A sua mente
fervilhava num remoinho de coisas amontoadas, lembranças fugidias dos erros que
cometera, o azedo da derrota e da vergonha, um orgulho espezinhado e as dores
de um corpo que se recusava a reagir de tão amassado.
Queria
simplesmente dormir e esquecer que existia.
Uns passos
terminaram próximo dos seus ouvidos. Uma mão apalpou-lhe a testa, sentiu-lhe a
febre, junto à linha do cabelo. Esboçou um sorriso, porque gostou da carícia.
Algo diferente do sofrimento que sentia em cada milímetro de pele. Ou talvez
não fosse real, apenas o delírio de um sonho mergulhado em sangue.
Estava
confuso. Estava ferido. Mas não tinha sido ele que lutara, fizera parte, como metade,
de algo extraordinário. Misturara-se com outra alma e com outro corpo e
interligara-se com outro ser que lhe era complementar e indispensável. A
energia acumulada por essa união mágica zunia no interior, aumentando-lhe as
dores.
A mesma mão
que lhe apalpara a testa levou-lhe qualquer coisa aos lábios. Forçou-o a
mastigar. A bolinha não tinha sabor e desfez-se em lascas farinhentas quando os
dentes a trincaram. As lascas desfizeram-se na saliva, escorregaram pela
garganta, acomodaram-se no estômago faminto e todas as dores desapareceram.
Trunks
soergueu-se espantado. Viu o pai ajoelhado junto a ele com a expressão
carrancuda que lhe era típica. Atrás do pai viu Goten que se punha de pé com um
salto, a verificar se estava tudo no sítio, dobrando os cotovelos e girando a
cabeça.
A resposta
estava na mão esquerda de Vegeta. Uma sacola castanha que ele prendeu no cós
elástico das calças, ao mesmo tempo que se levantava. Trunks também se levantou.
- Onde é que
arranjaste os feijões senzu, otousan? – Perguntou.
- Isso agora
não interessa – respondeu ríspido.
Trunks
juntou-se a Goten.
- Estás bem,
companheiro?
- Hai. E tu também estás melhor.
- Claro, os
feijões senzu nunca desiludiram ninguém.
– Recordou-se e o rosto ensombrou-se. – O nosso combate foi duro.
Goten baixou
a cabeça, apertou os punhos.
- Keilo é
muito poderoso, Trunks-kun. E não é só por ser um super saiya-jin de nível três. É também por causa daquele maldito
“M” que tem na testa. A magia ajuda-o a ser mais poderoso.
- Hum-hum… Também
tive essa impressão. Se não fosse a magia, conseguíamos derrotá-lo.
- Talvez… Mas
também fizemos algumas asneiras.
Vegeta
interrompeu-os:
- Rapazes,
chega de conversa. Isto ainda não acabou, temos de regressar àquele maldito
templo.
Calaram-se,
acenaram que sim e acompanharam o príncipe num voo rasante e apressado sobre as
montanhas e depois sobre a floresta, chamuscada dos confrontos recentes. Não
foram muito longe, contudo. Quando o complexo de edifícios meio arruinados,
lúgubres e assombrados, surgia junto ao lago, depois da floresta, Ubo intersetava-lhes
o caminho.
Vegeta
transformou-se em super saiya-jin.
Isso significava que Ubo lhe pertencia. Trunks sabia como o pai era cioso dos
seus desafios e deu um toque no amigo.
- Goten,
temos de continuar.
- E o teu
pai?
- Ele fica
para se enfrentar a Ubo.
- Sozinho?
Lembra-te que Ubo é a reencarnação de Majin
Bu.
- O meu pai
dá bem conta do recado. Ele enfrentou-se a Majin
Bu no passado… Sozinho!
- Mas não o
derrotou.
- Vamos
embora.
A explosão
que aclarou o céu, nas costas dos dois rapazes, foi o sinal de que o combate
entre Vegeta e Ubo se iniciara. Não olharam para trás e seguiram resolutos para
o Templo da Lua.
Assim que
aterraram num dos pátios, tiveram de recuar para se desviar de dois bichos
enormes, corcundas, com cornos e garras, que os atacaram.
- Kuso! O que raios é isto? – Gritou Trunks.
Os dois
bichos voltaram à carga. Eram obstinados, temíveis, mas fracos. Com golpes
simultâneos Goten e Trunks afastaram-nos, acabando com eles com duas esferas de
energia. Num guincho estridente, os bichos fizeram-se em pó.
- Seriam
kucris? – Perguntou Goten.
- Não me
pareceram kucris. Acho que eram… demónios.
