16 de outubro de 2012

Capítulo VII - VII.1 Reencontro.


Número 18 mal acreditava nos seus olhos. Não podia ser! Ele estava ali… Encostado à parede, junto à ombreira da porta, sorria-lhe levemente e ela não conseguiu precisar se o sorriso era sincero ou não.
- Não me vais convidar para entrar? – Perguntou.
Ela pôs-se à defensiva.
- O que fazes aqui?
- Venho visitar-te. Ou não posso?
- Depois de tanto tempo, é estranho quereres ver-me.
- É verdade. Há quantos anos não nos vemos?
- Vinte.
- Vinte? – E ele assobiou. – Foram assim tantos?
- Como descobriste onde morava?
- Não foi fácil, isso te garanto.
- Como descobriste?
- Perguntando aqui e ali. Tenho os meus conhecimentos. – E desencostou-se da parede.
- Essa vontade de apareceres deu-te de repente?
Ele espreitou para dentro de casa.
- Estás casada, não é assim?
Número 18 fincou as mãos no puxador da porta.
- Vivemos juntos.
- Com um deles…
- Existe algum problema?
- Ouvi dizer que também tens uma filha.
- Hai.
- Gostava de a conhecer.
- Talvez…
- Afinal, ela é minha sobrinha… Ouve lá, vamos continuar a conversa na rua? – Olhou para o céu e comentou sarcástico: – Está um belo dia de sol, mas não seria boa ideia falarmos do passado à frente dos vizinhos.
Número 18 não teve outra alternativa, senão deixá-lo entrar. Fê-lo contrariada.
Ele continuava igualzinho ao que sempre fora. Com aquele jeito rebelde que não se encaixava em nenhuma paisagem. Onde quer que estivesse, era notado, sobressaía. Ele entrou a olhar para todos os cantos da casa, mãos nos bolsos de um grande casacão de pele curtida. No pescoço, usava o lenço vermelho que sempre o distinguira, marca do exército desaparecido ao qual pertenceram. Vestia uma camisa de xadrez, umas calças de ganga, umas botas de montanha. Sim, definitivamente sobressaía e isso era uma das coisas que número 18 admirava nele.
- Tens uma bela casa – observou ele e sentou-se no sofá da sala de estar. Abriu os braços sobre as almofadas, pôs-se confortável.
Calada, número 18 sentou-se num cadeirão, de frente para o sofá. O único problema com o seu irmão é que ele não crescia. A mentalidade dele haveria de ser sempre a de um adolescente mimado, com um especial prazer em pisar o risco para indignar os outros.
- Quem é ele? – Perguntou número 17. – O teu companheiro. O pai da tua filha… Desculpa não usar o termo “marido”, mas em ti não te fica bem essa de teres um marido.
- Para que queres saber?
- Quero saber, só isso…
Número 17 descobriu uma fotografia de família numa moldura em cima da mesa junto ao sofá. Esticou um braço e agarrou na fotografia. Número 18 marcava-lhe as reações. Na fotografia, numa pose própria para a mesma, estavam Kuririn, ela e a filha no meio, Maron. Tinham tirado aquela há pouco tempo e lembrou-se como Kuririn fora insistente. Ela nunca gostara muito de tirar fotografias.
- Hum… Não o estou a conhecer… – disse número 17 intrigado, a fixar a moldura entre as mãos.
Número 18 sabia porquê. Era o cabelo que Kuririn usava rapado há vinte anos atrás. Naquela fotografia exibia uma farta cabeleira negra com muitos cabelos brancos pelo meio.
- Espera aí! Acho… Acho que já sei quem é. – Número 17 sorriu. – Não me digas que casaste com o baixinho.
Número 18 não disse nada. Apenas o olhou, séria.
- Mas ele antes não era careca?
- Ele nunca foi careca. Na época, rapava simplesmente o cabelo. Depois, quando se retirou, deixou-o crescer – explicou número 18, olhando fixamente para o irmão.
- Quando se retirou?
- Quando deixou os combates.
- Como é que ele se chama? Não me lembro de mais nenhum nome, a não ser o de Son Goku. O resto, esqueci… Desnecessário.
- Estás a ser muito curioso! – Protestou número 18. Os propósitos do seu irmão continuavam obscuros.
- Não posso saber o nome dele?
Ela respirou fundo.
- Kuririn. Chama-se Kuririn.
- Muito bem. – Número 17 tornou a observar a fotografia e ficou preso na imagem de Maron. – E esta rapariga, que está convosco, presumo que seja a tua filha. Como é que ela se chama?
