Son Goku.
Era esse o nome dele.
Nos castiçais metálicos as velas tinham ardido todas até ao fim, exceto
em dois. Em cima de uma mesa empilhavam-se livros grossos numa torre
desengonçada, cobertos de teias de aranha desfeitas. Por vezes, um rato passava
por ali a correr, tão rápido como uma flecha, e a torre tremia. Mas nunca
chegava a cair.
Numa mesa próxima, sob a luz vacilante, distinguia-se uma figura
debruçada sobre um enorme livro manuscrito, roído nas pontas. A folha amarela estalou
e parecia que iria desintegrar-se quando a voltou. Em redor pairava uma nuvem
esparsa de pó branco, que os livros acumularam ao longo dos anos e que se movia
de cada vez que uma folha era virada.
Zephir estudava atentamente os mistérios da Sala Sagrada.
Entrara ali com um único objetivo: saber quem eram os guerreiros das
estrelas que protegiam a Terra. O dedo esquelético pousou em cima de um nome.
Zephir abriu um sorriso maligno ao pronunciá-lo:
- Son Goku!
Levara muito tempo até conseguir encontrar o que procurava. Não sabia
por onde começar exatamente e não tinha ninguém a quem perguntar. Observara
calado as estantes cheias de livros. Como saberia qual o livro certo a escolher
para responder às suas dúvidas? Estendera o braço e agarrara num livro à sorte.
Perdera três dias a ler coisas que não eram relevantes naquele momento. Mas os
recuos eram admissíveis naquele estágio.
Depois decidira que iria estudar os compêndios que falavam em artes
marciais e nos Grandes Torneios que se realizavam na remota ilha Papaya. Procurava
a identidade de guerreiros que, se fossem assim tão extraordinários, haveriam
de se ter evidenciado em competições famosas de luta.
Foi com indisfarçada satisfação que descobrira que o raciocínio estava
correto. Principiara a ler atentamente os relatos sobre o Grande Torneio de
Artes Marciais. Os feitos realizados sobre o tatami eram descritos ao pormenor, com a indicação de todas as
técnicas utilizadas, o nome dos oponentes e o vencedor do combate. A partir de
uma determinada altura, Zephir reparara que um nome aparecia sistematicamente:
Son Goku. Tinham havido três edições do Grande Torneio em que tinha
participado. Havia vencido apenas na última, contra o filho do Príncipe das
Trevas, Piccolo Daimao.
Apenas anos depois, surgia o nome de Mr. Satan como o mítico campeão
do planeta.
- Son Goku… – murmurara.
A sua intuição dizia-lhe que encontrara o que procurava. Ele!
Os livros começaram a acumular-se na mesa onde Zephir lia avidamente,
dia após dia, noite após noite, sem descansar.
A leitura centrara-se de seguida em vários compêndios que relatavam
episódios relevantes da vida da Terra, por ordem cronológica. De vez em quando,
estava lá aquele nome.
Desde muito pequeno que Son Goku mostrara que não era como os demais
lutadores. Tinha algo de especial. Uma força e agilidade surpreendentes, uma
vontade inquebrável, uma técnica infalível, uma velocidade inigualável, uma
capacidade fantástica de aprender e de melhorar. Afinal, ele era um saiya-jin, um guerreiro das estrelas.
O exército Red Ribbon do ambicioso
General Red tinha sido dizimado por Son Goku. Quando o terrível Príncipe das
Trevas fora libertado da sua prisão secular e dispusera-se a reinar na Terra
com a ajuda dos seus demónios, Son Goku fizera-lhe frente e conseguira não só
derrotá-lo, como matá-lo.
Anos mais tarde, a paz do planeta fora novamente ameaçada pela chegada
primeiro de um, depois de dois misteriosos alienígenas. Tinham vindo em estranhas
naves espaciais redondas. Eram os saiya-jin.
Son Goku também era um deles, mas enfrentou-os e derrotou-os, porque
constituíam uma ameaça à paz da Terra e Son Goku protegia o planeta.
Algum tempo depois, após uma viagem mergulhada no mais completo dos
mistérios, feita por Son Goku a um destino desconhecido, aparecera o monstro
chamado Cell. Era um androide genético, fabricado por um cientista louco, que
tinha trabalhado para o exército Red
Ribbon.
No torneio organizado pelo monstro, que tomara o pomposo epíteto de
Cell Games, compareceram todos os guerreiros que faziam parte do bando de Son
Goku. Esse torneio contara também com a participação do grande campeão, Mr.
Satan.
Son Gohan, o filho de Son Goku, eliminara o monstro. Son Goku morrera,
mas haveria de regressar ao convívio dos vivos, como acontecera com outros dos
seus companheiros que, apesar de morrerem, acabavam por ressuscitar. Um estranho
mistério.
Sete anos depois do Cell Games, surgira novo monstro, ainda mais
poderoso e terrível que Cell. Encontrava-se há milénios na Terra, dentro de um
casulo e para o libertar aparecera um grande feiticeiro vindo de um mundo
maldito.
O dedo de Zephir que sublinhava as frases tremeu. Murmurou:
- Babidi…
O monstro chamava-se Majin Bu.
Juntamente com o feiticeiro espalharam o terror pelas cidades. As pessoas eram
transformadas em doces e Majin Bu comia-as.
Os gritos enchiam as cidades, as vilas e as aldeias. A destruição foi tremenda
e inenarrável, ao ponto de eliminar todos os habitantes da Terra.
Todos…
“Morremos todos”.
Nessa derradeira frase, a letra era irregular. No fim, havia um borrão
a tinta preta.
Zephir estremeceu. Ele morrera, alguma vez? Uma lembrança esquisita de
um transe em que vagueara como uma alma perdida nos confins negros de um mundo
gelado e sem vida tomou um outro significado. Isso tinha acontecido havia mais
de dez anos e ele tinha interpretado como uma viagem mágica ao mundo dos
mortos. Uma revelação divina reservada apenas aos eleitos.
Passou uma longa página em branco. A escrita era retomada mais
adiante.
“Voltámos… Não me lembro de nada. Ninguém se lembra de nada”.
A história prosseguiu, com uma série de dados irrelevantes. Já não
falava dos guerreiros das estrelas, mas Zephir continuava com a leitura das
letras negras, impecavelmente manuscritas por um sacerdote sagrado. Não fazia a
mínima ideia de como esses sacerdotes conseguiram ter acesso a toda aquela
informação, mas esse era um dos mistérios do Templo da Lua e Zephir acreditava
no templo.
Os relatos associados a Son Goku eram interessantes. Cheios de
heroísmo, de poder, de batalhas titânicas, de conquistas impossíveis. Eram
todos guerreiros, mas só alguns eram saiya-jin.
No entanto, não se podia subestimar nenhum deles. E, a pontuar toda a história de
Son Goku e dos seus companheiros, havia as bolas de dragão e havia Shenron, o
Dragão Sagrado, que fazia escurecer e trovejar o céu.
Aprendia sofregamente, mergulhado na leitura dos livros, olvidando
todas as necessidades físicas do corpo. Quando saísse da Sala Sagrada, teria as
respostas ansiadas por Kang Lo. Ansiadas por ele próprio, a um dado momento.
O que lia era ao mesmo tempo fantástico e assustador. Os maiores
guerreiros do Universo moravam na Terra. Não se demorou nesse pensamento,
contudo. Mais tarde iria indignar-se, irritar-se, preocupar-se com o que
aprendera.
Agora não.
Agora, apenas lia e aprendia. Nada mais.
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