As folhas de papel coloridas voaram por cima da sua cabeça, enquanto
berrava furioso:
- Cambada de imbecis! São todos uma cambada de imbecis!
Já todos os escritores, ensaístas e biógrafos tinham saído da sua casa
esbaforidos, assustados com os berros e com a possibilidade de serem
despedidos, mas Mr. Satan não se calava:
- Estou rodeado de incompetentes! De ignorantes! De intelectuais de
bolso! De escritores de romances de cordel! Isto não é nenhum romance de
cordel!
A voz faltou-lhe e Mr. Satan começou a tossir, engasgado e todo
vermelho. Passou sem cerimónias por cima das folhas coloridas – rascunhos escritos
a computador – e foi até ao bar do magnífico salão. Encheu um copo de champagne e bebeu-o de um trago para
aclarar a garganta.
- Cambada de imbecis! – Tornou a resmungar. – Eles vão ver. Se não
fizerem aquilo que eu quero, como eu
quero…
A porta dupla do salão abriu-se e entrou um mordomo, impecavelmente
fardado.
- O que foi agora? – Gritou Mr. Satan enfastiado, por detrás do bar, a
segurar na garrafa de champagne.
O mordomo encolheu-se.
- A sua filha Videl… Está aqui para o ver, senhor.
- Videl?
A expressão carrancuda de Mr. Satan desapareceu num segundo e foi
substituída por uma cara alegre, onde sobressaíam os olhos azuis brilhantes. Na
porta, ao lado do mordomo que apertava nervoso as mãos, estavam Videl e a filha
desta, a pequena Pan.
- Videl! – Exclamou.
Deixou a garrafa em cima da mesa, rodeou o balcão do bar, mas não foi
mais longe porque Pan correu para ele, de braços abertos.
- Ojiisan!
Mr. Satan abraçou a neta no ar a rir.
- Pan-chan!
O mordomo pediu licença e saiu do salão, fechando cuidadosamente a
porta dupla.
Videl não deu mais do que dois passos. Olhou para o chão coberto de
folhas de papel. Em cima de uma mesa de apoio havia pastas de cabedal abertas,
onde se viam mais folhas. Tudo indicava que os escritores tinham estado ali com
o pai.
Pan escorregou dos braços de Mr. Satan e este virou-se para a filha:
- Videl! Minha querida Videl!
- Papa… Como estás?
Trocaram um abraço e ele convidou-as a sentar. Mr. Satan ficou num
grande cadeirão, que era o seu favorito desde há muitos anos, enquanto Videl sentou-se
com Pan ao lado, no sofá grande.
Videl olhou novamente para os papéis espalhados pelo chão.
- O que se passou aqui?
- Oh! – Riu-se, atrapalhado por ela ter visto aquela confusão. – Já vou
chamar alguém para limpar isto.
- O que se passou aqui? – Insistiu ela.
- Os meus biógrafos estiveram cá em casa – respondeu relutante. – E eu…
eu zanguei-me com eles e atirei os papéis ao ar. Foi isso o que se passou.
- Porque é que te zangaste com eles?
- Porque são uns incompetentes! – Elevou ligeiramente a voz, mas
decidiu recuperar a calma ao olhar para Pan que o observava atenta. – Não fazem
aquilo que eu quero.
- Tu também és tão difícil de contentar.
- Gosto das coisas bem feitas – defendeu-se com um toque de
sobranceria. – Se vão escrever a história da minha vida, tem de ficar bem
escrita. Trata-se, afinal, da história de um grande campeão que salvou o mundo.
Tem de ser um épico, um hino às artes marciais!…
- E não está a sair o épico que pretendes.
- Muito longe disso. A minha biografia tem de ser perfeita e o que me
apresentam não passa de um relato banal dos acontecimentos que eu lhes dito,
com toda a minha paciência. Não consigo gostar dos rascunhos que me deixam. O
pior de tudo é que esses grandes escritores não me sabem representar, não me
mostram como eu sou. Uns falam demais nas minhas qualidades, outros nem sequer
fazem caso delas.
