31 de outubro de 2012

Capítulo IX - IX.7 Os labirintos do templo.


Era um sítio confuso, molhado, misterioso e assustador. As sombras entremeavam-se com a luz bruxuleante das tochas, presas em suportes de ferro, que iluminavam os corredores intermináveis. Pelas paredes de rocha escorriam, em alguns pontos, veios de água que se infiltravam no chão rugoso.
A água devia vir do lago, pensou Goten. Olhando em volta acrescentou em pensamentos que, pelo aspeto daquele lugar, estavam certamente nos subterrâneos do templo. Ele e Trunks tinham dado tantas voltas atrás de Julep e de Kumis, que já não sabiam como fazer para regressar ao ponto de partida. Estavam perdidos.
Trunks enviou um raio de fogo que abriu um buraco numa parede. Algumas ratazanas fugiram amedrontadas. Os dois rapazes pararam numa passagem que se dividia em três mais adiante. Ouviu-se o riso de Julep.
- Falhei – resmungou Trunks.
Uma sombra apareceu e logo desapareceu no corredor do lado direito. Era um dos gémeos. Trunks enviou novo raio. Mais um buraco, mais ratazanas.
Goten preparou-se. Semicerrou as pálpebras para ver melhor e não se deixar enganar pela penumbra daqueles corredores. Para além dos demónios que perseguiam, surgiam de vez em quando alguns daqueles bichos negros que guardavam a entrada do Templo da Lua, mas que nem sequer se aproximavam nem dele, nem de Trunks, e outras coisas negras, sem forma, que bailavam pelas paredes, à luz das tochas. Estavam num lugar assombrado e arrepiou-se todo.
- Está ali! – Exclamou Trunks.
O berro fez o coração de Goten disparar. Ficou pregado ao chão a ver como Trunks se atirava numa correria desenfreada pelo corredor da direita atrás daquilo que vira. Ouviram-se duas pancadas secas, um urro abafado. Alguém caíra. Goten foi ver e descobriu o amigo estendido na passagem, agarrado à cabeça.
- Trunks-kun!
- Cuidado! Eles ainda estão aqui.
O ar moveu-se e Goten desviou a cara, escapando de um punho cerrado. Atacou de seguida o vulto, munindo-se dos outros sentidos e da sua intuição de lutador. Falhou o primeiro golpe, mas, conseguindo esquivar um pontapé na raia do impossível, aproveitou o balanço e, no mesmo movimento, derrubou-o com um murro nos queixos. O demónio atravessou metade do corredor e embateu no chão com estrondo.
- Isso não vale – protestou Julep divertido. – Tu não és o meu adversário.
E enquanto Julep se levantava, Kumis atacou Goten pelas costas. Tropeçou em Trunks que se punha em pé e os dois rapazes estatelaram-se.
A voz de Kumis ecoou naquela língua estranha que já tinham ouvido:
- Já chega de brincadeiras, Julep! Temos uma missão a cumprir.
Goten sentou-se aturdido. Tinha Trunks estirado sobre as pernas, a gemer desmaiado, pois tinha batido com a cabeça na parede. Fixou a atenção nos vultos dos demónios, que continuaram a falar um com o outro.
- Sabes quais são as ordens de Zephir, Julep.
- E estou a cumprir as suas ordens. Já estamos nos subterrâneos.
- Devemos afastar-nos até que um deles esteja enfeitiçado.
- Um desperdício. Estava a divertir-me tanto…
- Pois, terminou.
Trunks deslizou para o lado, libertando as pernas de Goten. Resmungou qualquer coisa inteligível, enquanto Goten se punha de pé, a fixar atento os movimentos dos vultos. Reparou que eles ficaram parados de repente, como se se tivessem transformado em pedra, o que não prenunciava nada de bom. Endureceu os músculos, sentindo um formigueiro na sola dos pés. Desejava atacá-los, mas não se queria precipitar.
Kumis olhou para o irmão e os dois fitaram-se mutuamente.
Goten engoliu em seco. Trunks colocava-se ao seu lado, na mesma posição de defesa.
Os dois demónios investiram. A pouca distância, separaram-se, tomando direções opostas. Goten e Trunks encostaram-se um ao outro para cobrirem todos os prováveis ângulos de ataque. Kumis surgiu, num salto, apontando à cabeça. Julep preferiu um golpe baixo, dirigido às costelas. Goten e Trunks defenderam-se, o primeiro lançando o braço, o segundo erguendo um joelho. Quando atacaram, socaram o ar. Goten piscou os olhos confuso.
O riso sonoro dos gémeos encheu a passagem escura. Estavam longe, junto a uma tocha e que lhes acentuava as feições demoníacas. Goten balbuciou:
- Como é que eles foram parar ali?
Trunks respondeu, lançando-se numa corrida:
- Não interessa. Atrás deles!
Goten seguiu-o, cada vez mais assustado com aquele sítio e com os estranhos adversários. Talvez fosse só impressão, mas parecia-lhe que eles não queriam verdadeiramente lutar, que estavam apenas a conduzi-los para que entrassem cada vez mais fundo no templo, onde o verdadeiro adversário aguardava.
Quando chegaram à tocha, Julep e Kumis tinham desaparecido mais uma vez. Trunks rosnou frustrado. Mais adiante, alguns degraus desciam para uma câmara iluminada. Do lado esquerdo a passagem estava obstruída por grandes pedregulhos, pelo que o caminho teria de seguir forçosamente para baixo.
Os olhos vermelhos de quatro kucris apareceram no fim dos degraus. Trunks disparou quatro raios que dissolveram as criaturas em fumo. Desceu apressado as escadas, chamando Goten com um aceno.
- Vem. Isto parece vazio.
Goten olhou para a retaguarda uma última vez antes de se juntar a ele.
Quando chegou à câmara, estacou. Outro lugar assombrado. Era uma grande sala sem nada lá dentro, com paredes de tijolos negros. Ali não se viam tochas, mas toda a sala estava mergulhada numa luz ténue, a suficiente para que se distinguissem os pormenores. Observou a sala apreensivo.
- Onde se meteram Julep e Kumis? – Perguntou e a sua voz fez eco.
- Não sei. Desapareceram.
- Como podem ter desaparecido?
- Fugiram outra vez. Kuso!
- E fugiram para onde? – Ouviu o coração a bater na cabeça. – Só há uma maneira de entrar e de sair daqui, que é por aquele corredor por onde viemos nós.
Trunks sorriu.
- Talvez se tenham transformado em fantasmas.
- Trunks-kun!
- Nunca se sabe.
Goten disse aborrecido:
- Cala-te. Isto é a sério e não me apetece brincar com coisas sérias.
- Está bem… Descontrai-te! Eles não são mais fortes do que nós. Nem sequer nos transformámos ainda em super saiya-jin.
- Mas não estamos a conseguir derrotá-los.
- Porque estão sempre a fugir.
Goten voltou-lhe costas. Trunks disse:
- Descontrai-te, já te disse. Deve haver alguma passagem secreta, foi assim que Julep e Kumis fugiram. Vamos procurá-la.
Envolvido naquela luminosidade sobrenatural, Goten sentia-se indisposto. Olhava para a única entrada, mal se viam os degraus que tinham descido. Se calhar, não existiam degraus. Se calhar, nem existia aquela sala. Era tudo uma ilusão.
- Vamos embora, Trunks-kun – insistiu. – Julep e Kumis não estão aqui.
- Estás com medo, Son Goten?
Negou com a cabeça e ia protestar com veemência quando se ouviu um estalido. Os dois ficaram quietos, olharam maquinalmente para o teto.
Novo estalido. Toda a sala começou a tremer, sacudida por um violento terramoto. Trunks foi o primeiro a reagir. Gritou:
- Isto vai desmoronar-se!
Desataram a fugir, mas não conseguiram escapar dali. Uma chuva de pedras negras resvalou pelos degraus, abateu-se sobre a entrada, tapando-a.
O terramoto não dava sinais de terminar. Nas paredes surgiam fendas que desciam do teto até ao chão, rachando os tijolos pretos, enchendo o ar de poeira. Goten olhava frenético para todos os lados.
- Não podemos ficar mais tempo, ou isto acaba mal – disse Trunks.
Apontou as mãos para cima, pronto para usar um ataque energético e abrir um buraco que lhes permitisse sair da câmara que chocalhava debaixo dos pés, mas ficou-se pelo gesto. Trunks emudeceu com a surpresa.
Goten seguiu o olhar do amigo e também ficou boquiaberto. Uma parede materializou-se numa abertura em linha reta que surgira no teto. Caiu pesada no chão trémulo do compartimento, dividindo-o ao meio. A misteriosa luz diluiu-se até sumir-se por completo, deixando tudo escuro. Goten ficou de um lado da parede e Trunks do outro.
O terramoto terminou.
Goten não ousava mexer-se. Ouvia na cabeça, para além do coração, o seu respirar apressado. Virou os olhos da esquerda para a direita, a tentar ver através daquele breu. Concentrou-se. Para além dele, não havia mais ninguém ali. A sua metade da sala estava vazia. O ki de Trunks estava do lado de lá, na outra metade.
Com todos os cuidados, aproximou-se da parede. Esticou um braço, tocou-lhe com os dedos e sentiu a sua superfície áspera e fria. Passou uma mão por esta, em seguida, outra mão. Era uma parede verdadeira e sólida. Contudo, era igualmente uma parede encantada. Estava ali porque vinha de um feitiço. Talvez como toda a sala… Aquele cenário não passava de um feitiço.
Lembrou-se do feiticeiro. Tinham de sair dali o mais depressa possível. Piccolo tinha-os avisado que deveriam manter-se lúcidos, com a mente forte, para evitar situações desagradáveis, como aquela. Mas tinham-se distraído, tinham sido descuidados.
Nisto, um grito lancinante veio do outro lado da parede. Reconheceu-o, o sangue gelou. Atirou-se à parede, a chamar:
- Trunks!!
Os gritos indicavam que o amigo sofria. A dor era evidente nos berros agudos que Trunks soltava a plenos pulmões. Mas a parede grossa e negra fazia com os gritos soassem abafados, vindos de muito longe.
- Trunks! O que é que se passa?
Encostou o ouvido à parede, para tentar perceber o que é que se passava do outro lado. Não escutou sinais de luta, os demónios não estavam ali. Trunks, sozinho, gritava como se lhe estivessem a arrancar a pele.
- Trunks-kun!
Então, o amigo calou-se. O silêncio foi ainda mais perturbador. Passou meio minuto, um minuto, quase dois…
Goten decidiu agir. Atirou-se para trás, aumentou o ki, transformou-se em super saiya-jin. Com as mãos unidas projetadas para diante enviou uma potente descarga de energia que rebentou com a parede. Os tijolos saltaram desfeitos, misturados com rolos de fumo preto.
Saltou pelo buraco, procurou ansioso por Trunks. Encontrou-o na penumbra, enrolado num canto a arfar, parecendo ferido.
Estranhamente, a escuridão estava a diminuir e viam-se, aos poucos, os contornos das coisas com mais clareza. A luz anormal regressava.
Goten abandonou o estado de super saiya-jin. Um relâmpago muito brilhante encheu a sala, cegando-o. Teve de proteger os olhos com as mãos. Um trovão deixou-o surdo e fez um esgar, enquanto sentia os tímpanos a vibrar.
Quando abriu os olhos, o estômago contraiu-se. A misteriosa câmara tinha desaparecido. Estava novamente no labirinto subterrâneo do Templo da Lua. Regressavam ao início.
Correu para o amigo, chamando por ele.
- Trunks?
A sua voz fê-lo reagir. Trunks voltou-se, apoiando o corpo nos braços, preparado para se levantar. A cara estava, de alguma forma, diferente. Os olhos… Os olhos já não eram os mesmos.
- Estás bem?
Goten semicerrou as pálpebras. Deu mais um passo e Trunks pôs-se de pé, adotando imediatamente uma posição de defesa. Goten estacou.
Foi então que viu com clareza os olhos de Trunks. Já não eram azuis. Eram… Goten sentiu-se afundar com o susto. Eram vermelhos!
Trunks soltou uma gargalhada.
- Ah! Estás aqui! Já não te apetece mais fugir?
Goten olhou-o de cima a baixo, não querendo crer no que tinha acabado de acontecer. Por isso, insistiu:
- Estás bem?
- Eu não te vou deixar fugir.
Trunks transformou-se em super saiya-jin. Ao contrário do que devia suceder, os seus olhos não clarearam com a aura dourada que lhe envolveu o corpo, continuaram vermelhos. Goten rendeu-se à realidade. Sabia muito bem o que tinha acontecido do outro lado da parede e a alma inundou-se de tristeza.
As palavras de Trunks feriram-lhe os ouvidos:
- Vamos, ataca! Acabaram-se os jogos. Vou mostrar-te o verdadeiro poder de um saiya-jin, Julep!

