O sol nascera havia pouco tempo. A ilha inteira despertava para mais
um dia de trabalho. A azáfama típica das manhãs enchia o ambiente de vozes e de
risos, de aromas diversos a comida e a mar.
No entanto, Ubo não partilhava a mesma felicidade dos ilhéus. Naquela
noite que passara, não dormira. Ficara sentado na praia, a olhar para o
horizonte, onde pulsava a aura indistinta de um estranho saiya-jin, a esperar pelo mestre.
O mar desfazia-se em ondas sossegadas. Sentado à beira-mar, Ubo desviou
a atenção do horizonte para se fixar na ondulação. O mar ia e vinha, calmo e
quente… Tanta quietude, que contrastava com o que sentia para lá do que a sua
vista alcançava.
Havia um combate. A aura do estranho saiya-jin já não se escondia. Agora exibia-se viva e exuberante, a
envolver-se num confronto com um espírito que ele conhecia bem. Son Goku! Vegeta
limitava-se a assistir. Piccolo desaparecera depois de ter lutado com uns
estranhos seres, cujas auras eram negras. E os espíritos de Goten e Trunks
perseguiam outras auras também negras, mas que eram muito mais poderosas do que
as auras dos seres que Piccolo enfrentara.
Ubo sabia quem eram todos eles, porque uma das coisas que Son Goku lhe
ensinara, quando ele se familiarizava com essa extraordinária capacidade de
sentir o ki, fora aprender a conhecer
os espíritos dos outros guerreiros que habitavam a Terra. E assim, conhecera
todos os amigos do mestre e conhecera muitas histórias, de batalhas antigas.
Os seus sonhos eram quase sempre com essas batalhas. Inimigos
poderosos e praticamente invencíveis, ameaçavam a Terra. Então, o mestre preparava-se
para o desafio e juntava os companheiros. Os combates quase perdidos, os
treinos para aumentarem os poderes, os sacrifícios que eram feitos… Mas, no final, a vitória acontecia.
No dia anterior, antevera a realização desse sonho. Um novo inimigo
tinha aparecido, o mestre mostrara-se preocupado. Ele ficara, simplesmente,
ansioso. Finalmente, iria entrar numa aventura com o mestre e também ele teria,
anos mais tarde, uma história fantástica para contar. O mestre prometera
voltar, mas Goku não voltara e Ubo continuava à espera.
Suspirou. Devia ter paciência e não ceder ao pensamento amargo de que
esperava em vão. Goku prometera e Goku nunca falhara uma promessa.
- Nii-san?
Era o seu irmão mais novo. Sentou-se ao lado dele, levantando areia
com os pés descalços.
- Ainda estás aqui?
Não quis responder.
- Ficaste aqui a noite toda?
Contou aborrecido:
- Estou à espera de Goku-san.
- Ele foi-se embora, não foi?
- Foi. Mas vai voltar.
- Novos treinos?
- Hai. – Ubo fingiu sorrir.
– Para novos treinos… Os melhores treinos da minha vida.
De repente, teve a sensação que o mestre não viria e entristeceu.
- Vai ensinar-te alguma técnica nova?
- Acho que sim.
O irmão segredou-lhe:
- Já és mais forte do que ele?
Abriu muito os olhos redondos.
- Baka! Ninguém é mais forte
que Goku-san!
- Mas, uma vez, ouvi-o contar que tu és mais forte que ele.
- Eu sou forte, mas Goku-san é um grande lutador. Conhece todos os
truques das artes marciais. Eu ainda não sei nada. Tenho… Tenho apenas uma
enorme força em mim.
Os espíritos longínquos estavam cada vez mais agitados. O combate
subia de tom, tornava-se mais renhido. Calou-se, roendo-se por estar tão longe
e por não conseguir desobedecer ao mestre, que lhe tinha pedido que esperasse.
- Não estás cansado?
Desviou o olhar do horizonte, fixou-o novamente no vaivém do mar que
galgava a praia. A maré enchia.
- Não.
- Mas deves ter fome.
- Também não.
- Estás a mentir, nii-san.
O irmão levantou-se, sacudiu a areia que se colara às calças.
- Olha, quando o mestre chegar, vais ter de estar pronto para partires
com ele, não é?
Ubo olhou-o.
- E não podes estar com fome. Não vais conseguir combater com o
estômago vazio. Anda comer. A mesa está posta com fruta, pão e doce. Anda lá!
A barriga de Ubo, inesperadamente, protestou com um ronco prolongado.
Corou e juntou os joelhos ao peito para disfarçar o barulho do estômago vazio.
- Vês, nii-san. Tu tens
fome!
Levantou-se relutante, esticou as pernas dormentes, as articulações
estalaram. Seguiu o irmão pelo caminho das dunas que levava à aldeia
fervilhante e feliz com as atividades da manhã.
O mestre já devia ter vindo, pensou cada vez mais triste… A não ser
que nunca chegasse a vir.
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