Pousou o livro de capa azul em cima da secretária, por entre uma pilha
de papéis soltos e de outros livros, mal equilibrados uns em cima dos outros, e
dirigiu-se para a entrada, onde alguém anunciava a sua chegada com três toques
na porta. Não estava à espera de visitas naquele dia e enquanto atravessava a
casa, pensava em quem poderia ser.
Passou uma mão pelos cabelos desalinhados para os pentear, ajeitou os
óculos na cana do nariz com um dedo, abriu a porta.
- Okaasan! – Exclamou, feliz
com a surpresa.
Chi-Chi sorriu, acentuando as covinhas junto à boca.
- Gohan-chan!
Abraçou a mãe com ternura, levantando-a no ar. Depois reparou na
figura imponente de Gyumao que se erguia atrás dela, enchendo a entrada e
tapando a luz do sol. Exclamou como se tivesse dez anos:
- Ojiisan!
Convidou os dois a entrar e levou-os para a sala, situada no centro da
casa redonda. Pelas paredes viam-se enormes prateleiras repletas de livros. Chi-Chi
sentiu-se orgulhosa. Sempre prezara os estudos e a educação e o seu filho Gohan
soubera corresponder às suas expectativas. Agora o filho mais novo, Goten, era
outra história. Sentaram-se num sofá redondo.
- Não estava à espera da vossa visita – começou Gohan.
- A tua mãe sentia-se sozinha nas montanhas – explicou Gyumao.
- ‘Tousan! – Censurou
Chi-Chi, agastada com a observação.
- O que foi? Não é mentira nenhuma que te sentes sozinha.
- Não ligues, Gohan – disse Chi-Chi, fazendo um sinal com a mão. – O ojiisan já não diz coisa com coisa. De
vez em quando, o juízo varia…
- O meu juízo varia?
- Já não és jovem como antes e esqueces-te da idade que tens. É normal
o juízo variar com a tua idade, ‘tousan.
- Nunca me esqueço da idade que tenho. Tu é que te esqueces que Gohan
já não é uma criança e pode muito bem ouvir certas coisas.
- Que coisas? – E a voz de Chi-Chi subiu de tom.
- Pronto! – Exclamou Gohan conciliador. – Não vieram cá para discutir,
penso eu…
Observou a mãe com carinho. Sentia ainda um ligeiro sentimento de
culpa por ter deixado a sua antiga casa, situada nas montanhas, e ter vindo
viver para Satan City com a sua família quando Pan fizera seis anos. Era o
melhor que fazia, dissera-lhe Videl. Pan ficava mais perto da escola, ele
ficava mais perto da universidade, ela ficava mais perto do ginásio do pai que,
entretanto, decidira tomar a seu cargo.
Chi-Chi, percebendo a sua preocupação sossegou-o:
- Sabes muito bem que não me sinto sozinha, na nossa velha casa. Tenho
o teu irmão Son Goten comigo que me faz toda a companhia que preciso.
- Mas Goten estuda na universidade e raramente está em casa, por estes
dias.
O suspiro da mãe admirou-o.
- O que foi?
- É mesmo sobre Goten-chan que te quero falar. Ando tão apoquentada
com o teu irmão!
- A tua mãe anda sempre apoquentada com alguma coisa – comentou Gyumao.
- ´Tousan! Não te metas nos
meus assuntos! - Exclamou Chi-Chi zangada.
- O que é que se passa com Son Goten, ’kaasan?
Gohan sempre sentira um carinho muito especial pelo irmão. Entre eles
havia um relacionamento muito especial, um pouco parecido àquele que ele
estabelecera com Piccolo. Desde que este o treinara no deserto, quando tinha
apenas quatro anos, Gohan sentia que uma parte do cérebro estava
inevitavelmente ligada ao namekusei-jin.
Quando Goten nascera, o pai deles tinha morrido e Gohan fora, de certo modo,
uma figura paterna para o irmão mais novo, assim como Piccolo o fora para ele.
Chi-Chi respondeu numa lamúria:
- Goten não é como tu, Gohan! É irrequieto e irresponsável. Anda
sempre com a cabeça no ar, a pensar no que não deve… Ah, Gohan-chan!… Tu sabes
que quero o melhor para os meus filhos. Para se conseguir ser alguém na vida é
preciso uma boa educação, estudar, ter conhecimentos… Tu seguiste os meus
conselhos. Olha para ti! És agora um homem culto…
Gyumao bocejou com o discurso dela.
