Os frutos
daquela macieira selvagem desapareciam num ápice, sugadas por mãos ávidas. Por
detrás da folhagem que se agitava, escutava-se o mastigar aflito de dois
rapazes famintos, numa competição para determinar quem conseguia devorar a
maior quantidade de maçãs no menor espaço de tempo, antes do protesto seguinte
dos estômagos exigentes.
- Deixa ver
se percebi.
Um ramo
rangeu e Goten surgiu de cabeça para baixo, enrolando as pernas no ramo,
segurando-se pela dobra dos joelhos.
- Todos os
que estavam ligados ao meu pai foram enviados para a Dimensão Real quando
Zephir enfeitiçou o meu sangue e só podiam regressar se algum de nós
interagisse com alguém dessa dimensão. Só que não se podia interagir, pois o
feiticeiro avisou-nos que, se o fizéssemos, ele seria transformado num deus.
Então, viveram dias de pesadelo com medo de interagir e com medo de que
passasse o prazo dos doze meses, doze dias na nossa dimensão, e que nunca mais
pudessem regressar.
- Hum-hum. É
isso mesmo.
Trunks
contara, finalmente a história muito comprida, que acabou por não ser tão
comprida assim, pois optara por resumi-la e apresentar um relato que faria o
efeito desejado: acalmar a curiosidade do amigo. Encostava-se ao tronco da
macieira selvagem, sentado num ramo abaixo do ramo onde Goten balançava.
- Mas tu
acabaste por interagir com aquela rapariga.
- Hai… A Ana.
Goten deu uma
dentada na maçã que tinha na mão.
- Não tiveste
medo, Trunks-kun?
- Do quê?
- De
transformares Zephir num deus… De criares um inimigo que o meu pai, nem o teu,
conseguiriam derrotar?
Trunks
encolheu os ombros, mastigando a sua maçã.
- Não me importava
com nada disso… Estava magoado com o que tinha acontecido. Pensava que estavas
morto.
- Mas não
estava.
- Não sabia
disso. Ninguém sabia…
- Foi uma
jogada arriscada.
Acabaram com
as respetivas maçãs ao mesmo tempo, atiraram os caroços para longe. Trunks
confessou, quase envergonhado:
- Tentei
várias vezes interagir, nunca aconteceu. Mas acabou por acontecer quando não
estava à espera.
Goten
deslizou do ramo, pendurou-se por um braço. Reparou no trio de maçãs que Trunks
guardava no colo. Escolhera as que pareciam mais sumarentas, recolhera-as para
ela, pensava nela, mesmo quando falara da Dimensão Real, quando comera, quando
se rira, ali, sentado naquele ramo.
- Gostas
dela.
- Nani?
- Gostas da
Ana… E gostas a sério.
A escuridão
da noite escondeu o rubor que incendiou o rosto de Trunks. Confessou com a voz
a tremer:
- Interagi
com ela. Gosto dela, sim…
- E o que é
isso? Interagir?
- Fiz amor
com ela.
Foi a vez de
Goten corar. Trunks conseguiu perceber que o envergonhara, aproveitou a
descoberta para voltar a controlar a situação.
- É muito
especial fazer amor com uma rapariga quando gostas mesmo dela. Vais ver como
vai ser diferente quando acontecer com a Maron.
A cara de
Goten coloriu-se de vermelho vivo, como uma das maçãs que tinham acabado de comer.
Trunks riu-se.
- O que foi?
Não me digas que…
Goten saltou
para o chão, anunciando com uma voz esganiçada que deveriam regressar à cabana,
a rapariga estava lá sozinha, devia ter fome e ele não tinha apanhado aquelas
três maçãs para ela?, pois então, deveria levar-lhas.
Trunks saltou
também. Perguntou:
- Nunca o
fizeste, pois não?
- Temos de
conversar sobre isso agora?
- Não há
qualquer problema…
- Não quero
conversar sobre isso agora.
- Vai ser
ainda mais especial. Tu e a Maron.
- Ela só tem dezasseis
anos.
- E depois? A
tua mãe não casou com o teu pai com dezoito?
- Isso já foi
há tanto tempo… Eh! E como é que sabes essas coisas?
- A minha
mãe, às vezes, fala de coisas passadas, apesar de o meu pai detestar esse tipo
de lamechices, como lhe chama. Recordar o
passado! – E imitou a voz de Vegeta.
Goten deu um
pontapé numa pedra e começou a descer a colina onde existiam as macieiras
selvagens. Um dos sítios onde podiam ir buscar alimento. Havia também amoreiras
e diversos arbustos com bagas comestíveis, explicara. Quando Trunks lhe dissera
que achava estranho Goku alimentar-se apenas de fruta durante os treinos que
deveriam ser exigentes, acrescentara que havia muito peixe no rio, javalis e veados
que poderiam caçar e sempre enchiam mais a barriga. E teriam de arriscar e
acender uma fogueira, pois ele não iria comer carne de veado crua.
Foram em
silêncio e chegaram à cabana num instante.
- Ei, Goten.
- Hum?
- Amigos?
- Nani?... – Goten piscou os olhos,
desnorteado. – Mas sempre fomos amigos. Irmãos. Companheiros de combate.
