Lá fora caía uma chuva miudinha, própria daquela altura do ano. Não
estava frio, mas o tempo estava desagradável e Kang Lo preferiu não sair
naquele dia. Treinava-se à mesma, como se estivesse sob o céu imenso das
montanhas, dentro das paredes rochosas da caverna.
O rosto do lutador escorria suor. A respiração era apressada. As
pernas agitaram-se no ar, uma e duas e três vezes, a golpear inimigos
imaginários, a fazer voar a poeira da gruta em seu redor. Endireitou as costas,
fechou os olhos. Concentrou-se e deixou-se ficar.
Ao fundo, sentado à mesa de pedra, Zephir lia em silêncio o “Livro de
Babidi”. Os dedos descarnados folhearam uma página. Desde que regressara das
montanhas com o livro de capa negra, nunca mais o deixara. E também nunca mais
comera ou bebera ou dormira e passara os últimos sete dias a ler os mistérios
de Babidi encerrados naquele manual supremo de feitiçaria. Por cada frase que
lia, por cada página que virava, por cada folha que deixava para trás,
sentia-se cada vez mais esmagado e insignificante. Babidi sabia tanto! E ele,
que se julgara tão poderoso, que se considerara um grande feiticeiro, via agora
que não era nada. Ao pé de Babidi, convertido num espectro azul de uma criatura
horrenda e disforme, Zephir não passava de um mero aprendiz. E, à medida que a
sua leitura se aprofundava, aumentava o desprezo de Zephir por Babidi. Aquele
maldito zombava dele e das suas pretensões desde o Outro Mundo, ao conhecer os
seus planos de conquista do Universo.
Afastou esse pensamento ingrato. Babidi poderia estar a escutá-lo e
ficaria ofendido. Afinal, o espírito contara-lhe sobre o livro e confessara-se
disposto a ajudá-lo. Não o deveria desonrar e aceitava com piedade,
dissimulando a raiva, ser o instrumento dele.
O seu objetivo mais imediato era invadir o Templo da Lua, esmagar e
destruir todos aqueles que o tinham expulsado e sentar-se no Trono de Marfim do
Salão da Luz. Depois, naturalmente, seguir-se-ia o Universo. Quando chegasse,
enfim, o momento glorioso de se intitular Senhor de Todos os Mundos, Zephir
teria cumprido a sua parte do acordo com Babidi e logo encontraria uma maneira
de se livrar do espírito. Não desejava tê-lo eternamente colado a si, a
lembrar-lhe promessas passadas. E chegaria uma altura em que Babidi poderia
tornar-se demasiado exigente…
Mas o momento de se livrar de Babidi teria de ser bem escolhido. Nunca
o poderia fazer antes de saber tudo o que ele sabia. A astúcia era uma das
principais características dos grandes feiticeiros e Zephir iria agir com
inteligência naquele assunto.
Sorriu a olhar para a sombra esguia que o dedo fazia sobre as folhas
amarelas do livro. E tudo teria começado no Templo da Lua. Assim ficaria
escrito.
Mais uma página. As últimas folhas estavam preenchidas com inúmeros
conjuros antigos. Lia os feitiços e continuava a pensar.
Sabia muito bem que não lhe bastava a magia para encetar o assalto e a
conquista do Templo da Lua. Ele era só um, enquanto dentro dos muros do Templo
existiam, pelo menos, cem monges e cem sacerdotes, que, por muito mal treinados
que estivessem nas artes mágicas, não teriam dificuldades em desembaraçar-se
dele com um ataque bem dirigido e uma boa estratégia de defesa. Para o ajudar, precisava
de alguém que conhecesse as artes da luta, que fosse forte, aguerrido,
ambicioso e impiedoso. Precisava do maior lutador do mundo e encontrara-o em
Kang Lo. O homem podia não ser o melhor, mas queria sê-lo e essa ambição
fazia-o vulnerável. Com meia dúzia de promessas, conseguiria de Kang Lo o que
quisesse. Bastava acenar-lhe com a possibilidade de ter mais poder em pouco
tempo e teria nele o mais fiel dos aliados.
