poderá ajudar Zephir, como nos poderá ajudar.
A voz de Goku puxou-me repentinamente para o presente. A imagem de Trunks desfocou-se, ele afastou-se, deixei de o ver. Encostou-se outra vez à parede, ao lado de Goten. Pestanejei para despertar, colar a alma vazia ao corpo desfalecido, tentando fingir que ainda era a mesma de há dois minutos atrás, antes de saber que o meu tempo naquela dimensão estava contado.
- Exatamente – confirmou Toynara. – Se ela utilizar corretamente o medalhão, Zephir não sairá vitorioso.
A ironia das coisas. Estavam a dizer que eu tinha o poder de salvar o Universo da tirania de Zephir, que eu podia ser uma heroína, mas nunca até ali me havia sentido tão desesperada.
- Se esse maldito feiticeiro tentar raptá-la novamente – disse Vegeta –, desde que mantenhamos o livro connosco, não nos devemos preocupar. Podemos até deixá-lo levá-la. No fim de contas, se for necessário, ela poderá destruí-lo.
- De qualquer modo, não devemos deixar este assunto somente nas mãos da Ana – disse Goku. – Zephir é, acima de tudo, o nosso problema.
- Eu não me esqueço dessa verdade! – Protestou Vegeta eriçado. – E não desejo soluções fáceis, Kakaroto. Volto a dizê-lo!
- Eu sei… Acredito que ela, no momento de usar o medalhão no altar o volte para baixo para destruir o feiticeiro. Afinal, ela está do nosso lado. Mas, e se alguma coisa correr mal? E se Zephir conseguir criar o altar perfeito? E se Zephir enfeitiçá-la para que lhe obedeça e utilize o medalhão corretamente?
- A magia de Zephir não atua nela – revelou Toynara.
- Como é que sabes? – Perguntou Goku admirado.
- Ela é opaca… Possui uma aura diferente. Se eu não consigo utilizar a minha magia nela, Zephir também não consegue.
Apertei os dentes. Aquele rapazinho dissimulado já tentara lançar-me um feitiço? Cada vez gostava menos dele. No entanto, ao fazer a revelação, Toynara não olhara para mim. Não me evitava, apenas me desconsiderava.
- Desculpem se acabo com o vosso entusiasmo – disse Bulma –, mas creio que continua tudo na mesma. Apenas temos conhecimento de mais uma hipótese para derrotar Zephir. O mais importante até foi conseguir tirar-lhe o livro mágico.
- Fui eu que o trouxe! - Exclamou Pan de braço no ar.
Gohan mostrou-lhe uma cara zangada.
- Calada, Pan-chan.
A miúda obedeceu ofendida.
- E Zephir não poderá saber de tudo isso? – Perguntou Piccolo. – Que o altar imperfeito funcionará contra ele?
- Hai. Afinal, teve tempo suficiente para estudar o livro, para lhe decorar os mistérios. Mas confia que a rapariga utilize o medalhão da forma que o beneficiará, nem que para isso tenha de a forçar a fazer o que pretende. Ele é maligno, imaginará algo asqueroso para tê-la do lado dele. Além disso, conta com os seus poderosos guerreiros para o protegerem.
- E agora conta com mais um guerreiro – suspirou Goku.
Bulma encolheu-se e começou a roer as unhas.
- Para ser franco, não me agrada deixar este assunto nas mãos dela, ou de outra pessoa qualquer – disse Vegeta. - Nem mesmo de ti, feiticeiro, mesmo que eventualmente nos digas que encontraste nesse livro um qualquer feitiço que te permita derrotar o nosso inimigo pela magia, que gostam tanto de exibir como força superior a tudo o resto. Devemos contar sempre que teremos de eliminar Zephir pela força, derrotando os seus guerreiros. Todos os guerreiros!
- Vegeta, mas…
- Não existe mas, Kakaroto. Não temos margem para erros, a partir do momento em que temos uma duas metades do medalhão, a intrometida e o livro de magia. O cerco aperta-se, as possibilidades são cada vez mais reduzidas. Zephir sabe isso, melhor do que nós e vai atacar a qualquer momento.
- ‘Tousan – disse Gohan. – Vegeta-san tem razão. Zephir sabe que terá de agir já ou perde a oportunidade.
- Ana-san.
Goku olhava para mim.
- Contamos contigo, ouviste?
Baixei a cabeça atrapalhada.
- Hai. Sabem que vos ajudarei… sempre e em tudo o que me for possível. Vocês são… especiais. – Acrescentei num sussurro que ninguém ouviu, nem mesmo Trunks que estava tão próximo. - Para mim…
Depois, Goku sorriu-me e tive vontade de chorar, fugir, gritar, mas sufoquei todos os sentimentos que me apertavam violentamente a alma que nadava em desilusão quente e amarga.
Nisto, ouviu-se uma voz.
- Saudações, príncipe dos saiya-jin!
Vegeta levantou a cabeça para o teto, crispando o rosto tenso.
A voz apresentou-se:
- Fala-te o mais poderoso dos feiticeiros da Terra.
As palavras pingaram do teto, como plumas caindo sem pressas e assim que tocaram no chão encheram a sala e tudo se transtornou. Vi Goku ficar tão tenso quanto Vegeta, Bulma empalidecer, Piccolo reagir, Gohan proteger Pan colocando-a atrás de si, Goten suster a respiração, Trunks apertar os punhos. Toynara, contudo, inadaptado e altivo, quedou-se impassível.
-Zephir! – Rosnou Goku entre dentes.
