O rapaz levantou-se da cadeira e disse resoluto:
- Chegou a hora da minha partida.
O anúncio apanhou-o de surpresa. Após uma semana em silêncio, retirado
em profunda e isolada meditação, era estranho ouvir aquela frase como a
primeira do rapaz que haviam recolhido.
- Vais partir? – Perguntou-lhe Ten Shin Han.
Chaozu juntou-se a ele, para ouvir o que o rapaz tinha para dizer.
- Já se passou muito tempo. Talvez demasiado…
Ten Shin Han sabia que aquela era a única oportunidade que teria para
deslindar os mistérios que envolviam aquele rapaz introspetivo. Este baixou a
cabeça, escapando do seu olhar triplo tão insistente.
- Não achas que nos deves algumas explicações? – Disse Ten Shin Han. –
Salvámos a tua vida, tens pernoitado connosco. Nem sabemos como te chamas.
Com um prolongado suspiro, o rapaz revelou:
- Chamo-me Toynara. – E acrescentou com uma sinceridade imprevista: –
Sou um sacerdote do Templo da Lua.
Hesitou, a seguir. Levou uma mão à cabeça, passando os dedos
timidamente pelo cabelo que estava a crescer. Talvez não se sentisse tanto um
sacerdote pois vestia-se como um rapaz normal e deixara de rapar ritualmente o
cabelo diariamente, pensou Ten Shin Han, que analisava cada gesto, cada
cambiante na aura do rapaz, aguardando por mais revelações.
- Sou também um feiticeiro.
- Um feiticeiro? – Estranhou Chaozu.
- Como pode haver um templo a uma coisa que não existe?
Toynara corou com a pergunta de Ten Shin Han. A boca formou um traço
fino e respondeu reprimindo a irritação que aquela observação lhe causara:
- Mas a lua já existiu.
- Que idade tens, Toynara?
- Vinte e dois anos.
- És jovem demais. Nunca viste a lua.
A irritação cresceu, ficou mais corado.
- Aprendi a venerar a lua através da magia e com a ajuda da estátua
negra da Deusa Suprema da Noite. Quando temos fé a encher-nos o coração, não
precisamos de ver para crer.
Fez menção de se levantar, mas Ten Shin Han ergueu uma mão
conciliadora e disse:
- Peço-te que me perdoes, se te ofendi. Apenas tento compreender o que
aconteceu. Diz-nos: como é que ficaste tão ferido?
A lembrança era, de algum modo, dolorosa. Toynara controlou-se para
não se deixar afetar pelo trauma que lhe assombrava ainda os pesadelos.
Endireitou as costas, uniu as mãos em cima da mesa, entrelaçando os dedos,
serenou o rosto e começou a relatar, num tom monótono:
- O Templo da Lua abriga uma comunidade de aprendizes, monges e
sacerdotes dedicados à veneração da deusa mãe da noite e à magia. Vivem
reclusos, autossuficientes, são um grupo benigno de homens que se dedica a
atividades inofensivas e puras. Mas recentemente um dos sacerdotes revelou-se
ambicioso, malévolo e egoísta. Foi expulso do templo mas regressou para se
vingar. Nesse dia maldito, aconteceram coisas terríveis… Muitos foram mortos, o
templo foi conquistado por esse proscrito. Eu fiz-lhe frente e tentou matar-me.
Ele deve ter julgado que tinha acabado com a minha vida, mas consegui
sobreviver. Fugi do templo, vagueei sonâmbulo pela floresta e pelas montanhas
até que vocês me encontraram e curaram os meus ferimentos. Nem consigo conceber
como lograram essa proeza, pois fui ferido com magia negra, que apenas se pode
reverter utilizando a mesma magia negra.
- Então, fizemos o que devia ser feito. Também utilizámos magia – disse
Ten Shin Han. – Um alimento mágico chamado senzu.
Se ficou curioso, Toynara não o deixou transparecer. Não fez perguntas
acerca do alimento mágico e prosseguiu no mesmo registo:
- O sacerdote proscrito, o conquistador do Templo da Lua, é um
poderoso feiticeiro chamado Zephir. Foi, em tempos, o meu mestre e conheço
demasiado bem a sua ambição. O seu sonho é ser o senhor do Universo. Serve-se
agora de uma magia maldita, que lhe confere ainda mais poder e recursos
inimagináveis. Temo que, se nada fizer, Zephir alcançará o que pretende.
- Mas ele é apenas um feiticeiro.
- Zephir é muito perigoso. Pode ser apenas um feiticeiro, mas conhece
os instrumentos necessários para controlar as almas da Terra e confundir os
mundos, dos vivos e dos mortos. Poderá lançar o caos, reunir as condições
favoráveis à sua ascensão e depois será tarde demais para o travar. Acrescento
que Zephir não utiliza apenas a magia. Acompanha-o um poderoso guerreiro, com
uma imensa força e técnicas incríveis no domínio das artes marciais. No templo,
tínhamos monges e sacerdotes muito dotados para a luta e esse guerreiro
matou-os sem soltar uma gota de suor.
- E o que pretendes fazer? Tornar a enfrentar-te a Zephir? A primeira
vez que se encontraram, não terminou da melhor maneira para ti.