Kang Lo despertou da concentração. Relaxou os músculos, respirou fundo
várias vezes, preparou um novo exercício. Zephir não teve necessidade de se
voltar para ver os movimentos do lutador. Aquele seria fácil de subjugar, com
uma mente tão simples e acessível. Não fora difícil enfeitiçá-lo de maneira a
que ele não fizesse perguntas sobre o livro de capa negra que aparecera de
repente nas suas mãos. Tanto quanto Kang Lo sabia, o livro sempre estivera na
gruta e quando achava estranho esse pensamento e tentava lembrar-se de algo
mais, a cabeça doía-lhe tanto que desistia e esquecia o assunto.
Na folha seguinte, Zephir viu algo interessante. Um conjuro que
desconhecia, algo novo e particularmente útil para os tempos vindouros. Com
olhos ávidos leu a página demoradamente, sublinhando com o dedo mirrado todas
as palavras.
Aprendeu que poderia utilizar as más intenções e as emoções erradas em
seu proveito. O processo era simples. Bastava conseguir entrar no espírito de
alguém com um coração impuro, imprimir neste a sua voz e roubar-lhe a alma. O
outro perderia para sempre o controlo de si próprio. Deixaria de pertencer ao
mundo onde nascera e renascia para um outro mundo – o mundo do mal, o Makai. Em
troca da alma e do coração entregues ao Makai havia mais energia vital e mais
poder. No caso dos guerreiros torná-los-ia praticamente invencíveis. Aquilo que
Kang Lo precisava para ser o melhor lutador do mundo estava ali.
Chegara a hora da partida para o Templo da Lua!
Zephir inspirou profundamente. Fechou o “Livro de Babidi” pela
primeira vez em sete dias. Aprendera o suficiente para prosseguir com os seus
planos mais imediatos. Tomou consciência que tinha fome, sede, que sentia
cansaço. Compreendeu que as suas vestes estavam sujas e rasgadas, que o corpo
estava pegajoso e imundo. Ignorou essas necessidades mesquinhas e voltou-se
lentamente para Kang Lo que se dividia em socos e pontapés na caverna, golpes
tão rápidos que se tornavam invisíveis. Ao se sentir observado, Kang Lo parou.
- Tens feito progressos? – Perguntou o feiticeiro sem emoção na voz.
Kang Lo deixou-se ficar de costas voltadas, a recuperar da fadiga dos
treinos.
- Tenho. Os treinos aqui dentro ajudam, mas preciso de o fazer lá
fora, para dominar melhorar os ataques flamejantes.
- O que são ataques flamejantes?
A voz de Zephir era tão monocórdica que Kang Lo duvidou do genuíno
interesse pelos treinos, mas aceitou responder.
- São ataques baseados em energia – explicou. – Com a concentração adequada,
reúne-se energia vital para enviar bolas de fogo, ou anéis, ou discos, ou
raios, ou o que quer que seja… depende da técnica. Existem várias técnicas que
utilizam os ataques flamejantes. Têm um poder de destruição muito superior ao
de um vulgar soco ou pontapé e têm a vantagem de não precisarmos estar perto do
adversário para atacarmos. E, se o nosso adversário não conhece a técnica ou
não possuir a energia necessária para ripostar o ataque, a nossa vitória é
certa.
Zephir sorria. Kang Lo perguntou agastado:
- O que foi que disse que achas assim tão engraçado?
- A tua conversa sobre os ataques flamejantes. Da maneira como falas,
parece que é alguma coisa de muito especial.
A cara de Kang Lo ficou vermelha de raiva. Deu um passo em frente,
pronto para seguir o instinto e apertar o pescoço de Zephir, mas parou logo a
seguir, admirado por ver surgir na mão descarnada do feiticeiro uma pequena
bola azul muito brilhante, rodeada de faíscas. A bola flutuava diante da cara
de Zephir e Kang Lo assustou-se com o que viu. Parecia que estava a olhar para
um fantasma diabólico, a luz azul a acentuar as covas do rosto, as olheiras e
as pálpebras inchadas, alongando-lhe o nariz e convertendo a boca sem lábios numa
fina linha retorcida naquilo que se assemelhava a um sorriso.