Continuou, dirigindo o seu discurso a Vegeta:
- Príncipe dos saiya-jin, sei que abrigas na tua casa uma hóspede muito especial que o destino encarregou de a tornar igualmente especial para mim. Preciso dela, sabes muito bem disso. Tentei arrancá-la da tua proteção, mas a sorte sorriu-te sempre. Por isso, venho propor-te uma troca.
E calou-se durante tanto tempo que Vegeta viu-se forçado a perguntar:
- Que troca?
- Tenho comigo alguém que é tão especial para ti quanto a tua hóspede o é para mim.
Bulma sufocou um grito com as mãos.
- Não…
- Quem? - Perguntou Vegeta deitando uma rápida olhadela à mulher.
- A tua filha.
A imagem de Bra adormecida num banco de pedra, num recanto escuro dos subterrâneos do Templo da Lua bailou no teto da sala e dissolveu-se logo de seguida, desfazendo-se em gotas de luz que também caíram sem pressas.
Vegeta cerrou os punhos com mais força e Trunks deu um passo em frente.
- Descansa, príncipe dos saiya-jin. Não lhe vou fazer nenhum mal. Como te disse antes, venho propor-te uma troca. Entrego-te a tua filha, sã e salva, e tu entregas-me…
Fiquei zangada. Não passava de um mero adereço.
- …a rapariga da Dimensão Real.
Deixou as palavras assentar devagar, para que fossem pacientemente absorvidas sem qualquer indício de dúvida e depois completou:
- Com o Medalhão de Mu.
- Kuso! – Exclamou Goku.
Vegeta não respondeu.
A voz monótona de Zephir tornou a soar.
- A proposta está feita, príncipe dos saiya-jin. Se pretendes ver novamente a tua filha, vem até ao Templo da Lua com a rapariga da Dimensão Real na próxima hora. Se não apareceres dentro desse prazo, a tua filha tornar-se-á em mais um dos meus esbirros e viverá para sempre entre as trevas.
A seguir veio o silêncio, que também pairou na sala como coisa física. Soltei então o triângulo dourado que tinha estado sempre a apertar.
Bulma gritou:
- Vegeta, o que é que vais fazer? Zephir quer enfeitiçar a tua filha!
Trunks gaguejou, a olhar para Vegeta, a olhar para mim.
- ’Tousan, não podemos… Mas não podemos entregar-lhe a Ana. E com o medalhão.
Pan puxou pelas calças do pai.
- Não percebo… Mas ela tinha fugido do templo… Porque é que foi voltar?
- Provavelmente, nunca conseguiu sair do templo – disse-lhe Gohan. E num assomo protetor, agarrou na filha, carregou-a ao colo, apertou-a com força.
Tinha o olhar de Vegeta cravado em mim e nem sei com que forças consegui aguentar aquele olhar sem vacilar, sem hesitar. Sentia-me desfeita, assustada, mas estranhamente calma e resignada. Sabia qual iria ser a decisão do príncipe dos saiya-jin e aceitava-a com um estoicismo que me confundia. Não tinha necessidade de mostrar o que não era, mas ali eu não era eu – era parte da lenda, da maior lenda do Universo.
- ‘Tousan?
- Vegeta, estamos a decidir sobre a vida de Bra. Eu não a quero perder desta maneira!
- ‘Tousan, não entregues a Ana ao feiticeiro. É demasiado arriscado. E se ele consegue fazer o altar perfeito?
- É demasiado arriscado deixar a Bra com Zephir. Ela só tem sete anos, é uma criança! Não condenes a nossa filha às trevas.
Goku interveio:
- Vegeta, pensa bem. Mesmo com essa possibilidade de termos um altar imperfeito, devemos afastar a Ana de Zephir. Seria demasiado arriscado. Proponho que deixemos passar o prazo que ele nos deu. Ele que fique com Bra… Depois, atacamos. Ao eliminarmos Zephir, todos aqueles que ele domina com a sua magia voltam ao normal. Também podemos pedir a ajuda de Toynara para desfazer os feitiços de Zephir, se acabar com ele não for suficiente. Temos o livro…
- Kakaroto! – Cortou Vegeta num berro sem nunca, nunca deixar de olhar para mim. – Estamos a falar da minha filha, miserável!
- ‘Tousan! – Insistiu Trunks.
- Vegeta, por favor – implorou Bulma.
O príncipe dos saiya-jin respirou fundo.
- Kakaroto! – Tornou a chamar com uma voz imperiosa que vibrava na sala, dentro de mim. – Vou partir para o Templo da Lua com a intrometida e tu vais levar-nos até lá com a tua técnica da transmissão instantânea. Compreendido?
Goku tentou protestar:
- Mas…
Vegeta ergueu um dedo diante do rosto de Goku.
- A minha decisão está tomada. Zephir que fique com a intrometida e com aquele medalhão. Quero a minha filha de volta. E nem mais uma palavra!
Ao despegar de mim aquele olhar negro, cortante, consegui mover-me, timidamente, recuperando as funções vitais. Agarrei-me com unhas e dentes à minha coragem, arranquei a voz das profundezas do meu peito e disse:
- Eu vou.
Todos olharam para mim, um mar de olhos que me submergiu novamente, quase levando, naquela vaga monstruosa de olhares, a pouca coragem que conseguira convocar.
Vegeta disse com secura:
- Ótimo! Ainda bem que concordas com a minha decisão. Tornarás as coisas mais fáceis.
Foi a minha vez de lhe devolver o mesmo olhar cortante.
- Espero que não me deixem muito tempo com Zephir. Conto que me venham salvar… está bem?
