Três dias tornaram a passar e Zephir sentia-se mais forte. A forma
física voltava e com ela um crescente desejo de vingança.
Nunca mais falara com Kang Lo, que passava o tempo no exterior, no
deserto árido das montanhas rochosas, empenhado nos seus treinos para ser o
maior lutador do mundo. E nem se dera ao trabalho de se manter acordado nos
dias que passaram, exceto para comer e tomar periodicamente o remédio que lhe
preparava o homem. Zephir mergulhara voluntariamente no mundo do inconsciente
para assim recuperar mais depressa de todas as feridas e mazelas. Dera
resultado. Ao fim de três dias, sentia-se como novo.
Restava saber se os seus poderes mágicos não haviam diminuído.
Primeiro, por causa de ter sido espancado pelos cinco monges. Segundo, devido
ao chá adulterado com a substância inebriante que bebera.
Ainda na cama, fechou os olhos e aguardou. O teste final… Os minutos
passavam cada vez mais devagar… Lentamente, o mundo escoou-se por um buraco
negro onde se agitavam brumas espessas e negras. Sentiu claramente que o seu espírito
vagueava por ali, a misturar-se com os outros espíritos, a confundir-se com as
brumas. Um sentimento de felicidade invadiu-o. As suas capacidades mantinham-se
intactas e fora capaz de viajar facilmente com a mente até aos confins dos
mistérios. Aí ficou por instantes e a seguir enveredou por um túnel de luz que
se foi alargando à medida que avançava no espaço e no próprio tempo. As
sensações regressaram, a claridade tomou conta do espírito errante. Abriu os
olhos e todo o fulgor que precedera a entrada no mundo dissolveu-se nas paredes
sombrias e rugosas da caverna de Kang Lo.
Respirou fundo, deixou que o coração acalmasse. Esticou o braço
direito e concentrou-se num pequeno pote de barro que repousava em cima da mesa
de pedra. O pote tremeu, uma, duas vezes. Depois, ergueu-se no ar, atravessou a
caverna e foi parar à sua mão estendida. Olhou o objeto com orgulho.
Conseguira! Ainda dominava a matéria de todas as coisas e podia movimentá-las conforme
lhe aprouvesse, como tinha aprendido e praticado no Templo.
Com outro gesto, largou o pote e enviou-o de volta à mesa de pedra. Tornou
a concentrar-se. Olhou para a mão onde estivera o pote, mexeu os dedos esguios vagarosamente
como se apalpassem o ar, fazendo surgir nestes uma mancha amarela transparente
que se materializou numa esfera brilhante. Pequenas faíscas envolviam a esfera
que subiu no vazio, desprendendo-se da mão trémula, iluminando-lhe o rosto
sorridente. Mais um triunfo! Não se esquecera de como fazer para chamar a sua
energia vital e transformá-la em bolas de fogo.
Agora, um pequeno teste de telepatia. Deixou-se ficar imóvel na cama
de palha, de olhos abertos fixos no teto. A boca murmurou algumas palavras
mágicas. O corpo estremeceu e ficou mole. A mente começou a viajar, num corrupio
louco que o entonteceu, ao princípio. Aquele sempre fora um exercício
complicado e aqueles dias a convalescer tinham-no desabituado daquelas viagens
mentais. Insistiu, mesmo cheio de náuseas e com uma imensa vontade de desistir.
As mãos agarraram furiosamente a manta que o cobria e, ao fim de alguns
segundos, viu os picos das montanhas. Reconheceu-os a todos. Fora ali onde
estivera às portas da morte. O vento passou pelos caminhos pedregosos e encheu
o ar de pó, o céu azul estava salpicado de nuvens muito brancas, o sol brilhava
lá longe, os montes agrestes espalhavam sombra pelos outros montes. Vales,
planaltos, cumes, encostas, serras, escarpas, pedras e Kang Lo. O lutador
estava sentado algures, no cimo de uma montanha, no meio do vento, em profunda
meditação. O corpo forte brilhava debaixo do sol. O treino de Kang Lo! Entrou
na mente do homem e viu que nela só havia um pensamento: serei mais forte do
que ele!
