Goku arfava.
O confronto fora breve, Keilo arrastava-se pateticamente pela terra a procurar
levantar-se. O saiya-jin de Zephir
perdera o primeiro assalto.
Uma das
lições que aprendera com Keilo fora a de nunca menosprezá-lo. Com Keilo teria de
dar tudo por tudo nos primeiros golpes. Não podiam haver brincadeiras, nem
aquecimentos fictícios, nem cortesias de guerreiros de deixar o adversário
atacar primeiro. Quanto mais tempo demorasse o combate, maior seria a vantagem de
Keilo. Por isso, entrara a matar naquela luta.
- Vais-me
pagar a ousadia, Kakaroto! – Rugiu.
Goku apertou
os punhos. Levantou o queixo, olhou Keilo com desprezo. Os longos cabelos
loiros caindo em grandes cachos roçaram-lhe nas costas. O seu cérebro
funcionava de forma diferente quando estava transformado em super saiya-jin, nível três. Todo o seu
sangue saiya-jin fervilhava nas veias
e não havia nada mais que isso: sangue saiya-jin.
A luxúria dos combates!
Keilo levantou-se,
limpou o nariz ferido.
- Não queria
chegar a este ponto, mas já vi que me consegues superar no nível três dos super saiya-jin.
A energia de
Goku lançava centelhas brilhantes para a atmosfera. Keilo prosseguiu:
- Não quero
que penses que me consegues derrotar. Muito bem, concedo-te a primeira vitória…
Mas a guerra será vencida por mim. Porque eu, meu caro Kakaroto, ainda tenho
muitos recursos.
Goku
desconfiou. Novamente a bazófia dos saiya-jin,
ou a realidade pura e simples? Talvez a última hipótese, pois Keilo estava a
falar a sério. Não teria nada a perder, naquele momento. Zephir estava
desesperado e exigira-lhe uma vitória. Prosseguiu indiferente:
- Foste um
bom adversário, conseguiste sempre igualar o meu poder. Mas eu sou a lenda, o
maior mito do meu povo. Vegeta foi bem claro nessa afirmação. E achas que a
lenda se resume a isto? – Abriu os braços, exibindo o seu corpo esculpido no
terceiro nível dos super saiya-jin. –
Não, Kakaroto! Existe mais, muito mais… E vou mostrar-to. E depois… vais
morrer.
O instinto
ordenou-lhe que se colocasse em posição de defesa e Goku obedeceu ao seu
instinto.
O que se
seguiu deixou-o estarrecido.
Keilo cruzou
os braços sobre a cara, enrolou-se numa bola. O chão debaixo dele tremia sem
parar. Os seus grossos cabelos loiros começaram a encolher, a perder volume, a
escurecer, a tomar uma forma desgrenhada. A energia do saiya-jin subia, subia, subia e parecia não ter limite. Nas suas costas
uma forma peluda e comprida ondulava: uma cauda! Endireitou o corpo, esticou os
braços para o alto, gritou com todas as suas forças. A energia desprendeu-se
numa onda avassaladora que gerou um furacão.
Goku olhou
para Keilo e ficou boquiaberto.
Keilo atingia
outro nível de poder! Keilo atingia o nível quatro dos super saiya-jin!
Estava
perdido, teve medo. Keilo tinha razão, ele ia morrer. Não seria capaz de anular
aquele poder gigantesco, era mais do que conseguiria fazer. Teria de se
resignar.
Apertou os
maxilares, não queria desistir. Não podia… Por todos aqueles que amava, pelo
planeta, pelo Universo. Só uma vez tinha desistido, mas nessa altura fizera-o
porque tinha a solução para o problema – sabia que não estava à altura de Cell,
mas Gohan estava e fora o filho mais velho que derrotara o monstro e acabara
por salvá-los a todos.
Mas ali… era
o mais absoluto desespero.
A capa
dourada que o envolvia cintilou, Goku gritou a plenos pulmões.
Iria morrer,
mas fá-lo-ia apenas depois de esgotar todas as possibilidades.
Também não
era a primeira vez que enfrentava um inimigo superior.
