A chama trémula de uma tocha iluminava as paredes da caverna,
desenhando na rocha figuras fantasmagóricas. Estava quente, era um sítio
aconchegante. O cheiro doce do incenso enchia o ar e reconfortava a alma. O
burburinho de um riacho interior, a água a gorgolejar pelas pedras, soava a
música aos ouvidos adormecidos. O resto era silêncio. Por momentos, julgou
estar no Templo da Lua.
Uma sombra passou-lhe diante dos olhos cansados. Um sentimento de
ansiedade assaltou-o. Seria o espírito que o visitara nas montanhas? A seguir,
deixou os pulmões inundarem-se de ar, relaxou os músculos. Devia concentrar-se
e não se deixar embalar pelas emoções. Não, não era o espírito. A sensação era
distinta àquela que ele sentia quando os espíritos do Outro Mundo o visitavam.
Respirou fundo, mais uma vez, descerrando as pálpebras sobre os olhos.
Sentia-se melhor, mais descansado e mais forte. O corpo ainda conservava a dor
incómoda que o tinha acompanhado naqueles últimos dias, fruto das múltiplas
feridas que lhe tinham infligido, mas agora era mais suportável. Em vez das
pontadas terríveis que o faziam padecer de um sofrimento tão atroz que apenas
desejava a morte, agora parecia apenas que uma onda quente e perturbadora ia e
vinha com cada pulsar do coração. Tolhia-lhe os movimentos, condicionava-lhe os
reflexos, mas nada mais.
A mente divagou por pensamentos estranhos, misturados com sensações
fugidias de outros tempos. Sonhava. Recordou dias mais felizes no Templo, ao
lado dos monges, ao lado de Toynara… A lembrança perturbou-o. O corpo
crispou-se e um lampejo de raiva invadiu-lhe a alma. Não tinha esquecido a
vingança. Agora que sentia estar a curar-se, sabia que veria, por fim, o seu
desejo satisfeito de fazer sofrer todos aqueles que o tinham feito também
sofrer.
A sombra voltou a agitar-se na caverna. Não estava sozinho, havia mais
alguém com ele. Resolveu despertar convenientemente, pois não gostava de se sentir
indefeso perante ninguém e muito menos perante estranhos. Podia ser aquele ou
aquela que o salvara, mas a gratidão nunca fora o seu forte e nem esse merecia
a sua confiança. Uma vez tinha confiado em alguém e esse tinha-o traído. Nunca
mais… Prontificou-se, assim, em recuperar a consciência, pois até ali
encontrara-se mergulhado num estado sonâmbulo.
Percebeu que estava deitado numa cama feita de palha. As mãos tocavam
numa manta de lã que o cobria até ao peito, com os braços e a cabeça de fora.
Estava abrigado num lugar escuro, que ele viu mais claramente ser uma gruta
rochosa, meio iluminada pela luz difusa de uma tocha. E, perto da luz, estava
um homem sentado a uma mesa de pedra com uma malga de barro entre as mãos. Levantou
os olhos assim que o sentiu desperto. Abanou a cabeça
lentamente, de cima a baixo, como que a analisar o estado de saúde do hóspede,
e disse num sorriso:
- Vejo que estás melhor. Despertaste por fim, homem!
Não se mexeu e deixou-se ficar a observar aquele homem que se
levantava e vinha para junto da cama de palha.
- Estavas bastante ferido quando te encontrei nas montanhas, há três
dias atrás – continuou o homem, sentando-se numa saliência rochosa perto da
cabeceira. – Estavas à beira da morte, sabias? Na primeira vez que te vi, pensava
que já tinhas ido desta para melhor. Sem sentidos, gelado, branco que nem um
fantasma, quase sem sangue. Ainda estás branco, mas pareces-me bem melhor. Isso
agora vai passar com uma boa comida e um bom descanso!… - Ficou mais sério e
perguntou – O que foi que te aconteceu? Foste atacado por algum animal? Foste
atacado por alguém que te queria roubar?
A recordação do colar de contas de coral vermelho a cair desfeito a
seus pés fê-lo estremecer com uma dor na alma tão forte, que jurou senti-la com
igual intensidade por todo o corpo. O rosto arrepanhou-se num esgar de aflição.