30 de outubro de 2012

Capítulo IX - IX.6 O príncipe ataca.


Ele não gostava rodeios. Tinha um especial prazer em ir diretamente ao assunto, sem entrar em jogos demorados. Por isso, a primeira coisa que fizera fora atingir o adversário com alguns golpes que não falharam o alvo. Atordoado com o murro na cara e o pontapé nas costelas, Keilo não se defendera convenientemente.
Em seguida, recuou, uniu as duas mãos e gritou:
- Final Flash!
A vaga cintilante de energia abateu-se sobre o saiya-jin e rebentou. Houve fumo, houve faíscas. Keilo desapareceu debaixo do ataque. E quando surgiu, entre a fumaça, um vulto combalido, Vegeta mergulhou em voo picado e atingiu-o com um potente soco. Não o deixou cair. Apanhou-o por trás na queda livre e fê-lo subir pelo céu com um pontapé nas costas.
Perseguiu-o voraz, para lhe assentar mais uns golpes. Só descansaria quando o visse inconsciente e subjugado ao seu poder. Concentrou toda a sua energia na mão, para desfechar um murro definitivo. Recolheu o braço para tomar balanço, rangendo os dentes.
Nisto, Keilo retesou o corpo, parando o voo vertiginoso e errante em direção às nuvens. No momento exato em que Vegeta ia esmurrá-lo, voltou-se e agarrou no punho com uma das mãos.  
- Calma, Vegeta! Eu não quero que isto acabe depressa.
O príncipe puxou a mão, mas Keilo tinha-a bem presa entre a sua. Levantou um joelho que Keilo evitou. Inesperadamente, Keilo soltou uma ruidosa gargalhada e deixou-o ir. Vegeta não desperdiçou a ocasião – enfiou um soco em cheio na cara de Keilo. A resposta veio em forma de cotovelada, um movimento à meia-volta, que se cravou no meio do peito do príncipe, que se engasgou, projetando a cabeça para a frente. Acabou derrubado por uma palmada.
Respirando profundamente, Goku sentia-se melhor. Nunca esperara que aquele confronto tomasse aquelas proporções. Keilo era um super saiya-jin esquisito, a sua força tinha uma característica peculiar e que não era devida à magia do Makai. Conseguiu perceber que Keilo era um saiya-jin especial, mas não sabia ainda muito bem porquê.
Vegeta entregava-se a fundo ao combate e Goku apreciou o seu empenho, quando tinha ficado petrificado no início. Com o seu ímpeto habitual despachara o adversário com um par de golpes precisos, mas era ele quem cruzava agora os ares e desaparecia por entre as árvores da floresta. Keilo foi atrás dele.
Com as costas da mão, Vegeta limpou o fio de sangue que lhe saía do canto da boca. Tinha a cabeça às voltas. Afastou irritado as pernadas das árvores que tinha arrastado na queda e levantou-se. Inspirou e fechou os olhos para recuperar de uma tontura. Ao abri-los encontrou Keilo que o observava de braços cruzados.
- És um bom adversário, Vegeta – disse-lhe. – Mas demasiado impaciente. Tens de ter mais calma.
- Não gosto de perder tempo.
- Hum… Assim, acabas por não apreciar o combate. Não te divertes como eu me divirto.
- Para me divertir, basta ver-te a sangrar. Tenho gostos simples.
- Uh!... Muito bem. Faz-me sangrar.
Vegeta aumentou o ki, espalhando a luz da aura dourada dos super saiya-jin.
- Quando eu começar, vais implorar-me que pare.
Keilo riu-se, descruzando os braços. A atitude descontraída provocava e irritava Vegeta que não o escondeu, rosnando.
- Sabes qual é a diferença entre nós, Vegeta?
- Eu existo e tu não passas de um feitiço.
- Eu tenho certezas e tu não.
- Certezas de quê?
- De que nem tu, nem Kakaroto, são rivais para mim. E não sou apenas um feitiço. Sou muito mais do que isso… príncipe. Tu sabes do que é que eu sou capaz.
Algo nele vacilou, mas Vegeta disfarçou com uma gargalhada.
- És um super saiya-jin, Keilo. – Cuspiu com desprezo – Só isso.
- Sou o super saiya-jin lendário.
- Eras o único super saiya-jin nessa época. Por isso, foste admirado e passaste a ser uma lenda. Agora, os tempos são outros. Mil anos passaram e surgiram novos guerreiros… Guerreiros poderosos! Já viste que tanto eu, como Kakaroto, somos super saiya-jin. Para além de nós os dois, existem ainda outros. O que me dizes a isto?
- Não sou um super saiya-jin qualquer. Não vos mostrei tudo o que sei fazer e, mesmo assim, derrotei Kakaroto.
- Ele também não te mostrou tudo o que sabe fazer.
- E vou derrotar-te a ti.
- Nem eu te mostrei tudo o que sei fazer!
Olharam-se com ódio.
Os ramos das árvores em redor foram açoitados pela energia que se soltou das duas auras fantásticas, que cintilavam e faiscavam como estrelas prestes a colidir na imensidão do Universo.
A iniciativa pertenceu a Keilo que investiu com ganas. A rapidez dos seus golpes era estonteante, mas Vegeta defendeu-se com acerto, procurando atacar sempre que via uma oportunidade.
Keilo, no entanto, foi mais expedito e com uma cotovelada derrubou Vegeta, que caiu no meio dos arbustos. Afastou-se a tempo ao sentir que Keilo vinha para o rematar. Rebolou, esquivou um punho que lhe passou rente à cara. Ainda no chão, juntou os dois pés e deu uma patada com tanta força que Keilo saiu disparado pela floresta adentro, a derrubar árvores à sua passagem.
Vegeta levantou-se com um salto. Apontou a palma da mão e enviou uma esfera vermelha de energia. Quando a esfera estava prestes a alcançar Keilo, este sumiu-se, utilizando a sua enorme velocidade.
Quando a esfera explodiu e iluminou a floresta de um vermelho medonho, Vegeta sentiu-o próximo. Teve o reflexo de baixar a cabeça e o braço de Keilo roçou-lhe os cabelos alaranjados. Esticou uma perna para desferir um pontapé, mas Keilo esquivou-se. Quando se virou, as mãos de Keilo apanharam-no, uma de cada lado da cara. Foi puxado e apanhou com uma cabeçada em plena testa.
Gritou com a dor cegante. Keilo largou-lhe a cabeça e um punho fechado afundou-se com força no estômago. Abalado com os golpes, caiu de joelhos.
Keilo agarrou-o pelos cabelos, colou o rosto ao dele.
- Sentes a minha força, príncipe Vegeta? Consegues senti-la? Pois isto não é nada! Sou capaz de muito mais! Já te disse, e tu sabes muito bem, que sou o super saiya-jin lendário. Podem ter passado mil anos, mas não há nenhum outro saiya-jin superior a mim. Mesmo que hajam dois, quatro ou dez super saiya-jin! Porque eu sou especial! Estou apenas a brincar e vocês caíram debaixo dos meus golpes como dois principiantes.
Vegeta olhou-o e disse-lhe:
- Eu também estou a brincar.
Keilo atirou-o com um safanão. Caiu de borco, a ofegar, a sentir o odor da terra húmida a entrar-lhe pelo nariz, a contaminar-lhe os pulmões secos. A tossir, soergueu-se para resumir o combate. Haveria de o derrotar, nem que fosse a última coisa que faria. Pelos seus cálculos, Kakaroto já deveria estar recuperado e, em breve, seriam dois contra aquele maldito presunçoso.
O desprezo de Keilo era insuportável.
- Estou farto desta brincadeira… Mas nada mais posso fazer a não ser brincar com vocês – revelou.
- Oh, então vamos passar a coisas mais sérias – concordou.
As ideias eram escassas, mas Vegeta ainda não estava disposto a desistir. Um verdadeiro saiya-jin combate sem receios. Tornou a concentrar o seu ki, reunindo toda a energia que lhe restava, sem deixar qualquer reserva que lhe valesse num momento crítico. Até ao fim, obstinadamente, sem dúvidas ou arrependimentos. Afastou Keilo com um pontapé, depois de um breve confronto corpo-a-corpo, estendeu os braços e começou a disparar uma saraivada de esferas amarelas.
Do outro lado da floresta, Keilo sorriu. Fácil de defender.

***

Goku assistia ao combate desde o alto. Estava recuperado, sentia-se apto para entrar novamente em ação, mas agora era a vez de Vegeta e não iria interferir, a não ser que o príncipe lhe pedisse ou necessitasse.
Ficara preocupado com a conversa que escutara. Não com o facto de o saiya-jin ter dito que era mais forte do que o estava a demonstrar – ele próprio tinha percebido isso quando o enfrentara – mas com aquela afirmação de que era tudo uma brincadeira, só que nada mais podia fazer a não ser brincar com eles.
O combate não era a sério. Era só para entreter.
Voltou a cabeça na direção do Templo da Lua. Pensou em Zephir e estremeceu.

29 de outubro de 2012

Capítulo IX - IX.5 Duas guerreiras improváveis.


