Era um sítio confuso, molhado, misterioso e assustador. As sombras
entremeavam-se com a luz bruxuleante das tochas, presas em suportes de ferro,
que iluminavam os corredores intermináveis. Pelas paredes de rocha escorriam,
em alguns pontos, veios de água que se infiltravam no chão rugoso.
A água devia vir do lago, pensou Goten. Olhando em volta acrescentou
em pensamentos que, pelo aspeto daquele lugar, estavam certamente nos
subterrâneos do templo. Ele e Trunks tinham dado tantas voltas atrás de Julep e
de Kumis, que já não sabiam como fazer para regressar ao ponto de partida.
Estavam perdidos.
Trunks enviou um raio de fogo que abriu um buraco numa parede. Algumas
ratazanas fugiram amedrontadas. Os dois rapazes pararam numa passagem que se
dividia em três mais adiante. Ouviu-se o riso de Julep.
- Falhei – resmungou Trunks.
Uma sombra apareceu e logo desapareceu no corredor do lado direito. Era
um dos gémeos. Trunks enviou novo raio. Mais um buraco, mais ratazanas.
Goten preparou-se. Semicerrou as pálpebras para ver melhor e não se
deixar enganar pela penumbra daqueles corredores. Para além dos demónios que
perseguiam, surgiam de vez em quando alguns daqueles bichos negros que
guardavam a entrada do Templo da Lua, mas que nem sequer se aproximavam nem
dele, nem de Trunks, e outras coisas negras, sem forma, que bailavam pelas
paredes, à luz das tochas. Estavam num lugar assombrado e arrepiou-se todo.
- Está ali! – Exclamou Trunks.
O berro fez o coração de Goten disparar. Ficou pregado ao chão a ver
como Trunks se atirava numa correria desenfreada pelo corredor da direita atrás
daquilo que vira. Ouviram-se duas pancadas secas, um urro abafado. Alguém caíra.
Goten foi ver e descobriu o amigo estendido na passagem, agarrado à cabeça.
- Trunks-kun!
- Cuidado! Eles ainda estão aqui.
O ar moveu-se e Goten desviou a cara, escapando de um punho cerrado. Atacou
de seguida o vulto, munindo-se dos outros sentidos e da sua intuição de lutador.
Falhou o primeiro golpe, mas, conseguindo esquivar um pontapé na raia do
impossível, aproveitou o balanço e, no mesmo movimento, derrubou-o com um murro
nos queixos. O demónio atravessou metade do corredor e embateu no chão com
estrondo.
- Isso não vale – protestou Julep divertido. – Tu não és o meu
adversário.
E enquanto Julep se levantava, Kumis atacou Goten pelas costas. Tropeçou
em Trunks que se punha em pé e os dois rapazes estatelaram-se.
A voz de Kumis ecoou naquela língua estranha que já tinham ouvido:
- Já chega de brincadeiras,
Julep! Temos uma missão a cumprir.
Goten sentou-se aturdido. Tinha Trunks estirado sobre as pernas, a
gemer desmaiado, pois tinha batido com a cabeça na parede. Fixou a atenção nos
vultos dos demónios, que continuaram a falar um com o outro.
- Sabes quais são as ordens de
Zephir, Julep.
- E estou a cumprir as suas
ordens. Já estamos nos subterrâneos.
- Devemos afastar-nos até que um
deles esteja enfeitiçado.
- Um desperdício. Estava a divertir-me
tanto…
- Pois, terminou.
Trunks deslizou para o lado, libertando as pernas de Goten. Resmungou
qualquer coisa inteligível, enquanto Goten se punha de pé, a fixar atento os
movimentos dos vultos. Reparou que eles ficaram parados de repente, como se se
tivessem transformado em pedra, o que não prenunciava nada de bom. Endureceu os
músculos, sentindo um formigueiro na sola dos pés. Desejava atacá-los, mas não
se queria precipitar.
Kumis olhou para o irmão e os dois fitaram-se mutuamente.
Goten engoliu em seco. Trunks colocava-se ao seu lado, na mesma
posição de defesa.
Os dois demónios investiram. A pouca distância, separaram-se, tomando
direções opostas. Goten e Trunks encostaram-se um ao outro para cobrirem todos
os prováveis ângulos de ataque. Kumis surgiu, num salto, apontando à cabeça.
Julep preferiu um golpe baixo, dirigido às costelas. Goten e Trunks
defenderam-se, o primeiro lançando o braço, o segundo erguendo um joelho.