- Nani?
- Passa-se
alguma coisa aqui dentro. Sinto… que já não estamos na Terra mas na antecâmara
do Outro Mundo ou coisa parecida. O templo está diferente.
- Estás a
assustar-me, Trunks-kun. Mas é verdade… Também sinto o mesmo.
- Muito
cuidadinho, então. Nada de te voltares contra mim, Goten – e sorriu para
aliviar a tensão.
- O mesmo te
digo eu. Vê lá como te portas.
Goten estava
a suar, Trunks limpou também a testa molhada.
- Muito bem!
Lembra-te que somos saiya-jin e que
não devemos ter medo. Eh, Goten… Sem medo.
- Hai.
- Vamos
procurar pelo feiticeiro. Se o eliminarmos, acaba-se tudo. Os demónios, os
kucris, Keilo, o feitiço de Ubo. Julep – hesitou, gaguejou, mas completou: – e…
e Kumis.
- Acho que
com esses já não nos devemos preocupar – disse Goten, franzindo os sobrolhos. –
Já não sinto o ki dos gémeos.
Trunks
esfregou as mãos, fingindo a descontração que não sentia.
- Ótimo!
Menos um problema.
Fechou a mão
direita, Goten fez o mesmo. Bateram punho com punho e avançaram pelo pátio.
Um grupo de
diabos vermelhos, ligeiramente maiores que os kucris, deu-lhes as boas vindas,
acompanhados de pequenos fantasmas irritantes que flutuavam ululando, velozes e
indefinidos.
O diabo que comandava
o grupo atacou. Trunks lutou com ele. Goten viu-o acabar com o diabo
facilmente, sem empregar muita força e energia. Dois socos bem dirigidos e o
diabo desfez-se numa fumarada também vermelha. Ao presenciarem a derrota do
chefe, os outros diabos cerraram os dentes e atiraram-se assanhados para cima de Trunks e
de Goten. Os dois rapazes desembaraçaram-se deles sem grandes complicações.
Goten sacudiu
os ombros. Missão cumprida. Sentiu um arrepio repentino e levou uma mão ao
peito. Algo gelado tinha-o atravessado e parecia que se tinha alojado junto ao
coração. Nisto, quando tentava ainda perceber o que é que se estava a passar, recebeu
um puxão na túnica do dogi.
- Nani?
Trunks
berrou:
- Não fiques
assim parado, baka! Defende-te.
Goten passou
os olhos pelo pátio. Tinha anoitecido, estava escuro e ele só via sombras.
Piscou os olhos. Estava sonolento e tinha frio. Esfregou o peito.
- Mexe-te, baka! – Insistiu Trunks.
- Mas…
porquê? – Perguntou.
- Mas tu não
estás a vê-los?!
Trunks
saltou. Ele parecia louco, a correr de um lado para o outro, a desviar-se de
objetos invisíveis, a lutar sozinho. Estranhou-o, riu-se dele. Mas por que é
que ele não ficava quieto, se estava tão escuro e já era tão tarde, que
deveriam estar os dois a dormir? As mães deles não gostavam que eles ficassem a
pé até tarde, especialmente quando combinavam passar a noite na casa um do
outro.
Goten estremeceu
com um bocejo. Os joelhos cederam e sentou-se no chão, sentindo-se cada vez
mais sonolento. Coçou a cabeça, sentiu os cabelos espetados, daquela forma
característica que o fazia igualzinho ao pai dele. Olhou para baixo e, numa
poça de água junto aos pés, descobriu o reflexo de um rapazinho traquina de
nove anos, com uma cara cómica de sono. Sorriu e o reflexo também sorriu. Era
ele.
- Trunks-kun,
vem deitar-te…
No pátio
silencioso estava tudo quieto. Apenas Trunks, branco e brilhante, se movia
nele, no mesmo frenesim incompreensível, atrás de fantasmas.
Goten
espreguiçou-se e deitou-se. Lembrou-se que havia diabos vermelhos e fantasmas
esquivos. A mão quente assentava-lhe no peito gelado, no coração que batia cada
vez mais lentamente.
Outro puxão
na túnica. Alguém o levantava do chão. Ouviu uma voz que parecia chamar por
ele, mas ele só tinha nove anos e queria tanto dormir. A boca rebentou numa dor
dilacerante e encheu-se do sabor férreo e quente do sangue.
Gritou,
sacudiu-se das mãos que o seguravam. Rastejou amedrontado, afastando-se daquilo
que o atacava. O cérebro estava ser sugado por um remoinho, agarrou na cabeça.