Bra detestava arrumações e fazia a tarefa contrariada, mas tinha tantos brinquedos que chegava uma altura em que precisava de os enfiar nas caixas, gavetas, estantes e arcas que a mãe colocava no quarto para que ela desse alguma ordem às suas tralhas. Ordens inegociáveis de Bulma. Coisa que Bra não compreendia inteiramente, pois a mãe não era lá muito organizada e também tinha os seus brinquedos – máquinas, computadores, aparelhos, ferramentas e peças sobressalentes – espalhados de forma caótica pela oficina.
Um toque no vidro da janela sobressaltou-a. Voltou-se e o seu espanto foi maior quando descobriu Pan, a flutuar do lado de fora, a chamá-la com acenos agitados. Apressou-se a abrir a janela, exclamando:
- Pan-chan! O que fazes aqui?
- Olá, Bra. Vai vestir o teu dogi. Temos de ir embora.
- Nani?
- Vai, despacha-te!
A ordem de Pan era como a da mãe – inegociável – e Bra foi fazer depressa o que a amiga lhe pedia. Enquanto dava o nó no cinto preto sobre a túnica verde perguntou:
- Vamos treinar?
- Não. Vamos combater!
Bra gaguejou incrédula:
- Com-combater?!!
- Hai.
- Contra quem?
- Não sei.
Em cima do parapeito, pernas afastadas, Pan observava o céu em silêncio. Bra aproximou-se da janela e a amiga perguntou em voz baixa:
- Não sentes?
- Do que é que estás a falar?
- A energia de um saiya-jin… Não sentes?
Bra fez como ela e pôs-se a olhar para o céu. Tentou concentrar-se, mas estava tão impaciente que não conseguiu sentir nada.
- Não, não sinto.
Pan olhou-a aborrecida. Bra recuou desconfiada.
- Só vou contigo se me disseres o que é que está a acontecer – disse.
- Eu conto-te a história no caminho. Não podemos perder tempo, ou vamos chegar atrasadas.
- Não saio daqui enquanto não me contares.
O longo suspiro de Pan indicava que também ela estava impaciente. Mas contou:
- Hoje, o meu pai saiu de casa vestido com o dogi e disse à minha mãe que ia ajudar Piccolo-san! Disse também que estavam todos a combater, num sítio muito longe. O ojiisan, Piccolo-san e Vegeta-san.
- Ahn?! Tens a certeza?
- Hai. Foi isso que ouvi. E nós também vamos! Não podemos perder um combate destes. Se o meu avô está lá, é porque é um inimigo muito forte. Depois, concentrei-me e descobri a energia de um saiya-jin.
Pasmada, Bra tinha a boca muito aberta. De repente, empertigou-se, deu meia volta e disse:
- Espera aqui. Tenho de avisar a okaasan.
Pan alcançou-lhe a gola do dogi e puxou-a, fazendo-a cair.
- Baka! Vais avisar Bulma-san para quê? Se ela sabe, não nos deixa sair daqui!
- Mas ela anda à procura do meu pai e de Trunks-kun – explicou Bra a levantar-se. – Veio perguntar-me por eles, esta manhã.
- Depois de tudo terminar, ela ficará a saber. Anda lá. Vamos embora ou perdemos o combate.
Bra hesitava.
- O que foi? Não me digas que estás com medo? – Provocou Pan.
Olhou para a porta do quarto a puxar as abas da túnica. Disse, pouco segura na afirmação:
- Eu não tenho medo. Sou a filha de Vegeta.
- Assim é que é falar!
Voltou costas ao quarto que tinha acabado de arrumar para deixar a mãe contente e saltou pela janela. E iria deixar também a mãe furiosa quando ela descobrisse que tinha ido para um lugar perigoso, onde se combatia e, pior do que isso, quando descobrisse que era o mesmo lugar onde estava o pai e o irmão e que não lhe tinha contado nada. Bem, o mundo não era perfeito e não se podia ter tudo e era tão difícil deixar Bulma agradada. Já estava habituada às descomposturas dela e encolheu os ombros. Entre a fúria da mãe e uma aventura com Pan, escolhia, sem hesitar, a última.
Agora que sabia voar, sentia-se mais independente. Perguntou:
- Sabes para onde temos de ir, Pan-chan?
- Basta seguir o rasto do ki do saiya-jin. É fácil, mas é um pouco longe e vamos voar com toda a nossa energia. Compreendido?
- Hai. Só que…
- O que foi?
- Eu ainda não sinto o saiya-jin.
- Então, vem atrás de mim. O máximo da energia!
- Hai.
As duas afastaram-se da Capsule Corporation.

28 de outubro de 2012

Capítulo IX - IX.4 Desilusão amarga.


O sol nascera havia pouco tempo. A ilha inteira despertava para mais um dia de trabalho. A azáfama típica das manhãs enchia o ambiente de vozes e de risos, de aromas diversos a comida e a mar.
No entanto, Ubo não partilhava a mesma felicidade dos ilhéus. Naquela noite que passara, não dormira. Ficara sentado na praia, a olhar para o horizonte, onde pulsava a aura indistinta de um estranho saiya-jin, a esperar pelo mestre.
O mar desfazia-se em ondas sossegadas. Sentado à beira-mar, Ubo desviou a atenção do horizonte para se fixar na ondulação. O mar ia e vinha, calmo e quente… Tanta quietude, que contrastava com o que sentia para lá do que a sua vista alcançava.
Havia um combate. A aura do estranho saiya-jin já não se escondia. Agora exibia-se viva e exuberante, a envolver-se num confronto com um espírito que ele conhecia bem. Son Goku! Vegeta limitava-se a assistir. Piccolo desaparecera depois de ter lutado com uns estranhos seres, cujas auras eram negras. E os espíritos de Goten e Trunks perseguiam outras auras também negras, mas que eram muito mais poderosas do que as auras dos seres que Piccolo enfrentara.
Ubo sabia quem eram todos eles, porque uma das coisas que Son Goku lhe ensinara, quando ele se familiarizava com essa extraordinária capacidade de sentir o ki, fora aprender a conhecer os espíritos dos outros guerreiros que habitavam a Terra. E assim, conhecera todos os amigos do mestre e conhecera muitas histórias, de batalhas antigas.
Os seus sonhos eram quase sempre com essas batalhas. Inimigos poderosos e praticamente invencíveis, ameaçavam a Terra. Então, o mestre preparava-se para o desafio e juntava os companheiros. Os combates quase perdidos, os treinos para aumentarem os poderes, os sacrifícios que  eram feitos… Mas, no final, a vitória acontecia.
No dia anterior, antevera a realização desse sonho. Um novo inimigo tinha aparecido, o mestre mostrara-se preocupado. Ele ficara, simplesmente, ansioso. Finalmente, iria entrar numa aventura com o mestre e também ele teria, anos mais tarde, uma história fantástica para contar. O mestre prometera voltar, mas Goku não voltara e Ubo continuava à espera.
Suspirou. Devia ter paciência e não ceder ao pensamento amargo de que esperava em vão. Goku prometera e Goku nunca falhara uma promessa.
- Nii-san?
Era o seu irmão mais novo. Sentou-se ao lado dele, levantando areia com os pés descalços.
- Ainda estás aqui?
Não quis responder.
- Ficaste aqui a noite toda?
Contou aborrecido:
- Estou à espera de Goku-san.
- Ele foi-se embora, não foi?
- Foi. Mas vai voltar.
- Novos treinos?
- Hai. – Ubo fingiu sorrir. – Para novos treinos… Os melhores treinos da minha vida.
De repente, teve a sensação que o mestre não viria e entristeceu.
- Vai ensinar-te alguma técnica nova?
- Acho que sim.
O irmão segredou-lhe:
- Já és mais forte do que ele?
Abriu muito os olhos redondos.
- Baka! Ninguém é mais forte que Goku-san!
- Mas, uma vez, ouvi-o contar que tu és mais forte que ele.
- Eu sou forte, mas Goku-san é um grande lutador. Conhece todos os truques das artes marciais. Eu ainda não sei nada. Tenho… Tenho apenas uma enorme força em mim.
Os espíritos longínquos estavam cada vez mais agitados. O combate subia de tom, tornava-se mais renhido. Calou-se, roendo-se por estar tão longe e por não conseguir desobedecer ao mestre, que lhe tinha pedido que esperasse.
- Não estás cansado?
Desviou o olhar do horizonte, fixou-o novamente no vaivém do mar que galgava a praia. A maré enchia.
- Não.
- Mas deves ter fome.
- Também não.
- Estás a mentir, nii-san.
O irmão levantou-se, sacudiu a areia que se colara às calças.
- Olha, quando o mestre chegar, vais ter de estar pronto para partires com ele, não é?
Ubo olhou-o.
- E não podes estar com fome. Não vais conseguir combater com o estômago vazio. Anda comer. A mesa está posta com fruta, pão e doce. Anda lá!
A barriga de Ubo, inesperadamente, protestou com um ronco prolongado. Corou e juntou os joelhos ao peito para disfarçar o barulho do estômago vazio.
- Vês, nii-san. Tu tens fome!
Levantou-se relutante, esticou as pernas dormentes, as articulações estalaram. Seguiu o irmão pelo caminho das dunas que levava à aldeia fervilhante e feliz com as atividades da manhã.
O mestre já devia ter vindo, pensou cada vez mais triste… A não ser que nunca chegasse a vir.

Capítulo IX - IX.3 Um verdadeiro saiya-jin enfrenta o medo.