Depois olhei para Trunks que estava pálido.
- Claro, Ana-san – disse Goku e colocou as mãos em cima dos meus ombros e sorriu-me com tanta meiguice que as lágrimas começaram a subir descontroladas, peito acima, até aos olhos. Pisquei-os para empurrar as lágrimas para baixo. Não queria que Vegeta me visse chorar.
Piccolo disse:
- Esta situação poderá acabar por ser-nos favorável. Zephir não contará com um ataque depois de termos aceitado a sua chantagem.
- Hai – concordou Goku soltando-me os ombros, voltando-se para o namekusei-jin. – Ao ter a Ana-san e as duas metades do Medalhão de Mu, Zephir estará certamente mais preocupado com o altar mágico do que com a defesa do Templo da Lua.
- Vamos embora! – Exigiu Vegeta impaciente.
Goku sorriu-me outra vez.
- Preparada?
- Hai.
- Ei… Não tenhas medo. - confortou-me. – Tu pertences a nós, Ana.
Vegeta tocou nas costas de Goku, Goku tocou-me no braço. Era quente, impossivelmente real. Fiquei tonta, a boca seca, o estômago apertado. Levou a outra mão à testa. Fechei os olhos, aspirando o odor dele e de Vegeta, dos dois saiya-jin de sangue puro. Era diferente do cheiro de Trunks. Mais selvagem… muito perigoso. Não me despedi de Trunks. Não fui capaz, mas ele também não se despediu de mim. Senti uma lágrima quente a escorrer lentamente pela minha face, naquela parcela de tempo em que viajávamos através do espaço como partículas luminosas. Depois, subitamente, o ar fresco do exterior entrou-me pelas narinas. Senti o rasto da lágrima gelar na pele, apagando os vestígios da minha momentânea falta de coragem.
Estávamos nas margens de um lago que se estendia como um espelho quieto junto a uma floresta. Diante de nós estava um conjunto decrépito de edifícios castanhos, rodeado por um muro parcialmente em ruínas.
Numa abertura do muro, onde antes estivera um portão, aguardava uma pequena comitiva. Os dois demónios ladeavam um homem magrizela e alto vestido com um hábito cinzento que tinha uma criança pela mão. O homem veio até nós a caminhar suavemente, como se pairasse e não caminhasse. Era Zephir. Nunca o tinha visto e agora não lamentava o facto, pois parecia ser alguém desagradável, sinistro e medonho.
O vento passou numa rajada forte e breve.
- Eu sabia que virias, príncipe dos saiya-jin.
Vegeta cruzou os braços.
- Trouxe-te o que pretendes, feiticeiro – disse altivo.
- Nunca falto à minha palavra. Também tenho aqui o que pretendes.
- Entrega a minha filha, feiticeiro.
Zephir olhou para mim.
Goku sussurrou-me:
- Vai. Não te esqueças do que te disse.
E eu fui.
Zephir soltou a mão de Bra. Andámos as duas ao mesmo tempo, passámos uma pela outra. Não vi, mas creio que Bra apanhou a mão de Vegeta, Vegeta tocou em Goku, Goku uniu os dedos à testa e saíram dali com a Shunkan Idou.
Fiquei sozinha.
Atravessei o muro, onde já não estavam os dois demónios, e o feiticeiro conduziu-me até uns aposentos austeros. Evitei olhar para aquele homem horroroso, que me infundia um asco terrível. Estaquei junto a uma cama estreita encostada à parede. Mordi o lábio inferior, cabisbaixa, torcendo as mãos.
- Bem-vinda ao Templo da Lua.
Não devolvi a saudação.
Zephir arrancou-me o amuleto com um safanão e soltou uma risada.
- Finalmente! O Medalhão de Mu é meu.
Depois, apertou-me o pescoço.
- E tu também és minha. Totalmente minha!
Não conseguia respirar, sorvia o ar aos poucos, estava à beira do desmaio, mas decidi não me deixar abater por qualquer ameaça física ou psicológica. Ele precisava de mim, desesperadamente, para conseguir o que queria: derrotar Son Goku e dominar o Universo. Nunca me iria fazer mal. Tentava atingir-me pela via mais fácil que era aterrorizar-me.
Tentava enfeitiçar-me, mas lembrei-me que não o podia fazer e isso devia ser um espinho cravado no seu orgulho. Desistiu, percebi que abandonava a teimosia de tentar subjugar-me com a sua magia, supondo que haveria, pelo menos, um feitiço que haveria de resultar. Os ombros descaíram, uma centelha de ódio inflamou-lhe o olhar. Soltou-me o pescoço. Eu comecei a tossir, enquanto recuava um passo.
Voltou-me costas. Apoiei uma mão no peito, enquanto procurava respirar normalmente, os pulmões enchendo-se e regalando-se com o ar fresco, bom, essencial. Com esse gesto, senti falta do triângulo dourado. Era meu… Fazia, de algum modo, já parte de mim. Vi a corrente dourada balançar junto ao braço de Zephir. Cobicei-o, quis recuperá-lo, mas contive o impulso.
- Vais ficar nestes aposentos até chegar o momento certo. O Templo da Lua nunca foi aberto a mulheres, mas durante os festivais sagrados da lua, nos tempos antigos, ouvi contar que eram escolhidas donzelas para representar a deusa-mãe. Tu… vais ser a minha deusa-mãe. Apesar de… já não seres uma donzela, minha querida.
Corei enojada.
- Não gosto dessas tuas roupas modernas. Aqui, vais vestir-te como uma sacerdotisa da lua.
