O telefone tocava com insistência. Devia ser um assunto realmente
muito urgente para não terem ainda desistido e, contrariada, Bulma resolveu
atender. Pousou a chave de fendas, descalçou as luvas e foi até à mesa onde estava
o telefone. Encontrava-se envolvida num trabalho de mecânica muito delicado, a
reparar uma máquina nova e dera ordens para não ser interrompida. Mas agora o
maldito telefone não se calava e não tinha outra hipótese senão ver quem seria.
Assim que levantou o auscultador, pronta para gritar com quem quer que fosse,
nem teve tempo para falar. Apareceu a voz esganiçada de Chi-Chi do outro lado.
- Bulma-san! Até que enfim que atendeste!
- Chi-Chi?… Mas…
Não pôde dizer mais nada porque a outra continuou:
- Tinham-me dito que não estavas contactável, que não querias ser
interrompida, mas eu expliquei quem era e lá me passaram a chamada. Disseram-me
que estavas no meio de um trabalho qualquer muito importante.
- Realmente, eu…
- Espero que não te esteja a interromper.
Bulma olhou para a máquina aberta, de onde saíam fios coloridos,
rodeada de peças e de placas eletrónicas, uma grande caixa de ferramentas e
ainda um computador portátil.
- Não, não me estás a interromper – disse, a ocultar um suspiro.
- Ainda bem. Não queria atrapalhar-te.
- Diz, Chi-Chi.
- Olha, estou a telefonar-te para que digas a Son Goten que venha para
casa. Obrigado por ele ter ficado aí a jantar e a dormir na noite passada, mas
não quero que ele abuse da tua hospitalidade.
Bulma despertou com uma sacudidela. Esqueceu o frete de estar ali a
atender o telefonema de Chi-Chi.
- Son Goten?
- Hai. Diz-lhe que venha
para casa que eu estou à espera dele.
- Mas… – O silêncio soou-lhe demasiado dramático, mas não soube como
dizer aquilo sem antes fazer uma pausa. – Goten não está aqui.
- Não?!!
O berro deixou-a surda do ouvido esquerdo. Afastou o auscultador e os
gritos de Chi-Chi mesmo assim foram perfeitamente audíveis:
- Goten não está na Capsule Corporation? Então, onde está ele?
- Era suposto eu saber? – E tornou a encostar o auscultador ao ouvido.
- Ele saiu ontem com Trunks e disse-me que iam para a Capsule
Corporation. Foram treinar os dois, que eu sei… Estudar é que não foi, os
exames já terminaram. Não o viste?
- Não, Chi-Chi. Não o vi.
- Então, onde está ele? Podes perguntar a Trunks onde se meteu o
Goten?
Bulma agarrou no queixo, pensativa. Também não se lembrava de ter
visto Trunks, ou mesmo Vegeta, já agora. Naquela manhã tomara o pequeno-almoço
à pressa apenas com a companhia de Bra e não achara estranho. O facto é que
havia três dias que andava entretida com aquela máquina e com os seus segredos
eletrónicos, que nenhum dos seus engenheiros conseguira descodificar, e não
tinha mais nada na cabeça. Pouco dormia e passava o tempo enfiada na oficina,
alheada do que se passava na sua casa.
- Bulma, ainda estás aí?
- Estou.
- Podes perguntar a Trunks? – Insistiu Chi-Chi.
- Bem… Não lhe posso perguntar, porque… Também não vi o Trunks esta
manhã.
- Nani?!!
Novo berro. Por aquele andar, Bulma iria ficar definitivamente surda.
- O meu filho desapareceu! – Exclamou Chi-Chi completamente
descontrolada.
- Ele não desapareceu… Podem estar todos a treinar na Câmara de
Gravidade.
- A noite toda?!
- Sabes como eles são. Quando se treinam, esquecem-se das horas.
- E vais ver se eles estão na Câmara de Gravidade?