- Maron.
- Tem parecenças contigo. Quantos anos tem?
- Tem dezasseis anos. Número 17, ainda não me disseste o que queres de mim.
- Queria ver-te.
- Só isso?
- E ela sabe combater?
- Quem?
- A tua filha.
A porta da rua abriu-se e entrou Kuririn acompanhado de Maron, que trazia os braços cheios de sacos de papel, pois tinham ido os dois às compras ao supermercado. Número 18 não estava à espera que eles chegassem tão cedo e agora viriam as inevitáveis perguntas.
Assim que os viu entrar, número 17 deixou a moldura na mesa e levantou-se do sofá. Kuririn estranhou a presença dele.
- O que fazes tu aqui? – Perguntou tenso.
Maron não conhecia aquele homem tão bem parecido e ficou boquiaberta a admirá-lo. Analisou-o minuciosamente, através de uma fresta aberta entre os sacos. Tinha certamente idade para ser pai dela, mas não deixava de ser extremamente atraente.
- Koniichi-wa, Kuririn-san.
A cordialidade de número 17 não fez nenhum efeito em Kuririn, que insistiu:
- O que fazes tu aqui?
- Vim visitá-la. – E apontou para número 18 com uma leve inclinação da cabeça, pois tinha as mãos dentro dos bolsos do casacão. – Há muito tempo que não a via.
- Sim, há muito tempo. – E Kuririn semicerrou os olhos.
- Há vinte anos.
- Pois… Vinte anos…
- Ele já estava de saída, Kuririn – anunciou número 18.
Número 17 sorriu divertido, percebendo o embaraço da irmã. Outrora tão implacavelmente fria, era inacreditável como se submetera a uma vida doméstica, ao lado de um homem inferior a ela em termos de força, poder e de capacidade guerreira.
- De facto, já estava de saída – concordou. Não fora ali para provocar ninguém, muito menos a irmã.
Parou ao pé da rapariga que marcava cada gesto seu. Maron corou quando ele, agarrando no queixo, lhe levantou a cara para a ver melhor. Kuririn também corou, mas de fúria.
- Ela é bastante bonita – disse e piscou o olho.
Acenou uma despedida para ninguém em especial e sumiu-se pela porta da rua, fechando-a sem ruído.
Kuririn voltou-se para a mulher.
- O que é que ele estava a fazer aqui? – Perguntou entre dentes, controlando-se para não explodir à frente da filha.
Maron olhava hipnotizada a porta que se tinha fechado.
- Veio visitar-me – respondeu número 18.
- Só isso?
- Só isso.
- E o que é que conversaram?
Número 18 virou-lhe as costas.
- Estou cansada. Dói-me a cabeça – desculpou-se, esquivando-se às perguntas que a aborreciam. Subiu as escadas e fechou-se no quarto.
Kuririn não se conseguia descontrair. Depois de tanto tempo, não contava voltar a encontrar número 17, muito menos a sós com a sua mulher. Os dois tinham tantos segredos, tinham partilhado tanto – como irmãos, como companheiros de combate – que Kuririn sentia ciúmes. Porque teria número 17 voltado? A última vez que os seus caminhos se tinham cruzado tinha sido há vinte anos, naquela estrada deserta, depois na ilha de Mutenroshi…
- Quem era aquele, papa?
A pergunta de Maron surpreendeu-o. Kuririn achou que ela podia saber a verdade.
- É o irmão da tua mãe.
Maron ficou pasmada.
- A minha mãe tem um irmão? – Tartamudeou. – Eu tenho um tio?
- Hai.
- Como é que ele se chama?
- Número 17.
Maron riu-se.
- Número 17? Que engraçado!
Maron ficou radiante com a novidade de ter um tio. Ela sempre sonhara em ter uma família grande, um sem fim de parentes, tantos que precisariam dos fins-de-semana de um ano inteiro para os visitar a todos. No entanto, a sua família era pequena, resumia-se a ela, ao seu pai e à sua mãe… Agora, descobria um tio. Um misterioso e desconhecido irmão da mãe, que até era vistoso, com o cabelo negro liso até aos ombros, com uns rasgados olhos claros, com argolas nas orelhas, com um andar seguro, com uma maneira irreverente de se vestir.
Secretamente, Maron jurou a si mesma que o voltaria a encontrar.

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