Estalou os dedos, continuando de costas para mim.
- Em cima da cama estão as tuas novas vestes. Se não estiveres vestida condignamente quando nos voltarmos a encontrar, vou castigar-te severamente. Não tentes desafiar-me ou vais arrepender-te. Mesmo que sejas importante para mim, não hesitarei em fazer-te sofrer, minha querida.
Espreitei a cama. Por cima da coberta escura estava um vestido branco comprido, de manga curta, com o peitilho bordado com símbolos mágicos e uma representação da lua. Tinha também um xaile cinzento e umas sabrinas da mesma cor.
Zephir saiu do quarto, trancando a porta atrás de si.
Sentei-me desolada na cama. Agarrei no vestido e comecei a chorar, batizando-o com as minhas lágrimas, inaugurando com dor, solidão e desamparo aquela minha nova condição na Dimensão Z.
Pensei em Goku e confortei-me com as suas palavras.
“Tu pertences a nós”.
Sim, podia pertencer. Mas, um dia, teria de ir embora.

30 de janeiro de 2013

Capítulo VII - VII.9 Prisioneira.


O espectro de Babidi, com as mãos azuladas e minúsculas coladas no vidro da bola que o aprisionava, contemplava a explosão de fúria de Zephir.
- Os kucris!
A cena de histeria contrastava com a atitude imaculada que o feiticeiro gostava de exibir. Babidi revirou os olhos, aborrecido. Debaixo da capa de uma indiferença arrogante, Zephir era um desvairado de sangue quente que perdia facilmente o controlo. Já se tinha arrependido de o ter escolhido como seu instrumento para a conquista do Universo.
- Roubaram-me o livro e partiram o vaso dos kucris! Acabaram com os meus preciosos ajudantes… Já não vão nascer mais kucris. Mas quem ousou entrar sorrateiramente no Templo da Lua e fazer esses estragos irreparáveis?
Zephir volveu os olhos inflamados para Babidi, que flutuava dentro da bola. Apontou-lhe um dedo esquelético, agitando a larga manga do hábito cinzento.
- Foi obra tua, maldito?
- Não deves estar a falar a sério, meu caro Zephir. Achas que sou capaz de fazer alguma coisa dentro desta prisão? Além do mais, pareces esquecer que sou apenas uma alma do Outro Mundo, sem um corpo palpável. Que posso eu fazer? Se tivesse esses poderes que tu pensas que tenho, utilizava-os em meu proveito, para sair desta bola, por exemplo, e não nalgum esquema mirabolante para me vingar de ti.
- O livro desapareceu do altar. O teu livro! – Bradou.
- Era o meu livro, certo, mas és tu quem o usas.
- O livro era a coisa mais valiosa que possuía. Era o meu passaporte para o trono do Universo. Tu sabias disso, Babidi! Só tu conhecias o meu segredo. – E apontou para o espaço vazio do altar, entre as duas velas.
O espectro encolheu os ombros.
- Não tenho nada a ver com o que aconteceu.
Num acesso de raiva, Zephir atirou a bola à parede. O vidro era especial, criado através da magia, e não se partiu. Quando esta rebolou pelo chão, Babidi atordoado rebolou com a bola, aos encontrões dentro desta. Zephir voltava-se para o altar, punhos apoiados neste.
- Foi aquele maldito rapaz. Foi ele – disse com uma voz seca, acalmando-se aos poucos. – Ele é o teu precioso Majin Bu. Entraste dentro da mente dele, convenceste-o a ajudar-te. Sabotou os kucris, escondeu o livro. Faz o que tu lhe pedes, não o que eu lhe ordeno. Há quase um dia que o enviei à procura da rapariga da Dimensão Real e da outra metade do Medalhão de Mu e ainda não regressou.
Babidi levantou-se dentro da bola, agarrado à cabeça tonta.
- Estive sempre contigo, ando sempre contigo. Como podia fazer isso de que me acusas?
- Sabes que preciso daquele livro. Sem ele, não conseguirei fazer o conjuro para criar o altar onde se utilizará o Medalhão de Mu que me transformará num deus. Queres fazer chantagem comigo… – Rosnou furibundo: – A tua liberdade em troca do livro.
Os olhitos de Babidi arregalaram-se.
- Pensas mesmo que fui eu! Admito que seria uma excelente ideia… mas que não me ocorreu. Juro-te!
Zephir puxou a bola até à altura do rosto lívido. Desenhou um sorriso pérfido e disse pausadamente:
- Já nem quero saber se foste tu, ou não. Vou acabar contigo. Estou farto da tua presença, Babidi. Não passas de um espírito insignificante. E mais insignificante ficarás quando eu convocar as trevas dos Infernos para desfazer essa tua alminha de nada, até que não sobre nada de ti. Nem a recordação! Até nunca, Babidi!
- Olha que te podes arrepender – implorou o espectro com um guincho.
- Eu nunca me arrependo de nada!
Os dedos do feiticeiro, que alçou sobre a bola, cobriram-se com uma névoa intermitente avermelhada. O espectro tornou a guinchar, falando muito depressa:
- Lembra-te que o livro de magia chama-se “Livro de Babidi”. Eu sou Babidi! Sei o meu livro de cor e salteado. Todos os conjuros e todas as magias foram criados por mim, foram reunidos por mim. Posso ajudar-te. Não tens o livro, mas tens-me a mim.
Zephir exclamou siderado:
- Mais chantagem?!
- É a única chantagem.
Passos junto à porta do santuário.
- Sensei?