O cabelo espetado tinha mudado, transformara-se numa cabeleira rebelde e negra,
que as raparigas do liceu tanto gostavam de pentear, fingindo-se
desinteressadas, rindo-se umas para as outras às escondidas, competindo entre
elas para serem as próximas no pequeno deleite que era penteá-lo.
- Goten?!
Goten, desperta!
Sentiu-se
tonto, cuspiu saliva ensanguentada. Olhou para as lajes do pátio. Estava no
Templo da Lua e sentia-se mal.
O silêncio
encheu-se de um ruído ensurdecedor e o coração, com um baque de revolta,
recomeçou a bater. Já não se sentia gelado e sonolento.
- Estás
melhor? Responde-me, baka, ou apanhas
com outro murro.
Levantou um
braço, como uma barreira.
- Hai! – Respondeu determinado. E
reforçou, acenando com a cabeça: – Hai…
Estou melhor.
- Estavas
enfeitiçado. Um daqueles fantasmas entrou dentro de ti.
Pousou um
joelho no chão, ergueu-se. Respirou fundo, encarou Trunks.
- Um fantasma?
- Temos de
ter cuidado. Há magia por todo o lado. No céu, no chão, no ar que respiramos.
Zephir não está para brincadeiras e está a proteger-se com tudo o que tem. Está
desesperado, percebe que não está a ganhar esta batalha. – Trunks ergueu um punho,
acompanhou o gesto com um sorriso enviesado que fez recordar o pai. – É a nossa
oportunidade. Não o vamos deixar escapar, não desta vez.
Goten
concordou.
- Não o vamos
deixar escapar!
Atrás de
Trunks saltou um monstro escamoso. Goten empurrou o amigo para desviá-lo,
enviou um raio amarelo faiscante, desfazendo o monstro em bolhas esverdeadas.
As bolhas começaram a reunir-se para espanto de Goten, adquirindo uma forma
humanoide.
- O monstro é
imortal – explicou Trunks. – Já tinha antes acabado com ele. Vamos aproveitar
para sair deste pátio. Preparado?
Goten disse
que sim. Uniu as mãos diante do corpo e disparou outro raio, mais potente que o
anterior, que varreu um magote de demónios que investia na direção deles,
soltando uivos tenebrosos. Os dois rapazes correram para o pórtico de colunas
grossas que rodeava o pátio, mas no meio do caminho foram apanhados por uma
explosão traiçoeira. Protegeram-se, cruzando os braços sobre o rosto. As lajes
do pavimento racharam-se, o chão abriu-se e resvalaram pelo buraco aberto, indo
parar aos subterrâneos do templo.
Trunks
levantou-se, sacudindo a cabeça para limpar a poeira. Goten tossiu
ligeiramente.
- Excelente!
Estamos nos labirintos deste lugar amaldiçoado cheio de demónios, governado por
um feiticeiro desesperado.
- Pelo menos,
estamos dentro do templo.
O filho de
Vegeta olhou para todos os lados, mãos na cintura. Concordou enfastiado:
- Bem, tens
razão.
Os senhores
dos subterrâneos eram os kucris e não tardaram em aparecer. Trunks puxou por
Goten e fugiram para escapar das hordas de bichos negros que os perseguiam.
Apareceram outros demónios e mais diabos, fantasmas e monstros que urravam e
que se babavam, que não conseguiam morrer mesmo que dissolvidos em pequenos
átomos, que os obrigaram a fugir mais ainda. Os dois arraçados de saiya-jin voltavam-se, de vez em quando,
a meio do percurso, disparavam ataques de energia, desfaziam alguns deles,
atrasavam os outros, mas não se detinham para combatê-los – o esforço seria
infrutífero e a sua missão era outra.
Entraram numa
saleta húmida. A escuridão movia-se com um bafo quente, como coisa viva e
palpável. Goten arrepiou-se. Trunks juntou-se a ele depois de ter eliminado um
punhado de demónios com um raio massivo que explodiu mais adiante, convertendo
a passagem num amontoado de ruínas.
- O que é que
se passa?
- Está aqui
qualquer coisa. Sinto… o ki de
alguém… conhecido – respondeu Goten concentrando-se nas sensações certas,
descartando o excesso artificial que estava ali para confundi-lo.
Volveu os
olhos para cima e gritou ao reconhecê-la.
- Maron!
Trunks também
olhou para cima.
- Nani?
Numa teia
formada por grossos fios prateados, num emaranhado tão apertado que ocultava o
que aprisionava, estavam dois novelos volumosos em forma de corpos. Um deles
emitia energia, o outro não.