O negro abateu-se sobre os olhos e gemeu aflito com falta de ar. Sentou-se
na cama, a cabeça a rodopiar como um pião louco. Tentou recuperar a respiração
e vencer a forte tontura. Depois riu-se. Riu-se muito, soltou enormes
gargalhadas sonoras, enquanto limpava o suor do rosto com as costas das mãos. Tinha
voltado! Estava curado! Precisava de um pouco mais de descanso para dominar
todas as suas técnicas de magia e não ser dominado por elas, mas isso era
apenas uma questão de tempo.
Calou-se e admirou o silêncio da caverna. Os pensamentos voltaram-se
para o Templo da Lua, para os monges e para os sacerdotes, para o Sumo-Sacerdote,
para Toynara… O dia do seu regresso estava perto. Esse dia seria o mais maldito
e também o mais glorioso para o Templo da Lua. Contava levar a cabo a sua
vingança e depois mostrar ao mundo a verdadeira força e o verdadeiro
significado do lugar. O seu maior sonho iria, por fim, concretizar-se.
- Olá, Zephir! Vejo que estás finalmente curado.
Sobressaltou-se com aquela voz, reconheceu-a daquele dia nas
montanhas. Era a mesma brisa quente, a mesma sensação de ansiedade a esmagar-se
na pele. O espírito! O espírito voltava a visitá-lo. Só que, desta vez, estava
mais forte e já não delirava. Podia finalmente interpelá-lo e descobrir quem
era. Assim, muniu-se de toda a sua autoridade e perguntou com firmeza:
- Quem és tu, espírito?
Uma mancha azulada foi pousar à sua frente, aos pés da cama. Zephir
conseguiu finalmente perceber os traços daquele espectro, que eram bastante estranhos
para uma criatura da Terra. Era atarracado, com uns braços enormes e magros,
uma cara anormal com alguns pelos espetados, coroada por dois olhos semelhantes
aos de um camaleão e por um crânio às pregas parecido a uma colmeia.
O espírito preferiu não responder e colocou outra pergunta:
- Lembras-te do que te perguntei nas montanhas, Zephir?
- Lembro-me! Mas fiz-te uma pergunta primeiro. Por isso, responde-me!
E como sabes o meu nome?
O espírito soltou uma risadinha histérica.
- Oh! Isso já são duas perguntas… Sei o teu nome porque sei tudo!
E calou-se, por tanto tempo que Zephir irritou-se:
- Estás a brincar comigo? Aviso-te que não deves brincar comigo! Não
te chamei, espírito. Nem agora, nem no outro dia, nas montanhas. E se pensas
que vais atormentar-me daqui para a frente, aparecendo e desaparecendo como uma
alma penada, até deixares-me louco, estás muito enganado. Sei como livrar-me de
presenças indesejadas do Outro Mundo!
- Eu sei que sabes – concordou o espírito deveras divertido.
- Sou um feiticeiro muito poderoso! Não brinques com a minha magia! –
Ameaçou Zephir.
- Eu sei que és um feiticeiro. É por isso que vim falar contigo.
Estava justamente à espera de alguém como tu.
A ira de Zephir acalmou um pouco.
- O que queres dizer?
O sorriso do espírito tornava-se cada vez mais enigmático, à medida
que o tempo passava e o silêncio crescia. Talvez aquele espírito do Outro Mundo
estivesse ali para ajudá-lo, por algum motivo obscuro, a derrotar aqueles que o
tinham humilhado e Zephir não se queria arrepender de ter tido essa ajuda na
mão, essa grande oportunidade de triunfar, e tê-la perdido por ser impulsivo.
Por isso, esperou.
- Queres saber quem sou eu? – Começou o pequeno espectro azul, notando
que Zephir se acalmara. – Pois eu digo-te. Eu também sou um feiticeiro!… Ou
melhor, fui um feiticeiro, pois agora estou morto. E bem morto! Chamo-me Babidi
e não pertenço a este planeta. Vim até à Terra há muito tempo atrás para conquistar
o Universo com a ajuda de uma criação diabólica do meu pai, Bibidi, que se
encontrava aqui, num enorme casulo. Mas acabei traído por essa criatura que me assassinou.