Kumis apareceu. Zephir detestou ser interrompido e gritou ao insolente:
- Demónio, fora daqui! Estou ocupado!
- Mas isto vai interessar-lhe, sensei.
E entrou no santuário, empurrando-a, exibindo-a como se fosse um troféu, presa por um braço. Zephir ficou boquiaberto a olhar atarantado para a miúda que o encarava sem mostrar uma nesga de medo, apesar dos gritos, do demónio e de ter o braço esmagado. Respirou fundo, recolheu a energia avermelhada, ocultou as mãos dentro das mangas do hábito, perguntou sem qualquer emoção:
- E o que vem a ser isto?
Keilo postou-se na entrada do santuário, a observar a cena.
- Encontrei-a no templo, sensei. Vinha com uma amiga que fugiu. Não sei para onde foi a outra, mas esta foi fácil de agarrar.
Zephir estreitou os olhos.
- Outra miúda?
- Hai, sensei. Fugiu… Eh… Atacou-me e conseguiu fugir.
Keilo desatou a rir. Mas Zephir continuou sério.
- Hum… Temos meninas guerreiras no Templo da Lua? – Inclinou-se ameaçador, mas ela continuou a enfrentá-lo corajosa, sem sequer piscar os olhos azuis. – Não vale a pena perguntar-te nada, pois não, minha querida? Não me irias responder. Mas não preciso das tuas respostas para saber quem és, de onde vens e o que queres do Templo da Lua, menina guerreira.
Num gesto repentino pousou a mão gelada sobre a testa dela, pressionou ligeiramente e a miúda reagiu com um gemido e um safanão. Sorriu deliciado. Finalmente, incutira-lhe medo.
O processo não foi muito demorado. A mente era simples e pouco treinada. Bastaram duas palavras, pouco menos de cinco segundos e a excitação da vitória acendeu-lhe o olhar maléfico. Retirou a mão gelada e a miúda caiu de joelhos desmaiada, pendurada na manápula de Kumis.
- Foi um prazer conhecer-te, Bra – disse Zephir calmamente. Voltou-se para o demónio: – Kumis, leva-a para um sítio seguro, vamos precisar dela nas próximas horas. Estás proibido de fazer mal à filha de Vegeta.
Surpreendido, Keilo descruzou os braços. Nunca imaginara que aquela pirralha pudesse ser tão especial. Ela tinha o sangue real dos saiya-jin a correr nas veias!
- Hai, sensei.
Kumis fez uma vénia e foi pelos corredores levando Bra debaixo do braço. Keilo seguiu o demónio com curiosidade.
Zephir elevou a bola de vidro e sorriu.
- Agora entendo que não tiveste nada que ver com os recentes acontecimentos, Babidi.
O espectro não lhe respondeu. Cruzou os braços, baixou os olhos amuado.
O feiticeiro sentiu-se triunfante, apesar dos últimos reveses. Permitiu-se um ligeiro suspiro de alegria. Podia ter perdido o seu precioso livro de magia, podia ter perdido o vaso dos kucris, mas com a menina guerreira ganhara a imortalidade.
Largou a bola de vidro e chamou por Ubo.

29 de janeiro de 2013

Capítulo VII - VII.8 Recompensa merecida.


O corpo de Pan escaldava nos meus braços e eu entrava, lentamente, em desespero. O silêncio que me rodeava era espantosamente massacrante. Pelo menos, os tremores de terra e as explosões brilhantes tinham terminado e ousei pensar que o combate já tinha terminado e que tinha terminado bem para o lado dos bons. Gohan viria para nos salvar, a mim e à filha.
Claro que viria…
Mais uma vez, o triângulo dourado ao meu pescoço ajudou-me a conciliar a calma necessária para enfrentar aquela situação. A espera, a doença da miúda, o meu desamparo. Agarrei-o, marquei as arestas na palma da mão. Aconcheguei Pan no meu colo o melhor que pude, beijei-lhe os cabelos. Estavam molhados de suor.
A floresta que nos rodeava era estranhamente repousante e, quando me apercebi, tinha dormitado.
Despertei de repente e pus-me de pé. Vi-o a correr para nós.
- Gohan! - Exclamei.
E depois arrepiei-me porque ele estava magoado e tinha o dogi esfarrapado.
- Ganhaste?
Não me respondeu. Os olhos abriram-se muito ao ver que eu tinha a filha dele nos braços.
- Pan-chan! Onde é que a encontraste?
Claro que tinha ganhado, pensei. Senão, não estaria ali. Respondi-lhe:
- Ela é que me encontrou. E se não o tivesse feito… não sei onde estaria eu neste momento.
No fundo de um abismo, esborrachada, adiantei, mas só para mim.
Passou uma mão pela testa da miúda. Franziu o cenho.
- O que é que se passa com ela? Está tão quente.
- Ficou assim, de repente. Levava-me com ela, a voar, quando perdeu os sentidos e caímos nesta floresta. O que acabou por ser uma sorte, pois as árvores amorteceram a queda.
- Ela estava ferida?
- Hai, tinha um ferimento na cara. Lavei-o com água e o ferimento… desapareceu. Não deixou sequer uma cicatriz. Mas depois ficou com febre.
Ele apertou os dentes, ficou tenso. Tinha um aspeto desolador, todo arranhado e ensanguentado, mas com aquela expressão tornou-se temível e recuei um passo.
- Kucris. Pan sempre esteve no Templo da Lua. Kuso!...
- Nani?
- E dizes que lhe deste água? Mas deveria ter-se curado totalmente. Não percebo como é que apareceu esta febre…
- Curado só com água?
