Bateram do
lado de fora do vidro da janela e ele, com os braços postos debaixo da cabeça,
estirado sobre a cama, estranhou.
Ainda não
tinha adormecido, porque não parava de pensar nela. Repisava os momentos em que
ela estivera nos braços dele no Templo da Lua, quando ela tinha acordado na
Capsule Corporation e se tinha ido embora com número 17 sem sequer se terem
despedido, no dia seguinte em que a iria encontrar na festa que Bulma-san
preparava para comemorar o regresso da paz.
Saltou da
cama, intrigado com a razão que teria levado Trunks até ali. Abriu a janela e a
silhueta do exterior moveu-se de modo a se aproximar da claridade ténue do
quarto, que se iluminava com um candeeiro aceso numa secretária pejada de
livros. Ao reconhecê-la, engasgou-se.
- Ma-Maron?
O seu
pensamento materializado e ele piscou os olhos várias vezes para se certificar
que não estava a sonhar. Ela enfiava as mãos nos bolsos de um blusão preto e
escondia o queixo na gola levantada, como se estivesse com frio. Ficou a pairar
do lado de fora.
- Komba-wa, Goten… Hum… Quero falar
contigo. Pode ser?
- Claro,
entra…
- Não quero
que os teus pais saibam que estou aqui. Podemos falar… cá fora?
- Eh… Hai.
- Mas primeiro,
veste lá qualquer coisa.
Viu-a voltar
a cara ruborizada e a esconder um sorriso. Ele olhou para baixo e descobriu que
estava vestido apenas com umas cuecas e ficou mais corado que ela.
- Shimata!...
E não se
conseguia mexer com a vergonha.
- Estou à
espera, Goten.
A voz dela,
que era divertida, fê-lo reagir. Enfiou a t-shirt
e os calções que tinha vestido naquela tarde e que se espalhavam no chão do
quarto. Calçou umas sapatilhas e saiu pela janela, sem apertar os atacadores
brancos que ficaram pendurados de forma desleixada. Ela reparou nesse detalhe e
arqueou um sobrolho.
- Não quero
conversar ao pé da tua casa – disse a afastar-se da janela voando. – Conheces
algum sítio para onde podemos ir sem sermos incomodados?
- Segue-me.
Alcançaram
uma cascata ruidosa onde ele costumava nadar, pescar e onde fazia piqueniques
com a família. Sentaram-se num recesso relvado, a salvo dos salpicos, mas
suficientemente perto do rio para sentirem a humidade e a frescura da água
abundante. Ele viu-a estremecer e quis apertá-la nos braços. Parecia que
continuava com frio.
Estava bela,
banhada pela luz das estrelas e foi a vez de ele estremecer. Encostava os
joelhos ao peito que abraçava, o queixo quase pousado sobre as rótulas
estreitas, as pernas dela eram tão bonitas. Corou outra vez. O cabelo loiro
brilhava e os olhos fitavam-no meigos, mas expectantes, tinha a boca pintada de
um rosa muito ténue que lhe acentuava a curva perfeita dos lábios pequenos. Ele
não soube o que lhe dizer, mas ela esperava que ele começasse a conversa. Ficou
confuso, porque ela é que lhe tinha dito que queria falar com ele, mas não se
decidia a revelar porque é que o tinha vindo procurar.
Estava
encurralado numa situação delicada, pior que enfrentar sozinho o saiya-jin de Zephir. Começou a arrancar
pedaços de relva com a ponta das sapatilhas que continuavam com os atacadores
pendurados. Pensou em atá-los, mas deteve-se, pois pensou que ela haveria de
julgar que o fazia porque ela lhe censurara o desleixo.
Escutava-se a
cascata na noite silenciosa.
- Vais estar
amanhã na festa de Bulma-san, não vais?
Ela tinha-se
decidido e fizera a primeira pergunta. Ele respondeu-lhe:
- Hai, com toda a minha família.
- O meu pai
disse que o teu pai voltou para casa e que vivem agora juntos, com Ubo-kun.
- Hai. Deverá ficar por alguns meses. A
minha mãe está feliz.
- E tu
também.
