Eu e Maron fugíamos
pelas montanhas a pé, para não utilizar muita energia e passarmos, assim,
despercebidas durante a nossa fuga desesperada.
Julep já não
nos perseguia. Tinha sido apanhado por uma terrível explosão que destruíra
parte do templo e acabara soterrado nos escombros, o que nos dera o espaço
necessário para criarmos distância e, possivelmente, disfarçar de tal maneira a
nossa presença que fosse impossível dar novamente connosco.
Maron
mostrava-se paciente comigo por ser tão lenta, nunca me apressou. Vigiava a
nossa retaguarda repetidas vezes, assegurando-se que continuávamos longe de
eventuais perseguidores. Eu não estava habituada a atravessar desfiladeiros e a
saltar rochedos, mas tentava fazê-lo o melhor possível, considerando que estava
a usar um vestido comprido que me atrapalhava os movimentos.
A bainha
ficou presa num pedregulho. Puxei-o e abri um rasgão no tecido. Maron olhou-me
de esguelha, fez uma careta.
- Vê lá se o
podes estragar… Esse vestido soa-me a presente especial de Zephir.
Perguntei-lhe
aborrecida:
- Estás a
troçar de mim?
Olhou para
mim com os olhos semicerrados, com a mesma expressão indiferente e sobranceira
da mãe, número 18. Respondeu-me com a voz afetada:
- Não.
Torci a boca.
Continuava a pensar que troçava de mim.
- Não pretendo
estimar o que quer que seja que venha daquele feiticeiro. Não lhe pedi isto… É
tão pouco prático, especialmente para fugir.
- Porque é
que o vestiste, então?
- Tinha
escolha? Era prisioneira dele, estava cheia de medo… Não sei defender-me com os
punhos como tu.
Retomou a
caminhada, eu segui-a. Perguntou-me de repente, sem se voltar:
- E porque é
que estás sempre a mexer nisso?
Soltei o
medalhão, nem me tinha apercebido que estava a agarrar outra vez no triângulo
dourado. Encolhi os ombros.
- Não sei… Acalma-me,
acho eu.
- Esse objeto
mete-me mais medo do que qualquer guerreiro de Zephir.
Estranhei a
confissão.
- Porquê,
Maron?
- Primeiro,
porque não posso tocar nesse medalhão. Depois, porque ao andares com isso ao
pescoço tenho a certeza que teremos um demónio atrás de nós ou outro monstro
qualquer enviado por Zephir.
- O que
queres que eu faça? Não o posso deitar fora. Além disso, o feiticeiro haveria
sempre de me perseguir, com ou sem medalhão.
Parou. Parei
atrás dela. Olhou para o céu, crispando os punhos. Senti o habitual arrepio de
um mau pressentimento gelar-me por dentro. Empurrou-me repentinamente berrando,
parecendo mais assustada que eu:
- Foge!
Não consegui.
Uma luz ofuscante serpenteou vinda do alto, atravessou-se entre mim e Maron.
Desequilibrei-me, caí batendo com as costas num rochedo pontiagudo que me esfarrapou
o vestido. Escutei um baque seco, um grito, o ar tremeu.
- Maron? – Chamei.
Apareceu um
homem, com uma estatura mediana, sem aquela imponência melindrosa dos demónios
gémeos. Mas seria muito poderoso, porque os músculos estavam bem desenhados,
tinha um porte seguro, o aspeto de lutador convencido e invencível. E tinha
também aquele odor particular que eu aprendera a distinguir. Notei-lhe a
cabeleira negra desgrenhada, espetada em todas as direções, como uma assinatura
única que o identificaria ante os da sua raça. O saiya-jin de Zephir.
Maron
soerguia-se apoiada num cotovelo, levava uma mão à boca que sangrava.
O saiya-jin voltou-se para mim. Estava
carrancudo, contrariado, era mais medonho que qualquer demónio, notei o “M”
negro na testa, a marca do Makai. Tinha a impressão que era capaz de me
desfazer só por capricho, mas que não o fazia por causa das ordens de Zephir.
Contemplou demoradamente as duas metades do Medalhão de Mu. Procurava por
aquilo, não por mim. Mas acabara também por me encontrar e eu não acreditava
que o conseguiria convencer a deixar-me para trás se lhe entregasse o medalhão.
Mas iria tentar. Com a mão a tremer agarrei em ambas as correntes douradas.