Quando atacaram, socaram o ar. Goten piscou os olhos confuso.
O riso sonoro dos gémeos encheu a passagem escura. Estavam longe,
junto a uma tocha e que lhes acentuava as feições demoníacas. Goten balbuciou:
- Como é que eles foram parar ali?
Trunks respondeu, lançando-se numa corrida:
- Não interessa. Atrás deles!
Goten seguiu-o, cada vez mais assustado com aquele sítio e com os
estranhos adversários. Talvez fosse só impressão, mas parecia-lhe que eles não
queriam verdadeiramente lutar, que estavam apenas a conduzi-los para que
entrassem cada vez mais fundo no templo, onde o verdadeiro adversário aguardava.
Quando chegaram à tocha, Julep e Kumis tinham desaparecido mais uma
vez. Trunks rosnou frustrado. Mais adiante, alguns degraus desciam para uma
câmara iluminada. Do lado esquerdo a passagem estava obstruída por grandes pedregulhos,
pelo que o caminho teria de seguir forçosamente para baixo.
Os olhos vermelhos de quatro kucris apareceram no fim dos degraus.
Trunks disparou quatro raios que dissolveram as criaturas em fumo. Desceu
apressado as escadas, chamando Goten com um aceno.
- Vem. Isto parece vazio.
Goten olhou para a retaguarda uma última vez antes de se juntar a ele.
Quando chegou à câmara, estacou. Outro lugar assombrado. Era uma
grande sala sem nada lá dentro, com paredes de tijolos negros. Ali não se viam
tochas, mas toda a sala estava mergulhada numa luz ténue, a suficiente para que
se distinguissem os pormenores. Observou a sala apreensivo.
- Onde se meteram Julep e Kumis? – Perguntou e a sua voz fez eco.
- Não sei. Desapareceram.
- Como podem ter desaparecido?
- Fugiram outra vez. Kuso!
- E fugiram para onde? – Ouviu o coração a bater na cabeça. – Só há
uma maneira de entrar e de sair daqui, que é por aquele corredor por onde
viemos nós.
Trunks sorriu.
- Talvez se tenham transformado em fantasmas.
- Trunks-kun!
- Nunca se sabe.
Goten disse aborrecido:
- Cala-te. Isto é a sério e não me apetece brincar com coisas sérias.
- Está bem… Descontrai-te! Eles não são mais fortes do que nós. Nem
sequer nos transformámos ainda em super
saiya-jin.
- Mas não estamos a conseguir derrotá-los.
- Porque estão sempre a fugir.
Goten voltou-lhe costas. Trunks disse:
- Descontrai-te, já te disse. Deve haver alguma passagem secreta, foi
assim que Julep e Kumis fugiram. Vamos procurá-la.
Envolvido naquela luminosidade sobrenatural, Goten sentia-se
indisposto. Olhava para a única entrada, mal se viam os degraus que tinham
descido. Se calhar, não existiam degraus. Se calhar, nem existia aquela sala.
Era tudo uma ilusão.
- Vamos embora, Trunks-kun – insistiu. – Julep e Kumis não estão aqui.
- Estás com medo, Son Goten?
Negou com a cabeça e ia protestar com veemência quando se ouviu um
estalido. Os dois ficaram quietos, olharam maquinalmente para o teto.
Novo estalido. Toda a sala começou a tremer, sacudida por um violento
terramoto. Trunks foi o primeiro a reagir. Gritou:
- Isto vai desmoronar-se!
Desataram a fugir, mas não conseguiram escapar dali. Uma chuva de
pedras negras resvalou pelos degraus, abateu-se sobre a entrada, tapando-a.
O terramoto não dava sinais de terminar. Nas paredes surgiam fendas
que desciam do teto até ao chão, rachando os tijolos pretos, enchendo o ar de
poeira. Goten olhava frenético para todos os lados.
- Não podemos ficar mais tempo, ou isto acaba mal – disse Trunks.
Apontou as mãos para cima, pronto para usar um ataque energético e
abrir um buraco que lhes permitisse sair da câmara que chocalhava debaixo dos
pés, mas ficou-se pelo gesto. Trunks emudeceu com a surpresa.
Goten seguiu o olhar do amigo e também ficou boquiaberto. Uma parede materializou-se
numa abertura em linha reta que surgira no teto. Caiu pesada no chão trémulo do
compartimento, dividindo-o ao meio. A misteriosa luz diluiu-se até sumir-se por
completo, deixando tudo escuro. Goten ficou de um lado da parede e Trunks do
outro.
