No silêncio sepulcral do santuário de pedra escura, rodeado de teias
de aranha, envolvido num cheiro a mofo e a cera queimada, Zephir era uma sombra
escura que se debruçava sobre o altar. Abandonara as vestes brancas e
imaculadas do Sumo-sacerdote e vestia agora um comprido hábito cinzento, com
mangas largas e um capuz que lhe tapava a cabeça esguia e calva. Debaixo do
hábito usava a túnica vermelha dos sacerdotes e no pescoço tinha as Insígnias
Sagradas da Lua, porque achava-as indispensáveis para lhe conferirem poder e
autoridade.
Planeava minuciosamente os seus próximos passos, calculando com
cuidado o futuro, para evitar deslizes e desvios. Ele era um grande feiticeiro e
não cairia nos erros dos outros que tinham ambicionado vencer e que tinham
soçobrado. Socorria-se do “Livro de Babidi”, como sempre.
O super saiya-jin lendário
era mencionado nas suas páginas preciosas, tal como lhe dissera o espírito de
Babidi. Com o livro aprendera a convocá-lo, mas só ele não seria suficiente
para conquistar o Universo. Sabia que Son Goku e os seus guerreiros viriam até
ao Templo da Lua para o combater. Sabia que a batalha seria dura, longa e
renhida. Sabia também que o super
saiya-jin lendário não era garante de nada.
Uma das coisas que aprendera nos livros da Sala Sagrada sobre os guerreiros
da Terra era a sua tenacidade. Num aspeto, todos os relatos eram peremptórios.
Son Goku e os que o acompanhavam conseguiam sempre superar-se a si mesmos e
vencer, mesmo que todas as probabilidades estivessem contra eles. Não importava
a fortaleza, a habilidade ou a técnica do inimigo. No fim, retiravam forças e
motivação nem se sabia de onde e, a custo por vezes das próprias vidas,
combatiam-no, derrotavam-no e devolviam a paz ao mundo.
Durante aqueles dias que passara no santuário, procurara no livro uma
solução que lhe agradasse. Buscava alguma coisa extraordinária que, em conjunto
com o super saiya-jin lendário, lhe
assegurasse a mais completa, total e avassaladora vitória. Encontrou-a, quando
já estava a desesperar e disposto a queimar o livro. Rejubilou ao ler o nome
pomposo do Medalhão de Mu.
Tratava-se de um amuleto mágico criado há muitos séculos atrás por um
deus, chamado, precisamente, Mu. Esse deus tinha a capacidade de viajar entre
dimensões, podia tomar as mais variadas formas e vivia diversas vidas paralelas
nas dimensões que visitava. Quando estava prestes a morrer – Mu era um deus,
mas não era imortal – decidiu deixar para as gerações vindouras a capacidade que
possuía de conseguir visitar as várias dimensões do Universo e criou para esse
efeito um medalhão.
Num passado remoto, após o desaparecimento do bondoso deus, houvera
uma grande batalha pela posse do medalhão. Imperadores, reis, príncipes,
governantes, sacerdotes, bruxos e guerreiros lutaram pelo amuleto numa guerra
sem tréguas. Então, um grande senhor que velava pelos destinos do Universo e
que decidira pôr cobro à guerra, sabendo que o Medalhão de Mu não podia cair
nas mãos de gente ambiciosa e sem escrúpulos, apoderara-se deste e dividira-o
em dois, separando as duas metades.
Zephir sentiu-se de imediato atraído por esse poder absoluto. Se
conseguisse o Medalhão de Mu, seria mais do que sempre sonhara. Não apenas um
senhor, mas um deus, intocável e invencível! Teria a faculdade de reinar não
apenas no Universo da sua dimensão, mas nos demais universos de todas as
dimensões possíveis.
Num apontamento rabiscado pelo punho de Babidi, Zephir leu que as duas
metades do Medalhão de Mu estavam na Dimensão Z, o nome dado à sua dimensão, no
planeta…
- Terra?!! Estão na Terra?
A emoção fez com que o coração batesse com mais força. Tudo se
conjugava para o seu triunfo.
