O líquido amargo e pastoso desceu-lhe pela
garganta. Estava quente, incendiou-lhe o peito e queimou-lhe o estômago. Recuperava
a consciência e o corpo amassado doeu-lhe. Fez uma tentativa para falar, mas as
palavras que se revolviam no cérebro cansado não se ordenaram e ela não foi
capaz de exprimir nenhuma ideia.
- Não te mexas. Estás muito ferida.
Não reconheceu a voz e fez um esforço
titânico para abrir os olhos. A primeira visão foi turva. Um quarto desconhecido
de uma cabana tosca de madeira. Não gostou de se ver num sítio estranho e,
assustada, voltou a cabeça. Ficou tonta.
- Disse para não te mexeres.
Número 17 falava-lhe com gentileza. Maron
olhou-o despistada. A última recordação que tinha era da Ana a dizer-lhe
qualquer coisa, enquanto Ubo se aproximava perigosamente.
Aconchegou a cabeça no travesseiro,
sentindo-se amolecer. Mas sabia que não podia adormecer. Era seu dever lutar
até ao fim. Sentou-se na cama, disfarçando uma segunda tontura, mais forte que
a primeira.
- Já estou melhor e quero levantar-me –
anunciou com a voz entaramelada.
- Tens a certeza?
Olhou-o de uma forma intimidatória, mas devia
estar tão mal encarada que não passou convenientemente a mensagem a número 17
que se mantinha tranquilo a observá-la, os seus olhos azuis enigmáticos a
fingirem uma preocupação que o seu interior mecanizado não saberia o que
significava. Afinal, ele não tinha coração.
- Onde é que eu estou? Na tua casa?
Era uma cabana de madeira escura. A única
janela estava tapada com cortinas amarelas e a porta tinha um postigo. Muito
parecida à casa que ela tinha conhecido na Dimensão Real. Ao lado da cama, na
mesa-de-cabeceira estreita ardia um castiçal com uma vela. Ele sentava-se no
colchão, ao lado dela. Respondeu-lhe:
- Não. A minha casa foi destruída
recentemente. Estamos num abrigo de montanha, utlizado por caminhantes quando,
no Inverno, se perdem nos trilhos. Trouxe-te para cá, pareceu-me o mais
ajuizado, dada a tua condição.
Fez-lhe uma careta. O calor do estômago
espalhava-se pelos músculos e acalmavam-nos, sugando-lhes a fadiga e a dor.
- O que foi que me fizeste engolir?
- Um caldo que cura todo o tipo de feridas,
feito por mim. Ensinou-me um ancião que encontrei há muitos anos atrás e que
tinha muitos segredos. Quase tantos quanto eu. Concedeu em revelar-me alguns,
entre esses, o caldo milagroso.
- Hum… Interessante.
- No entanto, o caldo só atua ao fim de
algumas horas. Não estás curada.
Ela assentou os pés no soalho. Sentiu outra
tontura, um enjoo tremendo. O sangue todo fugiu-lhe para a testa que lhe
começou a pesar e se não fosse o braço que ele lhe passou pelos ombros teria
mergulhado, de cabeça, no soalho que era de pedra e tinha uma fina camada de
pó, quebrada nos pontos onde as botas de número 17 tinham pisado. Pestanejou
furiosamente, a recuperar o equilíbrio.
- Estou bem – ciciou, irritada com o gesto
paternalista dele.
- Bem, se te queres levantar, o problema é
teu. Já és bem crescidinha e podes tomar as tuas próprias decisões.
Afastou-se subitamente, levantando-se do colchão,
deixando-a desamparada. Maron apertou a coberta com as mãos, concentrou-se num
ponto neutro para não pender novamente para o soalho. Estava fraca,
envergonhadamente trémula. Precisava do peso dele no colchão para
contrabalançar o seu estado lastimoso, admitiu aborrecida. Começou a falar para
se distrair da sua patética situação:
- Como é que vim parar aqui?
