Trunks voltou mais uma página do grosso livro que estudava para o
exame do dia seguinte. Os olhos fixavam as minúsculas letras pretas mas não as
liam. Passou outra página. Era assim há dez páginas atrás. Não prestava a
mínima atenção ao que estava escrito no livro que, naquela noite, parecia-lhe
ainda mais abominável. Não se conseguia concentrar. Por mais que o tentasse, no
seu pensamento permanecia a lembrança teimosa daquela manhã.
Com um safanão, fechou o livro abruptamente. Recostou-se na cadeira,
mãos atrás da cabeça, a balançar o corpo com a ajuda dos pés assentes na
secretária, a olhar para o teto.
Passara as últimas semanas dentro daquele quarto e estava quase a dar
em louco. Tivera de esquecer o mundo que o rodeava e dedicar-se exclusivamente
aos malditos exames. Por causa disso, nem sabia o que se passava na própria
casa!
Tinha a boca inchada e dorida. O sorriso de triunfo de Bra surgiu novamente
diante dele, enquanto lhe dizia: “Ganhei eu!”. A irmã não lhe saía da cabeça. Estava
muitíssimo irritado, com ela e consigo próprio. Como é que tinha deixado uma
fedelha de sete anos derrubá-lo com apenas um murro? Claro que ele estava
desprevenido, nunca esperara que ela o atacasse, mas não era desculpa.
Agora, não conseguia estudar.
Aquilo não podia ficar assim. Tinha de reagir, tinha de fazer alguma
coisa.
Abriu a janela do quarto e mergulhou no ar ameno da noite. Empregou ao
máximo o seu ki para voar mais
depressa. Ia falar com Son Goten.
O amigo estudava, sentado à secretária, onde se empilhavam inúmeros
livros, cadernos, folhas fotocopiadas, à mistura com esferográficas e
lapiseiras. Bateu no vidro da janela e Goten levantou a cabeça surpreendido. Ao
ver quem era ia caindo da cadeira.
- Trunks-kun! – Exclamou em voz baixa, agarrado ao puxador da janela. –
O que raios fazes tu aqui?
Mas antes de escutar a resposta de Trunks, adiantou:
- Se vens cá convidar-me para mais uma das tuas sessões de cinema,
esquece! Já me bastou aquela do outro dia.
- Não é nada disso.
Goten mandou-o calar.
- Não fales tão alto. A minha mãe pode ouvir-te.
- Está bem… Ouve, preciso falar contigo.
- Tem de ser agora?
- Tem.
- Não pode esperar para amanhã? Estou a estudar…
Trunks cruzou os braços, suspenso no vazio do lado de fora.
- Não me vais convidar para entrar?
Goten afastou-se da janela, atrapalhado, deixando o amigo entrar.
- Gomen nasai.
Os dois sentaram-se na cama. Goten esperou que Trunks lhe contasse o
que o tinha levado até ali. Devia ser uma coisa muito importante para ter vindo,
no meio da noite, desde a Capsule Corporation, que ainda ficava longe dali.
Agora que estavam mais próximos e devidamente iluminados, Goten
reparou num detalhe e perguntou:
- Andaste a treinar com o teu pai?
Trunks retraiu-se. Goten apontou-lhe um dedo:
- Tens a boca…
Trunks virou a cara, aborrecido.
- Eu sei. É sobre isso que quero falar contigo. – Respirou fundo.
Punhos crispados sobre os joelhos, começou: – Esta manhã, descobri que a minha
irmã treina-se com o meu pai. E pela cara dele, não é mentira nenhuma. Apesar
de não passar de uma fedelha de sete anos, acho que… Que pode tornar-se mais
forte que eu!
Goten riu-se.
- Estás a rir do quê?! – Indignou-se Trunks, elevando ligeiramente a
voz.
- Não fales tão alto – disse Goten a agitar as mãos a pedir silêncio,
enquanto olhava para a porta. – Gomen
nasai, Trunks-kun. Mas é que ao imaginar a Bra-chan a dar-te um murro na
boca – escondeu um sorriso –, é divertido!
- Eu não acho tanta graça.
- Está bem, tens razão – concedeu Goten. – E o que queres fazer?
- Temos de voltar a treinar.
- Temos? Nós?
