O eco triplo do gongo pairou sobre a vegetação e o lago, vibrando no
céu e na terra.
Kang Lo estava agitado, inquieto como um animal ferido. Zephir
observou-o demoradamente. Conseguia sentir na alma dele a ansiedade pelo sabor
do sangue. Tinha de combater naquele dia, senão explodiria.
Desde que entregara a mente ao Makai, Kang Lo nunca mais fora o mesmo.
Estava mais raivoso e brusco, mas também mais forte. A energia vital parecia
inesgotável. Os punhos esmagavam pedras com toda a facilidade, os pontapés
destruíam montanhas, os ataques flamejantes eram capazes de incendiar florestas
inteiras e, acima de tudo, conseguia finalmente voar. Quando descobriu que
dominava a técnica Bukuujutsu e que
era capaz de vencer a lei da gravidade, Kang Lo rejubilara. E fora a atravessar
o ar que saíra das montanhas.
Zephir admirava a sua obra com verdadeiro orgulho. A primeira obra.
A segunda obra esperava-o naquela manhã.
Cravou os olhos ávidos no Templo da Lua. A luz esparsa da manhã ia
tornando mais nítidos os pormenores da singular arquitetura. Quando um raio de
sol dourado bateu de chofre no portão principal, sentiu o estômago contrair-se.
Acontecesse o que acontecesse, não iria destruir o templo. Aquela era a sua
casa…
Por detrás das duas colunas do pórtico de entrada, para além dos
muros, os monges terminavam as orações matinais, os sacerdotes praticavam o culto
– alguns estudavam os grandes livros da Sala Sagrada, o Sumo-Sacerdote presidia
aos destinos da comunidade. A tranquilidade habitava o recinto.
Kang Lo rosnou. Tinha o semblante carregado, os músculos do corpo
tensos, as veias salientes. Já não aguentava mais esperar. O feiticeiro
tinha-lhe prometido ação, mas até ali nada acontecera. Impaciente, deu um passo
em frente, mas o braço de Zephir barrou-lhe o caminho.
- Espera – disse-lhe. – Antes de entramos no templo, quero avisar-te…
- Avisar-me do quê?
Outra coisa que mudara em Kang Lo. A voz era mais profunda e rouca.
- Não quero que destruas o templo.
O lutador acalmou ligeiramente a raiva que o consumia e obedeceu à voz
do mestre, baixando a cabeça com humildade.
- Deves deixar o edifício em pé, mas elimina todos aqueles que te
barrarem o caminho. Mata-os sem remorsos. Apenas deverás poupar sete. Esses serão
para mim.
- Quem são esses sete?
- O Sumo-Sacerdote, um jovem sacerdote e cinco monges.
Zephir estendeu uma mão por cima da testa de Kang Lo, onde brilhava o
“M” do Makai, deixando-lhe na mente os rostos dos sete intocáveis. Kang Lo
recebeu a informação e dobrou as costas numa profunda vénia.
- Hai, sensei.
O vento soprou com um uivo sinistro. Kang Lo estremeceu. Ao olhar para
o rosto lívido de Zephir sentiu – de algum modo pôde sentir – que aquilo era
errado. Mas o cérebro estava toldado por um véu espesso de maldade e deixou-se
estar, vencido pelo fogo que o tornava tão forte. Começou a caminhar em direção
ao enorme portão e Zephir seguiu-o.
O gongo voltou a soar.
O sol, uma enorme bola laranja, aparecia triunfante no horizonte.
Zephir, envolvido numa calma gelada, era como se fosse uma estátua de
pedra.
Com um grito poderoso, Kang Lo enviou das mãos uma enorme bola de fogo
que foi esmagar-se no portão do Templo da Lua. Seguiu-se uma explosão e, quando
o fumo se dissipou, tinha aberto um enorme buraco no muro. As colunas da
entrada ficaram parcialmente desfeitas, mas Zephir relevou. Apesar de lhe ter
ordenado que não destruísse o templo, alguns estragos teriam de ser feitos para
poderem penetrar no recinto muralhado. Por outro lado, os monges e os sacerdotes
teriam de sentir de uma maneira repentina que a desgraça se abatera sobre as
suas cabeças e uma explosão teria o impacto desejado.
Com efeito, começaram-se a ouvir vozes agitadas e passos numa correria
louca no interior do templo. Kang Lo passou por cima das pedras fumegantes, a
olhar para todos os lados. Zephir seguiu-o vagarosamente, no estilo próprio de
um grande feiticeiro. Assim que colocou os pés nas grandes lajes negras do
pátio, sentiu-se vitorioso. Debaixo do braço levava o “Livro de Babidi” e
apertou-o com força, concentrado em não falhar.
Um monge apareceu, vindo do lado esquerdo, armado com uma comprida lança.
Kang Lo disparou um fino raio azul que atravessou o monge. Do lado direito,
apareceu outro monge que teve a mesma sorte do primeiro. Zephir prosseguiu, deixando
Kang Lo entregue à tarefa de se desfazer dos monges que apareciam no pátio a
correr desenfreados, vindos de todos os lados, aos berros, armados com lanças,
espadas e varapaus.
Parou diante da porta aberta do templo. O corpo musculado do lutador ficara
para trás, rodeado por três monges mais dotados para as artes marciais e que o
tinham desafiado para um combate até à morte.
Um grito abafado encheu o pátio. Um dos três monges acabava de tombar.
- Pela Deusa! Enquanto existir um monge ou um sacerdote de pé, não
conquistarás o Templo da Lua.
Kang Lo soltou uma casquinada demente.
Desinteressado no drama que acontecia no pátio, quando o segundo monge
também caía assassinado pelo lutador, Zephir entrou.
Com o mesmo passo seguro atravessou os corredores desertos. Passou
pelo pátio interior onde se erguia a estátua da Deusa Suprema da Noite, pela
entrada trancada da Sala Sagrada e pela galeria que conduzia ao Salão da Luz.
Não se deteve. Parou diante de uma porta de madeira escura, meio aberta. Nessa
sala ardia incenso. Era a câmara onde se preparavam os colares para a Deusa,
que apenas os sacerdotes estavam autorizados a compor.
Toynara estava na sala, debruçado sobre uma mesa a escolher flores
brancas. Profundamente absorvido no trabalho sagrado, ainda não se tinha
apercebido que o templo estava a ser atacado.
Com a mão que estava livre, Zephir empurrou a porta da câmara e
abriu-a. Ficou parado na entrada, sem emitir um som. Toynara voltou-se, a
preparar uma reprimenda feroz para quem o ousara interromper. À primeira vista,
aquele homem sujo e com as roupas rasgadas pareceu-lhe um mendigo. Depois,
reconheceu-o.
Toynara levantou-se. As pernas vacilaram, a voz tremeu.
- Zephir!
Sem comentários:
Enviar um comentário