- Mas o Goten está a estudar – observou Gohan.
- Mas não se esforça, nem se interessa. Conheço-o demasiado bem e sei
que ele não gosta da universidade. É demasiado parecido ao teu pai… Se não
insistisse, passava os dias inteiros a vadiar.
Atrapalhada com uma lembrança fugidia de Goku, engoliu em seco e os
olhos encheram-se de lágrimas. Fungou para engolir essa súbita fraqueza.
- E depois está a estudar com aquele amigo, que sempre foi uma má
influência – acrescentou rancorosa.
- Estás a falar de Trunks-kun?
- Hai! Uma má influência, é
o que te digo. E não me venhas dizer o contrário. Lá porque foi por causa da
aposta de Trunks que Goten acabou por entrar na universidade, isso não modifica
o que penso sobre aquela amizade. O teu irmão só faz o que Trunks-kun quer.
Aborrecido com o tema da discussão, Guymao começou a dormitar no sofá.
- ’Kaasan… – Gohan passou-lhe
o braço pelos ombros, aconchegando-a a si. A mãe era tão pequenina. Nunca se
tinha apercebido disso até aquela altura. – Não deves ficar tão preocupada com
ele. Goten haverá de conseguir concluir os estudos na universidade.
- No outro dia – contou –, Goten chegou todo rasgado a casa. Tinha um
corte no lábio e várias nódoas negras na cara e nos braços. Quando lhe
perguntei o que tinha acontecido, não me quis responder e esquivou-se ao
assunto, dizendo que ia mudar de roupa e que estava cheio de fome. Tinha estado
a combater e tentou esconder isso de mim! De mim… que sou mulher e mãe de saiya-jin! De mim, que o introduzi nas
artes marciais quando era pequeno!
- Com quem andou a lutar?
- Com quem haveria de ser. Com Trunks, claro! Só Trunks é que podia
ter deixado o teu irmão naquele estado.
- Estava muito ferido?
- Não, só uns arranhões sem importância. Percebes, Gohan-chan? Se anda
a lutar, não anda a estudar.
- Goten e Trunks podem ter decidido combater no intervalo do estudo…
- Não, não! Enquanto se estuda, não se combate! Mas de que lado estás
tu, afinal? – Perguntou Chi-Chi agitada.
Apesar de já ser um homem casado e de ter uma filha de oito anos,
Gohan sentiu-se intimidado pelo tom de voz da mãe. Recolheu os braços e
encolheu-se. Chi-Chi percebeu que o tinha afetado e arrependeu-se. Não queria
embaraçar o filho mais velho, que fora sempre tão amoroso e obediente. Gohan
era o seu favorito porque era igual a ela.
- Gomen nasai, Gohan-chan. Ando
tão apoquentada com o teu irmão que perco as estribeiras.
Esticou os braços e puxou Gohan para si. Deitou-lhe a cabeça no colo e
começou a afagar-lhe o cabelo farto e negro. Gohan fechou os olhos, apreciando
os carinhos da mãe, emocionado com aquela ternura da qual sentia tanta falta,
apesar de contar com a mesma dose de atenção da sua mulher, Videl. Chi-Chi
disse-lhe com meiguice:
- Em pequeno andaste metido nos maiores sarilhos por causa do teu pai.
Mas sempre soubeste o que querias: ser um grande sábio! Apesar de todas as
provas pelas quais tiveste de passar, voltaste sempre ao caminho certo.
- Eu e Goten tivemos vidas diferentes. Eu e ele somos diferentes. Não
queiras que Goten seja igual a mim. Ele não sabe as coisas que eu sei, ele não
viu as coisas que eu vi. E ainda bem…
- Gohan-chan…
Encarou a mãe.
- Sei que Goten se esforça para ser um bom aluno. Ele não é um mau
rapaz, apenas um pouco preguiçoso… Igual ao pai, concordo. Se quiseres, poderia
ajudá-lo. Diz-lhe que venha ter comigo, aos fins-de-semana e estudaremos
juntos.
- Fazias isso, Gohan? – Os olhos de Chi-Chi brilharam.
- Hai, ’kaasan.
- Ah! Isso seria ótimo! – Pespegou um enorme beijo na face do filho que
ficou deliciado. – Arigato,
Gohan-chan.