Trunks
apartou o olhar.
- Fiz-te
muito mal – confessou.
- Ora… É
passado. Lamechices! – E foi a vez de
Goten imitar a voz de Vegeta. Assentou uma mão no ombro de Trunks. – Ainda não
me contaste tudo sobre essa Dimensão Real. De certeza que fizeste amigos lá…
Conheceste raparigas… Antes da Ana, claro.
Trunks
sorriu.
- Conto-te
tudo. Teremos bastante tempo para isso, durante estas férias na montanha.
- Hai.
Dentro da
cabana havia silêncio e escuridão. Trunks chamou pela Ana, mas não obteve
qualquer resposta. Deixou as três maçãs em cima da prateleira por cima do baú,
Goten apontou para o colchão.
- Ela está a
dormir. Olha!
- Eh… Nem
sequer comeu. Mas vamos deixá-la dormir. Afinal, fez uma viagem entre
dimensões, esteve no Templo da Lua e andou a voar. Deve ter ficado cansada.
- Viajar
entre dimensões cansa?
- Os nossos
corpos na Dimensão Real eram mais pesados. Ainda me levou algum tempo a
habituar-me ao peso, à falta de ar. – Deu uma cotovelada em Goten. – Olha,
vamos deitar-nos também. Não devemos fazer barulho a conversar, senão
estragamos-lhe o descanso.
Trunks
espreguiçou-se e saiu-lhe um bocejo. Despiu a t-shirt e os calções, atirou tudo para cima do baú. Descalçou as
sapatilhas, as meias, enfiou-as dentro das sapatilhas e estendeu-se no colchão.
Percebeu que Goten ficara de pé, sem mover um músculo.
- O que é que
se passa?
- E onde é
que eu vou dormir?
- Aqui. –
Puxou a Ana para si, para arranjar espaço. – Nesse canto. Acho que te vai
chegar.
- Dormir com
ela?
- E comigo! –
Indignou-se Trunks. – Nem te atrevas a tocar nela.
- Não! Claro
que não. Mas… E ela não se vai importar?
- Não se vai
importar de nada, desde que esteja comigo. Vá, deita-te de uma vez!
Goten não se
despiu. Deitou-se envergando o dogi
esburacado. Pousou a cabeça nos braços, fixou o teto. Na penumbra, Trunks
sorriu com o acanhamento do amigo.
Depois,
concentrou-se na Ana, aconchegando-a no seu abraço, enlevando-se no calor que
ela emanava. Cheirou-lhe os cabelos, relembrando os últimos momentos que tinham
passado juntos na Dimensão Real. Apercebeu-se que mal tinham conversado na
Dimensão Z, a vertigem dos acontecimentos seguintes ao regresso tinha-os
impedido de estarem juntos. Também nunca julgara que tinha interagido com ela e
nunca sonhara que seria possível transportá-la com ele durante o processo. Aqueles
dias nas montanhas haveriam de servir também para se aproximarem mais e para
encetarem novas descobertas. E divertiu-se a antecipar as complicações pelas
quais ela haveria de passar enquanto se adaptava àquela nova aparência.
Goten disse
em surdina, para não perturbar o sono da rapariga:
- Há uma
coisa que não percebo…
- O quê?
- Quando me
encontrei com ela no Templo da Lua, reconheceu-me. Chamou-me pelo nome.
- Nós também
existimos na Dimensão Real, sob uma forma que nunca podíamos conhecer ou morríamos.
Ela conhece-nos daí. A nossa dimensão, para a Ana, chama-se “Dragon Ball”.
- Honto? E o que é isso, “Dragon Ball”?
- Somos nós,
as nossas vidas. Acho que ela conhece tudo sobre o teu pai, sobre o meu. Sobre
ti.
- Ah… Que
estranho…
No silêncio,
escutou-se o marulhar das árvores.
- Sabes uma
coisa, Trunks-kun? Acho que foi a Ana que me salvou.
Uma curta
pausa.
- Porque é
que dizes isso, Goten-kun?
- Foi ela que
desligou a caixa onde eu estava a ser curado pelo feiticeiro. Se não fosse ela,
não estaria agora aqui, contigo, e não saberias que eu estava vivo.
Provavelmente, neste momento, seria um prisioneiro de Zephir, pronto para ser
enfeitiçado e depois seria eu que lutaria contra ti até à morte.
- A Ana é
muito especial.
Mas avisou,
de seguida:
- Mas é
minha!
- Eh,
Trunks-kun. Continuo a gostar da Maron. – Perguntou com ternura: – E a Maron?
Viste-a na Dimensão Real?
Recordou uma
conversa franca, recordou uma discoteca. Recordou uma noite no hospital. Trunks
sentiu-se tonto, não queria recordar. Lamechices, Vegeta tinha razão.
- Vi… Algumas
vezes – respondeu. – Sobreviveu à Dimensão Real.
Haveriam de
ser sempre amigos, ele e Goten, tinha pensado na altura da conversa franca.
Acrescentou convicto:
- A Maron é
uma rapariga cheia de sorte por ter-te a ti a gostar dela. Ela irá perceber
isso, um dia.
Calaram-se.
Em breve,
todos dormiam na cabana das montanhas.