Os golpes que recebera dos cinco monges estavam ainda marcados na carne e bem
vivos na pele e recordou-os um por um. O homem que estava ao seu lado percebeu
que não estava completamente curado.
- Foste atacado por algum malfeitor? – Tornou o homem. – É isso mesmo
que parece. Tantas marcas pelo corpo, tanto sangue perdido. – Como não obteve
resposta, insistiu preocupado – Não consegues falar? Não sabes falar? Não me
ouves? Percebes o que te digo?
Controlou-se. Era um sacerdote e os sacerdotes estavam treinados para
não sentirem os males do corpo. Fome, sede, cansaço, sono, dor ou desejo. O
homem continuava a olhar para ele, com um ar imbecil e abrutalhado, à espera de
uma resposta. Resolveu dar-lha.
- Percebo perfeitamente o que tu me dizes.
O homem ficou mais descansado.
- Ah! Então, falas! Diz-me…
- Agora, sou eu que faço as perguntas – interrompeu. Não gostava de falar
deitado, à mercê daquele homem rude, mas ainda não tinha forças para se sentar.
Tentou, contudo, manter a superioridade conferida pelo estatuto de sacerdote do
Templo da Lua. – Foste tu que me recolheste? Conta-me o que aconteceu.
O homem fez que sim com a cabeça e acrescentou:
- Encontrei-te, como te disse, nas montanhas há três dias atrás, no
início da noite. Estavas muito ferido, não dava nada por ti, mas… Sei lá!
Resolvi trazer-te para cá e arriscar a salvar-te. Não tinha nada a perder. No
primeiro dia, mal te mexias e mal respiravas. Tratei-te os ferimentos. Lavei-os
e liguei-os. Ainda tentei alimentar-te, mas como estavas inconsciente, não o
consegui fazer. No segundo dia, deliravas. Parecias um louco! Gemias e só falavas
em monges e num templo… No terceiro dia, melhoraste bastante. Tornei a
tratar-te das feridas, fiz-te novas ligaduras. A febre baixou, consegui
fazer-te engolir um caldo para te alimentares e uma tisana que eu mesmo
preparei com ervas da montanha que ajudam a sarar mais depressa qualquer tipo
de ferimento. E hoje, finalmente, acordaste…
- Pelo que me disseste, estou aqui há três dias. E este é o quarto
dia.
- Precisamente, homem! – Exclamou com um rasgado sorriso. Estava
contente por ter conseguido salvar-lhe a vida. – Ainda não estás na melhor das
formas, mas dentro de dois ou três dias penso que já recuperaste parte das
forças e vais conseguir sair dessa cama. Confia em mim que sei o que digo!
Franziu a testa, incomodado com os modos do homem. Era um autêntico
brutamontes, que devia pensar com os músculos e não com o cérebro. Também, não
se podia esperar mais de quem vivia sozinho como um eremita, numa gruta situada
no local mais agreste, desolado e sombrio que jamais conhecera. E quando recordou
a vegetação em redor do Templo da Lua, a crescer viçosa nas margens do lago, a
garganta ficou apertada.
- É aqui que vives? – Perguntou para afastar lembranças que lhe eram
desnecessárias naquela altura.
- É, sim. Vivo nesta caverna, sozinho. O meu treino exige-o.
- Treino?
- Sim. Estou a treinar para ser o maior campeão de artes marciais
sobre este planeta! - Disse, com orgulho.
Estranhou a pretensão do homem, mas sentiu curiosidade em relação a
esta, pois gostava de ambição sob todas as formas. As artes marciais nunca lhe
interessaram, mas sabia algumas coisas sobre um mítico campeão que nunca
conhecera a derrota, através de alguns monges do Templo que dedicavam os seus
tempos livres a ler sobre os Grandes Torneios que se realizavam e dos seus
campeões.
- Então, queres ser superar a arte de Mr. Satan?
- Mr. Satan? – Grunhiu o homem ofendido e levantou-se. O corpo
musculado brilhou, sacudiu os seus fartos cabelos ruivos para trás das costas. –
Mr. Satan é um incapaz, um falhado, um inútil, um impostor. A maior fraude de
todos os tempos!