Gohan perguntou pelo pai e Chi-Chi revelou que os tinha visitado numa
daquelas noites, que tinham conversado até tarde e que Goten lhe tinha contado
muitas coisas. Pensava que também iria ver Gohan na casa das montanhas e ficara
desiludido por não se encontrar com o filho mais velho e com a neta. Gohan
pediu que, da próxima vez que Goku deixasse os treinos de Ubo, o fosse também
visitar. Chi-Chi prometeu-lhe que o avisaria.
- Mas sabes como é o teu pai… Sempre apressado e sempre a fazer o que
bem entende.
Perguntou pela nora e pela neta, Videl e Pan. Gohan disse à mãe que as
duas deviam estar quase a chegar. Pan viria da escola e Videl dos escritórios
do ginásio de Mr. Satan. Chi-Chi quis
saber do velho campeão.
- Atualmente, Mr. Satan está a escrever um livro sobre as suas
memórias – disse Gohan. – Está a trabalhar com vários escritores famosos, que
convida para a sua mansão para lhes ditar a sua história. Vai contar-lhes tudo,
desde os primeiros treinos, até à consagração como campeão mundial de artes marciais.
Depois, vêm os grandes combates contra Cell e contra Majin Bu… Embora com Majin Bu
ainda não saiba bem como fazer, pois ninguém se lembra desse monstro.
Chi-Chi ficou escandalizada.
- Oh! Não me digas que Mr. Satan vai deixar escrito que foi ele quem
derrotou Cell e Majin Bu!
- Hai.
- Mas que descaramento!
- Todos os habitantes da Terra acreditam que foi Mr. Satan que salvou
o planeta. O que importa o que fica escrito, quando sabemos a verdade?
- Mas a verdade irá perder-se se não ficar registada.
- Se o pai, eu e todos aqueles que arriscaram o pescoço não nos
importamos com isso, tu também não te deves importar ‘kaasan. Além disso, Mr. Satan é o avô da minha filha… Somos
família.
- Mas não deixa de ser um cobarde.
Para Chi-Chi, alguém deveria ter desmascarado Mr. Satan de tal forma
que não restassem dúvidas sobre a sua fanfarronice. E quando pensava que número
18 tivera essa oportunidade, há treze anos atrás, num torneio de artes
marciais, no auge da fama de Mr. Satan, e que não a aproveitara, ficava deveras
irritada.
A porta da rua abriu-se. Videl entrava em casa com Pan. A miúda, assim
que viu Chi-Chi e Gyumao, largou a mão da mãe.
- Obaa-chan! - Gritou e
atirou-se ao pescoço de Chi-Chi que a abraçou com imenso carinho.
- Pan-chan!
- Vieste visitar-me. Que bom! – Exclamou Pan com os seus olhitos
negros cheios de vida.
- Trouxe-te um presente.
- Um presente? Para mim?
Gyumao despertou. Videl despiu o casaco, deixou a mala que trazia em
cima da mesa junto à entrada e aproximou-se.
Chi-Chi estendeu um livro embrulhado que Pan começou a desembrulhar
com sofreguidão. Gohan sorriu. Um livro! Um típico presente de Chi-Chi.
Videl cumprimentou a sogra com cordialidade.
- Koniichi-wa, Chi-Chi-san. Que
agradável surpresa.
Chi-Chi levantou-se e fez uma vénia. Gyumao levantou-se atrapalhado depois
dela, resmungando um cumprimento. Ainda não tinha despertado em condições.
- Koniichi-wa, Videl-san.
- Ficam para o jantar. Há tanto tempo que não nos vinham visitar.
Temos conversa para pôr em dia.
- Arigato, Videl-san. Irei ajudar-te...
- Oh, não! São nossos convidados e não quero que te incomodes. Ficas
na sala, na companhia de Gohan. E Goten-kun? Não veio convosco?
- Goten-kun está a estudar. Começou hoje a época de exames.
- Ah! – Interrompeu Pan maravilhada com o livro que segurava entre as
mãos. – É um livro sobre borboletas!
Gyumao sorriu. Chi-Chi voltou-se para a neta.
- Sim. Tens aí todas as borboletas do mundo. Quando me fores visitar
às montanhas, vamos as duas apanhar borboletas. E depois saberemos como cada
uma se chama com a ajuda do livro.
- Hai! Que excelente ideia!
– Pan dirigiu-se a Gyumao. – Ojiisan!
Tenho um livro novo sobre borboletas.
- É muito bonito – disse na sua voz potente. Tornou a sentar-se no
sofá, puxando a miúda para se sentar sobre o joelho grosso. Começaram os dois a
explorar o livro.
O jantar em casa de Gohan foi agradável.
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