Havia mais, contudo. O grande senhor que dividira o medalhão, amaldiçoara-o
de seguida, estabelecendo que ninguém o poderia tocar, quando voltasse a ser
inteiro, a não ser alguém que pertencesse à…
- Dimensão Real.
Embrenhou-se na leitura com avidez. A lógica dizia-lhe que teria de
abrir uma porta para essa dimensão e trazer alguém de lá para que pudesse usar
o Medalhão de Mu num altar mágico que o grande senhor criara e que podia ser
invocado com um conjuro. Ao aplicar-se o medalhão no altar, aquele que
recebesse a luz emitida obteria a bênção de Mu, transformar-se-ia num deus e seria
imortal.
Próximo problema, como trazer alguém da Dimensão Real?
Passou uma página, atrás dos rascunhos feitos por Babidi. O feiticeiro
do Makai também estudara a existência do Medalhão de Mu e seguira-lhe o rasto,
o que lhe era mais do que conveniente.
E ele leu que alguém seria transportado da Dimensão Real se
interagisse com outro alguém da Dimensão Z. No processo de interação, uma
brecha temporária iria abrir-se entre as duas dimensões e permitiria a viagem.
- Interagir? O que significará isso?
Mas para que isso acontecesse era claro que ele teria de enviar alguém
dali para a Dimensão Real. Complicado, à partida. Simples, à medida que se
aprofundava na leitura dos apontamentos coligidos por Babidi.
A Dimensão Real era um sítio remoto e inadequado. O tempo corria de
maneira diferente, para começar. Um mês na Dimensão Real era equivalente a um
dia na Dimensão Z. Ao fim de doze meses na Dimensão Real, doze dias contando o
tempo como ele o conhecia, quem quer que tivesse entrado lá, já não poderia
regressar. Por outro lado, perderia todo e qualquer poder que tivesse adquirido
na dimensão de origem. Um feiticeiro perderia o seu poder mágico. Um guerreiro
perderia o seu potencial de combate.
Questão seguinte: como enviar alguém da Dimensão Z para a Dimensão
Real? A resposta estava ali, acompanhada do feitiço e de uma poção, como
alternativa. Com sangue de amizade.
Adorou a solução e esboçou um sorriso pérfido. Teria simplesmente de
conseguir sangue obtido de um combate entre irmãos e enviaria quem quisesse
para a Dimensão Real por um período de tempo indefinido.
Gradualmente, um plano perfeito, ambicioso e infalível desenhava-se na
sua mente retorcida.
Fechou o “Livro de Babidi” e saiu do santuário, sistematizando cada
passo do plano com uma frieza arrasadora. Naquele dia, começaria o lento, mas
seguro, caminho até à glória eterna. Assim como escalava as escadarias sombrias
dos subterrâneos até à luz do exterior, haveria de subir as escadarias até ao
trono máximo que faria dele o senhor de todos os mundos, um pedestal mais altaneiro
e magnífico que o Trono de Marfim.
O destino de Son Goku estava traçado. Seria ele o enviado para a
Dimensão Real, juntamente com todos aqueles que lhe estavam ligados – filhos,
amigos e inimigos. Livrava-se assim do seu maior empecilho. Se Son Goku
permanecesse tempo demais na Dimensão Real, perderia os seus poderes guerreiros
e não voltaria mais. Se regressasse à Dimensão Z, traria com ele aquele que
Zephir precisava para unir o Medalhão de Mu e governar o Universo.
De qualquer maneira, a vitória seria sua.
No pátio, encontrou Kang Lo sentado numa coluna de pedra tombada, com
um aspeto desolado. Tinha equimoses na cara e nos braços, a roupa estava
esfarrapada. Se tivesse essa faculdade, poderia até sentir compaixão pelo
lutador. A maldição do Makai, que lhe carcomia a alma em cada inspiração, fora
talvez demasiada para aquele simplório suportar. Mas como sabia que Kang Lo era
fraco, muito mais fraco do que Julep, Kumis ou ainda Son Goku, desprezou-o com
um asco que lhe azedou o estômago. Contudo, continuava a necessitar daquele
homem descartável.