- E quem é o
outro que está com a Maron? – Indagou Trunks.
- Vou
buscá-la – decidiu-se Goten.
- Eu trago o
outro.
Goten
perguntou com um arrepio:
- Mas esse
não tem ki. Estará…?
- Não, não
está morto. É estranho, não tem ki
mas está tão vivo quanto a Maron. Quem será? É a mesma vibração que número 18
emite… Sem ki, mas viva.
- Maron e
número 18? – Estranhou Goten.
Antes de
pular, a escuridão da saleta moveu-se. Engrossou, formou uma massa compacta e transformou-se
numa terrível e gigantesca serpente. Trunks puxou por Goten, dizendo entre
dentes:
- Kuso, que raios é isto agora?
A serpente,
de perigosos olhos vermelhos, lançou-se aos dois rapazes com uma agilidade surpreendente
para um animal daquela dimensão, cuspindo a língua bifurcada, largando uma baba
viscosa por onde passava. Eles esquivaram-se da serpente, saltando, buscando
refúgio em cada canto da saleta que se tinha tornado demasiado pequena para a
teia, os dois casulos, Trunks, Goten e a serpente. O primeiro disse:
- Eu trato da
cobra. Vai buscá-los!
- Hai. Combinado.
Trunks atacou
a serpente com uma saraivada de esferas luminosas. As pequenas explosões de
energia irritaram o monstro, que se retorceu, contorceu e escancarou a boca,
exibindo duas impressionantes presas curvas no maxilar superior de onde
pingavam gotas de veneno. Trunks sentiu a pele arrepanhar-se. Olhou para o
amigo. Goten tinha um casulo em cima do ombro e arrancava o segundo.
Com um grito,
Trunks transformou-se em super saiya-jin.
Uniu as mãos e lançou um disparo energético que abafou a serpente, sepultando-a
numa nuvem de fumo. Dirigiu um segundo disparo para o teto da saleta, abrindo
um buraco por onde Goten passou com os dois prisioneiros e depois foi ele.
Continuavam
dentro do templo e, dado o seu objetivo, era excelente. Correram. Refugiaram-se
num recanto que lhes concedeu uns instantes de pausa. Goten pousou o casulo de
Maron com cuidado e depois pousou o segundo casulo. Descobriram uma cara
masculina a espreitar por uma abertura arredondada. Goten sentiu ciúmes. Quem
era aquele que estava com a sua Maron?
- Oh…
- Conheces? –
Perguntou Goten ansioso ao escutar a interjeição de Trunks.
- Acho que é
número 17.
- Quem é
esse?
- O irmão de
número 18. Trata-se também de um humano artificial, é por isso que não emite ki.
- Ah… bom. –
Os ciúmes de Goten desapareceram. Rasgou o casulo, libertou a rapariga. Trunks
rasgou o casulo do humano artificial. Ainda tentaram despertá-los, mas não
conseguiram, pois tanto Maron como número 17 pareciam estar sob o efeito de um
poderoso sedativo. Concordaram em deixá-los ali, aparentemente ficariam
resguardados naquele recanto, apesar de Goten se torcer inquieto por
abandoná-la. Número 17 gemeu, as pálpebras contraíram-se ligeiramente. Trunks
apontou:
- A Maron
fica bem. Ele está quase a despertar e vai cuidar dela. Aparentemente, fê-lo
até agora, ou não estariam os dois aqui.
Mas Goten
preferia ser ele a protegê-la, em vez de confiar naquele desconhecido, mesmo
que fosse o tio da rapariga. Aceitou o facto contrariado. Depois, lembrou-se.
- Eh, espera
lá. A Ana não estava com a Maron?
Trunks mostrava-se
tenso.
- Estava.
Deve ter acontecido alguma coisa… Mas não sinto que ela esteja em perigo.
O edifício
tremeu com uma explosão. O extremo do corredor transformou-se em escombros.
Trunks e Goten colocaram-se de sobreaviso. Abandonaram o recanto. Um bando de
kucris apareceu aos guinchos, fugiam amedrontados de alguma coisa que os
perseguia. Uma vaga flamejante encheu o corredor e assou os bichos que se
dissolveram em rolos de fumo negro. Ele irrompeu pelo rombo aberto na parede,
postando-se com imponência junto às ruínas que provocara.
Trunks e
Goten exclamaram:
-
Piccolo-san!
O namekusei-jin e os dois rapazes
prosseguiram juntos por aquelas passagens assombradas à procura de Zephir.
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