Zephir abriu a porta do seu santuário com estrondo. Vinha ofegante. De
braços abertos, uma mão a segurar a porta, a outra a segurar a parede, arqueava
as costas como se fosse um gato assanhado. O rosto pálido era o de um
morto-vivo que regressava do Além para se vingar.
No altar, o fumo negro que saía do pote azul engrossou. Tomou, aos
poucos, uma forma pequena, também negra. Agitou-se frenética, como que a querer
libertar-se e materializou-se numa criatura com dois pontos vermelhos, muito
vivos, no lugar dos olhos. A criatura grunhiu, saltou do altar e passou a
correr por Zephir, sumindo-se pela porta aberta, atrás dele. Um kucri acabava
de nascer.
O Templo da Lua estava agora pejado de kucris. Vira-os por todos os
cantos, a guinchar, aos grupos de seis, sete e oito. Diante da presença dele,
porém, calavam-se e olhavam-no com a reverência devida a um mestre.
Zephir estava furioso, muito furioso. Chegou ao altar e esmurrou com
ambas as mãos o “Livro de Babidi”. Os castiçais acesos que ladeavam o livro
tremeram.
Son Goku era forte, terrivelmente poderoso. Um prodígio das artes
marciais, um autêntico colosso, um saiya-jin
invencível! E com ele tinha os filhos e os amigos, que formavam um exército dos
melhores guerreiros que jamais haviam existido. O seu sonho de converter o
Trono de Marfim no trono do Universo fora sumariamente reduzido a pó.
Tornou a esmurrar o livro. Que poderia ele fazer, quando estava
rodeado de kucris e de três imbecis que, ao lado de Son Goku, não passavam de
meros principiantes? Kang Lo era um bom lutador, mas não chegava nem aos
calcanhares do mais fraco da trupe de Son Goku. Julep e Kumis eram duas
criaturas das trevas dotadas de imensos poderes e capazes de grandes proezas em
combate, com a capacidade de curarem qualquer ferimento, gozando, assim da
imortalidade. Mas tinham um ponto fraco. Se alguém o descobrisse, os dois
demónios voltariam a ser os ramos de árvore dos quais nasceram. Tinham sido
convocados pela magia, não passavam de um feitiço ambulante.
Apertou a cabeça entre as mãos, sentia-se insignificante.
E ele detestava sentir-se insignificante!
Do peito soltou-se um grito hediondo, que resumia toda a frustração
que acumulara na Sala Sagrada, enquanto se embrenhava nos mistérios do mundo,
escritos nos seus livros milenares. Agora, sabia demais. Sentia o ódio
fluir-lhe nas veias, misturado com o sangue. Maldito saiya-jin!
Arfava, afogado na raiva fervente que lhe fazia tremer o corpo todo. Parecia-lhe
agora uma espécie de vingança do Templo da Lua. Por ter profanado a santidade
da Sala Sagrada, pois entrara aí como um sacerdote proscrito e traidor, fora
reduzido à sua pequenez e insignificância.
Uma presença surgiu do nada, junto à porta do santuário. Era uma
sensação ténue e imprecisa, vacilante como um espírito. Virou-se bruscamente.
Os dentes estavam cerrados ao pronunciar o nome daquele que o visitava:
- Babidi!…
O espectro azul bruxuleante do antigo feiticeiro pareceu sorrir.
- Zephir! Há muito tempo que não nos víamos.
Aquelas palavras fizeram tremer o ar com uma brisa quente e fantasmagórica.
- Como te atreves a aparecer diante de mim? – Explodiu Zephir.
O espírito olhou-o indiferente. Zephir apontou-lhe um dedo
esquelético, a voz era rouca de desprezo quando falou:
- Desde o primeiro dia que zombas de mim. Não passou tudo de um
engano, de um logro. Queres rir-te à minha custa! Mas eu não admito que zombes
de mim, maldita alma penada!
- Não te estou a perceber. Não estás no Templo da Lua? Não te ajudei a
conquistá-lo?
- A Terra está protegida. Por poderosos guerreiros das estrelas!
E Zephir calou-se, sufocado. Repetira as palavras de Toynara e do Sumo-sacerdote,
o eco daquele aviso atormentando-o, agora que sabia que correspondia à verdade.
Inspirou ruidosamente e prosseguiu, a consumir-se numa ira que ardia como uma
fogueira descontrolada:
- E como queres tu que conquiste a Terra e o Universo se existem esses
guerreiros tão poderosos? A minha magia é forte, mas não assim tão forte. Tu
mesmo o disseste, na caverna… Disseste-me que precisava da tua ajuda porque os
meus poderes mágicos eram muito inferiores e, face a outros poderes que
existiam no Universo e que eu desconhecia, sucumbiria. Por isso deste-me o teu
livro de magia.