- Claro… São
como… Umas férias. Depois, regresso à universidade e o meu pai há de regressar
à ilha com Ubo para continuarem com os treinos.
Ela respirou
fundo e foi perfeitamente audível. Ele percebeu que ela estava nervosa e ele
também ficou nervoso. Continuou a arrancar tufos de erva. Os atacadores brancos
começavam a ficar sujos.
- Goten, vim
aqui esta noite porque…
Finalmente,
ela iria revelar o mistério. Ele sentiu os músculos arrepanharem-se todos, um
por um, o esforço a refletir-se gradualmente. A situação era ainda delicada e
ele estava ainda encurralado. Ela completou de chofre, como se lhe custasse
dizer aquilo:
- Queria
agradecer-te por teres cuidado de mim no Templo da Lua.
Ele não olhou
para ela.
- Ah… Maron,
eu iria sempre proteger-te contra qualquer perigo. És… minha amiga.
- Hai.
Ela vacilou,
mas acrescentou num murmúrio, mais para os joelhos do que para ele:
- Tu também
és meu amigo.
Goten encheu-se
de coragem e espreitou-a. Os olhares deles cruzaram-se e coraram em simultâneo.
Ela queria dizer-lhe mais qualquer coisa, o agradecimento tinha sido apenas uma
introdução. Ele já sabia o que era e estava a ficar ansioso, cada vez mais
encurralado. Apetecia-lhe dar um berro e transformar-se em super saiya-jin e arrasar com metade das montanhas Paozu.
- Acho que...
que gosto de ti, Son Goten.
- Nani?!
Mesmo
antecipando a declaração, foi como um murro no estômago e Goten arquejou.
A cascata
tornou-se ensurdecedora. O cérebro dele zunia com as palavras dela,
repetindo-as como num eco.
Se Trunks
estivesse ali já lhe tinha dado uma cotovelada nas costelas e já lhe tinha dito
que ele era um idiota e que devia dizer-lhe, imediatamente e sem hesitações, que
também gostava dela e que queria ficar com ela para sempre. Ele abriu a boca,
tentou falar, mas não lhe saiu som algum e ficou simplesmente de boca aberta,
como um peixe fora de água.
Ela baixou os
joelhos. Aproximou-se dele, sentou-se sobre os calcanhares.
- Eu… Gostava
de poder dizer-te que queria combater contigo – começou ela. – Sei que para ti
seria mais fácil, ficavas mais à vontade. Mas o que me apetece agora, Son
Goten… é um beijo.
Ele lançou-se
para trás, apoiou o corpo nos braços para não acabar estendido na relva. Ela
repetiu o pedido, entreabrindo os lábios cor-de-rosa:
- Beija-me,
Goten.
E lá vinha a
segunda cotovelada e o berro indignado de Trunks.
Beija-a, baka! Ela está a pedir-te e tu não te mexes?!
Para calar o
amigo, fê-lo. Num gesto rápido e totalmente desprovido de romantismo, pespegou-lhe
um beijo nos lábios cor-de-rosa. Nem apreciou convenientemente a sensação de
ter colado a boca dele à dela, porque não chegara a senti-lo. Maron olhou-o
espantada e desiludida.
Uma terceira
cotovelada do amigo, já tinha as costelas magoadas e ele despertou. Fechou os
olhos e esqueceu-se de toda a timidez. Puxou a rapariga e beijou-a mais
devagar, saboreando por fim os lábios cor-de-rosa e ligeiramente molhados.
Quando sentiu as mãos dela no pescoço, teve o impulso de recuar, ficou
petrificado, mas lutou contra a vontade de se escapulir daquela prisão que o
escaldava, porque também era agradável. E então ela beijou-o ainda mais
devagar. Ele retribuiu, tentando imprimir naquele toque todo o carinho que
sentia por ela e a sensação de prazer aumentou. Desejava-a e ela também o
desejava. Assustou-se. Ele confessou, trémulo:
- Eu não sei
o que fazer, Maron.
- Nem eu… Mas
quero aprender contigo.
Goten
envolveu Maron num abraço apertado e deixou-se guiar pelo seu instinto, estendendo-a
na relva, à beira da cascata ruidosa.
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