O terramoto terminou.
Goten não ousava mexer-se. Ouvia na cabeça, para além do coração, o
seu respirar apressado. Virou os olhos da esquerda para a direita, a tentar ver
através daquele breu. Concentrou-se. Para além dele, não havia mais ninguém
ali. A sua metade da sala estava vazia. O ki
de Trunks estava do lado de lá, na outra metade.
Com todos os cuidados, aproximou-se da parede. Esticou um braço,
tocou-lhe com os dedos e sentiu a sua superfície áspera e fria. Passou uma mão
por esta, em seguida, outra mão. Era uma parede verdadeira e sólida. Contudo,
era igualmente uma parede encantada. Estava ali porque vinha de um feitiço.
Talvez como toda a sala… Aquele cenário não passava de um feitiço.
Lembrou-se do feiticeiro. Tinham de sair dali o mais depressa
possível. Piccolo tinha-os avisado que deveriam manter-se lúcidos, com a mente
forte, para evitar situações desagradáveis, como aquela. Mas tinham-se
distraído, tinham sido descuidados.
Nisto, um grito lancinante veio do outro lado da parede. Reconheceu-o,
o sangue gelou. Atirou-se à parede, a chamar:
- Trunks!!
Os gritos indicavam que o amigo sofria. A dor era evidente nos berros
agudos que Trunks soltava a plenos pulmões. Mas a parede grossa e negra fazia
com os gritos soassem abafados, vindos de muito longe.
- Trunks! O que é que se passa?
Encostou o ouvido à parede, para tentar perceber o que é que se
passava do outro lado. Não escutou sinais de luta, os demónios não estavam ali.
Trunks, sozinho, gritava como se lhe estivessem a arrancar a pele.
- Trunks-kun!
Então, o amigo calou-se. O silêncio foi ainda mais perturbador. Passou
meio minuto, um minuto, quase dois…
Goten decidiu agir. Atirou-se para trás, aumentou o ki, transformou-se em super saiya-jin. Com as mãos unidas projetadas
para diante enviou uma potente descarga de energia que rebentou com a parede.
Os tijolos saltaram desfeitos, misturados com rolos de fumo preto.
Saltou pelo buraco, procurou ansioso por Trunks. Encontrou-o na
penumbra, enrolado num canto a arfar, parecendo ferido.
Estranhamente, a escuridão estava a diminuir e viam-se, aos poucos, os
contornos das coisas com mais clareza. A luz anormal regressava.
Goten abandonou o estado de super
saiya-jin. Um relâmpago muito brilhante encheu a sala, cegando-o. Teve de
proteger os olhos com as mãos. Um trovão deixou-o surdo e fez um esgar,
enquanto sentia os tímpanos a vibrar.
Quando abriu os olhos, o estômago contraiu-se. A misteriosa câmara
tinha desaparecido. Estava novamente no labirinto subterrâneo do Templo da Lua.
Regressavam ao início.
Correu para o amigo, chamando por ele.
- Trunks?
A sua voz fê-lo reagir. Trunks voltou-se, apoiando o corpo nos braços,
preparado para se levantar. A cara estava, de alguma forma, diferente. Os
olhos… Os olhos já não eram os mesmos.
- Estás bem?
Goten semicerrou as pálpebras. Deu mais um passo e Trunks pôs-se de pé,
adotando imediatamente uma posição de defesa. Goten estacou.
Foi então que viu com clareza os olhos de Trunks. Já não eram azuis.
Eram… Goten sentiu-se afundar com o susto. Eram vermelhos!
Trunks soltou uma gargalhada.
- Ah! Estás aqui! Já não te apetece mais fugir?
Goten olhou-o de cima a baixo, não querendo crer no que tinha acabado
de acontecer. Por isso, insistiu:
- Estás bem?
- Eu não te vou deixar fugir.
Trunks transformou-se em super
saiya-jin. Ao contrário do que devia suceder, os seus olhos não clarearam
com a aura dourada que lhe envolveu o corpo, continuaram vermelhos. Goten rendeu-se
à realidade. Sabia muito bem o que tinha acontecido do outro lado da parede e a
alma inundou-se de tristeza.
As palavras de Trunks feriram-lhe os ouvidos:
- Vamos, ataca! Acabaram-se os jogos. Vou mostrar-te o verdadeiro
poder de um saiya-jin, Julep!