Assim que franqueou a porta principal da Capsule Corporation, Yamucha
sentiu-se enfraquecer por um sentimento profundo de nostalgia. Aquela já tinha
sido a sua casa. Passara por aqueles corredores tantas vezes, vivera entre
aquelas paredes durante tantos anos, que seria capaz de andar por ali de olhos
vendados e chegar onde quisesse sem grandes dificuldades. Mas a casa tornara-se
estranha desde que outro ocupara o seu lugar e ele não divida espaço com nenhum
rival. Enfiou as mãos nos bolsos, a suspirar desconsolado.
- O que foi, Yamucha? – Perguntou Puar.
O gato azul flutuava ao lado dele.
- Nada.
Vinha visitar Bulma. Uma ideia que lhe surgira no momento. Metera-se
no aerocarro e rumara para a Capsule Corporation. À medida que se embrenhava na
casa, começou a sentir o mal-estar que emergia sempre que voltava ali.
Inconscientemente revivia o passado, exorcizava-o, abraçava-o, escorraçava-o,
tudo num mesmo pensamento repetitivo, e começou a acreditar que visitava a
Capsule Corporation para fazer aquela terapia particular, necessária de vez em
quando.
O robot que os acolheu levou-os
até uma oficina, onde Bulma reparava uma máquina, com variados apêndices
metálicos. Vestia um fato-de-macaco azul-escuro, com o símbolo da Capsule
Corporation nas costas, botas castanhas de cano alto. Ao ver Yamucha, tirou o
boné da cabeça, descalçou as luvas amarelas sujas de óleo e foi cumprimentá-lo.
- Vieste visitar-me. Que surpresa tão agradável!
Apertou-lhe a mão e beijou-o na face direita. O perfume dela deixou-o ligeiramente
tonto.
- Como estás, Puar?
- Bem, Bulma-san – respondeu-lhe, sorridente.
Levou-os até uma discreta sala de espera, situada no fundo da oficina,
e convidou-os a sentar nuns sofás encarnados confortáveis, em redor de uma mesa
larga e baixa, ornamentada com um arranjo de flores e um par de cinzeiros de
vidro, enquanto servia café acabado de fazer.
- Sempre a trabalhar, Bulma – comentou Yamucha.
- Faço o que gosto – disse ela sentando-se ao lado dele. – Sabes como
adoro reparar máquinas, inventar novos aparelhos, encetar projetos inovadores.
Prefiro isso ao monte de papéis que me esperam diariamente nos escritórios. – Levou
a chávena aos lábios. – Conto, por vezes, com Trunks para me ajudar nesse
departamento, mas agora tenho o meu filho dedicado aos exames e não irei
atrapalhá-lo com a papelada que, bem vistas as coisas, também fazem parte do
meu trabalho.
- Se Trunks vai herdar a parte administrativa de Capsule Corporaton,
caberá a Bra herdar o génio da mãe e reinar nas oficinas e laboratórios?
- Não sei. Talvez! Acho que ela tem mais jeito para a eletrónica e
para a robótica que Trunks. – O sorriso de Bulma esmoreceu instantaneamente. –
Espero que a sua mais recente mania lhe passe, entretanto…
- Que mania é essa?
- Agora diz que quer ser uma verdadeira saiya-jin, como se ainda não fosse saiya-jin que chegasse, e treina-se todos os dias com o pai, depois
da escola.
Yamucha arregalou os olhos admirado.
- Quem? A Bra-chan?
- Hum-hum – suspirou ela.
- Vegeta está a ensiná-la a lutar?
- Não, Bra já sabia lutar. Andou a aprender, às escondidas, com a Pan,
a filha de Gohan. Agora, quer melhorar a técnica e ter mais força. Para que
quer a minha princesa ter mais força, isso gostaria de saber…
- Para apertar melhor os parafusos das máquinas!
Bulma olhou para Yamucha de sobrolho franzido, estranhando a graçola.
Ele encolheu-se e enfiou o nariz na chávena de café, sorvendo um gole
rapidamente.
- Devo acrescentar que não aprovo inteiramente esse novo interesse de
Bra. Parece-me totalmente descabido. E eu não precisei de aprender artes
marciais para apertar bem os parafusos das minhas máquinas.
Yamucha perguntou, mordendo-se por dentro por ter sido tão desbocado:
- E porque é que a deixas treinar?
- Contrariar Vegeta? – E Bulma riu-se sem vontade. – Assim que Bra lhe
pediu que a treinasse, ele nem hesitou e dispôs-se a fazê-lo. Ele está a adorar
que a filha se mostre tão empenhada e farta-se de elogiá-la. Pelo menos, tem o
mérito de o aproximar dela.
- E Vegeta, continua na Câmara de Gravidade?
- Claro. Passa lá os dias inteiros.
Ele achou que seria melhor assim, porque não lhe apetecia encontra-lo.
Vegeta nunca fora muito com a cara dele e ele também nunca fora com a cara de
Vegeta. Muito menos depois de Bulma o ter preterido em relação ao saiya-jin. Podia já ter passado muito
tempo, mas Yamucha ainda guardava alguma mágoa quando se lembrava do assunto.
