Uma explosão.
A luz feriu o olhar de Vegeta que teve de fechar os olhos, encandeado.
O som da explosão.
No meio de uma nuvem de fumo negro apareceu Goku, os braços cruzados
sobre a cara para se proteger. Tinha a roupa em farrapos. O ataque de Keilo
tinha sido demasiado forte.
As faíscas estalaram na aura dourada que rodeava o seu corpo onde
começavam a aparecer as primeiras marcas – queimaduras, nódoas negras, raspões.
Lentamente, Goku baixou os braços e fitou Keilo que, por cima dele, também o fitava
com o mesmo olhar grave. Encontravam-se os dois a bailar nos céus.
O combate endurecera desde que tinham aumentado o seu poder até ao
nível dois dos super saiya-jin. Goku,
no início, gostara da maneira como Keilo se empregara na luta. Mas agora
compreendia que aquela fúria inicial não fora mais que um prenúncio das
verdadeiras capacidades do lendário super
saiya-jin. Keilo melhorava a cada golpe recebido, a cada ataque flamejante
defendido. Chegara mesmo a utilizar o jogo preferido de Goku – deixara que o
adversário tomasse a iniciativa para avaliar a potência, para depois atacar com
confiança por saber do que o outro seria capaz.
Goku não o deveria subestimar como fizera quando lutara com ele
transformado em super saiya-jin,
nível um. Keilo não era um super
saiya-jin qualquer, nisso Vegeta tinha razão.
Olhou de relance para o príncipe. Continuava com o mesmo aspeto angustiado.
Emoldurado pelo belo céu azul da manhã, onde vagueavam algumas nuvens
brancas, Keilo baixou os braços.
- Gostaste da minha surpresa?
Se Goku sentia-se cansado, Keilo não parecia estar muito melhor.
- Gostei! – Respondeu, dando à voz a força que já não sentia.
- Muito bem. Aqui vai mais uma surpresa.
Keilo gritou. Levantou os braços com um gesto rápido e logo dois aros
azuis apareceram a rodear-lhe os pulsos, que subiram até às palmas das mãos,
voltadas para cima. Ficaram a pairar aí, com um zumbido elétrico. Keilo enviou-os
como quem lança um disco.
Goku esquivou os aros, elevando-se de maneira a que o ataque lhe
passasse por baixo. Viu o saiya-jin sorrir
unir dois dedos em cada mão que começou a agitar com precisão. Os aros descreveram
uma curva e dirigiram-se rápidos para onde estava, que percebeu instantaneamente
o que significavam os dedos a desenhar figuras geométricas. Era assim que comandava
a trajetória dos aros.
Keilo soltou uma gargalhada ao ver Goku afastar-se pelos ares, a toda
a velocidade.
- Não fujas! De nada te adianta fugires porque, mais cedo ou mais
tarde, o meu ataque vai alcançar-te.
Os aros moveram-se em vários ângulos retos, sempre atrás do alvo. Sem
diminuir a velocidade, Goku mergulhou de cabeça em direção ao lago. Como era de
prever, os aros seguiram-no. Passou rente à superfície, abrindo um sulco nas
águas, formando uma vaga de cada lado, coroada de espuma. Olhou para trás, os
aros continuavam no seu encalço. Fez uma inflexão, começou a subir, deixando
para trás a água fria do lago. Ao voltar a cabeça para cima, abriu a boca de
espanto. Nos céus havia uma nuvem de aros! Distraíra-se por um segundo e não
reparara que Keilo criara mais argolas de energia.
- Vamos, Kakaroto! Foge destes agora!
Estacou imediatamente. Gritou e criou em redor de si uma esfera
invisível que o protegeu dos aros que choveram sobre ele. Uma primeira vitória,
pensou. Mas, ao fazer desaparecer a capa protetora, ouviu um zumbido aproximar-se.
Voltou-se alarmado. Um aro tresmalhado apanhava-o e envolvia-lhe o tronco e os
braços. Um instante depois ficava também com as pernas presas com um segundo
aro. Estrebuchou irritado.
A rir, Keilo aproximou-se dele.
- És meu, Kakaroto!
Goku olhou-o com raiva.
- Estás agora à minha mercê.
- Não cantes vitória ainda!
Keilo socou-o na cara. O sangue espirrou do nariz de Goku. Mal teve
tempo de sentir a dor, porque um soco no estômago deixou-o sem fôlego.
- O que é que me vais fazer? – Perguntou o saiya-jin com ironia. – Gostaria muito de saber…
Goku inspirou fundo, preparou-se para se libertar dos aros. Keilo
afastou-se. Goku sentiu um arrepio quando deparou com uma mão aberta em cima da
cara. Sentiu o poder imenso do saiya-jin
a reunir-se naquela mão, sem qualquer freio ou limitação. Keilo atacava-o.