Respirou fundo.
- Ana-san, não podemos perder mais tempo neste lugar. Estamos demasiado perto do Templo da Lua e não desejo enfrentar-me aos demónios do feiticeiro ou ao saiya-jin que ele comanda. – Reparou no medalhão e fez um esgar de desagrado. – Ainda por cima, tens contigo a segunda metade do Medalhão de Mu.
- Decidi usá-lo.
- Hum… Não sei se é uma decisão acertada, mas não quero discutir isso agora. Vamos embora!
Concordei com um aceno de cabeça.
Passou um braço pela minha cintura.
- Arigato – disse-lhe eu.
Ficou atrapalhado.
- Nani?... Porque é que me estás a agradecer, Ana-san?
- Lutaste por mim… Salvaste-me.
Sorriu-me com uma candura desarmante e senti o meu coração dar um salto.
- E tu também salvaste a minha filha. Eu é que te devo agradecer.
Sorri-lhe e ele corou. Fletiu os joelhos, a preparar o impulso e foi então que me lembrei.
- Espera! Pan trazia com ela aquele livro que está ali. Não o largava nem por nada. Se dizes que ela esteve no Templo da Lua, então o livro veio de lá e deve ser importante.
Sem me soltar a cintura, dobrou-se, apanhou o livro e entregou-mo, perguntando-me se eu conseguia carregar com Pan e com o livro, ao mesmo tempo. Respondi-lhe que sim. Gohan agarrou-me com mais força e eu preparei-me para a viagem.
Levantámos voo e dirigimo-nos para a Capsule Corporation.

28 de janeiro de 2013

Capítulo VII - VII.7 Desistir.


Ubo apanhou Gohan pelos farrapos da túnica do dogi.
O sabor férreo do sangue, primeiro, o ardor do impacto, depois, ajudou-o a despertar. Ubo socava-o e tornava a fazê-lo com requintes de malvadez. Com os olhos turvos de dor e de fadiga, Gohan percebeu o sorriso maligno do adversário.
Tempo de agir.
As forças eram poucas, a energia quase nenhuma. Mas a vontade, essa, era inabalável. Ele era um saiya-jin.
O punho fechado de Ubo viajava de novo para a sua cara. Com as duas mãos, Gohan golpeou-o na base do pescoço. Largou-lhe a túnica. Acertou-lhe com o antebraço no meio da cara, esborrachando-lhe o nariz e depois afastou-se. Ganhou uma curta distância, para respirar apenas, porque Ubo recuperou depressa e atacou mais depressa ainda. Mal teve tempo para se defender das pancadas que se abateram sobre ele. O confronto corpo-a-corpo foi curto e duro. Apanhou com um pontapé em cheio no estômago e caiu de costas. Um espasmo doloroso assaltou-o. Soergueu-se, levantou-se, endireitou-se o melhor que foi capaz.
Um raio de luz cegou-o.
Preparou-se para o embate e ouviu os músculos estalarem com a pressão. Ubo estava na outra extremidade do raio, braço estendido, mão de dedos abertos. Na cara persistia o sorriso malvado.
Talvez não tivesse outra oportunidade e preparou-se para arriscar tudo naquela jogada.
O calor do raio avermelhado chegou-lhe à pele. Cerrou os dentes. Ubo não esperaria um contra-ataque; quanto muito, apenas uma defesa incompleta. A energia daquele raio era imensa.
Saltou, com todo o seu querer arranjou forças no fundo da alma, tão ferida quanto o corpo. A sua velocidade surpreendeu Ubo. Ainda tinha o braço estendido a comandar o raio quando Gohan lhe apareceu na retaguarda.
O raio explodiu, libertando labaredas enormes e pedaços de pedra fumegante.
Ubo voltou-se ao senti-lo atrás de si, rosnando enraivecido. Gohan esmurrou-o com todo o seu empenho, fazendo-o dar uma volta no ar, cair de cara para baixo e enfiar-se contra o rochedo, cavando neste a forma do seu corpo.
Gohan saltou, uniu as duas mãos.
- Kamehame
Ubo mexeu-se.
- Ha!!!!
A explosão abalou as montanhas.
Depois do ataque, Gohan reuniu o resto das suas energias. O corpo cintilou e partiu.
Fugia.
Um enorme pedregulho caíra sobre o local onde a vaga azul embatera. Ubo tinha desaparecido, engolido pelo entulho e pela explosão. Mas não estava ferido. Ainda tinha muito para dar naquele combate.
Mas Gohan não.
Por isso fugia.
Sabia que era cobardia, mas nada mais poderia fazer. O seu orgulho de saiya-jin doía-lhe, mais do que qualquer ferida que lhe cobria o corpo arranhado, amassado e ensanguentado, mas ele era consciente dos seus limites. Demasiado consciente. Conseguira ganhar o tempo necessário para que a Ana fugisse e o que se propusera fazer, estava feito.  E fora impecavelmente eficiente.
Isso não o consolou e, amargurado, chorou enquanto fugia.

***

Ubo viu-o afastar-se. Sorriu. O ataque com a Kamehame tinha sido bom. Fora uma pequena amostra do que o filho de Son Goku conseguira, em tempos, fazer. Observava-o enquanto lhe dava espaço e esperança de que conseguiria fugir dele. A seguir iria persegui-lo e iria terminar aquele combate. Sem qualquer piedade.
A seguir, procuraria pela rapariga da Dimensão Real e pelo Medalhão de Mu. Sem qualquer hesitação.
