Era incrível a quantidade de coisas velhas que se juntavam num baú!
Kuririn detestava arrumações, mas, sempre que as havia em casa,
ajudava número 18 nessa tarefa, porque tinha-lhe prometido que o fazia e ele
não era homem de faltar à palavra dada. Hoje era um desses dias.
Aquele baú era o último. Tinha acabado de vasculhar armários, estantes
e um sem fim de gavetas. Kuririn abriu a tampa do baú, tossiu um pouco com o pó
que se levantou no ar. Teria de escolher aquilo que ficava e aquilo que era
para ir fora. Começou por retirar tudo o que estava dentro do baú. Livros
antigos da filha, uma boneca velha, alguns brinquedos de plástico de quando Maron
era bebé, roupas de número 18 que ela tinha posto de lado por terem passado de
moda, roupas dele. Um bocado de tecido vermelho, entre as blusas da mulher,
chamou-lhe a atenção e agarrou nele com as duas mãos, elevando-o à altura dos
olhos.
O seu dogi! O uniforme de
combate que não utilizava havia vinte anos. Sorriu ao fixar os olhos no kanji da escola de Mutenroshi. Passara
tempos agradáveis com aquele dogi… e
tempos difíceis também. Uma boa parte da sua vida… ao lado do grande amigo Son Goku.
Fechou os olhos e lembrou-se dos momentos em que o vestira. Não necessariamente
aquele, porque apenas um dogi não
sobreviveria à violência de alguns dos combates, mas outros iguais àquele.
Os torneios de artes marciais… O combate contra os saiya-jin, Nappa e Vegeta… A viagem a
Namek… Os humanos artificiais do Dr. Gero… Kuririn riu-se. Fora então que
conhecera número 18… o torneio do Cell…
Depois, retirara-se. Guardara o dogi.
A paz havia regressado à Terra e quando participara naquele torneio de artes
marciais, em que Goku viera visitá-los desde o Outro Mundo, em que conheceram
Kaio Shin e souberam da existência de Majin
Bu, já não o usara. Nunca mais. Kuririn tornou a suspirar. Dobrou o dogi com cuidado e colocou-o entre as
coisas que eram para ficar.
Bons velhos tempos.
A porta da rua abriu-se. Kuririn voltou-se e viu Maron entrar em casa,
com a mão que segurava os livros a tapar o nariz. Vinha distraída e Kuririn viu
como se esgueirava sorrateiramente pela casa, em direção ao quarto.
- Maron – chamou.
Ela assustou-se. Os livros espalharam-se pelo chão. Tirou a mão do
nariz e um fio de sangue começou a correr-lhe pela boca e pelo queixo. Kuririn
exclamou alarmado:
- Maron! O que foi que te aconteceu?
- Nada, papa – respondeu,
passando rapidamente os dedos pelas narinas.
- Nada? Estás a sangrar e dizes que não é nada? – A voz de Kuririn era
quase histérica.
Ela virou-se para apanhar os livros do chão e tentar escapar-se, mas Kuririn
já tinha ligado o alarme e só o desligaria quando obtivesse respostas.
- Com quem andaste à pancada?
Respirou fundo a encará-lo.
- Eu, andar à pancada? Que ideia a tua! Tropecei e bati com a cara num
poste da luz. Foi isso o que aconteceu.
Kuririn cruzou os braços.
- Não me mintas, Maron. Consigo ver que andaste a lutar com alguém.
Desde que a tua mãe te ensinou artes marciais, que não perdes uma oportunidade
para te exibires para os rapazes da tua turma.
- Não é verdade – murmurou, engasgada por ter sido apanhada
- Só que, desta vez, não foi com os rapazes da tua turma. Nenhum deles
te consegue atingir. Com quem foi, Maron?
Os dezasseis anos ainda frescos não davam a Maron o estofo necessário
para o enfrentar naquele confronto psicológico. Kuririn apreciava a autoridade
que vinha com o estatuto de pai e mais contente ficou quando arrancou a
confissão da filha:
- Foi… com Son Goten.
- Son Goten! – Gritou. – Andaste a lutar com Son Goten?
Maron sacudiu o rabo-de-cavalo.
- Hai.
- Porquê?
- Foi um desafio. Ele e Trunks…
- Trunks também estava lá?
- Era o árbitro do combate.
Kuririn espetou um dedo, cingiu os sobrolhos, inclinou a cabeça e
repreendeu a filha, como fazia quando ela tinha cinco anos e acabava de fazer
uma asneirada qualquer lá em casa:
- Maron, essa história dos combates terminou. Não quero descobrir que
a minha filha não passa de uma arruaceira, que gosta de provocar lutas no
recreio da escola.
- Mas, papa, eu não
provoquei…
- Shhh! Ainda não terminei. Uma coisa era medires forças com os
rapazes da tua turma. Achei que era útil saberes uma ou outra técnica de combate,
porque és uma menina e as meninas precisam saber defender-se de rapazes com
menos escrúpulos. Outra coisa bem diferente é envolveres-te em combates contra
Trunks ou contra Goten.
- Mas, papa!
- Calada! Ainda não terminei. – Agitava o dedo, enquanto falava. –
Ouviste-me bem e não quero nunca mais ouvir-te falar neste assunto. Esta noite,
irei falar com a tua mãe, para que ela deixe de te encorajar.
- Porque é que combater contra Trunks ou contra Goten é diferente?
- Eles são saiya-jin!
- Eu sei! São os melhores adversários que poderia ter para testar as
minhas capacidades. – E Maron abriu os braços impaciente.
- Já viste o que aconteceu? – Guinchou Kuririn. – Ficaste com o nariz
a sangrar!
- Mas eu também deixei Goten com o nariz a sangrar.
- Nani?
- Sim. O combate terminou empatado. Ele esmurrou-me o nariz, mas eu
também esmurrei o dele. E Goten estava transformado em super saiya-jin!
A revelação surpreendeu Kuririn, o dedo autoritário amoleceu. Sem
saída do beco onde se enfiara, só lhe restou ser prepotente.
- Isso não interessa. Estás de castigo. Uma semana sem televisão e
este fim-de-semana não sais de casa.
- Papa!!
- Para o teu quarto!
Maron rugiu, frustrada, pois achava que estava a ser injustiçada. Mas
ele não vacilou. Tornou a estender o dedo, a indicar a escadaria que conduzia
ao piso superior da casa. Ela subiu-a a correr, rugindo cada vez mais alto até
gritar a plenos pulmões antes de bater com a porta do quarto.
Kuririn olhou para o dogi
vermelho, dobrado no chão, junto a uma boneca que ele sabia ser um brinquedo de
estimação de Maron. E compreendeu, com um sorriso amargo, que a filha crescera.
As coisas que os baús encerravam, coisas perdidas… Depois, contrariado, sentiu-se
cheio de orgulho. Maron devia ser realmente uma excelente lutadora para se ter batido
de igual para igual com o super saiya-jin
Son Goten. A miúda saíra a número 18, sem dúvida…
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