Cerrou os dentes.
A luz brilhante e quente rodeou Goku numa bola amarela. Ouviu-se outra
explosão, que lhe abafou o grito. Muito fumo e faíscas, um tremor de terra. O
sorriso de Keilo ficou mais perverso iluminado pelo seu ataque energético.
Em seguida, a bola amarela atravessou a atmosfera deixando atrás um
rasto, como um pequeno cometa, levando Goku enclausurado na sua energia,
desfazendo-se na floresta das cercanias. As copas das árvores atingidas ficaram
queimadas, os ramos partiram-se, as folhas das pernadas espalharam-se.
Vegeta vira o ataque e ficara apreensivo. Keilo ganhara. De seguida,
viria por ele…
No meio dos arbustos desfeitos, Goku levantou-se a apoiar a cabeça
dorida. O sangue escorria copiosamente do nariz, da boca e da testa. Perdera a túnica
que vestia, que não era mais que uns pedaços de tecido presos no cinto branco.
- Que força – suspirou.
Não se alongou nas lamentações. Sentiu que Keilo andava perto.
Endireitou-se, focou-se no ki do
adversário para determinar com exatidão onde iria aparecer. Tinha conseguido
sobreviver à bola amarela, libertara-se dos aros, mas tinha perdido grande
parte da energia e da frescura. O confronto estava a tornar-se mais duro.
Aqueles pensamentos foram esquecidos quando saltou instintivamente
para fugir do pontapé que vinha apontado às suas costas.
O saiya-jin aterrou de
frente para ele. Os dois entreolharam-se longamente. Estavam agora entre as
árvores.
- És mais duro do que eu pensava! – Riu-se Keilo. – Ainda estás vivo
depois do meu ataque.
- Já te tinha dito que tenho muitas surpresas para ti.
- Sabes qual é a tua sorte, Kakaroto?
- Qual?
- O nosso combate não é a sério.
Goku engoliu em seco. Não quis acreditar naquilo, soou-lhe à bazófia
natural de todos os saiya-jin. Olhou
para cima e descobriu Vegeta através da folhagem das árvores. Vegeta era
pródigo nessa bazófia, uma das suas armas para amedrontar o adversário. Mas
também lhe dissera que Keilo era o lendário super
saiya-jin e que era invencível e parecera ter dito aquilo com uma convicção
inabalável. O importante era não se deixar abater, levar por suposições ou
guiar-se pela dúvida. No entanto, era um facto que os golpes de Keilo tinham
mais força do que antes e eram também mais dolorosos.
- O nosso combate ainda não terminou – disse Goku a sorrir.
- Tens razão, isto não pode ficar por aqui. Ainda não estou totalmente
satisfeito… Quero brincar mais um pouco!
- Ainda bem, porque eu também quero continuar a brincar contigo.
Um raio fino e arroxeado vinha apontado para a sua cara. Goku
desviou-se inclinando o pescoço. Logo a seguir, veio outro raio. Keilo
disparava-os com o dedo indicador espetado, num ataque trivial e repetitivo. Goku
desviou-se de todos. Os raios furaram os troncos grossos das árvores atrás
deles, deixando-os marcados com múltiplos buracos, muito pequenos, tantos
quantos os raios disparados.
Goku correu para Keilo. Desapareceu. O saiya-jin nem estranhou. Quando Goku reapareceu, pronto para
desferir-lhe um murro, Keilo, com a mesma mão que disparara os raios, parou-lhe
o punho. Com rapidez e sem aviso, Goku atingiu Keilo no abdómen com o joelho.
Este inclinou-se para a frente, sufocado, soltando-o e Goku derrubou-o com o
murro que tinha preparado antes. Saltou-lhe para cima, de mão fechada em riste,
Keilo rebolou para o lado e desviou-se do segundo murro, que foi acertar no solo
húmido da floresta. Em seguida, Keilo tentou um pontapé, mas Goku esquivou-se.
Levantaram-se os dois ao mesmo tempo.
Passaram para uma luta corpo-a-corpo. Os golpes sucediam-se, intensos
e violentos. Não havia um segundo de pausa. Combatiam com a raiva dos super saiya-jin, arrastando arbustos, pedras
e até árvores que caiam vítimas dos seus murros e pontapés falhados.
Goku descreveu uma volta sobre si mesmo. O pé passou a escassos
milímetros da cabeça de Keilo, que se agachou e mais uma árvore caiu com
estrondo. O braço de Keilo vinha apontado ao queixo, num uppercut. Goku saltou para trás, num mortal. Antes de alcançar o
chão com os pés, disparou duas esferas de energia que por pouco acertavam em
Keilo. Uma explosão abriu uma cratera mais adiante.
- Kakaroto, o que mais tens para mim? – Berrou Keilo ofegante.