Soltou uma gargalhada demoníaca. E gritou, os olhos ensanguentados:
- Como poderia eu aprender contigo, se a tua magia não te valeu quando
tu mesmo vieste conquistar a Terra, Babidi?
O espírito escutava e aguardava, envolvido numa luminosidade
sobrenatural.
- Também tu foste derrotado!
– Acusou Zephir. – Foste derrotado pelos saiya-jin!
- Eu não sabia que eles estavam aqui. Pensava que tinham todos morrido
com a destruição do seu planeta natal.
- Mas não desapareceram! – Berrou Zephir. – E esses alienígenas
renegados acabaram por ficar na Terra e estão a barrar o meu caminho para a
glória!… Maldito e a culpa é toda tua! Fizeste-me acreditar em ti e no teu
livro. Quando o li, julguei que não havia nada mais poderoso no mundo do que a
tua magia negra. Mas isso não é o suficiente. Também tu foste derrotado, Babidi!
- Não fui derrotado. Fui assassinado…
- E os saiya-jin eliminaram
quem te assassinou. E, se quisessem, eliminavam-te a ti! Não te quero ouvir
mais, nem às tuas mentiras!
A impertinência de Zephir fora longe demais. O espírito levantou os
braços magros, abriu os dedos das mãos, murmurou um feitiço. Um vento vindo das
profundezas do mundo encheu o santuário. Zephir foi incapaz de o travar. Uma
onda azulada rodeou-o, elevou-o nos ares, abanou-o furiosamente e projetou-o de
encontro ao altar. Zephir caiu no chão, a sentir todos os ossos do corpo
esmagados, como se o tivessem sovado sem descanso. Atordoado, olhou para o
espírito, que tinha perdido a sua postura indiferente.
- Cala-te, ingrato!
Aproximou-se e tomou proporções gigantescas, enchendo todo o espaço em
redor de Zephir que fez um esforço tremendo para não se encolher e cobrir a
cabeça com as mãos.
- É assim que agradeces o que fiz por ti? – Prosseguiu Babidi numa voz
que trovejava. – Graças à minha magia, o Templo da Lua é teu. Se não o tivesses
conquistado, ajudado por Kang Lo possuído pelo Makai, como podias tu ter
entrado na Sala Sagrada e ter sabido da existência dos saiya-jin?
- De que me serve a tua magia contra os saiya-jin? – Desafiou Zephir num sussurro que lhe arranhava a
garganta. Tinha perdido a voz com o ataque.
- Eu sei que queres o Universo, Zephir. Eu também o quero. Já não o
posso ter porque não pertenço ao mundo dos vivos, mas posso tê-lo através da
minha magia e isso é consolo suficiente para mim. Já to tinha dito.
- Há guerreiros… Eu não sou guerreiro… E os que lutam por mim…
- Aquele que protege a Terra…
- Son Goku.
- Sim. Son Goku… Son
Goku é saiya-jin. Se o queres
vencer, terás de combater de igual para igual contra ele.
- De igual para igual? – Repetiu Zephir ansioso.
- Combater um saiya-jin com
um saiya-jin.
- Como? Os únicos saiya-jin de
sangue puro que existem em todo o Universo são Son Goku e Vegeta. E os dois
combatem do mesmo lado.
O espírito de Babidi apontou para o livro, desfolhando-o à distância.
A brisa morna que agitava as páginas carcomidas, envolveu Zephir e ele
sentiu-se tocar por mil dedos de fantasmas.
- O meu livro – disse Babidi. – No meu livro, os saiya-jin estão mencionados. Ah, se soubesse que eles estavam na
Terra, eu mesmo teria usado esse conjuro. Não o sabia, contudo. Confiei
demasiado. Ouve-me bem, Zephir! No livro fala-se do super saiya-jin lendário.
- O super saiya-jin
lendário?
- O mais poderoso dos super
saiya-jin. Apareceu há mil anos atrás. Foi o primeiro super saiya-jin e tornou-se numa lenda.
O rosto etéreo de Babidi acercou-se dele. Fundiu-se numa nuvem azul indefinida
e Zephir já não sabia se o via, se o sentia. Mas ouviu-o por todo o lado.
- Procura pelo super saiya-jin
lendário, Zephir. Procura-o! E a vitória final será tua!
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