Era daqueles espinhos bem cravados na carne que nenhuma visita ao passado,
entranhado nas sombras da Capsule Corporation, iria arrancar, que nenhuma
terapia poderia curar. E quando Bulma lhe perguntou o que tinha feito
ultimamente, sentiu avolumar-se na cabeça um vazio monumental, como o deserto
árido onde vivera quando era um jovem adulto, uma paisagem monótona e
silenciosa, a espraiar-se em todas as direções sem detalhes que captassem a
atenção, e sentiu alguma relutância em confessar que ia fazendo algumas coisas,
aqui e ali, nada de concreto. Nem romances, nem trabalho novo, nem amigos
diferentes, nem novidades. Um autêntico deserto. A cabeça começou a doer-lhe.
A mulher certa para ele era Bulma, mas não lhe podia confessar isso ou
enterrava a pouca dignidade que ainda lhe restava. Perdera Bulma, nunca tinha
perdido nada de tão precioso na vida e ainda lhe custava lidar com essa
amputação do coração. Por isso, regressava à Capsule Corporation, para fingir
que podia dizer que voltava a casa.
Cansado do massacre interior, revelou enérgico, como se espantasse o
espírito mau que o assombrava:
- Sabes quem fui visitar, há alguns dias atrás? Ten Shin Han.
Bulma pousou a chávena vazia na mesa com um gesto polido. Retirou do
bolso do fato-de-macaco o maço de cigarros, acendeu um com o isqueiro que
estava dentro do maço. Soprou o fumo para o lado e disse:
- Há séculos que não o vejo. Como está ele?
- Parece-me bem. Continua a viver nas montanhas com Chaozu, na mesma
casa de sempre. De vez em quando, também partilham a casa com Lanch.
- Viste a Lanch? – Puxou outra passa ao cigarro, olhando para o teto
pensativa. – Ora aí está alguém que não me importava de rever. Se não vejo Ten
Shin Han há séculos, não vejo a Lanch há milénios!
- Continua na mesma, se queres saber. Entretida com as suas armas e
com os seus assaltos.
- Com a idade dela?
- Hai. Foi o que pensei.
- E vivem os três juntos?
- Quando se encontram na mesma casa… acho que sim. – E Yamucha
encolheu os ombros.
- Nunca percebi se os dois têm uma relação, ou não. O Ten e a Lanch.
- Parece que sim…
- Com o Chaozu no meio.
- Parece que sim.
Bulma puxou o cinzeiro para si, sacudiu a cinza da ponta do cigarro.
Matutava nas suas suposições sobre a vida de Ten Shin Han, de Chaozu e de
Lanch, um trio improvável e nada convencional, quando Yamucha revelou
apreensivo:
- Quando fui visitar o Ten Shin Han, aconteceu uma coisa.
Bulma encarou-o, puxando outra passa ao cigarro.
- Que coisa?
- Salvámos um rapaz, que apareceu ferido junto à casa.
A cara de Yamucha franziu-se ao recordar o evento.
- Conheciam esse rapaz?
- Não – respondeu negando com a cabeça. – Ninguém o conhecia. Ajudei-o
a levá-lo para casa. A Lanch, com a ajuda do Chaozu, tratou dos ferimentos
dele. Estava inconsciente e nunca chegou a acordar. Quando me vim embora, não
sabiam se iria sobreviver àquela noite.
Bulma arrepiou-se.
- Estava assim tão ferido?
- Estava. Nunca tinha visto ninguém tão queimado, Bulma. Ten Shin Han
disse que talvez tivesse sido um acidente, mas… não sei porquê, não me pareceu…
- Porquê?
- Sei lá, foi como um pressentimento. Ao olhar para aquelas
queimaduras tão negras pareceu-me ser obra de…
- De quê? – E Bulma admirou-se por estar a ouvir o coração a bater tão
depressa.
- De magia.
Novo arrepio e Bulma esmagou o cigarro no cinzeiro, apagando-o.
- Magia? Achas que o rapaz pode ser perigoso, Yamucha?
Ele esboçou um sorriso tranquilizador.
- Para isso, teria de sobreviver.
Bulma cruzou os braços, franzindo a testa, acentuando as rugas em
redor dos olhos azuis. Não gostara do sorriso, que destoara do tom
repentinamente sombrio que a conversa tomara.
- E achas que não sobreviveu?
Yamucha brincava com a chávena vazia entre as mãos.
- Ele estava mesmo muito ferido. E mesmo que tenha sobrevivido, Ten
Shin Han é um grande lutador de artes marciais. Não seria um rapazinho como
aquele que lhe poderia fazer mal, tendo em conta os adversários que Ten já
enfrentou.
- Mesmo sendo um rapazinho que anda envolvido com magia?
- Mesmo que fosse um poderoso feiticeiro. Ten Shin Han tem tanta força
física, como mental.
- Espero que tenhas razão, Yamucha.
Bulma ficou calada, a pensar. Ali havia uma história escondida e
daquelas bem grandes, com pormenores importantes que era necessário deslindar.
Primeiro, como se tinha queimado o rapaz. Segundo, de onde vinha ele. Terceiro,
como teria ele chegado até às montanhas onde vivia Ten Shin Han, que ficavam
num dos lugares mais ermos da Terra. Quarto, quem eram os seus inimigos.
Quinto, se conhecia realmente os mistérios da magia.
Curiosamente, depois de conhecer o que acontecera, também Bulma sentia
um estranho pressentimento em relação àquele rapaz misterioso, que até podia já
nem estar vivo, que ela nem sequer tinha visto.
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