- Encontrei-te sem sentidos. Apesar de te
teres atravessado no meu caminho, não te ia deixar abandonada à tua sorte.
- No teu caminho?
- Senti os combates que estão a acontecer
agora… Resolvi aparecer. Há alguns dias atrás – explicou –, encontrei Son Goku.
Perguntou-me se queria juntar-me a ele para combater o tal feiticeiro que nos tinha
enviado para a dimensão estranha durante todos aqueles meses. Recusei, claro.
Nunca poderia aceitar um convite daqueles da parte de Son Goku… Mas, depois,
acabei por ficar envolvido na história, por causa da bola com as estrelas
dentro. Como te disse, a minha casa foi destruída recentemente. Fui atacado por
um demónio que trabalha para o feiticeiro, que pretendia a bola que Son Goku já
tinha levado. Derrotou-me, arrasou-me com a casa. Depois de ter recuperado dos
meus ferimentos, com um caldo igual àquele que te dei, pus-me a caminho
disposto a vingar a afronta e encontrar o covil onde se esconde esse demónio.
A resposta foi monótona, nem uma centelha de
emoção no olhar azul desmaiado de número 17, ou em qualquer uma das palavras
pronunciadas com um indistinto laivo de desprezo. Mas Maron pressentiu algo,
uma variação subtil no discurso, que indicava que, mesmo sem coração, havia uma
alma qualquer dentro daquele organismo semiautomático.
Sorriu-lhe ligeiramente.
- Bem, estás com sorte – disse ela. – Eu
acabo de vir do covil do demónio, que também é o covil do feiticeiro e que se
chama Templo da Lua. E se tu tens contas a acertar com esse demónio, eu também
tenho. Foi ele que me deixou neste estado. Vamos regressar juntos e combater
juntos.
- Eu combato sozinho, miúda.
O tom condescendente irritou-a.
- Ah, cala-te! Se não queres a minha
companhia, também dispenso a tua.
Apertou o punho e sentiu alguma coisa no
interior da mão. Estivera tão entretida com as tonturas, que não se apercebera
que guardava aquilo. Abriu-a e encontrou uma pequena argola dourada suja de
sangue.
Entreabriu os lábios, a memória regressando,
aos poucos até lhe encher o cérebro como uma inundação luminosa. Pôs-se de pé.
- Número 17! – Anunciou num grito. – Tenho de
regressar imediatamente ao Templo da Lua.
E caiu de joelhos, a gemer, com nova tontura.
Sacudiu a cabeça, os olhos focaram-se e
descobriu as botas do humano artificial diante do nariz.
- Acho que não podes ir a lado nenhum nesse
estado, minha querida sobrinha.
Ela apanhou-lhe as calças, amarrotou-lhe o tecido
com a força que fez.
- Escuta-me! O demónio da conversa de há
pouco… Existem dois demónios controlados pelo feiticeiro. São muito fortes e
acontece que são imortais. Mas têm um ponto fraco. Esta argola que usam como
brinco… – Exibiu a argola na ponta dos dedos. – Se a argola lhes for arrancada,
morrem. E esta pertenceu ao demónio que se chamava Julep, que agora está morto,
ou eu não a teria comigo. Posso matar o outro demónio, que se chama Kumis.
Percebes por que é que tenho de regressar ao Templo da Lua?
Ele arrancou-lhe a argola dos dedos, elevou-a
à altura dos olhos. Admirou-a por um punhado de segundos e depois rasgou um
sorriso que não era apenas cínico, era malvado. Maron estremeceu e não gostou
daquela reação. Ergueu-se com a ajuda das calças dele e da cama, atrás dela. As
pernas eram como papa, a testa como se estivesse forrada com placas de chumbo.
- Está bem, se queres tanto regressar… –
concordou ele num tom incisivo.
- Hai.
– Apartou o olhar e murmurou incomodada: – Também existe alguém que preciso
salvar.
Essa última informação não foi processada por
número 17. Avisou-a:
- Levo-te comigo. O ar do exterior vai
ajudar-te a melhorar a tua condição física e pode ser que quando cheguemos a
esse templo já não estejas tão afetada. Mas o demónio Kumis é meu, minha
querida sobrinha. Sou eu que o irei eliminar.
