Por detrás das copas verdes de árvores frondosas e altaneiras, para lá
dos picos negros das montanhas, o sol punha-se, morrendo no horizonte em tons
de vermelho e carmim. Soprava um vento frio e desagradável, mas os dois ainda
lá estavam. O miúdo soltou um grito de guerra e tudo em redor tremeu. Faíscas
saltaram do corpo, a energia que alimentava dentro de si soltou-se numa onda
invisível que o envolveu. O mestre sorriu e algumas rugas acentuaram-se junto
aos olhos negros. Colocou os punhos fechados nas ancas, admirou o poder do seu pequeno
pupilo. Estava contente com os progressos e nunca pensara em conseguir aqueles
resultados tão cedo. O miúdo cada dia era mais forte! E haveria de chegar o dia
em que seria mais forte que ele. Então, o aluno superaria o mestre e a sua
missão estava concluída.
Os ramos das árvores acalmaram, quando o miúdo conseguiu controlar a
energia que gerava. Cerrou os dentes e, sem nunca desfitar o adversário,
atirou-se numa corrida veloz na sua direção, pronto para atacar.
- Não, Ubo – disse Goku, levantando uma mão, dando ordem para parar. –
Por hoje, os treinos acabaram.
O miúdo estacou num segundo. A crista de cabelo preto revolteou-se no
ar, o rosto perdeu a agressividade. Juntou as mãos no peito e numa vénia disse:
- Hai, sensei. Devo dizer-lhe que também estou cansado.
Goku fez uma expressão aborrecida. A deferência com que Ubo o tratava
era, por vezes, excessiva. Quando se tinha treinado com Mutenroshi, o seu
primeiro mestre – sem contar com o seu avô adotivo, Son Gohan – nunca houvera
nada daquela distância respeitosa entre mestre e aluno. Apesar de, recordou a
sorrir, Mutenroshi ter sempre tentado ensinar-lhe boas maneiras. Mas como é que
alguém conseguia ter boas maneiras ao lado de Mutenroshi?
- Hum, o treino foi bom – comentou Goku.
- Hai, sensei. Hoje aprendi muitas coisas. A principal foi conseguir
dominar a raiva que tenho dentro de mim e que me dá toda esta força.
Goku concordou e ficou a admirar o pequeno que um dia decidira levar
consigo para treinar. Fora há três anos, no último torneio de artes marciais em
que participara. Quando o conhecera, sabia que era ele o dono da força imensa
que havia sentido dias trás. Mas assustara-se a valer quando percebera que era
ainda mais forte do que julgara e quase que entrara em pânico a pensar no que
seria do planeta se Ubo crescesse sem um treino adequado. A sua raiva, quando
despoletada, não conhecia limites. A reencarnação de Majin Bu! O monstro que tinha eliminado dez anos antes! Ora… tinha
sido o seu desejo, não tinha? Pedira a Porunga que reencarnasse a alma de Majin Bu para um dia tornar a bater-se
contra ele.
Fora a batalha mais terrível que enfrentara e recordou-se dela, quando
olhou para o horizonte onde o sol desaparecia, engolido por um mar de fogo. O
combate contra Majin Bu… Apesar de
todo o mal que causara a si, aos seus e ao mundo, dera-lhe igualmente muitas
coisas. Graças a Majin Bu ensinara ao
filho mais novo, Goten, a Técnica da Fusão, o outro filho, Gohan, aumentara
extraordinariamente o seu poder, recuperara a vida perdida no torneio do Cell e
combatera pela primeira vez ao lado de um dos maiores guerreiros que jamais
conhecera e que sempre admirara: Vegeta.
Belos tempos, em que tinham um monstro para eliminar, em que
procuravam as bolas de dragão, em que o sangue saiya-jin fervilhava nas veias com a excitação dos próximos combates.
Agora, tinha Ubo e era um sensei.
Mas não se devia queixar. Estava a fazer exatamente aquilo que sempre tinha
feito ao longo da vida. Salvava a Terra! Se não era por meio de combates,
fazia-o ensinando aquele miúdo a controlar o seu poder para que, um dia, não se
servisse dele para acabar com o planeta. Dava tudo ao mesmo. E Goku podia-se
considerar satisfeito. Mas o seu sorriso entristeceu.
- Passa-se alguma coisa, sensei?
– Perguntou Ubo.
- Não, Ubo. Não é nada. – E riu-se para disfarçar um sentimento mais
profundo. – Já há muito tempo que não vou visitar a minha família. Estava aqui
a pensar e decidi ir visitá-la hoje.
- Acho que é uma boa ideia, sensei.
- Mas só depois de comer! – Exclamou Goku e logo o seu olhar se
iluminou de alegria. – Estou cá com uma fome… Vamos caçar alguma coisa juntos,
fazer um grande banquete, porque hoje tenho vontade de comer até rebentar.
Ubo desatou a rir.
- Mas o sensei come sempre
até rebentar! Se eu comesse assim tanto, estava feito numa bola.
Os dois partiram pela floresta adentro à procura do jantar. Comeram à
volta de uma alegre fogueira. Depois, Goku deixou o seu pupilo no abrigo que os
dois tinham construído naquele lugar que usavam para os treinos mais intensos,
longe da ilha onde moravam e, utilizando a técnica Shunkan Idou, deixou as montanhas por aquela noite.
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