Pela primeira vez, Kang Lo sentiu medo de Zephir.
- Vês, Kang Lo? – Disse o feiticeiro, fazendo sumir a bola azul
fechando os dedos da mão mirrada. A cara voltou ao normal. – Eu também sei
reunir energia e transformá-la em bolas de fogo.
Foi a vez de Kang Lo zombar de Zephir.
- Só que isso não é um ataque flamejante! – Exclamou.
- Não?
O lutador gritou com todo o ar dos pulmões. As paredes da caverna
tremeram com o grito. O cabelo ruivo de Kang Lo ondulou, o corpo rodeou-se de uma
fina capa luminosa. Estendeu o braço direito e da mão saiu um raio amarelo,
quente e brilhante, que foi explodir numa parede da gruta, transformando-a num
monte de rochas. A água brotou entre as rochas e uma nova fonte nasceu na
caverna. Endireitou as costas e concluiu soberbo:
- Isto é que é um ataque flamejante!
Zephir lutou interiormente para não deixar transparecer o quanto
estava impressionado. Nunca julgara que aquele homem pudesse ser tão forte.
- Vejo que és um grande lutador, Kang Lo – disse Zephir pausadamente.
– Possuis um enorme poder dentro de ti e um talento inigualável. Mas posso
tornar-te ainda mais poderoso.
Kang Lo perguntou desconfiado:
- Como?
- Se concordares em ajudar-me…
- Ajudar-te? – E Kang Lo começou a sentir-se tonto só de olhar para a
cara inexpressiva de Zephir. – Sim, já me tinhas dito que se te ajudasse
conseguirias descobrir a identidade daquele guerreiro que guarda o planeta com
os amigos e os filhos. Agora dizes-me que me fazes mais forte?
Zephir não esboçou nenhum sinal, nem respondeu.
- Mas só se eu te ajudar… – balbuciou Kang Lo.
A tontura tornou-se insuportável e o lutador desviou o olhar do
feiticeiro. Disse, com desprezo, sem encará-lo:
- Como é que podes fazer-me mais forte? És algum mestre de artes
marciais, por acaso? Conheces alguma técnica fantástica que permita multiplicar
as forças em pouco tempo? Bah!… Se nem sabes fazer um ataque flamejante de
jeito… Como é que queres que acredite em ti? – Irritado, Kang Lo esqueceu a
náusea que o atacara e olhou novamente para o feiticeiro. – Troças de mim,
Zephir?!
- Não. Nunca o faria, Kang Lo. Quando digo que posso ajudar-te a
tornar-te mais forte, estou a ser sincero.
O feitiço estava a enervar o lutador. A cara torceu-se com a ira que
lhe incendiava o peito e fazia o sangue bombear acelerado por todo o corpo em
ebulição. Zephir exigiu, no mesmo registo pausado:
- Em troca quero a tua colaboração. Promete-me que me ajudas e faço de
ti o homem mais forte do Universo.
Kang Lo arfou, cada vez mais tonto. Agora já não era capaz de deixar
de olhar para ele, apesar de as tonturas serem insuportáveis.
- Promete-me.
O tom de voz de Zephir indicava que não passava de um pedido, mas Kang
Lo entendeu-o como uma ordem. E gaguejou:
- Prometo-te… Prometo-te que irei ajudar-te… no que quer que seja… Sou
o teu instrumento, a partir de agora – abanou a cabeça para sacudir uma
sonolência esquisita.
Zephir sorriu abertamente. Confessou:
- Nunca te disse, mas sou um feiticeiro, Kang Lo. Conheço um conjuro
que te pode dar uma força imensa. Posso transformar-te no homem mais forte da
Terra, se te entregares aos meus poderes e se confiares em mim.
- Confio…
- Ainda bem.
- Se ficar mais forte, poderei voar?