- Não achas que estás a exagerar, papa?
Afinal é só uma história.
- Não é só uma história! – Protestou Mr. Satan com energia. – É a minha história. A história de um grande
campeão.
- Pois. É só uma história…que até nem é verdadeira.
Mr. Satan ficou de todas as cores.
- Vi-Videl! – Gaguejou. – Como te atreves a dizer uma coisa dessas?
- Vais escrever na tua biografia que foste tu quem salvou o planeta de
Cell e de Majin Bu, não é?
- É… É, sim… E esse é outro dos meus problemas.
- O quê?
- Majin Bu! Como é que vou
escrever na minha biografia que salvei a Terra desse monstro, se ninguém se
lembra dele graças às bolas de dragão?
- Quando chegar a altura, saberás o que dizer. Sempre foste excelente a
desenrascar-te das situações mais complicadas.
Mr. Satan gostou do elogio da filha e abriu um rasgado sorriso. Era
uma das suas qualidades que deveriam aparecer na biografia em grande destaque,
a sua capacidade de improviso. Fora graças a ela que chegara onde estava, no
topo do mundo.
- Ojiisan, onde está o Beh? –
Perguntou Pan, interrompendo-lhe os pensamentos.
Mr. Satan olhou para a neta. Adorava-a, uma miúda rebelde e
irreverente, que sabia ser meiga e carinhosa, cheia dos pequenos caprichos
próprios das meninas que as faziam tão especiais. Fazia-lhe lembrar a sua Videl
quando esta fora da mesma idade.
- Deve estar no jardim, Pan-chan.
Pan voltou-se para a mãe.
- Posso ir brincar com o Beh? – Pediu.
Videl concordou e Pan saltou do sofá, saindo do salão numa corrida.
- O que foi que lhe contaste? – Perguntou ele, a cismar com a porta.
- A quem?
- A Pan-chan. Sobre mim…
Videl respondeu.
- Ela sabe a verdade, papa.
- A… a verdade? – E encarou a filha a tremer.
Essa palavra passara a ser assustadora para Mr. Satan desde o torneio
do Cell. Apesar de se munir de um combativo autocontrolo, sempre que ouvia
falar em “verdade”, todo ele se desmanchava na presença desse som. De todas as
vezes preparava-se mentalmente para não se deixar abater quando o ouvisse, mas
de todas as vezes essa mentalização não funcionava.
- Hai, a verdade. Pan sabe
que foi o pai dela que salvou o mundo.
- Sabe?
Videl fez uma cara como se fosse evidente.
- Sabe. Ela, afinal, é em parte saiya-jin.
Não faria sentido ocultar-lhe que…
- Ah! Os saiya-jin! – Cortou,
erguendo um dedo. Tinha arranjado um excelente pretexto para mudar de assunto e
recompor-se da tremedeira. – Tenho uma coisa que queria perguntar-te sobre os saiya-jin.
- Pergunta. Se souber responder…
- Saberás, de certeza. Trata-se do Cell Games. Estou a relatar aos
meus biógrafos essa parte da minha vida… Vai ter um especial destaque na
biografia, a meu pedido. Afinal, a imortalização do meu nome deve-se a esse
torneio! – Inchou o peito de orgulho. Prosseguiu, entrelaçando os dedos,
inclinando-se ligeiramente para diante – Bem… Tenho algumas dúvidas e o filme
que fizeram na altura não me ajuda. E a minha memória também não me faz
justiça. Já se passou tudo há vinte anos e não me recordo do que aconteceu com
muita clareza.
Videl apoiou o queixo na mão, interessada.
- Lembro-me da maior parte das coisas, mas não de tudo. Além do mais,
preciso de pormenores para que a história fique bem contada. Nomes, datas,
locais… Essas tretas todas que os biógrafos adoram. E fartam-se de insistir
nelas.
E ela achou que a imaginação do pai devia ser prodigiosa para
conseguir inventar todos os detalhes de que necessitava e com a precisão
necessária para formar uma história coerente e credível.