- Ah, foi ele que te destruiu a casa?
Não lhe respondeu. Voltou-lhe costas e saiu
do abrigo e ela teve de o seguir, aos saltinhos, para não sucumbir às terríveis
náuseas que sentia. Encavalitou-se em cima de número 17 e partiram sem mais uma
palavra.
A viagem foi breve. O crepúsculo assentava na
Terra com uma suavidade de veludo, mascarando a agitação e o drama que se
desenvolvia naquele pequeno lugarejo escondido, que se enquadrava entre um lago
e uma floresta. Maron apontou para os edifícios castanhos:
- Chegámos. Aquilo ali é o Templo da Lua.
- Consegues voar?
- Hai.
Já me sinto francamente melhor.
Ela escorregou das costas de número 17 e
ficou a oscilar suspensa no vazio ainda inquieta. Fletiu os braços, abriu e
fechou as mãos, a verificar que os músculos doridos já não estavam tão doridos
e que as tonturas tinham desaparecido. O caldo começava a fazer efeito e a sua
energia regressava.
- Como te disse antes… É assunto meu.
- Nani?
– Perguntou Maron.
E a resposta surgiu diante dela, subindo rapidamente
até ao lugar onde estavam, como se tivesse aparecido por meio da conversão das
moléculas do ar num corpo palpável. Ela não se tinha apercebido da aproximação
do inimigo. Cerrou os dentes, incomodada com a falta de atenção. Se ela se
arvorava uma lutadora, devia antecipar aqueles movimentos simples.
Kumis sorriu.
- Hum… Temos mais visitas, neste dia já tão
concorrido? E quem são vocês, intrépidos visitantes?
Número 17 também sorriu.
- Oh… Vejo que tens uma memória fraca,
demónio. Não te lembras de mim?
Kumis ficou sério, exibindo uma carantonha
pálida de arrepiar. Número 17 prosseguiu, vendo que o estava a irritar:
- Faz um pequeno esforço… Não foi assim há
tanto tempo. Procuravas por uma bola cor-de-laranja.
A carantonha pálida desfez-se numa
gargalhada. Número 17 acentuou o sorriso.
- Muito bem. Vejo que finalmente te lembraste
de mim.
- Oh, claro! – Concordou Kumis divertido. – Da
primeira vez que nos encontrámos, quase que te arranquei a pele. É preciso
realmente muita coragem para apareceres aqui a exigir uma desforra, criaturinha
insignificante!
- A criaturinha insignificante não vai apenas
ter a sua desforra. Também te vai eliminar, demónio.
A afirmação espirituosa emudeceu o riso estrepitoso
de Kumis. Ameaçou, vincando as palavras, imprimindo em cada sílaba despeito e
raiva:
- Que descaramento, criaturinha
insignificante. Não devias desafiar-me dessa maneira, poderás arrepender-te se
não cumprires com o que dizes.
E também havia nervosismo, notou Maron.
Talvez já se tivesse apercebido da ausência do irmão gémeo. Número 17
prosseguiu no mesmo tom irónico, a roçar o engraçado:
- Ah… Mas eu vou cumprir com o que digo.
O combate começou. Kumis foi o primeiro a
atacar. Maron afastou-se ligeiramente para dar espaço a número 17 que defendeu
o punho do demónio. Sem se querer alongar demasiado, até porque sabia que se
insistisse num prólogo extenso perdia a vantagem, afundou de seguida o joelho
no estômago do adversário e atingiu-o na nuca com as duas mãos unidas. Kumis
começou a cair em direção às árvores da floresta e número 17 foi atrás dele.
Foi tudo demasiado rápido. O demónio conseguiu
suster a queda, estacando no meio do ar, o humano artificial esticou um braço,
enviando um raio energético.
O brilho da explosão deixou Maron encandeada.
