A pedra de
cristal cintilava furiosamente. O planeta agitava-se em perigos incontáveis e o
feiticeiro sabia que o tempo não corria a seu favor. Acabava de sofrer reveses
inesperados. A rapariga da Dimensão Real fugira ajudada por outra rapariga e
levara consigo as duas metades do Medalhão de Mu. Perdera os dois demónios,
Julep e Kumis, pois o seu ponto fraco tinha sido descoberto. O Templo da Lua
estava cercado por Son Goku e pelos seus companheiros.
Era urgente
agir porque o fim do caminho estava próximo. A glória eterna aguardava-o.
Largou a
pedra de cristal em cima do altar do santuário, agarrou na bola de vidro que
continha o espírito de Babidi e rumou para o exterior. Estacionou num pátio
amplo, que era costume usar-se durante cerimónias importantes dedicadas à lua
durante os festivais sagrados.
A energia dos
guerreiros espalhava-se em ondas fantasmagóricas que o inquietavam. Mostrava-se,
pela primeira vez, inseguro e nervoso.
- Vais
ajudar-me, Babidi!
A sua voz já
não era monótona.
- Ajudar-te? –
Perguntou admirado o pequeno espectro azul, mãozinhas coladas no vidro da sua
prisão cristalina.
- Preciso que
me reveles o conjuro do altar mágico onde se usa o Medalhão de Mu. Sei que o
conjuro está no livro de magia, mas como já não o tenho... Disseste-me, uma
vez, que sabias o teu livro de cor e salteado.
O espectro
riu-se.
- E pensas
que só porque me estás a pedir… que irei revelar-te o conjuro?
Zephir
franziu o sobrolho. Babidi completou reticente:
- Se queres
que colabore, oferece-me algo em troca.
- Nani?!!! – Berrou Zephir vermelho de
raiva. – Atreves-te a desafiar-me?
E dirigiu os
dedos a faiscar de maldade para a bola de cristal. Contudo, Babidi não se
intimidou e prosseguiu no mesmo tom desafiador:
- Se acabares
comigo, ficas sem o conjuro. Deverás acalmar-te ou, agora que estás tão perto
do teu objetivo, perderás tudo o que ganhaste até aqui… Escuta-me: eu poderei
dar-te o conjuro, usas o medalhão e transformas-te num deus. Apenas tens de
pagar um preço. E olha, é apenas uma troca muito simples, nada de demasiado
complicado, acho que me podes conceder o que te irei pedir de seguida: liberta-me
desta prisão e terás o conjuro.
Zephir
experimentou um estremeção, à medida que a proposta era assimilada. O lábio
superior arrepanhou-se, bufou ruidosamente. Baixou a mão ameaçadora, aligeirou
a pressão que fazia sobre a bola. Respondeu a custo, a sorver as palavras:
- Aceito…
essa troca.
O espectro
azul exibiu um minúsculo sorriso.
A bola
transparente flutuou diante de Zephir. Estava irritado, detestava o sentimento
corrosivo de inferioridade, mas estava disposto a fazer aquela concessão menor
em prol da sua ambição. Outro revés, outro obstáculo a ultrapassar. Com um
gesto simples desfez o feitiço, a bola rachou-se e diluiu-se, criando uma nuvem
de fumo. Um segundo depois surgia o espectro azul de Babidi com o seu tamanho
normal.
- Ah! Estou
livre! – Desabafou Babidi a agitar os braços, como se o seu corpo etéreo
tivesse sentido a claustrofobia da pequena esfera onde estivera enclausurado.
- O conjuro
do altar, Babidi! – Exigiu Zephir.
O espectro
ondulou, sossegou, encarou o feiticeiro. Notou que este estava pronto para
atacá-lo, caso ele mudasse de ideias, e desprezou-o. Odiou-se também a si mesmo
por se ter permitido confiar naquele ingrato e por lhe ter revelado os seus
poderosos segredos compilados num excecional manual de feitiçaria que estava agora
perdido. Tinha-se enganado, mais uma vez, confiara num demente e num egoísta.
Esfumava-se a sua segunda e derradeira oportunidade de dominar o Universo com a
sua sabedoria.
Babidi
acercou-se da orelha de Zephir e começou a falar.
O pátio foi
fustigado por rajadas de vento, o céu velou-se com grossas nuvens negras que
emitiam clarões.
O conjuro
fora revelado. Babidi calou-se sisudo. E com aquela missão cumprida, iria
abandonar para sempre aquele lugar. Regressaria às montanhas, onde, num dia
muito distante, aterrara na Terra com a sua nave espacial. Voltaria a
assombrá-las sem descanso e procuraria por outro que fosse digno de usar a sua
magia. Haveria de procurar eternamente… Haveria também de procurar pelo livro.
Zephir
colocou-se em posição. Levantou os braços magros e repetiu em voz alta o
conjuro que Babidi lhe tinha transmitido. Palavra por palavra, sem qualquer
entoação, concentrado no poder de cada sílaba, extraindo-lhes o sumo venenoso,
fazendo-o passar pelos dentes e pela língua, com uma pronúncia sem falhas.