Uma explosão
luminosa brotou do Templo da Lua. O terramoto que se seguiu foi avassalador,
violento, fraturante. Desequilibrou-se, caiu, apoiou um joelho no solo onde se
rasgavam enormes fendas. A luz era tão brilhante que deixou-o momentaneamente
cego e perdeu o contacto visual com Keilo. Passou a senti-lo, seguindo-lhe os
movimentos, percebendo o ki
gigantesco. Também ele estava surpreendido com o que estava a acontecer e
ficara providencialmente quieto.
Uma pausa que
permitiu a Goku pensar na estratégia que iria adotar naquele combate.
Nisto, o ki de Keilo sofreu uma alteração brusca.
Goku ouviu primeiro um grito, depois alguém a ofegar aflito, mais gritos e
silêncio. A luz que o templo vomitara tão impetuosamente e que banhara tudo em
redor num maremoto ofuscante, diluía-se gradualmente. Concentrou-se, estendeu
os sentidos para lugares mais afastados, mas era como se Keilo… tivesse ido
embora.
- Nani?
Estranhou. A
energia do saiya-jin tinha
desaparecido completamente, levado pela luz. De um momento para o outro,
evaporara-se para lado nenhum. Nem com a Shunkan
Idou ele conseguia fazer uma coisa daquelas.
Contudo, não
estava sozinho. Havia uma energia, mais fraca, ali com ele. Ergueu-se, abriu os
olhos e descobriu um homem ruivo com uma expressão desnorteada no rosto suado.
Vestia as mesma roupas de Keilo, mas era mais alto, pelo que as mangas tinham
ficado curtas e as calças estavam acima dos tornozelos. Parecia uma caricatura
de Keilo e Goku entreabriu um sorriso. O homem balbuciou:
- Son… Goku?
Já não tinha
necessidade de manter aquele nível de poder ante o homem que tinha um ki maior que a maioria das pessoas da
Terra, mas, mesmo assim, bastante inferior para ser um adversário temível e
Goku abandonou o nível três dos super
saiya-jin. Até porque também lhe sugava as energias com voracidade, não
conseguia manter aquele estado por mais de meia hora sem ficar com as forças
totalmente drenadas. Ao presenciar o fenómeno, o homem deu um salto para trás e
gritou assombrado. Goku perguntou inocente:
- Onde é que
está Keilo?
O homem
insistiu:
- Son Goku…?
Seria melhor
responder-lhe.
- Hai, sou eu. Conheces-me?
O homem arrojou-se
aos pés dele e foi a vez de Goku saltar para trás. O outro disse a embrulhar as
palavras:
- Ah! É uma
honra conhecer o mais poderoso dos guerreiros da Terra. Nunca pensei que
nasceria o dia em que finalmente te encontraria. Ai, eu não sou digno de estar
no mesmo sítio que vós, meu herói.
Goku gaguejou,
atrapalhado com a deferência:
- M-mas… O
que é que estás a fazer? Levanta-te…
- Não posso! Não
sou digno de o fazer. Tu és uma lenda! O exemplo que eu persigo, o que me
motiva a ultrapassar os meus limites, o que me torna um melhor lutador.
Admiro-te.
Goku corou,
coçou a cabeça. Bem, Keilo é que se intitulava uma lenda e realmente era-o,
concordava, nunca tinha conhecido um saiya-jin
tão poderoso.
- Está bem… Mas,
olha, queria só saber quem tu és. E se sabes onde se enfiou Keilo.
O homem
respondeu, permanecendo com a testa colada no chão:
- Chamo-me
Kang Lo. Vivia nas montanhas até conhecer o maldito feiticeiro que me desgraçou.
- Conheceste
Zephir?
- Hai. Enfeitiçou-me com a terrível magia
do Makai e desde esse dia tenho vivido um pesadelo. Via os meus atos hediondos,
mas não conseguia evitar o que fazia. Foi horrível, Son Goku. Horrível! Peço
que me perdoes.
- Não sei do
que tenho que te perdoar, Kang Lo.