A voz de Zephir chamou-o. Apagou o sorriso. Esqueceu a adrenalina de uma quase perseguição, o predador farejando o sangue quente da presa, e seguiu o apelo do mestre.

27 de janeiro de 2013

Capítulo VII - VII.6 Um milagre.


As explosões faziam tremer tudo em volta, mas nunca me detive. Sabia que teria de continuar, sem olhar para trás, sem pensar no perigo, resolutamente, como Orfeu a subir dos Infernos.
Tinha abandonado a ladeira, havia uma espécie de caminho serpenteante num desfiladeiro escuro e meti-me por aí. Era um lugar estreito e claustrofóbico que normalmente não me atreveria a conhecer, mas a urgência da situação não me dava escolhas ou a possibilidade de ser caprichosa. Era de tal maneira estreito que conseguia tocar nas paredes de cada lado se tivesse os braços abertos e foi assim que corri pelo desfiladeiro, roçando as mãos na pedra que fervia e que oscilava, porque a terra continuava a tremer.
Um ruído ensurdecedor, como milhentos trovões rolando do céu abaixo, penetrou no desfiladeiro. Olhei para cima e vi os limites superiores balançarem perigosamente. O fim da passagem estava a alguns metros, uma corrida breve de não mais que dez segundos e desatei a correr. A luz do sol escureceu e o peso brutal de rochedos gigantescos caía atrás de mim. Sei que gritei, enlouquecida de medo, mas o som do desfiladeiro a desmoronar-se num apocalipse de poeira e de pedra abafou o meu infeliz grito e bem que podia urrar por socorro que ninguém me haveria de escutar.
Atirei-me de cabeça, como quem mergulha para uma piscina e saí do desfiladeiro a tempo de não ser esmagada pelo último rochedo. Tossi ao sentir os pulmões congestionados. Agora já não era só as mangas do casaco rasgadas, tinha também as calças abertas nos joelhos e as bainhas desfiadas.
A terra roncava sacudida pelas explosões. Olhei por cima do ombro. Vi o desfiladeiro em escombros, vi as explosões luminosas no céu. Gohan combatia contra Ubo e se eu quisesse que o sacrifício de Gohan tivesse algum significado, deveria continuar a fugir.
Impulsionei-me com a ajuda de um braço, corri. Tropecei, caí e voltei a correr. O terreno subia. Não podia ser, não queria ir para cima, queria descer e abandonar aquele deserto rochoso. Voltei para trás, contornei um penedo, evitei um abismo, choraminguei de medo mas prossegui, a sentir o peso do Medalhão de Mu a motivar-me para que continuasse sempre, sem olhar para trás, melhor que Orfeu que, no final da empresa, cedera à tentação e olhara mesmo para trás.
Uma explosão trovejou, igual ao rebentar de uma potente bomba. A onda de choque provocada pela explosão apanhou-me e derrubou-me, como se tivesse levado com um monumental murro nas costas. Caí de borco, raspando novamente as palmas das mãos, enchendo-as de sangue. Arquejei sem fôlego. Os arranhões picaram-me a pele. Limpei as mãos às calças e continuei, coxeando.
Descobri outra ladeira e vislumbrei para lá de um muro denteado de rochas, as pontas mais altas de muitas árvores, o que indicava existir ali uma floresta. Não me agradava enfiar-me num sítio onde existiriam animais, mas não tinha alternativas.
Meti-me pela ladeira. O chão continuava a agitar-se, atirando-me da esquerda para a direita, como se tivesse bebido álcool a mais. Os meus pés tentavam não derrapar, mas era impossível. Uma sacudidela mais forte atirou-me contra um rochedo do lado direito, mas a sacudidela seguinte atirou-me para o precipício desprotegido do lado esquerdo. Gritei, não sabia que conseguia gritar tanto. Caí. Consegui agarrar-me a uma saliência do precipício e fiquei pendurada por um braço, sobre um vazio de arrepiar.
- Ah!... Socorro!
Novo grito. Desesperado, profundo, horrivelmente assustado.
Cravei as unhas da mão solta na rocha numa tentativa de me içar e escalar o que podia até chegar novamente à ladeira, mas a terra tremeu outra vez e foi como se me enxotasse, impedindo a minha salvação. Comecei a chorar, em pânico. As forças desapareciam do braço herói que me impedia de me esborrachar na fundura daquele abismo, os soluços agitavam-me o corpo, o peso do medalhão de Mu puxava-me para o inevitável.
Sim, era inevitável eu acabar esborrachada na fundura do abismo. E talvez fosse o melhor. Já era a segunda vez que tinha esse pensamento mórbido. Sem mim, Zephir nunca se iria transformar num deus. Sorri, embalando-me nesse detalhe, convencendo-me que não seria assim tão mau.
Ah!, mas seria. Seria muito mau. Shenron não me podia ressuscitar, pois as bolas de dragão tinham sido recentemente utilizadas. Arrependi-me por ter tido a ideia do segundo desejo, mais valia que Goku tivesse enviado Shenron de volta e o tornasse a chamar, passados dois meses e já me podia devolver a vida perdida naquele abismo, depois de Zephir. Fechei as pálpebras, só que dois meses depois podia ainda haver Zephir e, provavelmente, o melhor fora utilizar o possivelmente último desejo das bolas de dragão.
O rochedo onde me segurava fendeu-se. Vi o meu sangue no rochedo. Arreganhei os dentes com aquele arrepio de medo que me arrefeceu as extremidades do corpo.
Tinha chegado a minha hora.