Quando ia abrir
a boca para propor o negócio, o saiya-jin
sumiu-se do meu campo de visão. Arquejei com a surpresa. Maron surgiu de pé,
ofegante, a baixar a perna que utilizara para pontapear o inimigo, dizendo
zangada:
- Eu
disse-te… para fugires.
Levantei-me
com as pernas a tremer. Ao dar um passo, tropecei na bainha do vestido e caí de
joelhos. Rebolei, levantei-me e quando me obriguei, finalmente, a correr ouvi
Maron gritar. Não consegui avançar mais. Olhei por cima do ombro e vi que o saiya-jin tinha voltado e que a segurava
pelos braços, levantando-a no ar. Os pés dela agitavam-se a poucos centímetros
do solo.
-
Atacaste-me? Vais pagar pela ousadia, miúda estúpida!
Apertou-lhe
os braços com mais força, esmagando carne e osso. Maron gritou mais alto e o
meu coração subiu-me até à garganta. Comecei a rastejar às arrecuas, sem
contudo despegar os olhos daquela cena de tortura.
Maron berrava
a plenos pulmões, o eco reverberando pelas montanhas como uivos dolorosos.
Tentava soltar-se, tentava lutar, mas era demasiado fraca para aquele saiya-jin sem piedade que sorria
excitado perante o sofrimento que lhe estava a causar.
Eu deveria
fazer alguma coisa, pensei, atarantada com o fluxo de adrenalina que me fazia
ter medo até de respirar. Fechei os olhos. Qualquer coisa serviria, qualquer
coisa para acabar com os gritos.
Sem que fosse
um gesto expectável, as mãos do saiya-jin
abriram-se e soltaram Maron. Tinha perdido os sentidos. Não a deixou tocar no
chão, agarrou-a pela blusa, susteve-a no punho. Alçou o outro punho e socou-a
brutalmente na cara. Vi o sangue espirrar, pingar junto às sabrinas cinzentas
que eu calçava.
Então,
soltou-a. Maron caía. Em câmara lenta. Eu inspirei profundamente, a aresta de
um dos triângulos dourados a abrir um sulco profundo na palma da minha mão. O saiya-jin assestou-lhe outro soco, Maron
soltou um ronco. Embateu bruscamente nas rochas, ao meu lado esquerdo.
Desapareceu.
Então,
levantei-me. Corri para onde Maron tinha caído. Devia correr para sair dali,
fugir daquele saiya-jin que era bem
capaz de me dar uma sova para melhor me transportar de volta ao Templo da Lua,
mas não. Corri para me juntar a Maron, saber se estava muito ferida, protegê-la
sabia lá com que forças ou com que ideias, pois eu não sabia lutar e não estava
a conseguir raciocinar.
Mas um braço
puxou-me. Fiquei sem chão onde correr. Voava, transportada por alguém. Gemi, a
derramar lágrimas cobardes.
A viagem foi
curta.
Escutei o
ruído inconfundível de um soco. Consegui ver o saiya-jin a cair, derrubado por um qualquer golpe traiçoeiro.
Atiraram comigo, aterrei de gatas. Senti um par de mãos a segurarem em mim. Era
Maron, zonza, com um olho negro, os cabelos loiros desalinhados, sangue a
correr de um sobrolho aberto e da boca rebentada, que me ajudava.
Tentei
perceber o que é que se estava a passar.
A resposta
estava à minha frente. E o meu coração deu um salto quando os vi. Nunca me pareceram
tão especialmente belos como naquele momento que iria recordar até ao final dos
meus dias.
- Goten!
Trunks! - Exclamei.
- Maron,
consegues levar a Ana? – Perguntou Goten.
Ela agitou a
cabeça numa espécie de aceno.
- Hai…
- Depressa,
fujam daqui. Isto vai ficar demasiado perigoso.
Olhei para
Trunks, que estava de costas e vigiava os movimentos do saiya-jin que se sumira algures atrás de umas rochas que soltavam
baforadas de poeira. Quis abraçá-lo, mas o braço de Maron a segurar na minha cintura
com firmeza indicava que não havia tempo para esse tipo de reencontros.
Trunks
voltou-se para Goten.
- Lembras-te
do que te disse?
- Hai. Keilo é um saiya-jin que atinge o nível três dos super saiya-jin.