As lajes do
pátio fenderam-se. O chão começou a tremer fortemente. Zephir fincou os pés no
chão para se aguentar de pé, o espectro de Babidi flutuava ao lado dele. No fim
do sismo, irrompeu uma pedra escura retangular, alta e maciça. O topo era
ligeiramente inclinado e no centro deste havia um desenho escavado.
O altar
mágico do Medalhão de Mu estava criado.
Aproximou-se
do altar sorrindo. Acariciou a pedra, os dedos alcançaram o desenho do centro, onde
iria ser usado o medalhão. Ali estava a porta para a sua imortalidade, o seu
triunfo absoluto sobre a mediocridade, o planeta, a imensidão do cosmos. Soltou
uma gargalhada alarve, permitindo-se dar largas às emoções mesquinhas da
satisfação, do deslumbre e da alegria permanentemente reprimidas. Mas,
inesperadamente, os dedos detiveram-se, hesitaram.
No topo
inclinado do altar havia um losango, não um triângulo. Já tinha tido as duas
metades do medalhão e estas, unidas, formariam um objeto triangular. Fechou os
olhos tentando recordar-se o que lera no livro sobre o altar, havia um qualquer
detalhe importante sobre a maneira como iria o medalhão encaixar-se no espaço
vazio do altar e que esse espaço deveria ser um triângulo e não um losango.
Porque se fosse um losango…
O espectro de
Babidi arrancou-o do raciocínio, quando lhe disse:
- É aqui que
nos separamos. Até nunca, Zephir!
- Hei de
encontrar-te novamente, Babidi – ameaçou o feiticeiro com aspereza. – E quando
o fizer, vou desfazer-te. Acabarei contigo, espírito maldito, para que não
tenhas a tentação de me vir cobrar o que quer que seja depois de me ter
convertido no senhor do Universo.
-
Provavelmente, nunca mais nos iremos encontrar e, por isso, esta é a nossa
despedida. Tudo acaba aqui.
O espectro
acenou-lhe, subiu no ar, confundiu-se com a escuridão do céu e foi-se embora.
Zephir não
gostou da impertinência de Babidi. Ficou intrigado. Soara-lhe a desrespeito, a
troça, a ironia.
Porque se
fosse um losango…
Olhou para o
altar. Não se conseguia lembrar do que lera no livro de magia sobre o altar,
era como se essa memória tivesse sido apagada com precisão. Mas de algum modo
sabia que aquele era o altar e sabia
que tinha sido utilizado o conjuro certo.
Acalmou-se,
aplacou a ira que lhe enchia o coração endurecido. Primeiro, deveria proteger o
altar. Convocou uma criatura das trevas com a sua magia diabólica, um terrível
monstro gigante e disforme, munido de quatro braços e quatro pernas. Incumbiu o
sinadelfo de nunca abandonar o altar e preparou-se para regressar ao templo.
Não sabia como iria fazê-lo, porque naquele caso a pedra de cristal era inútil,
mas iria arranjar uma maneira de descobrir o paradeiro da rapariga da Dimensão
Real.
Contudo, não
chegou a entrar no templo. Ubo chegava e aproximava-se com o seu habitual passo
seguro. Estendeu-lhe as duas metades do Medalhão de Mu. Os olhos de Zephir
arregalaram-se com a inesperada surpresa, nem procurou disfarçar o deslize
flagrante na sua postura sempre controlada.
- Muito bem, Majin Bu.
Agarrou no
medalhão. Reparou que os raios do sol gravado no ouro do amuleto eram agora alaranjados,
efeito do altar. Junto à pedra escura, o sinadelfo soltava bafos irregulares e
olhava para todos os lados, movimentando a cabeçorra com gestos súbitos e
nervosos.
- E a
rapariga da Dimensão Real, Majin Bu?
- Não a
trouxe.
Os ombros de
Zephir sacudiram-se num espasmo.
- Nani? Não a trouxeste?!
- Não.
- Baka! – Explodiu. Agitou os dois
triângulos na cara do rapaz. – De que me serve o medalhão sem ela? Só ela é que
pode unir as duas metades e só ela é que o pode encaixar no altar.
O “M” na
testa de Ubo fumegava, mas o fenómeno passou despercebido a Zephir que
prosseguiu irritado:
- Some-te
daqui, incapaz! Vai à procura dela. Só poderás regressar com a rapariga. Caso
contrário, irei castigar-te para que aprendas a não ser estúpido!
Ubo acalmou.
O feitiço do Makai era poderoso e abafou a rebelião que fermentava dentro da
sua mente retorcida e ele acabou por obedecer ao mestre. Sem uma palavra,
levantou voo e abandonou o pátio. O sinadelfo seguiu-lhe a trajetória com os olhos,
mas não se movendo um milímetro do seu posto de vigia.
Zephir também
se acalmou. Respirou fundo.
- Estou
rodeado de imbecis! Quando receber a bênção do medalhão e me transformar num
deus, vou desfazer-me deles todos. Julep e Kumis já se foram… A seguir, serão
Keilo e Majin Bu. Vou divertir-me a
torturá-los.
Lançou uma
gargalhada e entrou ufano no Templo da Lua.
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