Lembrei-me de Trunks, queria que ele não chorasse demasiado a minha perda, não suportaria sabê-lo triste por causa de mim ou por causa de outra coisa qualquer. Sabê-lo triste, simplesmente. O meu coração apertou-se. Queria ter-lhe dito tantas coisas, a começar por “desculpa se te falei de mirai  Trunks e não o devia ter feito, mas juro que não sabia que tu não sabias que ele existiu”.
E então o rochedo quebrou-se de vez e comecei a cair. Voava sozinha, em direção ao Outro Mundo, pensando em Trunks, pensando em como tinha adorado todos os momentos que tinha passado com ele, naquela dimensão, na minha dimensão. Sobretudo, na minha dimensão.
Senti um esticão súbito. Parei de respirar, atónita com as sensações extremas que experimentava. Agora subia e alguém agarrava em mim pelo pulso esquerdo. Estavam a salvar-me. Gritei de alívio, de quase alegria até perceber que até podia ser Ubo e isso significava que estava a ser levada para o templo odioso e que Gohan tinha perdido o combate.
Olhei para cima.
- Pan! – Exclamei com outro grito.
Hoje, era toda gritos. Que raiva por não me conseguir controlar!
Ela não me respondeu. Voava velozmente, com um livro de capa negra debaixo do outro braço.
- Pan, salvaste-me – ventilei, querendo falar mais alto mas tinha um peso no peito a tolher-me as palavras. – A-arigato… Pan-chan…
Senti duas lágrimas grossas desprenderem-se das minhas pestanas. Sim, a miúda tinha acabado de me salvar. Agarrei no Medalhão de Mu, travando a sua dança errática. O metal era real e tocar naquela coisa dura, de arestas precisas, acalmou-me.
Alcançámos a floresta que eu tinha descoberto quando tentava fugir do labirinto de rochedos. Mas estranhei ao ver que as árvores, gradualmente, passavam cada vez menos depressa e cada vez mais perto. Olhei para Pan. Parecia sonolenta, estava pálida e suada. Reparei num rasto de sangue coagulado num ferimento na face esquerda.
- Pan-chan…?
Nisto, teve um colapso. Os olhos apagaram-se e a cabeça pendeu, fazendo com que os cabelos negros caíssem como uma cortina sobre o rosto, ocultando-o. O corpo ficou inerte e por uma fração de segundo tive a impressão que pairávamos… antes de perdermos totalmente a sustentação e começarmos a despenharmo-nos na direção da floresta.
Não fui capaz de gritar. Acho que até eu ficara farta de escutar os meus estúpidos gritos. Abri os braços e puxei-a para mim, abraçando-a, abraçando também o estranho livro que ela, mesmo inconsciente, não largava.
A fortuna sorriu-nos inesperadamente. Debaixo de nós estava uma árvore frondosa que amorteceu a nossa queda. O primeiro impacto com as ramagens foi, contudo, doloroso. Arquejei, encolhendo-me, protegendo ainda mais a miúda que se aninhava desfalecida nos meus braços.
As ramadas quebravam-se à medida que descíamos, havia folhas verdes lançadas ao ar, a madeira estalava junto aos ouvidos, as farpas arranhavam-me a pele dos braços. Contive todas as interjeições e todos os gemidos, fechando os olhos com força. Até que parei com o chão imenso contra as minhas costas.
Não me mexi durante algum tempo, talvez minutos, para ter a certeza que estava parada, que tinha mesmo chegado a terra firme. Que estava salva, mais o Medalhão de Mu. Então, abri os braços e até as pernas, pois sem me aperceber tinha-as enrolado por cima de Pan para formar uma concha protetora. Continuava a segurar teimosamente aquele livro. Chamei-a, mas não me respondeu.
Pousei-a na erva macia, encostei um ouvido ao pequeno peito. O coração batia, mas sem ritmo e enfraquecido. Apalpei-lhe a testa gelada.
- Oh, não…
Abanei-a suavemente, chamando-a novamente pelo nome, mas Pan não reagiu. A respiração começou a ficar irregular. O estado era grave. Reparei na ferida da face esquerda, estava com um aspeto horrível. Para além do sangue coagulado havia também pus amarelo. Senti vómitos e tapei a boca. Ao desviar a cara, reparei num pequeno regato onde corria água cristalina. Arrastei Pan suavemente para colocá-la mais perto daquele fio de água mínimo. Mergulhei a mão, limpei-lhe a ferida. O pus saiu, o sangue endurecido dissolveu-se. Depois levei-lhe água aos lábios que estavam gretados e secos. Ela bebeu a água com sofreguidão. Estremeceu, reagindo pela primeira vez. Dei-lhe mais água, ela aparentava ter muita sede, pois bebia num ápice o pouco líquido que a minha mão lhe conseguia levar e parecia que nunca era suficiente. Então, esticou-se num estertor, gritou e depois ficou parada a respirar apressadamente. Nunca abrira os olhos e nunca largara aquele maldito livro. Escutei-lhe novamente o coração. Batia depressa.
Mordi o lábio inferior. Estava com febre, agora. Puxei-a para o meu colo e enroscou-se como um gatinho, sempre com o livro. Encostei-me a um tronco próximo, vigiando o seu estado, sem saber o que fazer mais a não ser esperar.
- O-O-Okaa Okaasan! – Chamou num murmúrio.
Embalei-a o melhor que pude.
Vi o céu azul por entre as árvores e vi que brilhava, de tempos a tempos, onde o horizonte se recortava em penedos e penhascos.
Gohan ainda combatia com Ubo.