- Hai. Apesar de sermos
muito fortes, se não nos treinarmos com regularidade perderemos as nossas
capacidades. A velocidade, os reflexos…
- Sim, tens razão – Goten olhou para a secretária cheia de livros. –
Mas agora temos de estudar. Estamos na época de exames e…
- Os estudos que se danem!
Trunks levantou-se. Goten deitou mais uma olhadela à porta.
- Entre estudar e treinar, o que preferes tu?
- Tu sabes que prefiro treinar, Trunks-kun – respondeu envergonhado.
- Qual é a dúvida?
Goten respondeu:
- É só mais uma semana. Os exames terminam, vamos ter uns dias de
férias e poderemos treinar tudo o que quiseres.
- Durante esse tempo, a minha irmãzinha vai-se tornando mais forte.
- Em sete dias, não vai conseguir ser mais forte que tu.
- Levei um murro daquela fedelha! – Exclamou entre dentes.
- Apanhou-te distraído, tenho a certeza.
Trunks exibiu um meio sorriso presunçoso, que o fazia igualzinho a
Vegeta. Goten juntou-se ao amigo.
- Concordo em treinar-me contigo, mas depois dos exames. Combinado?
- Pfff…
- Acho que estás a ser paranoico. Tu és um super saiya-jin. Não acredito que Bra também seja super…
- Não sei isso! – Interrompeu Trunks a raiar o pânico.
Goten fez uma careta, pensativo. Descontraiu o rosto e reforçou:
- Não! Não acho que a Bra seja um super
saiya-jin. Pan não é super saiya-jin e
a minha sobrinha tem mais experiência de combate que ela. Afinal, chegou a
receber umas lições do meu pai.
- O melhor que fazíamos era ir até à ilha onde mora Ubo e ter umas
sessões de treino com Goku-san.
- Podemos pensar nisso, nas férias de verão.
- Era uma boa ideia, não era? – Os olhos de Trunks brilharam.
- Vegeta-san ficava zangado.
O entusiasmo de Trunks arrefeceu. Encolheu os ombros.
- Treinamos primeiro com o meu pai, então.
Como se fosse um gesto combinado, os dois olharam para os livros em
cima da secretária. Compreenderam que deveriam regressar às suas obrigações e
suspiraram.
- Queria fazer-te uma pergunta. Quando é que vais estudar com
Gohan-san?
- Depois de amanhã, Trunks-kun.
- Posso ir contigo?
- Está bem. Telefona-me e vamos juntos.
- Não haverá problema? Posso pedir à minha mãe que fale primeiro com o
teu irmão.
- Não. Ele até já perguntou por ti.
Passos perto da porta deixaram Goten e Trunks gelados. Só então repararam
que tinham estado a falar normalmente.
- A minha mãe! – Exclamou Goten. Empurrou o amigo na direção da janela
a dizer: – Vá, mexe-te. Vai-te embora! Se ela te vê aqui dá cabo de mim.
Os passos pararam. O puxador mexeu-se.
Trunks despediu-se:
- Djá ná, Goten-kun!
- Djá!
A porta rangeu e abriu-se.
Trunks desaparecia na noite. A brisa quente que criou ao partir entrou
no quarto, agitou as cortinas. Goten só teve tempo de se atirar para cima da
cadeira e agarrar num livro qualquer.
Chi-Chi entrou no quarto.
- Goten-kun…
- ’Kaasan? – A voz tremeu-se-lhe.
Ela olhou para a janela aberta de par em par.
- O que é isto? Porque é que tens a janela aberta com este frio?
- Está frio? – Goten fez-se desentendido. – Mas estava com calor.
- Queres apanhar uma gripe? – Chi-Chi foi fechar a janela. – Nunca
deves abrir a janela de noite, podes adoecer com o ar frio da montanha. –
Aproximou-se dele e apalpou-lhe a testa. – Estás a sentir-te doente, Goten-kun?
- Não, ’kaasan…
Chi-Chi passou carinhosamente a mão pelo cabelo do filho. Sorriu.
- Só vim ver se querias alguma coisa. Pareceu-me ouvir que estavas a
conversar.
- A conversar? Só se fosse sozinho – e Goten forçou uma risada.
- Se precisares de alguma coisa, chama por mim. Continua a estudar.
Desculpa se te interrompi.
Chi-Chi saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. Goten suspirou.
Salvo! Por sorte, a mãe não reparara que estava a ler um livro virado ao
contrário.
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