Não estava à espera de uma pergunta daquelas. A hipnose que aplicara
naquele brutamontes sem miolos, para lhe controlar a mente e fazer com que não
recusasse subjugar-se, fora talvez demasiado forte e fizera estragos. Perdera o
juízo. Ou talvez a pergunta fosse legítima. Kang Lo prosseguiu, babando-se:
- Ele voa… É… é uma técnica que me falta aprender. Bukuujutsu… Depois de tantos anos de
treino ainda não descobri esse segredo. Domino os ataques flamejantes, um sem
fim de técnicas de luta, mas voar… Sei que a energia não me falta, que o
poderia fazer neste momento, mas… mas não sei como fazê-lo…
- Não te preocupes – sossegou Zephir. – Com este feitiço poderás fazer
tudo o que desejas.
Kang Lo desenhou um sorriso selvagem e inchou de vaidade.
O feiticeiro respirou fundo, ruidosamente. Levantou-se do banco onde
se sentava e o lutador recuou quando o viu aproximar-se. Humedeceu os lábios,
observando Kang Lo. Para além dos traços fortes e bem marcados do corpo moldado
por anos de treino intensivo viu-lhe os pensamentos, a alma, o coração. Cheios
de impaciência, orgulho e desprezo. Não poderia haver erros. Se os houvesse,
Kang Lo poderia pensar que o estava a enganar e atacá-lo-ia. Não lhe seria
difícil desfazer-se dele, que estava magro e fraco devido ao jejum da última
semana. Sem erros, portanto.
Alçou os braços esqueléticos. Devagar e com cautela, entrou na mente
de Kang Lo. Reuniu os sentimentos mais sombrios e fê-los seus. Trouxe-os para a
superfície, ampliados, tornou-os físicos. A dor foi insuportável. Numa
convulsão repentina, Kang Lo caiu de joelhos no chão da caverna, dobrado sobre
o estômago, a gritar como um louco. Instintivamente, retraiu-se e escondeu os pensamentos
do feiticeiro. Mas era tarde demais. Kang Lo já não era dono da sua mente,
Zephir estava lá dentro, contaminando todos os cantos, estendendo os dedos,
tocando, arranhando. Uma presença tão real que era palpável e impossível de
aguentar. O lutador rebolou pelo chão, aos gritos, agarrado à cabeça.
Zephir sorriu. Fora fácil apoderar-se da mente do homem que berrava
descontrolado a seus pés. Passava à etapa seguinte com mais confiança, extrair
a maldade e convertê-la em força. Perturbado com as dores que sentia na cabeça
e por todo o corpo, Kang Lo queria escapar-se do domínio do feiticeiro, o bem a
lutar contra o mal.
- Não resistas, Kang Lo! - Ordenou o feiticeiro.
Os gritos do lutador ecoavam nas paredes rochosas. O corpo tremia em
ondas de energia, os músculos e as veias pareciam querer rebentar.
- Não! Não! - Berrou Kang Lo desorientado.
- Não resistas! - Tornou Zephir, esforçando-se para manter o feitiço.
- Não!!
- Entrega o que falta e a tortura acaba. Basta quereres. É tão simples!…
- N… Não… – balbuciou dormente.
O lutador parou de se debater. Zephir sentiu claramente o momento em
que Kang Lo se entregou ao poder negro do mundo do mal. O corpo ficou imóvel,
enrolado no chão rugoso da caverna, debaixo da sua sombra esguia e
fantasmagórica. Baixou os braços lentamente, com um sorriso maquiavélico no
rosto.
- És meu! – Murmurou Zephir triunfante.
Kang Lo estremeceu. Apertou os punhos com força. O cabelo ruivo estava
todo eriçado e chamuscado nas pontas. Quando se levantou, Zephir foi capaz de
sentir que a energia que emanava se tinha multiplicado. O corpo duplicara de tamanho,
com enormes músculos salientes sob a pele morena, grossas veias a pulsar com
cada batida do coração.
- Bem-vindo à tua nova existência, Kang Lo – disse.
Kang Lo ergueu a cabeça. Os olhos tinham mudado. Neles havia o brilho
do mal… Zephir gostou. Estava orgulhoso do seu trabalho. Kang Lo também. Sorriu
primeiro e depois desatou a rir à gargalhada, plenamente consciente de que era
muito forte, muitíssimo forte.
Na testa, cravado a negro, entre os olhos, estava marcado para sempre
um “M” rebuscado – o símbolo maldito do Makai.
Sem comentários:
Enviar um comentário