Gohan arrumava os livros nas prateleiras, que se espalhavam pela
biblioteca, em cima de mesas e de cadeiras. Tinham ajudado, nos últimos dias,
Goten e, mais tarde, Trunks nos estudos para os exames da universidade. Admirava
particularmente a força de vontade do irmão, que nunca fora bom aluno, mas sempre
que se dedicava a alguma coisa, era obstinado. Como se fosse uma questão de
honra, o seu orgulho nunca o faria desistir, mesmo que detestasse o que
estivesse a fazer.
Videl apareceu junto dele, carregando dois romances que estivera a
ler, hábito que a ajudava a conciliar o sono depois de um dia mais atarefado.
Passou-lhe os livros e Gohan perguntou-lhe, enquanto os pousava num canto da
mesa:
- Onde está Pan-chan?
- Está lá fora, a treinar-se.
- Outra vez?
- Ela diz que se não se treinar todos os dias, corre o risco de ser
ultrapassada por Bra.
A escolher os compêndios de matemática para os colocar no sítio
correto da estante, que estava ordenada por categorias, Gohan sorriu, sem
perceber a preocupação da filha.
- A filha de Bulma também se treina todos os dias, contou-me ela –
prosseguiu Videl, analisando a aplicação dele naquelas arrumações. – Com o pai.
Gohan arregalou os olhos, os óculos descaíram para o nariz.
- Bra-chan treina-se com Vegeta-san?
- Hai. – Olhou para a
janela, como se quisesse ver os treinos da filha. – Pensava que apenas os
rapazes saiya-jin é que gostavam de
lutar, mas, pelos vistos, também se aplica às meninas.
- Nem consigo imaginar a Bra a lutar…
- Nem eu. Mas Pan diz que ela é uma excelente lutadora.
- Também não consigo imaginar Bulma-san a deixar Bra treinar-se com o
pai – confessou Gohan.
- E eu não consigo imaginar Vegeta-san a recusar um desafio desses.
Deve estar orgulhoso por ter uma filha que partilha os mesmos interesses do que
ele, já que Trunks anda dedicado a outros afazeres.
Gohan também se voltou para a janela, à espera de ver Pan surgir num
salto. Mas não aconteceu e olhou para a mulher quando esta lhe disse:
- Tenho que te perguntar uma coisa.
- O que é? – Indagou, recolhendo mais livros, espreitando-lhes as
lombadas.
- Há dias estive com o meu pai e ele pediu-me que te fizesse uma
pergunta acerca de um pormenor que ele não se consegue recordar. Como sabes, anda
agora muito atarefado com a sua biografia.
- O que queres saber?
- Quem é o quarto saiya-jin
do Cell Games?
Gohan interrompeu as arrumações e pensou.
- O quarto saiya-jin?… É mirai Trunks.
A resposta foi tão espontânea que Videl duvidou da sua veracidade.
Gohan continuou a arrumar os livros, não se apercebendo como a deixara confusa.
Havia ainda muitas coisas que desconhecia na vida do marido, pensou Videl.
Por seu lado, Gohan nunca fora muito de falar sobre o passado e ela
surpreendia-se quando, estando os dois sozinhos, ele abraçava-a e contava-lhe
um episódio da sua infância ou da sua adolescência. Assim ficava a conhecer as
suas aventuras estranhas. Sabia que tinha viajado até ao planeta Namek, o local
onde nasceram Piccolo-san e kami-sama;
sabia que tinha passado oito meses a treinar na Sala do Espírito e do Tempo com
o pai, Son Goku, e que esses tinham sido os tempos mais felizes da sua vida;
sabia que tinha participado no Cell Games e que era ele o vencedor e não Mr.
Satan, como era do conhecimento geral.
- Mirai Trunks? De que
futuro estás tu a falar?
- Do outro futuro.
Videl exasperou-se.
- Que outro futuro e que Trunks é esse? Eu só conheço um Trunks, que é
o filho de Vegeta e de Bulma, o irmão de Bra… Para de arrumar esses malditos
livros e olha para mim!
Gohan obedeceu-lhe, espantado. Endireitou os óculos na cana do nariz,
empurrando-os com um dedo.
- Que Trunks é esse? – Tornou Videl.
- Nessa época, Trunks veio do futuro, numa máquina do tempo, para nos
avisar sobre um grande perigo que iria ameaçar a paz da Terra: os humanos
artificiais fabricados por um cientista louco, o Dr. Gero. Esse Trunks tinha
dezassete anos.
- Que Trunks? Este Trunks que conhecemos agora?
- Não. Outro Trunks, que cresceu de maneira diferente deste que
conhecemos.
Pousou os livros na mesa e começou a explicar devagar, como fazia
quando dava aulas e percebia, pelas caras dos seus alunos, que não estavam a entender
o que lhes estava a ensinar:
- O Trunks do futuro, mirai Trunks,
veio de um mundo apocalíptico, onde só existia o caos e a destruição causados
pelos dois humanos artificiais que, nessa linha temporal, tinham assassinado
todos os guerreiros do planeta: Piccolo, Vegeta, Kuririn, Ten Shin Han, Chaozu,
Yamucha, Yajirobe… O meu pai nem sequer tinha participado no combate contra eles,
porque tinha morrido de uma doença cardíaca, meses antes. O único que sobreviveu
aos humanos artificiais foi Gohan… Outro Gohan, que treinou o Trunks desse
tempo. Mas esse Gohan acabou também por ser assassinado pelos humanos
artificiais. Para tentar mudar o rumo dos acontecimentos, pelo menos nesta
linha temporal onde existimos nós agora, a Bulma desse futuro construiu uma
máquina do tempo e enviou o filho, Trunks, para o nosso tempo para que ele entregasse
um remédio que curaria a terrível doença cardíaca que mataria o meu pai e para
que nos preparássemos para a chegada dos humanos artificiais.
- Mas ele não veio apenas para vos contar sobre o futuro que vos
aguardava.
- Não. Voltou, três anos depois, e ficou para nos ajudar. Nessa altura
já o Trunks que nós conhecemos tinha nascido. Era um bebé com um ano de idade.
- Quer dizer que este Trunks conviveu com a sua versão adulta?
- Hai.
Pela cara que fazia, Gohan viu que Videl tentava imaginar a cena.
Prosseguiu:
- A seguir, aconteceu um imprevisto causado pelas viagens temporais.
- Que imprevisto?
- Graças à máquina do tempo de Trunks, o monstro Cell, que se tinha
desenvolvido secretamente no laboratório do Dr. Gero, durante mais de vinte
anos, veio do futuro para completar a sua mutação.
Videl sufocou um grito de surpresa, tapando a boca com ambas as mãos.
- Cell? – Gaguejou incrédula. – O monstro apareceu por causa de…
- Por causa de nós… Hai. Ao
tentar salvar o mundo dos humanos artificiais, mirai Trunks acabou por provocar um dano maior.
Ela agarrou na mão dele e os dois sentaram-se no sofá. Pediu-lhe:
- Conta-me tudo, Gohan! Por favor. Conta-me como tudo aconteceu.
Gohan fez-lhe a vontade.
A história era magnífica e impossível de se acreditar, como acontece
com todas as histórias verdadeiras.
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