Goku também estava ofegante. Sorriu, no entanto. Nunca daria parte de
fraco perante um adversário que tinha o jogo escondido.
- Queres mais?
- Sim, quero mais! Mostra-me essas tuas famosas surpresas que Zephir
não me soube mostrar!
Keilo sumiu-se. Goku não o conseguiu seguir e quando o tornou a
encontrar, era tarde demais. O saiya-jin
surgiu no flanco esquerdo e derrubou-o com um potente pontapé. Aterrou de
encontro ao tronco de uma árvore, que ficou rachado com o embate. Bateu aí com
as costas e caiu.
Tonto, Goku colocou-se novamente em pé. Não iria passar ao nível
seguinte dos super saiya-jin. Ainda
não… O melhor para o fim. Além disso, o combate não era a sério, segundo as
palavras de Keilo. E para um combate a brincar não estava nada mal. Era preocupante,
contudo, pois Keilo dava mostras de ser mais forte do que ele naquele nível de
poder e talvez fosse esse o segredo da lenda.
Goku tentou novo assalto. A sua energia tinha diminuído, perdera
concentração. Por isso, Keilo não teve dificuldades em esquivar todos os seus
golpes. E quando o apanhou, no mesmo flanco esquerdo desprotegido, tornou a
derrubá-lo com um segundo pontapé que o apanhou no estômago. Goku caiu de
joelhos, agarrado à barriga.
A mão de Keilo agarrou-o pelo pescoço, levantou-o à força. Goku sentiu-se
afogar, o outro não o deixava respirar. Aflito, lançou as mãos ao braço que o
garrotava.
- Estás a dececionar-me, Kakaroto.
Quis falar, mas não conseguiu. Foi um alívio quando o saiya-jin o atirou pelos ares. Mas já
não se sentiu tão aliviado quando viu que mais um raio de energia o ia atingir.
Com um gesto rápido e um pouco desajeitado, Goku desviou o raio com uma
palmada.
Keilo saltou, a persegui-lo. Goku preparou o melhor dos seus ataques.
- Ka-me-ha-me…
Keilo desapareceu novamente. Desta vez, não iria ter sorte com essa
técnica. Goku voltou-se imediatamente para trás e disparou:
- Ha!!!
O raio azul embateu em cheio em Keilo. A Kamehame explodiu com estrondo.
Uma tontura assaltou Goku. A cabeça pendeu, a visão turvou-se.
Arquejou a tentar recuperar o fôlego. Por pouco não se estatelava na floresta e
ele compreendeu que não estava em condições de prosseguir. Precisava de um
intervalo, alguns minutos para recuperar a sua energia e tentar novamente
neutralizar o saya-jin de Zephir. Reparou
em Vegeta. Permanecia no seu estúpido estado de sonambulismo, a observar o
combate com uns olhos vazios. Foi para junto dele.
- Vegeta… Preciso que tomes o meu testemunho – disse a arfar.
Com um gesto lento, o príncipe encarou-o.
- Vegeta, estás a ouvir-me?
- Eu não posso lutar contra Keilo.
- Não sejas idiota. Também dizias a mesma coisa de Broli e, no final,
enfrentaste-te a ele e acabámos por derrotá-lo, todos juntos. Lembras-te?
- Keilo não é Broli. Muito diferente de Broli.
- Mas eu… eu já não aguento muito mais.
- Keilo é o super saiya-jin
lendário.
- Mas tu também és um super
saiya-jin.
A nuvem que a Kamehame
provocara começava a dissolver-se e já se conseguia ver o vulto de Keilo.
Vegeta descaiu os ombros.
- Eu… eu não posso.
- Preciso da tua ajuda, kuso!
Senão, não o vamos conseguir derrotar. – Goku segurou Vegeta pelos braços,
abanou-o, disse-lhe: – Eu poderia transformar-me em super saiya-jin, nível três, mas não lhe quero revelar que alcanço
esse nível. E se Keilo também chega ao nível três e se for mais forte do que
eu? Lenda ou não, imagem ou real, o que sei é que Keilo é um super saiya-jin muito estranho. No nível
um é muito mais fraco do que eu, mas no nível dois, supera-me.
Vegeta negou com cabeça. Goku irritou-se. Empurrou-o.
A mancha negra no centro da névoa tomou forma, o ar clareou
totalmente, afastando os derradeiros resquícios da explosão. Keilo estava preparado
para o contra-ataque. Não havia tempo a perder, mas Vegeta insistia na apatia.
- Vegeta! Bakana!
Goku desfechou-lhe um potente murro.
- Reage!!!
O príncipe ficou igual. Nem o sangue que começou a sair-lhe da boca o
fez despertar.
Um ataque.