Kang Lo ergueu os olhos mortiços.
- Sensei?
- Onde estão Julep e Kumis?
- Foram caçar… Quando não estão a treinar comigo, caçam animais.
- Não costumas ir com eles?
Abanou a cabeça violentamente.
- Não – respondeu, com a voz trémula. – Não gosto de os ver a comer os
animais que caçam. Bebem o sangue, devoram a carne. Parecem… demónios.
- Os dois irmãos são demónios. Não sei porque te acanhas com eles.
Afinal, não passam de dois ramos de árvore enfeitiçados.
- Pois, sim…
Zephir respirou fundo. Evitava aproximar-se do infeliz e Kang Lo
estava tão fatigado que não considerava pôr-se de pé e receber o mestre com a
deferência devida. Mas precisava de o ter mais perto de si se queria que o
feitiço funcionasse na perfeição. Preparou o momento com cautela.
- Kang Lo, tenho a resposta à tua maior pergunta.
Uma centelha iluminou o olhar do lutador. Animou-se por um momento
fugaz.
- Já sabes quem é ele?
- Disse-te que conseguiria sabê-lo, se entrasse no Templo da Lua.
- Então, diz-me.
- Chama-se Son Goku.
Kang Lo mexeu a boca sem articular qualquer som e repetiu, por fim,
como se quisesse imprimir a fogo aquele nome no cérebro, para que nunca mais o
esquecesse:
- Son… Goku.
- Conheces?
- Não, sensei. – E voltou a
abanar a cabeça muito depressa, como se tivesse perdido o juízo. Zephir
acreditou que isso tinha, de facto, ocorrido.
- Queres conhecê-lo?
Kang Lo hesitou. Depois, escancarou um sorriso apatetado que lhe
iluminou novamente os olhos desprovidos de vida.
- Quero, sim, sensei. Faz-me
conhecer o grande Son Goku!
- Levanta-te e aproxima-te.
Atabalhoado, Kang Lo conseguiu levantar-se e deu um par de passos
mancos. Zephir reparou então que o sangue escorria de alguns ferimentos
superficiais nas pernas e no torso, por baixo das costelas do lado direito.
Contava que o feitiço que iria, em breve, aplicar lhe curasse aquelas mazelas,
pois não precisava de um guerreiro ferido. Se não resultasse, decidiu, acabaria
com a vida daquele inútil sem qualquer remorso e procuraria outro hospedeiro.
O sol punha-se e as sombras estendiam-se pelos cantos e pelas lajes
negras do chão. Um par de kucris passou pelo pátio aos guinchos e Zephir sentiu
na pele o arrepio que gelou Kang Lo ao vislumbrar as criaturas. Sentiu também
como o medo o estava a afastar dele, a alma a fugir uivando, procurando
refúgio, encurralada na prisão de maldade que construíra naquele corpo possuído
pelo Makai. Não podia perder mais tempo.
Estendeu os braços e os dedos. As unhas compridas brilharam como
lanças afiadas na direção de Kang Lo e ele recuou.
- Liberta a tua mente. Preciso que baixes essas defesas que insistes
em manter quando falas comigo. Só depois, irás conhecer Son Goku.
- Tenho medo, sensei –
lamentou-se, subitamente sincero.
Zephir sorriu.
- O que se passa? Deixaste de confiar em mim?
- Não sei. Tenho medo.
Vindo de nenhures, apareceu um vento que fustigou o pátio
furiosamente. O hábito cinzento de Zephir esvoaçou e este tomou a imagem de um
enviado do diabo. O capuz caiu-lhe para trás e mostrou a sua cara retorcida e
lívida. Kang Lo teve ainda mais medo, pavor em estado puro, que o fazia ter uma
vontade imensa de correr.