- Talvez… Agora já está velho e já não combate como antes. Perdeu a
capacidade de defender o seu título de campeão…
- Não, não! Ele sempre foi uma fraude, mesmo quando era campeão –
explicou o homem com desprezo. – Claro que não lhe retiro mérito por ter ganhado
um campeonato ou dois de artes marciais. Se alcançou o título foi porque
combateu bem, acabou por ser superior no tatami
e mereceu-o. Mas Mr. Satan não é o lutador mais forte do planeta. Existe alguém
com mais poder!
A palavra fascinara-o desde sempre de uma maneira especial. Poder! De
repente, a conversa sobre artes marciais pareceu-lhe interessante e desejou
saber mais. Os olhos arregalaram-se e perguntou:
- Dizes-me que existe neste planeta um lutador capaz de superar Mr.
Satan nas artes marciais? Capaz de rivalizar com as façanhas heroicas que
contam dele e mesmo ultrapassá-las?
- Não é só um. São vários! – Respondeu o homem e tornou a sentar-se na
rocha, perto da cama.
- Vários?
- Sim! Ao princípio, também julguei que Mr. Satan era um herói… Era
apenas um miúdo acabado de fazer catorze anos e só ouvia falar do nome do
grande campeão que nos tinha salvado a todos. Mas o verdadeiro herói não foi Mr.
Satan!… Descobri isso ao ver na televisão, uma vez, o filme que fizeram na
altura do grande torneio organizado pelo monstro que veio do espaço para nos
conquistar, a quem chamavam Cell. Junto ao tatami
desse torneio havia mais alguém, no deserto… Muitos lutadores! No filme, vê-se
claramente que Mr. Satan foi logo derrubado no primeiro assalto contra o
monstro. Depois, quem subiu ao tatami
foi um homem com uns cabelos dourados muito esquisitos que desafiou o monstro e
iniciaram o combate, mas não se percebe nada da luta. Só se vê céu, areia e
pedras do deserto. Existiu ainda um último lutador, que já não vi, porque
interromperam a emissão do filme por razões desconhecidas. E houve ainda
algumas escaramuças entre uns monstrinhos pequenos e os outros lutadores. Aqueles
que aguardavam junto ao tatami e não
Mr. Satan! Foram eles que nos salvaram, porque só eles tinham a força
necessária para derrotar aquele monstro tão poderoso!
- Monstro?
- Sim. Não sabias? Devias saber, tens ar de ser mais velho do que eu…
Há vinte anos trás, o planeta foi ameaçado por um monstro. E foi Mr. Satan quem
ficou com os louros da vitória! Ainda há outra história esquisita… Sete anos
depois desse primeiro monstro aconteceu alguma coisa realmente extraordinária,
da qual não me lembro, nem ninguém se lembra. Apenas sei que devemos estar
gratos a Mr. Satan, porque, ao que parece, ele salvou-nos outra vez. Bah! Para
mim, são tudo mentiras!
A história não tinha pés nem cabeça. No entanto, o monstro da
narrativa apaixonada do homem não lhe era totalmente desconhecido. Passara os
últimos quarenta anos no Templo e tudo o que sabia existir no mundo exterior
ouvira contar nesse lugar. Um dia, tinham-lhe falado de um monstro que viera do
espaço e que estava a dizimar grande parte da população mundial. Mas já tinha
sido há tanto tempo!
O que estava bem marcado na sua memória, porém, eram os sermões do
Sumo-Sacerdote quando lhes contava sobre dois monstros que tinham destruído o
planeta e que nessa altura os poderes do Templo da Lua tinham sido inúteis. Avisava-os
assim da vulnerabilidade do Templo, do limitado alcance da magia mais poderosa,
da humildade perante os mistérios do mundo. Agora, aquele homem falava-lhe num
desses monstros, com um dado novo: tinha havido alguém que fora capaz de derrotar o monstro, com um poder tão
imenso que superava o poder lendário de Mr. Satan e das suas artes marciais! E
mesmo do Templo da Lua, pela lógica.
- O que contam de Mr. Satan é tudo uma grande aldrabice – prosseguiu o
homem. – Ele não nos salvou e nem tem essa força enorme que diz possuir. Quem
nos salvou do Cell foi outro guerreiro. E num dia de Outono, há muito, muito
tempo, tive a prova de que o que vi no tal filme do torneio do monstro era
verdade. Conheci um desses lutadores que aguardavam junto ao tatami!