Uma explosão.
A luz feriu o olhar de Vegeta que teve de fechar os olhos, encandeado.
O som da explosão.
No meio de uma nuvem de fumo negro apareceu Goku, os braços cruzados sobre a cara para se proteger. Tinha a roupa em farrapos. O ataque de Keilo tinha sido demasiado forte.
As faíscas estalaram na aura dourada que rodeava o seu corpo onde começavam a aparecer as primeiras marcas – queimaduras, nódoas negras, raspões. Lentamente, Goku baixou os braços e fitou Keilo que, por cima dele, também o fitava com o mesmo olhar grave. Encontravam-se os dois a bailar nos céus.
O combate endurecera desde que tinham aumentado o seu poder até ao nível dois dos super saiya-jin. Goku, no início, gostara da maneira como Keilo se empregara na luta. Mas agora compreendia que aquela fúria inicial não fora mais que um prenúncio das verdadeiras capacidades do lendário super saiya-jin. Keilo melhorava a cada golpe recebido, a cada ataque flamejante defendido. Chegara mesmo a utilizar o jogo preferido de Goku – deixara que o adversário tomasse a iniciativa para avaliar a potência, para depois atacar com confiança por saber do que o outro seria capaz.
Goku não o deveria subestimar como fizera quando lutara com ele transformado em super saiya-jin, nível um. Keilo não era um super saiya-jin qualquer, nisso Vegeta tinha razão.
Olhou de relance para o príncipe. Continuava com o mesmo aspeto angustiado.
Emoldurado pelo belo céu azul da manhã, onde vagueavam algumas nuvens brancas, Keilo baixou os braços.
- Gostaste da minha surpresa?
Se Goku sentia-se cansado, Keilo não parecia estar muito melhor.
- Gostei! – Respondeu, dando à voz a força que já não sentia.
- Muito bem. Aqui vai mais uma surpresa.
Keilo gritou. Levantou os braços com um gesto rápido e logo dois aros azuis apareceram a rodear-lhe os pulsos, que subiram até às palmas das mãos, voltadas para cima. Ficaram a pairar aí, com um zumbido elétrico. Keilo enviou-os como quem lança um disco.
Goku esquivou os aros, elevando-se de maneira a que o ataque lhe passasse por baixo. Viu o saiya-jin sorrir unir dois dedos em cada mão que começou a agitar com precisão. Os aros descreveram uma curva e dirigiram-se rápidos para onde estava, que percebeu instantaneamente o que significavam os dedos a desenhar figuras geométricas. Era assim que comandava a trajetória dos aros.
Keilo soltou uma gargalhada ao ver Goku afastar-se pelos ares, a toda a velocidade.
- Não fujas! De nada te adianta fugires porque, mais cedo ou mais tarde, o meu ataque vai alcançar-te.
Os aros moveram-se em vários ângulos retos, sempre atrás do alvo. Sem diminuir a velocidade, Goku mergulhou de cabeça em direção ao lago. Como era de prever, os aros seguiram-no. Passou rente à superfície, abrindo um sulco nas águas, formando uma vaga de cada lado, coroada de espuma. Olhou para trás, os aros continuavam no seu encalço. Fez uma inflexão, começou a subir, deixando para trás a água fria do lago. Ao voltar a cabeça para cima, abriu a boca de espanto. Nos céus havia uma nuvem de aros! Distraíra-se por um segundo e não reparara que Keilo criara mais argolas de energia.
- Vamos, Kakaroto! Foge destes agora!
Estacou imediatamente. Gritou e criou em redor de si uma esfera invisível que o protegeu dos aros que choveram sobre ele. Uma primeira vitória, pensou. Mas, ao fazer desaparecer a capa protetora, ouviu um zumbido aproximar-se. Voltou-se alarmado. Um aro tresmalhado apanhava-o e envolvia-lhe o tronco e os braços. Um instante depois ficava também com as pernas presas com um segundo aro. Estrebuchou irritado.
A rir, Keilo aproximou-se dele.
- És meu, Kakaroto!
Goku olhou-o com raiva.
- Estás agora à minha mercê.
- Não cantes vitória ainda!
Keilo socou-o na cara. O sangue espirrou do nariz de Goku. Mal teve tempo de sentir a dor, porque um soco no estômago deixou-o sem fôlego.
- O que é que me vais fazer? – Perguntou o saiya-jin com ironia. – Gostaria muito de saber…
Goku inspirou fundo, preparou-se para se libertar dos aros. Keilo afastou-se. Goku sentiu um arrepio quando deparou com uma mão aberta em cima da cara. Sentiu o poder imenso do saiya-jin a reunir-se naquela mão, sem qualquer freio ou limitação. Keilo atacava-o. Cerrou os dentes.
A luz brilhante e quente rodeou Goku numa bola amarela. Ouviu-se outra explosão, que lhe abafou o grito. Muito fumo e faíscas, um tremor de terra. O sorriso de Keilo ficou mais perverso iluminado pelo seu ataque energético.
Em seguida, a bola amarela atravessou a atmosfera deixando atrás um rasto, como um pequeno cometa, levando Goku enclausurado na sua energia, desfazendo-se na floresta das cercanias. As copas das árvores atingidas ficaram queimadas, os ramos partiram-se, as folhas das pernadas espalharam-se.
Vegeta vira o ataque e ficara apreensivo. Keilo ganhara. De seguida, viria por ele…
No meio dos arbustos desfeitos, Goku levantou-se a apoiar a cabeça dorida. O sangue escorria copiosamente do nariz, da boca e da testa. Perdera a túnica que vestia, que não era mais que uns pedaços de tecido presos no cinto branco.
- Que força – suspirou.
Não se alongou nas lamentações. Sentiu que Keilo andava perto. Endireitou-se, focou-se no ki do adversário para determinar com exatidão onde iria aparecer. Tinha conseguido sobreviver à bola amarela, libertara-se dos aros, mas tinha perdido grande parte da energia e da frescura. O confronto estava a tornar-se mais duro.
Aqueles pensamentos foram esquecidos quando saltou instintivamente para fugir do pontapé que vinha apontado às suas costas.
O saiya-jin aterrou de frente para ele. Os dois entreolharam-se longamente. Estavam agora entre as árvores.
- És mais duro do que eu pensava! – Riu-se Keilo. – Ainda estás vivo depois do meu ataque.
- Já te tinha dito que tenho muitas surpresas para ti.
- Sabes qual é a tua sorte, Kakaroto?
- Qual?
- O nosso combate não é a sério.
Goku engoliu em seco. Não quis acreditar naquilo, soou-lhe à bazófia natural de todos os saiya-jin. Olhou para cima e descobriu Vegeta através da folhagem das árvores. Vegeta era pródigo nessa bazófia, uma das suas armas para amedrontar o adversário. Mas também lhe dissera que Keilo era o lendário super saiya-jin e que era invencível e parecera ter dito aquilo com uma convicção inabalável. O importante era não se deixar abater, levar por suposições ou guiar-se pela dúvida. No entanto, era um facto que os golpes de Keilo tinham mais força do que antes e eram também mais dolorosos.
- O nosso combate ainda não terminou – disse Goku a sorrir.
- Tens razão, isto não pode ficar por aqui. Ainda não estou totalmente satisfeito… Quero brincar mais um pouco!
- Ainda bem, porque eu também quero continuar a brincar contigo.