Um fim inglório para um grande feiticeiro como eu. Estive quase a conseguir o
que queria, ao lado dessa criatura… O poder dos mundos… Diziam que a criatura
era um monstro, mas nunca achei que assim fosse. Era apenas… a mais perfeita
arma para atingir um velho sonho do meu pai, que acabou por também ser o meu
sonho.
Zephir estremeceu. Já tinha escutado aquelas palavras dentro de si.
- Mas nenhum dos meus sonhos se concretizou, infelizmente – continuou o
espírito. – Quando cheguei ao Outro Mundo, a minha alma recusou-se a franquear
a porta para o Além. Estive na entrada, perante o Grande Juiz, mas os meus
poderes ainda serviram para alguma coisa e saí de lá. Vim para a Terra, para o
sítio onde aterrara a minha nave espacial, nestas montanhas. Não para as
assombrar, mas para encontrar alguém como tu, Zephir.
- E o que pretendes de mim, Babidi?
- Pretendo que me ajudes a terminar aquilo que deixei por acabar neste
planeta. Pretendo que vingues a minha morte!
E ao dizer aquilo, o espírito de Babidi elevou os braços e um vento
fantasmagórico encheu a caverna. Zephir não se deixou impressionar.
Pensou naquilo que Babidi queria que ele fizesse e, por instantes,
hesitou. Não sabia se estava disposto a seguir as indicações do espírito, pois
não lhe agradava estar debaixo das ordens de ninguém, obrigado a executar uma
vingança que não lhe dizia respeito. Para mais, tinha outros assuntos em que
pensar que incluíam o seu próprio ajuste de contas.
O espírito percebeu-lhe as dúvidas.
- Sei o que pensas, Zephir! – Disse. – Não quero nada em troca, pois
nada do que tu me possas dar poderia satisfazer-me mais do que ver este planeta
debaixo do jugo da minha magia… Lembras-te daquilo que te perguntei, nas
montanhas?
- Lembro-me. Perguntaste-me se… – E Zephir engoliu em seco,
incomodado, como se aquele espírito azul de uma criatura disforme lhe tivesse
roubado um pouco da alma ao conhecer o seu maior segredo. – Perguntaste-me se
queria ser poderoso.
- E tu respondeste…
- E eu respondi que sim! – Exclamou impaciente.
- Tu queres ser poderoso, Zephir! – E parecia que o espírito troçava
dele. – Li na tua alma e na tua mente que o teu sonho é conquistares o trono do
Universo. Para começar, queres tomar para ti o Templo da Lua, onde aprendeste
tudo o que sabes e onde te tornaste num feiticeiro. E consideras esse passo
como o primeiro a ser dado para dominares a Terra e depois os demais planetas
habitados do Universo. E consideras que basta o poder mágico do Templo da Lua
para atingires os teus objetivos. Pois eu digo-te que esse poder não é
suficiente. Digo-te também que estás condenado ao fracasso com o teu poder
atual, pois existem outros poderes muito superiores ao teu. Serias aniquilado
num instante por aqueles que guardam este planeta, tu e o teu querido Templo. O
teu nome seria esquecido e sepultado juntamente com as cinzas do Templo da Lua
e jamais seria lembrado: essa seria a tua sorte!
Zephir, muito vermelho, ia protestar, mas Babidi não o deixou,
levantando o braço direito. Continuou:
- Mas com a minha ajuda, conseguirás triunfar. Confia em mim. Sim, é
verdade que tens poder e podes fazer muita coisa, porque dentro de ti dorme um
talento especial para a magia. Mas ainda te falta aprender muito. E eu posso
ensinar-te.
- Como te atreves a falar-me assim, maldito… ? – Perguntou Zephir, a
afogar a raiva por aquela criatura etérea que zombava dele em cada palavra.
- Todos os meus segredos estavam num livro, num grande livro que trouxe
comigo na minha nave espacial.
Zephir aplacou, de súbito, a ira. Interessou-se.
- Chama-se simplesmente “Livro de Babidi”. O livro sobreviveu à
explosão que destruiu a minha nave e está perdido nestas montanhas. Encontra-se
algures… numa fenda, debaixo da terra, preso entre rochas, no fundo de uma
gruta igual a esta… Quem sabe? – Aproximou-se de Zephir, abriu muito os seus
olhos de camaleão. – Encontra o meu livro, Zephir! Encontra-o e terás nas tuas
mãos o poder necessário para subjugares a Terra e o Universo. O poder do Makai!