O homem encarou-o,
começou a chorar, confessou agitado:
- Fui eu que
ajudei Zephir a conquistar o Templo da Lua. Fui eu que assassinei todos os
monges e todos os sacerdotes. Depois de conquistar o templo, Zephir ganhou mais
poder e colocou a Terra e todo o Universo em perigo… Graças a mim e à minha
habilidade. Depois, usou o meu corpo para fazer aparecer o super saiya-jin lendário.
- Ah… Então tu eras Keilo…?
- Hai! Mas agora libertaram-me da prisão.
O espírito amaldiçoado do saiya-jin
desapareceu e eu consegui recuperar o meu corpo, pois apesar de o feiticeiro
ter tentado assassinar o meu espírito, consegui resistir e aninhei-me num
canto, à espera da oportunidade de recuperar o que sempre me pertenceu. Oh,
grande Son Goku… Perdoa-me!
Ao fundo,
depois do lago de águas calmas e límpidas, os edifícios destruídos do Templo da
Lua estavam sossegados, imersos na luz cinzenta do início da noite. As
primeiras estrelas surgiam no firmamento. Goku semicerrou os olhos, analisando
o espaço minuciosamente. Já não havia criaturas das trevas, nem kucris, nem os demónios
Julep e Kumis, também já não havia Keilo. E Ubo voltava a ser Ubo.
A vitória era
deles. Zephir fora derrotado.
O homem
lamentava-se, o rosto molhado de lágrimas:
- Oh,
perdoa-me! Perdoa-me, Son Goku…
Goku ordenou
com firmeza:
- Levanta-te,
Kang Lo.
O homem obedeceu.
Porque era necessário, para sossegar o pobre lutador alucinado, disse-lhe:
- Eu
perdoo-te.
O rosto do
homem iluminou-se de felicidade.
- E não
sintas remorsos por teres assassinado os monges e os sacerdotes do Templo da
Lua. Todos foram ressuscitados pelo poder de Shenron e das bolas de dragão.
- Shenron?
Bolas de dragão?
- Pelo poder
do kami-sama – corrigiu, para que o
homem entendesse.
- Honto?!
- Hai. Não te ia mentir, pois não? –
Piscou-lhe o olho e o homem pestanejou confuso. – Podes partir em paz, Kang Lo.
Estás livre da magia de Zephir.
O homem acenou
com a cabeça.
- Irei, por
agora. Mas voltarei. Quando o Templo da Lua estiver reconstruído, virei até
aqui para me tornar monge. Quero servir a Deusa Suprema da Noite.
Goku cruzou os
braços, perguntou admirado:
- Mas não me
disseste que eras um lutador?
- Hai. Treinava-me todos os dias para ser
o maior lutador do mundo. Para te conhecer… Já te conheci. Cheguei a lutar
contigo. Mesmo que te tivesses enfrentado a Keilo, eu também lá estava,
aninhado no tal canto. – Abriu um sorriso rasgado e sincero. – É fantástico
lutar contigo! O teu poder é imenso. Jamais o esquecerei… Por isso, o meu
caminho como lutador terminou. Preciso de dar paz ao meu espírito…
Olhou na
direção do templo.
- Sei que
Zephir era um homem cheio de maldade, mas os monges e os sacerdotes ensinados
nos mistérios da lua não o eram. Gostaria de conhecer um pouco mais do culto,
saber de coisas de magia… Son Goku, depois desta experiência, preciso realmente
de dar paz ao meu espírito.
Despediu-se
com uma vénia. Goku devolveu-lhe o cumprimento e também se dobrou diante de
Kang Lo.
- Até sempre.
- Até sempre,
Son Goku – gaguejou o lutador com os olhos marejados de lágrimas, sensibilizado
com o gesto daquele que admirava tanto.
A seguir, deu
meia volta, meteu-se pela floresta e foi-se embora.
Goku voou
para o Templo da Lua para se encontrar com os seus amigos. Procurou por eles no
meio dos escombros e da destruição, alcançando-os com o seu ki.
Sentiu que estavam todos bem. Até a Ana.
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