Um raio fino e arroxeado vinha apontado para a sua cara. Goku desviou-se inclinando o pescoço. Logo a seguir, veio outro raio. Keilo disparava-os com o dedo indicador espetado, num ataque trivial e repetitivo. Goku desviou-se de todos. Os raios furaram os troncos grossos das árvores atrás deles, deixando-os marcados com múltiplos buracos, muito pequenos, tantos quantos os raios disparados.
Goku correu para Keilo. Desapareceu. O saiya-jin nem estranhou. Quando Goku reapareceu, pronto para desferir-lhe um murro, Keilo, com a mesma mão que disparara os raios, parou-lhe o punho. Com rapidez e sem aviso, Goku atingiu Keilo no abdómen com o joelho. Este inclinou-se para a frente, sufocado, soltando-o e Goku derrubou-o com o murro que tinha preparado antes. Saltou-lhe para cima, de mão fechada em riste, Keilo rebolou para o lado e desviou-se do segundo murro, que foi acertar no solo húmido da floresta. Em seguida, Keilo tentou um pontapé, mas Goku esquivou-se.
Levantaram-se os dois ao mesmo tempo.
Passaram para uma luta corpo-a-corpo. Os golpes sucediam-se, intensos e violentos. Não havia um segundo de pausa. Combatiam com a raiva dos super saiya-jin, arrastando arbustos, pedras e até árvores que caiam vítimas dos seus murros e pontapés falhados.
Goku descreveu uma volta sobre si mesmo. O pé passou a escassos milímetros da cabeça de Keilo, que se agachou e mais uma árvore caiu com estrondo. O braço de Keilo vinha apontado ao queixo, num uppercut. Goku saltou para trás, num mortal. Antes de alcançar o chão com os pés, disparou duas esferas de energia que por pouco acertavam em Keilo. Uma explosão abriu uma cratera mais adiante.
- Kakaroto, o que mais tens para mim? – Berrou Keilo ofegante.
Goku também estava ofegante. Sorriu, no entanto. Nunca daria parte de fraco perante um adversário que tinha o jogo escondido.
- Queres mais?
- Sim, quero mais! Mostra-me essas tuas famosas surpresas que Zephir não me soube mostrar!
Keilo sumiu-se. Goku não o conseguiu seguir e quando o tornou a encontrar, era tarde demais. O saiya-jin surgiu no flanco esquerdo e derrubou-o com um potente pontapé. Aterrou de encontro ao tronco de uma árvore, que ficou rachado com o embate. Bateu aí com as costas e caiu.
Tonto, Goku colocou-se novamente em pé. Não iria passar ao nível seguinte dos super saiya-jin. Ainda não… O melhor para o fim. Além disso, o combate não era a sério, segundo as palavras de Keilo. E para um combate a brincar não estava nada mal. Era preocupante, contudo, pois Keilo dava mostras de ser mais forte do que ele naquele nível de poder e talvez fosse esse o segredo da lenda.
Goku tentou novo assalto. A sua energia tinha diminuído, perdera concentração. Por isso, Keilo não teve dificuldades em esquivar todos os seus golpes. E quando o apanhou, no mesmo flanco esquerdo desprotegido, tornou a derrubá-lo com um segundo pontapé que o apanhou no estômago. Goku caiu de joelhos, agarrado à barriga.
A mão de Keilo agarrou-o pelo pescoço, levantou-o à força. Goku sentiu-se afogar, o outro não o deixava respirar. Aflito, lançou as mãos ao braço que o garrotava.
- Estás a dececionar-me, Kakaroto.
Quis falar, mas não conseguiu. Foi um alívio quando o saiya-jin o atirou pelos ares. Mas já não se sentiu tão aliviado quando viu que mais um raio de energia o ia atingir. Com um gesto rápido e um pouco desajeitado, Goku desviou o raio com uma palmada.
Keilo saltou, a persegui-lo. Goku preparou o melhor dos seus ataques.
- Ka-me-ha-me
Keilo desapareceu novamente. Desta vez, não iria ter sorte com essa técnica. Goku voltou-se imediatamente para trás e disparou:
- Ha!!!
O raio azul embateu em cheio em Keilo. A Kamehame explodiu com estrondo.
Uma tontura assaltou Goku. A cabeça pendeu, a visão turvou-se. Arquejou a tentar recuperar o fôlego. Por pouco não se estatelava na floresta e ele compreendeu que não estava em condições de prosseguir. Precisava de um intervalo, alguns minutos para recuperar a sua energia e tentar novamente neutralizar o saya-jin de Zephir. Reparou em Vegeta. Permanecia no seu estúpido estado de sonambulismo, a observar o combate com uns olhos vazios. Foi para junto dele.
- Vegeta… Preciso que tomes o meu testemunho – disse a arfar.
Com um gesto lento, o príncipe encarou-o.
- Vegeta, estás a ouvir-me?
- Eu não posso lutar contra Keilo.
- Não sejas idiota. Também dizias a mesma coisa de Broli e, no final, enfrentaste-te a ele e acabámos por derrotá-lo, todos juntos. Lembras-te?
- Keilo não é Broli. Muito diferente de Broli.
- Mas eu… eu já não aguento muito mais.
- Keilo é o super saiya-jin lendário.
- Mas tu também és um super saiya-jin.
A nuvem que a Kamehame provocara começava a dissolver-se e já se conseguia ver o vulto de Keilo.
Vegeta descaiu os ombros.
- Eu… eu não posso.
- Preciso da tua ajuda, kuso! Senão, não o vamos conseguir derrotar. – Goku segurou Vegeta pelos braços, abanou-o, disse-lhe: – Eu poderia transformar-me em super saiya-jin, nível três, mas não lhe quero revelar que alcanço esse nível. E se Keilo também chega ao nível três e se for mais forte do que eu? Lenda ou não, imagem ou real, o que sei é que Keilo é um super saiya-jin muito estranho. No nível um é muito mais fraco do que eu, mas no nível dois, supera-me.
Vegeta negou com cabeça. Goku irritou-se. Empurrou-o.
A mancha negra no centro da névoa tomou forma, o ar clareou totalmente, afastando os derradeiros resquícios da explosão. Keilo estava preparado para o contra-ataque. Não havia tempo a perder, mas Vegeta insistia na apatia.
- Vegeta! Bakana!
Goku desfechou-lhe um potente murro.
- Reage!!!
O príncipe ficou igual. Nem o sangue que começou a sair-lhe da boca o fez despertar.
Um ataque.
Goku voltou-se e viu Keilo avançar com a rapidez que o caracterizava. Recuou para se afastar, para que Vegeta não fosse atingido. Duas esferas vinham apanhá-lo. Goku aparou-as com as mãos, desfazendo-se em chispas e em vapor. Quando procurou por Keilo, este sumira-se.
- Mas… onde está ele?
Goku concentrou-se, mas não foi a tempo. Keilo apareceu atrás e prendeu-o, passando os braços por debaixo dos seus ombros. Gritou, esperneou, detestava sentir-se preso. Como era hábito sempre que a vantagem lhe pertencia, Keilo desatou a rir.
- E agora, Kakaroto?
- Solta-me!
- O que é que pensas fazer?
- Solta-me!…
Ouviu os seus ossos estalarem, os tendões a rasgarem e a força a esvair-se, como água a escoar-se por um ralo. Goku perdia energia às golfadas, quase a perder a consciência. Fez um enorme e desesperado esforço para não abandonar o estado de super saiya-jin. Era importante não desistir, mas não sabia o que fazer mais para continuar e que armas poderia ainda utilizar para se colocar novamente em vantagem.
Deixara-se apanhar como um principiante. As pálpebras caíram-lhe sobre os olhos desfocados. Confiara demasiado e perdera-se nessa confiança. Goku cerrou os dentes.