- O que me está a atrapalhar – continuou ele –, são os saiya-jin. Falta-me o nome de um deles.
Videl pestanejou.
- Falta-te o nome de um deles? Como assim?
- Falta-me o nome do quarto saiya-jin.
Não sei como é que esse se chama e não o consigo reconhecer. Ele está no filme,
lembro-me de ter estado lá mas… Mas não sei quem ele é.
- Mas só existiam três saiya-jin
no Cell Games. Son Goku, Vegeta e Gohan. Não podia existir um quarto saiya-jin.
- Mas ele estava lá!
- Quem é ele?
- A única maneira de solucionar este problema é perguntar a quem sabe.
E tu podes perguntar ao teu marido, Videl.
- A Gohan?
- Hai. O quarto saiya-jin pertencia ao grupo dele. De
certeza que o conhece.
- Que estranho – disse pensativa. – Gohan nunca me falou nele, não me
lembro nunca de nos ter visitado. Se houvesse outro saiya-jin para além de Goku-san ou de Vegeta-san, de certeza que eu
o conheceria.
- Vais perguntar a Gohan, Videl?
- Vou.
Agora, também ela queria deslindar aquele mistério. Era impossível a
existência de um quarto saiya-jin. Para
além de Goku, Vegeta e Gohan, o único saiya-jin
que existia na Terra na altura era Trunks, mas este não passava de um bebé de
apenas um ano de idade.
Videl sorriu para o pai e perguntou-lhe:
- Não queres saber como vão os teus negócios?
Então, pela primeira vez naquela tarde, Mr. Satan esqueceu a biografia
que o deixava tão apoquentado e nervoso e dispôs-se a escutar Videl.
***
Pan atravessava os corredores da mansão do avô a correr e a saltitar.
Ela adorava aquela casa tão grande e bonita, que lhe fazia lembrar um palácio,
daqueles habitados pelas princesas dos contos de fadas. Pan contava muitas
vezes a Bra as suas aventuras inventadas por aquele palácio e a amiga adorava
esses relatos fantásticos.
Abriu uma enorme porta envidraçada, desceu alguns degraus de mármore e
pulou para a relva do jardim da mansão. Olhou em volta e não lhe foi difícil
encontrar Beh.
Correu de braços abertos, a chamar por ele.
O cão levantou a cabeça e soltou um latido alegre quando a descobriu.
Os dois rebolaram na relva. Pan ria à gargalhada enquanto Beh lhe lambia a face.
- Para! Estás a fazer-me cócegas – pediu Pan entre risos.
Brincaram mais um pouco, ela correndo, o cão correndo à volta dela.
Depois, Pan viu-o. Afastou o cão com delicadeza, pois fora até ao jardim para
também se encontrar com ele.
Mr. Bu sorria-lhe e Pan retribuiu o sorriso. Reparou numa caixa de
bombons de chocolate que ele lhe estendeu a perguntar:
- Queres um bombom, Pan-chan?
- Quero! Arigato, Mr.
Bu-san.
Pan esticou os dedos e escolheu o bombom que lhe pareceu o mais
bonito, em forma de flor. Meteu-a na boca e ficou a observá-lo.
As bochechas cor-de-rosa de Mr. Bu brilhavam ao sol enquanto comia um
bombom. Mr. Bu era tão gordo, tão grande, tão engraçado! Mas nem sempre fora
assim e Pan lembrou-se de uma vez ter ouvido o pai falar com a mãe sobre Mr.
Bu. Em tempos, fora um dos inimigos e o pai e todos os companheiros dele tinham
lutado contra Mr. Bu. Nessa altura, ele tinha-se dividido em dois e separara-se
da sua parte má, Majin Bu. Esse Majin Bu foi vencido e ficou só o Mr.
Bu, que passou a viver com o avô, Mr. Satan. E tudo isto se tinha passado antes
de ela nascer.
Mr. Bu parecia inofensivo, mas nele as aparências enganavam. Apesar de
parecer um enorme balão cor-de-rosa, era um grande lutador e era muito forte. Pan
admirava os lutadores fortes e sempre que tivesse uma oportunidade, nunca
deixaria de os enfrentar, para testar as suas capacidades.