Escutou com atenção o que o homem lhe contava.
- Uma vez, estava a regressar de um dos meus treinos, encontrei aquele
homem alto. Aquilo que me chamou mais a atenção não foi a sua posição de
meditação, mas sim o seu terceiro olho, implantado na testa. Assim que cheguei
ao pé dele, levantou-se e cumprimentou-me. Ia-se embora, mas ofereci-lhe uma
refeição na minha gruta. Aqui! Ele, ao princípio, recusou, mas insisti tanto
que acabou por aceitar. Vi que era um lutador, tal como eu, e um solitário, tal
como eu. Podia aprender com ele e saber se buscava o mesmo que eu:
desmascarar Mr. Satan, ser o mais forte do planeta! Comeu, agradeceu, mas antes
de partir fiz-lhe algumas perguntas. De todas as vezes sorria e só respondia
que sim, ou que não ao que eu lhe perguntava sobre o torneio do monstro e sobre
o grande campeão. Por fim, depois de muita conversa fiada, disse-me que eu
estava certo, que quem derrotara Cell não fora Mr. Satan mas sim um grande
lutador que ele conhecia desde sempre!
- E quem era esse lutador?
- Só me disse que quem salvou a Terra de Cell… foi ele, os seus filhos e os seus amigos.
“Posso-me humildemente considerar entre esses amigos”, revelou. E foi-se
embora.
- Quem era? Aquele que veio até esta gruta?
- O seu nome era Ten Shin Han. Reconheci-o mais tarde como um dos
lutadores do filme. Era um dos que esperava junto ao tatami, ao lado do guerreiro dos cabelos dourados. Ten Shin Han, um
grande lutador… Acho que chegou a ganhar um dos Grandes Torneios de Artes
Marciais… Claro que sou maior que ele! – Concluiu soberbo.
O enredo tornava-se fascinante. Encontrou naquela história algo que,
com esperteza e subtileza, poderia reverter a seu favor e ajudá-lo na vingança
e no sonho de conquista. Quem quer que tivesse sido esse monstro, não seria
nada diante dos seus poderes mágicos e da sua crueldade. E aquele homem que o tinha
salvo, com a sua ambição e orgulho desmesurado, que queria acima de tudo ser o
maior lutador de artes marciais do planeta, seria o seu instrumento perfeito.
Mas… cada coisa a seu tempo. Conhecer aquele homem tinha sido um golpe
de sorte. Agora, teria de convencê-lo a juntar-se à sua causa, pois iria
necessitar de um par de mãos fortes e ágeis… Disse, prestável:
- Eu posso ajudar-te a descobrir quem são esses lutadores.
- A sério? - Perguntou o homem, desconfiado.
- Sim. Sei de um sítio onde existem mil e um registos de mil e uma
histórias. Tudo o que aconteceu neste planeta está nesse sítio, a maior
biblioteca do mundo, a Sala Sagrada. É um recinto guardado por monges especiais,
que redigem todas as histórias que conhecem e de que ouvem falar. Nunca lá
entrei, nem nunca estive autorizado a tal, mas se me ajudares, também te ajudo
e conto-te aquilo que mais queres saber.
O homem cirandou pela gruta, pensativo. Aguardou, sabendo de antemão
que a resposta seria positiva. O homem não iria resistir à tentação de saber
que podia desvendar aquele mistério que pontilhava o seu treino nas artes
marciais.
- Está bem – respondeu o homem. – Quando estiveres totalmente curado,
voltaremos a falar nesse sítio que tu conheces. Agora… queres comer alguma coisa?
Tenho ali uma sopa que fiz há bocado… Está muito boa. Queres?
Fingiu simpatia e aceitou a sopa. Desprezava aquele homem porque este conhecera
o seu lado mais fraco, vira-o indefeso e estivera à sua mercê, mas precisava
dele. Naquele dia e noutros dias que estavam para vir. Enquanto o homem foi até
um pequeno caldeirão com uma malga de barro numa das mãos e uma grande colher
na outra, disse:
- Ainda não sei o teu nome.
O outro apresentou-se:
- Chamo-me Kang Lo. E tu?
- Zephir.
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