***

O sangue era quente, espesso, com aquele sabor que se habituara a reconhecer depois de tantos combates. A sua vida tinha sido uma sucessão de batalhas que ganhara, na maioria das vezes. Tivera de as ganhar, senão não estaria ali hoje. Vegeta fechou os olhos, a provar o sangue.
Ele era o príncipe dos saiya-jin. Era um soldado de elite do seu povo, a máquina assassina perfeita. Agora, tantos anos depois, tinha a tendência para esquecer esses pormenores que tinham sido tão importantes numa determinada altura da sua vida – quando ser mais forte do que Kakaroto era tudo o que interessava.
Dentro dele, sentiu de novo esse desejo. Ser mais forte do que Kakaroto! Ninguém, a não ser ele, deveria eliminar Kakaroto!
Era estranho recordar-se daquilo naquele momento, depois de tanta coisa passada e de tanta coisa mudada. Talvez porque ali, perto dele, existia a última lembrança do seu planeta natal e do povo orgulhoso ao qual pertencia. Keilo, o mito dos saiya-jin.
Keilo lutava contra Kakaroto. Ganhava. Apesar de ter seguido o combate como se o tivesse a visionar num pesadelo distorcido, Vegeta percebera-o claramente. Keilo era superior.
Ninguém tinha o direito de tocar em Kakaroto! Muito menos Keilo. Vegeta fixou os punhos, agora cerrados. A raiva corria-lhe nas veias com o sangue, alimentando o coração que batia cada vez mais apressado, como se o oozaru adormecido que guardava na alma se quisesse libertar com um urro de desfazer os céus.
Vegeta despertava, rasgando o pesadelo.
Kakaroto, um soldado de terceira categoria, enfrentava-se a Keilo.
Vegeta franziu a testa.
Kakaroto ousara combater o lendário super saiya-jin e ele, o príncipe, recuara amedrontado?
- Não!!