Protegeu os olhos com uma mão, aguentou a onda de choque. Ouviu a pancada, um
grito de terror. A luz dissipou-se, número 17 apareceu de braço erguido, Kumis
agarrava-se estupefacto à orelha esquerda. Maron sentiu a descarga de
adrenalina, o arrepio por mais aquele triunfo.
Número 17 ostentava uma argola dourada entre
os dedos.
- Maldito! – Berrou o demónio rouco.
- Devias ter acabado comigo quando tiveste a
oportunidade – disse o humano artificial sem emoção. – Os erros costumam
pagar-se caro.
O corpo de Kumis agitou-se numa convulsão.
Amoleceu e foi secando, à medida que se imobilizava. Os urros e as fungadelas
calaram-se. O sangue que escorria da sua orelha pareceu evaporar-se, a aura
escura dissolveu-se e o demónio transformou-se num ramo de uma árvore
encarquilhado que foi levado por uma rajada de vento. Partiu-se em dois e
desapareceu na floresta.
- Sayonara, Kumis, demónio de Dabura, o Príncipe do
Mal.
Ele aproximou-se dela e pediu-lhe:
- Maron, dá-me o outro brinco.
Ela estendeu-lhe a argola dourada que
guardava no bolso das calças.
- Para que é que o queres?
- Vou usar os brincos, como símbolo do meu
triunfo sobre os demónios de Zephir. – E mostrou um sorriso enviesado, pretensioso
e satisfeito.
Não seria justo que ele usasse os brincos,
pensou Maron. Afinal só tinha derrotado um demónio e conseguira-o graças a ela
e à descoberta da Ana. Apoderara-se da situação, usara-a em proveito próprio, a
sua contribuição tinha sido mínima. Aquele homem, que agia como um adolescente
problemático, uma criança mimada que se recusava a crescer, acabava de
demonstrar que era um grande egoísta. Seria talvez por isso que vivia sozinho,
nas montanhas…
Número 17 voltou o corpo com um safanão,
encarou o horizonte e gritou:
- Ainda não terminou!
A cabeça de Maron estalou com uma dor vinda
do nada. Foi como se o seu cérebro inchasse e ameaçasse sair pelas orelhas. A aura
de Ubo era tão forte que ela viu-se obrigada a desviar a sua concentração e
desistir de lhe ler o ki.
O novo inimigo estacionou diante de número 17.
Não abriu a boca, nem sequer para um sorriso. E atacou com uma barreira
invisível de energia que empurrou Maron e número 17. Aconteceu tão de repente
que os dois não conseguiram reagir convenientemente. Foram cuspidos, despenharam-se
desamparados no pátio principal do Templo da Lua. Maron magoou-se. Controlou-se
para não gritar com as horríveis dores que sentia no braço direito até ao
pescoço. Número 17, aparentemente, tinha conseguido aterrar bem, pois
levantou-se de seguida e volveu o olhar para o céu. Reconheceu o rapaz que
pairava sobre eles como uma sombra maldita, o rosto fechado, mudo e
inexpressivo como um fantasma.
- Majin…
Majin Bu – murmurou.
Maron descobriu que tinha o ombro direito
deslocado. Também se levantou, segurando o braço inerte, aguentando o
sofrimento o melhor que podia. Colocou-se atrás do humano artificial, buscando
a proteção dele, mesmo que ele fosse um estúpido de um egocêntrico e um vaidoso
incorrigível, mas era também tio dela e haveria de fazer alguma coisa para
protegê-la. Ou assim esperava.
Desde o alto, Ubo lançou um braço, o gesto que
indicava que iria atacá-los com um disparo energético. Número 17 fincou os pés
no chão, preparou a defesa. Mas o ataque veio do solo, matreiro. Uma rede negra
e espessa abateu-se sobre eles como um maremoto. Um cheiro nauseabundo entrou-lhes
pelo nariz e pela boca e perderam a força nos joelhos. Tombaram inertes,
indefesos.
Número 17 e Maron perderam os sentidos e ficaram
prisioneiros de Zephir.
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