- Makai?
- Saberás de coisas que nunca julgaste possível existirem. Conjuros e
feitiços para lá da tua imaginação. Outros mundos e outras formas de vida
cheias de segredos e mistérios que servem as forças do oculto. Planetas
desconhecidos e estrelas distantes que percorri e de onde retirei sabedoria e
poder… E assim cumprirás o teu sonho e executarás a minha vingança. Serás o
Senhor de todas as Galáxias! Será Zephir quem irão venerar, mas terá tudo sido
obra de Babidi!
O rosto de Zephir brilhou. Alucinado com o discurso, rastejou por cima
da palha até onde se agitava Babidi, envolto naquela fina capa azul. Como se as
paredes da caverna tivessem ouvidos e o que fosse dizer não pudesse ser
escutado, sussurrou:
- Dizes-me, então, que tenho de encontrar o teu livro, Babidi? E que o
teu livro irá ajudar-me a derrubar o Templo da Lua?
O espírito nada respondeu. Zephir tornou, no mesmo tom de voz:
- E onde está o teu livro? Em que sítio devo começar a procurar?
Mas o espírito permaneceu mudo, sem expressão. Explodiu:
- Responde-me, raios! Responde-me!
O espírito de Babidi sorriu zombeteiro. Mas não respondeu. Dissolveu-se
de mansinho no ar, como se uma brisa tivesse soprado e o tivesse levado. Zephir
ficou novamente sozinho, na caverna mal
iluminada.
Soltou um grunhido, como se o tivessem atravessado com uma lança.
Deixou-se cair na cama e aí ficou, deitado de costas. Sentia-se, de qualquer
forma, desfeiteado. Parecia-lhe que Babidi troçara dele todo o tempo em que
tinham conversado, pois conhecia-lhe o seu maior segredo – ser o Senhor do
Universo – e desprezava-o, porque considerava-o um néscio, demasiado confiante
nas suas habilidades nas artes do oculto. Se ele próprio, Babidi, era muito
mais poderoso como feiticeiro e falhara, Zephir seria derrotado sem apelo… Ah!
Como Zephir odiava Babidi! Odiava-o porque este conhecia o fundo da sua alma e
ele tinha jurado que ninguém, nunca mais, iria conhecer o fundo da sua alma.
Dali a nada Kang Lo regressaria à caverna. Zephir respirou fundo. Não
devia odiar Babidi. Afinal, o espírito revelara-lhe a existência do livro
mágico e estava disposto a ajudá-lo naquilo que mais desejava.
- Maldito! – Exclamou entre dentes. – Por que razão não me disseste
onde estava o teu livro? Tu sabes onde está, senão não saberias que sobreviveu
à explosão da tua nave espacial. Gostas de te julgar superior a mim, maldito
espírito?
Logo a seguir, amaldiçoou-se a si próprio. Os sacerdotes conheciam o
autocontrolo. Diminuiu as emoções, aplacou os sentimentos interiores de raiva e
desprezo. Começou a pensar e tudo se revelou claro como o cristal. Seria fácil
encontrar o tal livro. Através da telepatia, Zephir faria uma viagem mental
pelas montanhas. Com o seu treino na energia que rodeava todas as coisas
terrenas, ele descobriria o livro no meio das pedras, rochas e pedregulhos – um
objeto estranho no meio da natureza.
No dia seguinte, logo após a saída de Kang Lo para os seus treinos
infindáveis que começavam ao nascer do sol, Zephir saiu também. Nessa noite,
tivera um sonho. Sonhara com Babidi e com as montanhas.
Uma tempestade de vento levantava enormes quantidades de areia e de
pequenas pedras que fustigavam tudo em seu redor. As enormes escarpas, os
abismos, as rochas afiadas. Zephir escavou e escavou, até as mãos doerem. Era
naquele sítio, tinha a certeza. Tinha-o visto, no sonho… O rosto inexpressivo
iluminou-se com o brilho do triunfo. Por debaixo de uma pedra, numa cova cheia
de areia, Zephir viu o canto roído de uma encadernação desbotada, de cor negra.
- O “Livro de Babidi”!
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