Goku voltou-se e viu Keilo avançar com a rapidez que o caracterizava. Recuou
para se afastar, para que Vegeta não fosse atingido. Duas esferas vinham
apanhá-lo. Goku aparou-as com as mãos, desfazendo-se em chispas e em vapor.
Quando procurou por Keilo, este sumira-se.
- Mas… onde está ele?
Goku concentrou-se, mas não foi a tempo. Keilo apareceu atrás e
prendeu-o, passando os braços por debaixo dos seus ombros. Gritou, esperneou,
detestava sentir-se preso. Como era hábito sempre que a vantagem lhe pertencia,
Keilo desatou a rir.
- E agora, Kakaroto?
- Solta-me!
- O que é que pensas fazer?
- Solta-me!…
Ouviu os seus ossos estalarem, os tendões a rasgarem e a força a
esvair-se, como água a escoar-se por um ralo. Goku perdia energia às golfadas,
quase a perder a consciência. Fez um enorme e desesperado esforço para não
abandonar o estado de super saiya-jin.
Era importante não desistir, mas não sabia o que fazer mais para continuar e
que armas poderia ainda utilizar para se colocar novamente em vantagem.
Deixara-se apanhar como um principiante. As pálpebras caíram-lhe sobre
os olhos desfocados. Confiara demasiado e perdera-se nessa confiança. Goku
cerrou os dentes.
***
O sangue era quente, espesso, com aquele sabor que se habituara a
reconhecer depois de tantos combates. A sua vida tinha sido uma sucessão de
batalhas que ganhara, na maioria das vezes. Tivera de as ganhar, senão não
estaria ali hoje. Vegeta fechou os olhos, a provar o sangue.
Ele era o príncipe dos saiya-jin.
Era um soldado de elite do seu povo, a máquina assassina perfeita. Agora,
tantos anos depois, tinha a tendência para esquecer esses pormenores que tinham
sido tão importantes numa determinada altura da sua vida – quando ser mais
forte do que Kakaroto era tudo o que interessava.
Dentro dele, sentiu de novo esse desejo. Ser mais forte do que
Kakaroto! Ninguém, a não ser ele, deveria eliminar Kakaroto!
Era estranho recordar-se daquilo naquele momento, depois de tanta
coisa passada e de tanta coisa mudada. Talvez porque ali, perto dele, existia a
última lembrança do seu planeta natal e do povo orgulhoso ao qual pertencia.
Keilo, o mito dos saiya-jin.
Keilo lutava contra Kakaroto. Ganhava. Apesar de ter seguido o combate
como se o tivesse a visionar num pesadelo distorcido, Vegeta percebera-o
claramente. Keilo era superior.
Ninguém tinha o direito de tocar em Kakaroto! Muito menos Keilo.
Vegeta fixou os punhos, agora cerrados. A raiva corria-lhe nas veias com o
sangue, alimentando o coração que batia cada vez mais apressado, como se o oozaru adormecido que guardava na alma
se quisesse libertar com um urro de desfazer os céus.
Vegeta despertava, rasgando o pesadelo.
Kakaroto, um soldado de terceira categoria, enfrentava-se a Keilo.
Vegeta franziu a testa.
Kakaroto ousara combater o lendário super saiya-jin e ele, o príncipe, recuara amedrontado?
- Não!!
***
Preso pelos ombros, Goku desfaleceu. A aura dourada dos super saiya-jin baixou o fulgor. Os
cabelos perderam o tom alaranjado e o rosto recuperou parte das feições. Abandonou
o nível dois e descaiu para o nível um dos super
saiya-jin.
- Então, Kakaroto? Já terminaste? – Troçou Keilo, apertando-o com
maldade.
Nisto, duas mãos agarraram Keilo pelos tornozelos. Um puxão forte
fê-lo soltar Goku e com um segundo puxão foi lançado para baixo. Caiu na
floresta, desaparecendo entre as árvores.
Cabisbaixo, Goku pairava no ar à deriva, o corpo a estalar dorido. Não
conseguiria ripostar um ataque e sabia que o combate estava perdido, mas
esperou pelo adversário. Iria cair de pé… Keilo surgiu enraivecido, subindo nos
ares como uma flecha. Estacou próximo.
Goku levantou a cabeça, estranhando a demora. Keilo não costumava
conceder tempo, nem espaço antes de qualquer investida. Descobriu-o por cima
dele, no habitual porte altivo.
- Ve-Vegeta…
O príncipe não se voltou. Interpelou Keilo que limpava o sangue do
rasgão que abrira na testa.
- Brinca agora comigo – disse.
Transformou-se em super
saiya-jin, nível dois. O rosto sério abriu-se num dos seus sorrisos
presunçosos. Com uma mão chamou Keilo, que rosnava zangado.
Goku sorriu. Vegeta entrava em ação.
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