- Claro! Além do mais, devem estar esfomeados e vou perguntar-lhes se
querem que eu lhes prepare o pequeno-almoço. Tenho de planear a refeição com
algum avanço, já sabes como são os saiya-jin
a comer.
- E vais ver agora?
- Assim que desligar o telefone…
- E depois ligas-me, para me dizeres que está tudo bem com o meu
filho?
Bulma torceu o nariz.
- Chi-Chi, Son Goten já é bem crescidinho para te andares a preocupar
dessa maneira com ele.
- Son Goten nunca fica fora de casa uma noite inteira sem me avisar.
- Como te disse, esteve entretido e esqueceu-se das horas.
- E esquecia-se de me avisar? Podia ter telefonado ontem à noite!
O mesmo pressentimento que assaltara Chi-Chi e que a levara a ligar
para a Capsule Corporation estava a contagiar Bulma. Apesar de argumentar com
segurança, nem ela própria estava convencida do que dizia e desconfiava, cada
vez com maior certeza, que ali havia uma qualquer história escondida.
- Diz-lhe para me ligar – pediu Chi-Chi mais calma.
- Está bem, eu digo. Dá-me cinco minutos.
As duas despediram-se. De seguida, Bulma saiu da oficina. Quando alcançou
a porta da Câmara de Gravidade, abriu-a resoluta e chamou:
- Vegeta?
Bulma estremeceu.
A Câmara de Gravidade estava vazia, às escuras, o controlo
gravitacional desligado. Lá dentro não havia ninguém e havia sinal de que não
tinha sido ocupada nas últimas horas.
Tentou não entrar em pânico. Respirou fundo e foi, corredor afora, que
nunca lhe pareceu tão comprido, à procura de Bra. À medida que caminhava
esforçou-se por manter a mente lúcida para não magicar os cenários mais loucos,
dando asas ao pressentimento que Chi-Chi lhe transmitira com aquele maldito
telefonema que ela nunca devia ter atendido. De certeza que estava tudo bem.
Eram dois rapazinhos bem grandes, com mais de vinte anos. E Vegeta tinha mais
do que idade para ter juízo.
Abriu a porta do quarto da filha devagar. Bra arrumava os seus
brinquedos numa enorme arca pintada com cores garridas.
- Bra-chan…
A miúda olhou para ela.
- Okaasan?
- Sabes onde está o otousan?
- Não – respondeu, negando com a cabeça.
- E Trunks-chan?
- Também não o vi.
Bulma engoliu em seco.
- Ele não comeu connosco, hoje de manhã – completou a miúda.
Bulma forçou um sorriso.
- Pois não…
- Porque é que estás à procura do nii-chan?
- Por nada… Eh… Preciso dele. E viste-os ontem?
- Não… Espera! Vi o otousan.
- Onde?
- Estava a treinar no jardim.
- Estava sozinho?
- Estava. Mas acho que depois alguém se juntou a ele…
- Porque é que dizes isso, Bra-chan?
- A energia do otousan mudou
e apareceram outras energias. Mais gente, mas ainda não sei distinguir os ki muito bem. A Pan-chan tem de me
ensinar melhor essa técnica.
Bulma abriu mais o sorriso, mas era tão fabricado que lhe saiu uma
careta. Disse a Bra que continuasse a brincar e deixou-a no quarto. Dirigiu-se
à oficina intrigada. Afinal, Goten teria estado na Capsule Corporation, na
tarde do dia anterior, tinha-se treinado com Trunks e com Vegeta e, por alguma
misteriosa razão, os três tinham partido tão repentinamente que não conseguiram
deixar nenhum recado a indicar o que se passava e para onde iam. Começou a roer
as unhas. Ela sabia o que isso significava. Uma nova ameaça pairava sobre eles.
Quando, já na oficina, fixava o telefone mudo, percebeu que tinha
outro problema entre mãos, para além da máquina avariada, do desaparecimento de
Vegeta e de Trunks e do fim da paz. Teria de contar as novidades a Chi-Chi. A
reação, apesar de previsível, não era nada agradável de suportar.
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