O último bombom desapareceu na boca de Mr. Bu, que lambeu os lábios
deliciado.
- Hum! Os bombons eram muito bons!
- Mr. Bu-san…
Ele olhou-a, com a caixa vazia nas mãos.
- Os bombons já acabaram, Pan-chan. Mr. Bu vai buscar mais.
- Não.
- Mr. Bu vai buscar mais. Mr. Bu quer mais doces…
- Mas eu não quero bombons. Queria outra coisa…
- Oh?
Pan deu um pequeno passo atrás. Fez a cara mais inocente que conseguiu
arranjar e pediu:
- Queres lutar comigo, Mr. Bu-san?
As palavras custaram-lhe a sair quando disse:
- Lu… Lutar contigo, Pan-chan?
- Hai.
- Mr. Bu não pode lutar contigo.
Pan piscou os olhos várias vezes.
- Não podes lutar comigo? Porquê?
E ele tornou a responder, com a voz mais segura:
- Mr. Bu não pode lutar contigo.
Pan esforçou-se para não se irritar.
- Mr. Bu-san, é só um combate pequenino.
- Mr. Satan não quer que Mr. Bu ande em combates. – Atirou a caixa de
bombons por cima do ombro e olhou para as portas envidraçadas que davam acesso
aos jardins. – Mr. Bu vai buscar mais doces.
- Esquece lá os doces! Vamos falar do nosso combate…
Mr. Bu cruzou os braços e respondeu presunçoso:
- Mr. Bu não vai lutar contigo. Mr. Bu é muito forte e pode fazer-te
mal. E Mr. Satan não iria gostar de saber que Mr. Bu fez mal a Pan-chan. Ele
gosta muito de Pan-chan.
- Isto não é um combate a sério, baka!
– Alegou Pan impaciente. – Vá, deixa-te de conversas e ataca!
Apartou ligeiramente as pernas e colocou-se em posição de defesa. Beh
percebeu que ela não queria mais brincar e afastou-se.
Mr. Bu descruzou os braços. A cara que punha era cómica e Pan esforçou-se
para não começar a rir.
- Ataca! – Insistiu ela.
Ele acenou lentamente com a cabeça.
- Está bem. Se Pan-chan quer um combate… Mr. Bu vai lutar com
Pan-chan.
Respirou fundo, fechou as mãos e tornou-se sério. Lançou o punho, mas
o movimento era tão lento e previsível que Pan parou-o facilmente com a mão
esquerda.
- Ah! Assim não vale! – Protestou Pan a sorrir. – Esses golpes são
muito fáceis de parar.
Mr. Bu tentou atingi-la com o punho direito. Pan defendeu-se com o
braço do mesmo lado. A seguir, deu um pequeno salto e tentou atingi-lo com um
pontapé à meia volta. Ele nem se assustou. Calmamente pulou para trás e saiu do
alcance da perna da pequena adversária.
Pan caiu na relva, mas levantou-se logo. Saltou para cima de Mr. Bu disposta
a atacar.
A voz de Videl surpreendeu-a.
- Pan-chan!
Parou o ataque a meio. Atrapalhada por ter ouvido a mãe chamar,
recuperou o equilíbrio e começou a ajeitar a fatiota escolar, que Beh deixara
um pouco amarrotada. Videl aguardava junto à porta envidraçada, de braços
cruzados, ao lado de Mr. Satan. Mr. Bu olhou para eles.
- Vamos embora.
Mr. Bu acenou a Videl.
- Koniichi-wa, Videl-san!
- Koniichi-wa.
Beh correu para Mr. Satan que o afagou carinhosamente. Pan voltou-se
para Mr. Bu.
- O nosso combate ainda não acabou. Fica para a próxima!
- Está combinado.
Pan deixou Mr. Bu com um piscar de olho e juntou-se a Videl. Despediu-se
do avô, Mr. Satan, e adormeceu cansada no carro quando regressavam a casa.
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