- E nós só
atingimos esse nível com aquela nossa técnica especial.
- Estou
preparado!
- Ainda te
lembras dos passos? Olha que não podemos falhar… Não temos margem para isso.
- Eu sei.
O saiya-jin levantou-se com um salto,
lançando as rochas que o cobriam pelo ar. Estava furioso, iria devolver a
humilhação de ter sido atacado à falsa fé com uma punição exemplar. Berrou:
- Vão pagar
esta afronta, seus fedelhos! Não vou ter qualquer misericórdia. Preparem-se
para morrer hoje!!
Trunks e
Goten afastaram-se ligeiramente um do outro, criando um pequeno espaço entre
eles. Adotaram cada um a respetiva posição, como se um fosse o espelho do outro
e começaram um bailado em simultâneo, três passos em bicos dos pés, os braços a
descrever uma curva por cima das cabeças.
- Fu…
Inclinaram-se
um para o outro. Tocaram-se com os dedos indicadores esticados. Os seus corpos
formavam um arco perfeito, sincronizado.
- …sion!!!
Um brilho
intenso inundou aquele desfiladeiro rochoso. Eu fechei os olhos para os
proteger daquela luz intensa e quente. Escutei o grito assombrado do saiya-jin.
Quando o
brilho se diluiu, entreabri uma das pálpebras para espreitar o que se passava.
Já não havia Trunks, nem Goten. Os dois tinham-se fundido num só. Eu conhecia
aquela técnica, Maron também. Mas o saiya-jin
não. E já não estava furioso, mas completa e totalmente pasmado ao
presenciar aquele fenómeno.
Gotenks
riu-se. Era uma mistura dos risos de Trunks e de Goten. A sua voz era
igualmente uma mistura das vozes dos dois rapazes quando se dirigiu ao saiya-jin com um indesmentível toque de
presunção:
- Surpreendido
com esta técnica, Keilo? Hum… Já vi que mesmo sendo o famoso super saiya-jin lendário, ainda te falta
aprender muitas coisas. Pois aprende comigo!
O saiya-jin recuperou a postura de
desafio. Recuperou ainda a fúria, o despeito, o orgulho e a maldade. Cerrou os
punhos, convocou toda a raiva que fervia no seu coração negro. Surgiu um
vendaval que começou a fustigar o desfiladeiro com pequenas pedras.
Gotenks pediu
a Maron:
- Leva-a
daqui. Rápido!
O segundo
aceno de Maron foi mais assertivo. Gotenks aproximou-se. E fez algo
inimaginável para um guerreiro empedernido que combatera adversários terríveis
e que atingia um nível superior de poder dos super saiya-jin.
Agarrou no
queixo de Maron e no meu queixo, ao mesmo tempo. Entreabriu um sorriso sedutor
e mágico. Olhou para Maron, olhou para mim.
- Hum… Os
meus dois amores.
Inclinou-se
devagar. Beijou Maron. Depois, beijou-me a mim. Sorriu para as duas, piscou-nos
o olho.
Afastou-se
para ir enfrentar o saiya-jin.
Ainda sentia
na boca a frescura dos lábios daquele personagem que não era mais que metade
Trunks e metade Goten, mas que possuía a personalidade mais estranha deste
mundo, quando gaguejei:
- Esse
Gotenks não regula lá muito bem, pois não?…
- N-não.
Gotenks chamou
o saiya-jin para o combate. Altivo e
soberbo como um herói, achei-o irresistível naquela pose de punhos apoiados na
cintura, pernas afastadas, a cabeça bem levantada, a cabeleira rebelde de cor
negra, com madeixas cinzentas.
Maron puxou
por mim, arrancou-me dos meus sonhos e fui atrás dela, que coxeava
ligeiramente, não que isso fosse empecilho pois o passo manco dela era
determinado.
Deixámos
Gotenks e o saiya-jin para trás.
Esqueci o maravilhoso Gotenks. Afinal, ele não existia. Aparecia só de vez em
quando para defrontar algum adversário excecionalmente forte. Quem existia era
Trunks e era o filho de Vegeta que dava metade da magia a Gotenks. Goten dava a
outra metade.
Uma explosão
fez tremer o céu e a terra. Agarrei-me a Maron com o susto. Ela não esboçou
qualquer palavra ou gesto para me tranquilizar. Também se assustara.
O combate
entre Gotenks e Keilo começava.
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