***

Preso pelos ombros, Goku desfaleceu. A aura dourada dos super saiya-jin baixou o fulgor. Os cabelos perderam o tom alaranjado e o rosto recuperou parte das feições. Abandonou o nível dois e descaiu para o nível um dos super saiya-jin.
- Então, Kakaroto? Já terminaste? – Troçou Keilo, apertando-o com maldade.
Nisto, duas mãos agarraram Keilo pelos tornozelos. Um puxão forte fê-lo soltar Goku e com um segundo puxão foi lançado para baixo. Caiu na floresta, desaparecendo entre as árvores.
Cabisbaixo, Goku pairava no ar à deriva, o corpo a estalar dorido. Não conseguiria ripostar um ataque e sabia que o combate estava perdido, mas esperou pelo adversário. Iria cair de pé… Keilo surgiu enraivecido, subindo nos ares como uma flecha. Estacou próximo.
Goku levantou a cabeça, estranhando a demora. Keilo não costumava conceder tempo, nem espaço antes de qualquer investida. Descobriu-o por cima dele, no habitual porte altivo.
- Ve-Vegeta…
O príncipe não se voltou. Interpelou Keilo que limpava o sangue do rasgão que abrira na testa.
- Brinca agora comigo – disse.
Transformou-se em super saiya-jin, nível dois. O rosto sério abriu-se num dos seus sorrisos presunçosos. Com uma mão chamou Keilo, que rosnava zangado.
Goku sorriu. Vegeta entrava em ação.

27 de outubro de 2012

Capítulo IX - IX.2 Toda a ajuda do mundo.


O Palácio Celestial foi varrido por uma rajada de vento.
Toynara sentiu frio, mas suportou-o com o estoicismo de um sacerdote do Templo da Lua. Os olhos marcavam cada movimento de Ten Shin Han e do kami-sama que permaneciam junto aos limites do recinto circular do Palácio, a olhar inexplicavelmente para baixo, quando o que só se via eram brumas espessas. Mr. Popo estava ao seu lado e, tal como o kami-sama observava as nuvens, observava-o a ele e leu-lhe claramente as dúvidas.
- Queres saber o que é que estão eles a ver, Toynara-san?
A pergunta sobressaltou-o. Respondeu acanhado:
- Gostaria muito de saber. Eles parecem tão concentrados. Mas daqui de cima não se deve ver nada do que se passa no mundo.
- Pelo contrário. – Mr. Popo sorriu. – Vê-se o mundo muito bem.
- Honto?
- Do Palácio Celestial é possível ver tudo o que se passa na Terra. Kami-sama tem essa possibilidade.
- Mas eu julguei que aquelas nuvens grossas não o deixariam ver.
- Kami-sama vê com a mente.
Toynara compreendeu.
- Hai! Ver com a mente é importante. Sim… É um dos ensinamentos do Templo da Lua. Um sacerdote, com o devido treino, também consegue ver com a mente. E Ten-san? Também o faz?
- Claro. O seu treino nas artes marciais ensinou-o a sentir os espíritos dos seus adversários. Por isso, também ele vê com a mente.
Ten Shin Han acabava de apertar os punhos, preocupado.
- Ele é um grande guerreiro?
- Hai.
- Ele é um saiya-jin?
Mr. Popo desatou a rir. Toynara corou, não gostava que se rissem dele.
- Não. Ten Shin Han é chikyuu-jin. Como sabes tu da existência dos saiya-jin?
- Sei que a Terra está protegida por guerreiros das estrelas. Está escrito nos livros da Sala Sagrada do Templo. Sei que os saiya-jin vivem entre nós, no anonimato, e que levam vidas normais. Ninguém sabe quem são, a não ser aqueles que lidam ou lidaram diretamente com eles.
- Sabes muitas coisas, Toynara-san.
- Sou um sacerdote e um feiticeiro. Devo saber muitas coisas.
O sorriso de Mr. Popo desconcertou-o. Toynara ficou rígido.
- Ainda não me disse o que estão eles a ver… eh…
- Chamo-me Mr. Popo.
Toynara arrepiou-se. Percebeu que o estranho serviçal do Todo-Poderoso tinha a faculdade de ler as mentes e ocultou todos os seus pensamentos, embrulhando-os num casulo opaco. Teria de ter muito cuidado dali para a frente para não revelar demasiado. Repetiu:
- Ainda não me disse o que estão eles a ver… Mr. Popo.
- Estão a ver o que se está a passar no Templo da Lua, Toynara-san.
- O que é que se está a passar no Templo da Lua? – Perguntou, a dominar as emoções.
- Os guerreiros das estrelas estão a combater.
- Contra Zephir?
- Ainda não… O caminho até ao feiticeiro tem obstáculos.
Toynara regressou ao silêncio e Mr. Popo também se calou.
Na beira do recinto, Ten Shin Han sentia-se estalar com a tensão que lhe tolhia o corpo. O que percebia vindo do templo não era tranquilizador. Eles tinham-se dividido e combatiam separados. Goku e Vegeta estavam com o saiya-jin, Trunks e Goten tinham desaparecido no interior dos edifícios a perseguir os dois demónios e Piccolo, que se opusera aos kucris, acabava de perder os sentidos.
- Piccolo… – murmurou inquieto.
O rosto de Dende crispou-se ao perceber a queda do namekusei-jin. Quando esperava o ataque fatal, as criaturas negras, estranhamente, recuaram, indo postar-se na porta do edifício principal e no buraco do muro. Protegiam as entradas do recinto.
- Alguma coisa não está bem – afirmou Ten Shin Han ao sentir as movimentações dos kucris.
Dende concordou com ele.
- Zephir prepara alguma coisa.
- Trata-se de uma armadilha, kami-sama.
- Uma armadilha?
- Hai.
Ten Shin Han anunciou:
- Eu vou para o Templo da Lua!
- Nani?
- Piccolo já não está em condições de lutar. Goku, Vegeta, Trunks e Goten estão demasiado entretidos com os seus adversários e deixaram Zephir livre para fazer o que bem quiser. Alguém tem de ir procurar o feiticeiro e eliminá-lo, senão estaremos todos perdidos.
- A situação é perigosa no Templo da Lua.
- Eu sei. Mas irá tornar-se ainda mais perigosa se ninguém fizer nada.
- Gohan está também a dirigir-se para o templo.
- Ainda bem. Precisamos de toda a ajuda, neste momento.
A decisão, apesar de arriscada, era acertada e Dende concordou, acenando afirmativamente com a cabeça.
- Tens razão. Devemos combater Zephir com todas as nossas forças. Se existe essa armadilha que pressentes, Goku-san e os outros estão a cair nela sem se aperceberem.
Ten Shin Han respirou fundo.
- Só espero não chegar demasiado tarde.
- Tem cuidado. Zephir é um feiticeiro muito poderoso.
- Terei cuidado. Conheço as minhas limitações. – Reparou em Toynara. – Cuida bem dele, kami-sama.
- Não te preocupes. Sei o quanto Toynara é importante para nós.
Dende mostrou um sorriso pálido e completou:
- Iremos vencer. Se não hoje, no futuro.
- Hai!
Ten Shin Han reuniu o ki e atirou-se num voo vertiginoso atravessando as brumas que amparavam a base do Palácio Celestial. Partia sem hesitações, o que era louvável e tenebroso, a um tempo. Contudo, ele era um guerreiro, não fazia parte da sua natureza ver o desenrolar dos acontecimentos impassível. A sua força já não era significativa por comparação à força dos saiya-jin, mas continuava a ser um homem forte e iria contribuir com o que pudesse para destruir o feiticeiro.
No Palácio Celestial, Dende agarrou o bordão de madeira com ambas as mãos. Chamara Son Goku para combater Zephir, porque a situação se tornara preocupante. Teria sido tarde demais?

