Encostada ao parapeito, contemplava
a noite de um mundo que iria abandonar em breve através da janela fechada do
quarto e mergulhava num mar de silêncio que me isolava do exterior.
Tinha tomado um duche e trocado
de roupa, porque me parecia que o cheiro dos dois saiya-jin tinha ficado entranhado no tecido e que qualquer nariz
com um olfato mais apurado o haveria de sentir e saber o que andara eu a fazer
naquela tarde, apesar de não ter acontecido nada de concreto, apenas um beijo
meio inocente e um assédio meio consumado.
A porta do quarto abriu-se.
Não me voltei. Sabia que era ele. Não o via desde a manhã e ali chegava o nariz
com um olfato mais apurado. Ainda bem que tinha tomado aquele duche e vestido
outra roupa, pensei.
A voz dele vibrou atrás de
mim, perigosa como um veneno doce:
- Não foste jantar.
Chegava a altura de
abandonar o silêncio. Respirei fundo e respondi, ainda voltada para a janela:
- Não estava com fome.
- Trouxe-te alguma coisa
para comeres.
Olhei-o por cima do ombro.
Carregava sobre a mão um tabuleiro com algumas caixas com comida, um pacote de
sumo e uma garrafa de água, numa posição profissional de empregado de mesa. O
quarto estava quase às escuras, alumiado apenas por um pequeno candeeiro de uma
mesa de apoio que se encostava à parede e foi aí que ele deixou o tabuleiro.
- Devias mesmo comer
qualquer coisa, sabes?
Não acendeu outra luz,
éramos duas sombras que se interpelavam uma à outra, e agradeci-lhe por isso.
Não me apetecia escapar da escuridão, mesmo com o fim do silêncio.
- Continuo sem fome -
respondi.
Ele cruzou os braços, eu
regressei à contemplação do mundo através da janela.
Eu disse:
- Estás aborrecido comigo.
- Tenho razão para estar.
Não achas que devíamos ter tomado essa decisão juntos?
Concordei, meneando a cabeça
devagar:
- Talvez… Mas talvez não
quisesse que interferisses, pois iria hesitar e depois…
- E depois? Ainda falta
tanto tempo para se fechar um ano completo.
- Acho que seria mais…
- Doloroso? Não estás
sozinha nisto, Ana.
- Nem me deixes explicar as
minhas razões.
- Não as compreendo.
- Não as queres compreender.
- Ah, para… Não quero
discutir contigo esta noite.
Uma ordem irrefutável, a
autoridade do pai e a veemência da mãe. Calei-me. Realmente, eu também não
queria discutir com ele.
Escutei-lhe os passos sobre
o soalho. As minhas unhas cravaram-se no parapeito, enquanto a minha respiração
se alterava e a minha pele começava a reagir centímetro a centímetro,
antecipando o que se preparava.
- Quero que tu comas alguma
coisa, Ana… A sério. Não te quero com fome, não precisas massacrar o teu corpo,
quando também massacras o teu espírito.
Crispei ligeiramente a
testa, estranhando aquela afirmação. Mas acontecia ser verdade que eu não tinha
fome, tinha outras apoquentações que me roubaram o apetite. Não era uma questão
de massacre intencional.
Abraçou-me por trás,
passando os braços pela minha cintura, apertando-me contra ele. Encaixou o
corpo dele no meu e começou a beijar-me o pescoço e a nuca. Perguntou-me num
murmúrio ofegante:
- O que é que estás a fazer
aí?
Respondi, sentindo-me encher
com aquele desejo louco que sentia por ele:
- Estou a ver as estrelas.
- Daqui? A cidade tem
demasiada luz, não se consegue ver as estrelas…
- Mas eu sei… que estão lá…
todas – expliquei com a voz entrecortada.
- O que é que estás a dizer
a essas estrelas invisíveis?
- Adeus.
Agarrou-me no cabelo,
puxou-o, obrigando-me a dobrar o pescoço, olhar para cima e para ele. Mordeu-me
a orelha.
- Esquece as estrelas.
Virou-me com brusquidão,
rodopiei como um pião sobre a ponta dos pés. Aprisionou-me contra o parapeito,
entre os braços que apoiou na janela. Vi-me sentada, encostada ao vidro, com
ele no meio das minhas pernas. Continuou a beijar-me o pescoço. Enterrei as
minhas mãos na cabeleira dele, repuxando-lhe as madeixas lilases, ofegando com
ele.
- Ah… Tu consegues tudo o
que queres… – disse eu oferecendo-lhe o pescoço para que ele o trincasse, como
se me estivesse a oferecer a um sacrifício ritual. – Já me tinha esquecido…
- Sempre, Ana. Sempre!
Arrancou-me da janela,
depositou-me em cima da cómoda próxima derrubando os frascos e os adereços que
estavam no tampo, enchendo o soalho de cacos e de vidro. O ruído da catástrofe
excitou-me. Gemi, enrolando as pernas na cintura dele, puxando-o mais para mim.
Devia ser o tal cheiro.
Enlouquecia-o, enlouquecia-me a mim também.
Despiu-me a blusa,
beijando-me cada vez mais aflito, afirmando que me desejava perdidamente.
- Trunks… Oh, não pares.
Dá-me as estrelas, Trunks. Dá-me as estrelas do teu mundo.
- Dou-te tudo o que tenho,
tudo o que sou…
- Não pares!
Amou-me primeiro na cómoda.
Depois, no chão e, por fim, na cama. Imparável e esfomeado, desesperado, mas
também triste, tentando reter o momento, entesourá-lo e cristalizá-lo, com a
mesma angústia que eu sentia, que o segurava com medo que ele se desfizesse em
moléculas de ar, ele apertando-me com receio que eu me esfumasse em nada.
Éramos dois seres de mundos
distantes que se tinham entregado a uma paixão proibida que ameaçara o Universo
com o caos e a ulterior destruição. Dois seres que procuravam ansiosamente
completar-se, porque se sabiam dissonantes, fabricados por criadores
diferentes, que não se deviam nunca ter tocado. Um sonho louco, afinal o meu sonho louco.
Mas, tal como qualquer
sonho, não passávamos de uma doce ilusão, uma deliciosa fantasia intangível.
Suávamos os dois, cansados,
repletos, após termos atingido o clímax e termo-nos derretido um para o outro.
Trunks olhou para mim.
Aquele olhar azul durou uma
eternidade.
E, depois, obrigou-me a
comer porque queria continuar.
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