Já estava à espera daquela visita e vê-lo ali não foi nenhuma
surpresa. Esperou calmamente que passasse a amurada de pedra e se aproximasse.
Ten Shin Han baixou a cabeça numa vénia respeitosa.
- Saudações, Karin-sama.
- Bem-vindo sejas, Ten Shin Han – respondeu o mestre.
Uma rajada de vento atravessou o lugar, uivando com fúria. Ten Shin
Han não se mexeu, nem o mestre. A torre sempre fora ventosa, dada a sua
considerável altura.
- Já deves saber ao que venho – disse Ten Shin Han.
O mestre acenou afirmativamente.
- Observo-te desde que saíste das montanhas.
No silêncio que se seguiu, o vento tornou a falar.
Por detrás de uma coluna, apareceu Yajirobe no seu habitual estilo
simpático e despretensioso.
- Ten Shin Han! – Exclamou. – O que fazes por estes lados?
- Yajirobe, venho à procura de feijões senzu.
- Senzu? E para que queres
tu feijões senzu, hein? – Perguntou Yajirobe
com um sorriso. – Não me digas que estamos outra vez a braços com um combate
contra uma qualquer criatura muito poderosa e esquisita? Ninguém me contou
nada…
- Felizmente, não é o caso.
- Ah, não?
O sorriso desapareceu.
- Preciso de feijões senzu para
curar alguém.
Voltou-se para Karin.
- Conheces o rapaz que salvámos?
Karin apertou o bordão que segurava e abanou a cabeça.
- Não posso dizer que o conheça.
- Pelas vestes que envergava, parece ser um sacerdote de um templo.
Ficaram os três calados. Yajirobe retirou um feijão senzu de uma bolsa castanha que usava
presa no cinto e entregou-o a Ten Shin Han.
- Aqui está.
- Arigato, Yajirobe. Arigato, Karin-sama – agradeceu. Olhou para a palma da mão onde repousava o pequeno
feijão e suspirou. – Espero que não seja tarde demais.
Karin disse:
- Se quiseres saber como está o rapaz, terás apenas de espreitar pelo
pote do tempo presente.
Ten Shin Han olhou para os três potes com um losango vermelho
desenhado, encostados à parede redonda da torre. Aproximou-se daquele que
estava no meio. Era o pote do tempo presente, tal como o mestre indicara. Do
lado esquerdo ficava o pote do tempo passado e do lado direito ficava o pote do
tempo futuro. Ten Shin Han fixou esse pote.
Desde que recolhera o rapaz que um estranho pressentimento o roía por
dentro. Algo lhe dizia que ele era mais importante do que parecera à primeira
vista. Os acontecimentos que levaram às profundas queimaduras que o corpo dele apresentava
estavam, de alguma forma, ligados ao destino do planeta. Uma ideia
aparentemente louca e incoerente, mas que se convertia numa certeza quase
assustadora, como se o futuro de todos dependesse da salvação do rapaz.
O futuro estava ali, ao seu alcance, naquele pote. Ten Shin Han
poderia sabê-lo. Estendeu uma mão que vacilou. Não, deveria ser mais forte que
a súbita curiosidade. Conhecer o futuro poderia ser perigoso. A mesma mão guinou
para o centro e agarrou a tampa do pote que estava no centro.
Karin baixou a cabeça e sorriu. Sentira-lhe as dúvidas, mas Ten Shin
Han soubera fazer o mais acertado.
As águas do pote estavam agitadas e escuras e teve de esperar para
conseguir vislumbrar alguma coisa. As águas acalmaram e ele pôde finalmente ver
através delas.
E ele viu o quarto da sua casa. Ao lado da cama estava Lanch, sentada
no banquinho, as mãos no colo, a olhar para o rapaz que não se mexia. Chaozu
entrou no quarto, falou com Lanch. Os dois olharam para a cama e o rapaz mexeu
lentamente a cabeça, voltando-a no travesseiro.
- Viste o que querias ver? – Perguntou Karin.
Ten Shin Han tapou o pote e encaminhou-se para a amurada de pedra que
delimitava o recinto da torre.
- O rapaz ainda está vivo, mas duvido que seja por muito tempo.
O vento assobiou numa rajada repentina.
- Deverás apressar-te.
- Boa sorte – desejou Yajirobe. – Espero que consigas salvar esse
rapaz.
Após as despedidas, Ten Shin Han saltou para o vazio. Impulsionado
pela sua energia vital, desapareceu nos céus, a voar célere em direção ao
horizonte. Yajirobe viu-o desaparecer e perguntou:
- O rapaz será mesmo assim tão importante para merecer ser curado com
um senzu?
- Se o rapaz for importante e se estiver ligado ao futuro do nosso
planeta e do próprio Universo, estou certo que kami-sama está atento.
Karin afastou-se. Yajirobe ficou a pensar se o mestre não saberia mais
do que queria aparentar. Mas, como estava com fome, decidiu esquecer o assunto.
***
Três dias depois de ter partido e tal como prometido, Ten Shin Han
regressou a casa. Entrou no quarto e Lanch contou-lhe:
- Ele piorou muito, desde ontem à noite. Estou com medo!
- Não te preocupes – sossegou ele. – Tenho o feijão senzu. Se o feijão não o salvar, nada o
poderá curar e, então, apenas teremos de lhe aliviar as últimas horas neste
mundo o melhor que pudermos.
Ten Shin Han observou o rapaz que respirava com dificuldade. Na testa
queimada viam-se pequenas gotas de suor. A febre continuava a atacá-lo sem
piedade, o corpo mantinha-se coberto pelas chagas incuráveis.
Com muito cuidado, introduziu o feijão senzu na boca empolada. Sentindo algo entre os dentes, o rapaz
começou a mastigar. O feijão estalou. Atrás de Ten Shin Han, Lanch uniu as mãos
com força, à espera de ver o efeito mágico daquele remédio. Chaozu susteve a
respiração.
Um espasmo violento sacudiu o rapaz. Todos os músculos do corpo
ficaram tensos e as mãos arrepanharam o cobertor. Soltou um brado com todo o ar
que tinha nos pulmões. Lanch arrepiou-se ao ouvir aquele grito impregnado de
dor e agarrou-se ao braço de Ten Shin Han.
O rapaz saltou na cama, em convulsões descontroladas. E enquanto o
fazia, o negrume das queimaduras foi desaparecendo, as chagas foram se fechando,
os ferimentos foram se esbatendo até não restar nada deles, nem a mais pequena
cicatriz.
Estremeceu com um gemido profundo, como que a expulsar o último
demónio. Respirou fundo várias vezes como se acabasse de acordar de um sono
profundo. Agora já se viam com clareza as feições bem marcadas do jovem rosto. Abriu
os olhos, o corpo descontraiu-se.
Toynara estava finalmente curado.
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