- Estando aqui também não faço nada. Sou o último sobrevivente do Templo
da Lua, tenho o dever de lutar e de sacrificar-me em seu nome. Zephir não
representa o templo e não quero que o templo contribua para a destruição do
Universo.
- E, nestes dias, tens estado a pensar no que poderás fazer para
contrariar os planos de Zephir.
- Apesar de não confiar apenas no poder físico, julgo que, neste
momento crítico, irei precisar dos protetores do planeta.
- De quem falas?
- Dos guerreiros das estrelas. Preciso encontrar os saiya-jin.
Ten Shin Han levantou-se bruscamente da cadeira, interrompendo Toynara.
Chaozu acompanhou o companheiro com o olhar, sem dizer palavra, vendo-o
percorrer a pequena sala, pensativo, mãos crispadas atrás das costas.
Incomodado com o que Toynara lhe acabara de revelar, Ten Shin Han raciocinava.
O rapaz conhecia a existência dos saiya-jin.
Seria a situação assim tão desesperada para precisarem da ajuda de Son Goku? Ele
não tinha sentido recentemente forças novas no planeta, nem pressentira nenhuma
batalha onde se empregasse grandes quantidades de energia. Não havia, portanto,
motivos para alarme. No entanto, Zephir utilizava um guerreiro extraordinário
ao seu lado e era um feiticeiro dotado e, acima de tudo, perigoso, ajudado por
uma magia maligna, que poderia ditar a diferença.
Era urgente tomar uma posição e combater Zephir. Decidiu ajudar o
rapaz, mas iriam fazer as coisas à sua maneira. Como continuava com algumas
dúvidas, resolveu esclarecê-las com quem sabia mais do que ninguém e que
vigiava atentamente o planeta.
- Muito bem, Toynara. Queres resolver a situação que o Templo da Lua
gerou e que julgas ser da tua responsabilidade. Irei ajudar-te. Primeiro, quero
saber se Zephir é realmente perigoso para a estabilidade do planeta e se vale a
pena chamar os saiya-jin.
Sorriu, mas Toynara manteve-se sério
- Se a situação é, de facto, tão alarmante como contaste, ele deve
estar atento a tudo isto.
- De quem falas, Ten-san? - Perguntou Chaozu.
- Chaozu, preciso que fiques aqui. Irei viajar com Toynara até ao
Palácio Celestial.
- Vais falar com o kami-sama?
A menção do Todo-Poderoso estilhaçou a postura perfeita do sacerdote
do Templo da Lua.
- Nani?! – Exclamou. – Ver
o… kami-sama?
- Hai.
- E podemos vê-lo?
- Precisas de um sítio para ficar – explicou Ten Shin Han. – Agora que
decidiste combater Zephir, ele tentará novamente matar-te e é fundamental que
estejas resguardado num local seguro. Afinal, tu és o único que conheces o
feiticeiro e os saiya-jin vão
necessitar seguramente da tua ajuda, para combatê-lo. O Palácio Celestial
passará a ser a tua nova casa.
- A honra é demasiada… – gaguejou Toynara.
Ten Shin Han
interrompeu-o:
- Dende não se importará com a tua companhia. Nem Mr. Popo, nem
Piccolo. Ficarás bem, entre amigos.
- Continua a ser demasiado…
Depois de terem escolhido alguns agasalhos e uma pequena trouxa, que
Ten Shin Han colocou a tiracolo, saíram de casa. Chaozu, ao contrário do que
costumava acontecer, não protestara, querendo acompanhá-lo. Percebia que o
companheiro não queria que ele se arriscasse desnecessariamente. Ten Shin Han voltou-se
para o rapaz que estava confuso com a rapidez com que as coisas tinham
evoluído. Nunca pensara abandonar aquela casa acompanhado e nunca julgara que
iria ter apoio naquela guerra. Perguntou-lhe:
- Sabes voar?
A pergunta desarmou-o totalmente.
- Vo-voar?
- Hai. Disseste que és um
feiticeiro. Conheces algumas técnicas que usam a energia vital do corpo?
- Conheço. Mas voar… – E terminou num sussurro, duvidando das suas
próprias palavras: – É impossível
- Chama-se Bukuujutsu. E não
é impossível. Não há problema, eu levo-te.
- A minha arte baseia-se na magia – elucidou Toynara com altivez,
tentando remendar o orgulho. – Lido principalmente com os poderes mentais, não
com os poderes físicos.
- Eu sou um guerreiro – replicou Ten Shin Han no mesmo tom. – Lido com
poderes físicos. Mas se a minha mente não é forte, torno-me vulnerável. E nunca
paramos de aprender, sacerdote.
Toynara engasgou-se.
Ten Shin Han despediu-se de Chaozu. Sentiu um aperto no coração por
deixá-lo sozinho, porque de repente veio-lhe à ideia que não sabia se iria
voltar dentro em breve. A seguir, agarrou em Toynara pela cintura e os dois
elevaram-se no ar lentamente, para que o rapaz não estranhasse a falta de
gravidade. Apesar de estar aterrado, Toynara nem sequer tremeu. Em silêncio e
sem entusiasmo, começaram a viagem de três dias em direção aos domínios do
Todo-Poderoso.
Refugiado nos seus pensamentos, Toynara considerava que, afinal,
sempre tivera razão. O único que o poderia ajudar era o próprio kami-sama.
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