O feiticeiro entreabriu os lábios, a murmurar um sem fim de palavras
numa língua estrangeira e desconhecida e à medida que a voz aumentava de volume
surgiu-lhe nos dedos uma nuvem amarela de pequenas partículas brilhantes e
irrequietas. Kang Lo começou a sentir um remoinho dentro de si, o corpo a
agitar-se frenético, como se a terra tremesse com violência debaixo dos pés. Quando
volveu o olhar embaciado para si próprio, viu que estava a derreter e a
transformar-se numa papa indefinida. Contudo, não sentia qualquer dor, apenas
uma dormência que o separava em dois, corpo e espírito. O medo tornou-se
insuportável.
A nuvem dos dedos de Zephir envolvia-o totalmente, como uma mortalha.
De um segundo para o outro, os pensamentos misturaram-se todos e Kang Lo gritou,
agarrado à cabeça com uma mão, enquanto agitava a outra para afastar a nuvem.
Tentava em desespero sair da influência daquele feitiço.
Os gritos de Kang Lo encheram o pátio. Sentia que se desfazia em mil pedaços,
sentia que morria e que um outro tomava o seu lugar. Havia uma presença dentro
dele que ganhava forma e peso. Havia uma outra alma…
- O que é que me estás a fazer, maldito feiticeiro? – Berrou aturdido.
Ouviu as gargalhadas de Zephir.
- És meu! Entregaste-me a tua alma no dia em que me salvaste e
abrigaste na tua caverna. Apenas utilizo o que me pertence.
-Não!!!!
Se fosse rápido poderia atacá-lo. Não lhe seria difícil partir em dois
o corpo esquelético daquele homenzinho horroroso. Kang Lo avançou, a tatear e a
esmurrar o ar, rosnando e praguejando.
Zephir via as suas patéticas investidas, pensando como era curioso
notar que, naquele momento final, a mente verdadeira do lutador se sobrepunha à
mente que era controlada pelo Makai. Por instantes, o verdadeiro Kang Lo
aparecera.
Mas fora apenas por instantes. Zephir controlava-o sem qualquer
hipótese de reversão. Terminou o feitiço e baixou os braços, observando as
convulsões do moribundo, os derradeiros minutos da existência de Kang Lo.
O lutador arquejou, desistindo do ataque. A cabeça pendeu, as costas
dobraram-se, os braços caíram, as pernas amoleceram. Kang Lo sumia-se,
espiritualmente. Havia um outro espírito que se imiscuía, preenchendo todas as
cavidades, e empurrava o anterior espírito para um lugar inatingível.
Nisto, os cabelos ruivos ficaram pretos. A energia do corpo soltou-se
numa onda avassaladora de luz, misturada com faíscas vermelhas e amarelas. Lançou
um grito ensurdecedor, que prolongou até que aconteceu uma explosão brilhante e
depois calou-se. Ouviu-se, na lonjura, um trovão. Caiu de joelhos nas lajes
negras e enrolou-se numa bola, a tremer.
Zephir aguardou.
Passados muitos minutos, tantos que ficou noite, deu sinal de que
despertava. Gemeu um pouco. Desenrolou-se, apoiou as mãos no chão e tentou
levantar-se, mas não tinha forças. Tornou a gemer, frustrado, buscando
conciliar a energia necessária para se equilibrar nas pernas fracas. Mas seria
coisa normal não o fazer pois, afinal, tinha acabado de nascer.
Alguns kucris apareceram, postando-se atrás de Zephir, sem fazerem
ruído. Alertados pela comoção do pátio, vinham ver o que estava a acontecer.
A segunda tentativa foi melhor sucedida e o guerreiro pôs-se de pé.
Sacudiu a cabeça, agitando os cabelos negros e desgrenhados. Encarou carrancudo
o feiticeiro. Rosnou, inquieto por se descobrir num sítio novo, que não
reconheceu.
O tamanho do corpo diminuíra ligeiramente. Era mais pequeno do que
Kang Lo, mais compacto e mais rijo. Mantinha na testa o “M” do Makai tatuado e
o feiticeiro deliciou-se com esse detalhe. Perguntou-lhe:
- Quem és tu?
Ele abriu a boca e respondeu:
- Keilo.
Zephir sorriu.
- Sou um saiya-jin.
Zephir saboreou o doce sabor da vitória.
Keilo, o super saiya-jin
lendário, acabava de chegar ao planeta Terra.
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