Capítulo IX - IX.1 Mistérios por desvendar.


O telefone tocava com insistência. Devia ser um assunto realmente muito urgente para não terem ainda desistido e, contrariada, Bulma resolveu atender. Pousou a chave de fendas, descalçou as luvas e foi até à mesa onde estava o telefone. Encontrava-se envolvida num trabalho de mecânica muito delicado, a reparar uma máquina nova e dera ordens para não ser interrompida. Mas agora o maldito telefone não se calava e não tinha outra hipótese senão ver quem seria. Assim que levantou o auscultador, pronta para gritar com quem quer que fosse, nem teve tempo para falar. Apareceu a voz esganiçada de Chi-Chi do outro lado.
- Bulma-san! Até que enfim que atendeste!
- Chi-Chi?… Mas…
Não pôde dizer mais nada porque a outra continuou:
- Tinham-me dito que não estavas contactável, que não querias ser interrompida, mas eu expliquei quem era e lá me passaram a chamada. Disseram-me que estavas no meio de um trabalho qualquer muito importante.
- Realmente, eu…
- Espero que não te esteja a interromper.
Bulma olhou para a máquina aberta, de onde saíam fios coloridos, rodeada de peças e de placas eletrónicas, uma grande caixa de ferramentas e ainda um computador portátil.
- Não, não me estás a interromper – disse, a ocultar um suspiro.
- Ainda bem. Não queria atrapalhar-te.
- Diz, Chi-Chi.
- Olha, estou a telefonar-te para que digas a Son Goten que venha para casa. Obrigado por ele ter ficado aí a jantar e a dormir na noite passada, mas não quero que ele abuse da tua hospitalidade.
Bulma despertou com uma sacudidela. Esqueceu o frete de estar ali a atender o telefonema de Chi-Chi.
- Son Goten?
- Hai. Diz-lhe que venha para casa que eu estou à espera dele.
- Mas… – O silêncio soou-lhe demasiado dramático, mas não soube como dizer aquilo sem antes fazer uma pausa. – Goten não está aqui.
- Não?!!
O berro deixou-a surda do ouvido esquerdo. Afastou o auscultador e os gritos de Chi-Chi mesmo assim foram perfeitamente audíveis:
- Goten não está na Capsule Corporation? Então, onde está ele?
- Era suposto eu saber? – E tornou a encostar o auscultador ao ouvido.
- Ele saiu ontem com Trunks e disse-me que iam para a Capsule Corporation. Foram treinar os dois, que eu sei… Estudar é que não foi, os exames já terminaram. Não o viste?
- Não, Chi-Chi. Não o vi.
- Então, onde está ele? Podes perguntar a Trunks onde se meteu o Goten?
Bulma agarrou no queixo, pensativa. Também não se lembrava de ter visto Trunks, ou mesmo Vegeta, já agora. Naquela manhã tomara o pequeno-almoço à pressa apenas com a companhia de Bra e não achara estranho. O facto é que havia três dias que andava entretida com aquela máquina e com os seus segredos eletrónicos, que nenhum dos seus engenheiros conseguira descodificar, e não tinha mais nada na cabeça. Pouco dormia e passava o tempo enfiada na oficina, alheada do que se passava na sua casa.
- Bulma, ainda estás aí?
- Estou.
- Podes perguntar a Trunks? – Insistiu Chi-Chi.
- Bem… Não lhe posso perguntar, porque… Também não vi o Trunks esta manhã.
- Nani?!!
Novo berro. Por aquele andar, Bulma iria ficar definitivamente surda.
- O meu filho desapareceu! – Exclamou Chi-Chi completamente descontrolada.
- Ele não desapareceu… Podem estar todos a treinar na Câmara de Gravidade.
- A noite toda?!
- Sabes como eles são. Quando se treinam, esquecem-se das horas.
- E vais ver se eles estão na Câmara de Gravidade?
- Claro! Além do mais, devem estar esfomeados e vou perguntar-lhes se querem que eu lhes prepare o pequeno-almoço. Tenho de planear a refeição com algum avanço, já sabes como são os saiya-jin a comer.
- E vais ver agora?
- Assim que desligar o telefone…
- E depois ligas-me, para me dizeres que está tudo bem com o meu filho?
Bulma torceu o nariz.
- Chi-Chi, Son Goten já é bem crescidinho para te andares a preocupar dessa maneira com ele.
- Son Goten nunca fica fora de casa uma noite inteira sem me avisar.
- Como te disse, esteve entretido e esqueceu-se das horas.
- E esquecia-se de me avisar? Podia ter telefonado ontem à noite!
O mesmo pressentimento que assaltara Chi-Chi e que a levara a ligar para a Capsule Corporation estava a contagiar Bulma. Apesar de argumentar com segurança, nem ela própria estava convencida do que dizia e desconfiava, cada vez com maior certeza, que ali havia uma qualquer história escondida.
- Diz-lhe para me ligar – pediu Chi-Chi mais calma.
- Está bem, eu digo. Dá-me cinco minutos.
As duas despediram-se. De seguida, Bulma saiu da oficina. Quando alcançou a porta da Câmara de Gravidade, abriu-a resoluta e chamou:
- Vegeta?
Bulma estremeceu.
A Câmara de Gravidade estava vazia, às escuras, o controlo gravitacional desligado. Lá dentro não havia ninguém e havia sinal de que não tinha sido ocupada nas últimas horas.
Tentou não entrar em pânico. Respirou fundo e foi, corredor afora, que nunca lhe pareceu tão comprido, à procura de Bra. À medida que caminhava esforçou-se por manter a mente lúcida para não magicar os cenários mais loucos, dando asas ao pressentimento que Chi-Chi lhe transmitira com aquele maldito telefonema que ela nunca devia ter atendido. De certeza que estava tudo bem. Eram dois rapazinhos bem grandes, com mais de vinte anos. E Vegeta tinha mais do que idade para ter juízo.
Abriu a porta do quarto da filha devagar. Bra arrumava os seus brinquedos numa enorme arca pintada com cores garridas.
- Bra-chan…
A miúda olhou para ela.
- Okaasan?
- Sabes onde está o otousan?
- Não – respondeu, negando com a cabeça.
- E Trunks-chan?
- Também não o vi.
Bulma engoliu em seco.
- Ele não comeu connosco, hoje de manhã – completou a miúda.
Bulma forçou um sorriso.
- Pois não…
- Porque é que estás à procura do nii-chan?
- Por nada… Eh… Preciso dele. E viste-os ontem?
- Não… Espera! Vi o otousan.
- Onde?
- Estava a treinar no jardim.
- Estava sozinho?
- Estava. Mas acho que depois alguém se juntou a ele…
- Porque é que dizes isso, Bra-chan?
- A energia do otousan mudou e apareceram outras energias. Mais gente, mas ainda não sei distinguir os ki muito bem. A Pan-chan tem de me ensinar melhor essa técnica.
Bulma abriu mais o sorriso, mas era tão fabricado que lhe saiu uma careta. Disse a Bra que continuasse a brincar e deixou-a no quarto. Dirigiu-se à oficina intrigada. Afinal, Goten teria estado na Capsule Corporation, na tarde do dia anterior, tinha-se treinado com Trunks e com Vegeta e, por alguma misteriosa razão, os três tinham partido tão repentinamente que não conseguiram deixar nenhum recado a indicar o que se passava e para onde iam. Começou a roer as unhas. Ela sabia o que isso significava. Uma nova ameaça pairava sobre eles.
Quando, já na oficina, fixava o telefone mudo, percebeu que tinha outro problema entre mãos, para além da máquina avariada, do desaparecimento de Vegeta e de Trunks e do fim da paz. Teria de contar as novidades a Chi-Chi. A reação, apesar de previsível, não era nada agradável de suportar.