O chão
tremeu. Era um terramoto daqueles que Goku e os seus companheiros provocavam
quando lutavam com adversários tão fortes quanto eles. Levantei-me da cama.
Tinha passado as últimas horas fechada na câmara onde Zephir me tinha trancado,
envolvida em pensamentos sombrios. Sentia-me desolada, triste, descartável. E
agora nem sequer tinha o triângulo dourado para apertar e para me distrair
dessas congeminações impróprias.
Olhei para
cima. As traves grossas de madeira do teto também tremiam e apareceram as
primeiras fendas. Encostei-me à parede, para tentar escapar-me da iminente
derrocada.
A porta
abanou com um encontrão. Alguém tentava forçar a entrada. Sustive a respiração.
A porta levou com um segundo encontrão. Caíram bocados de tijolo e de estuque
junto aos gonzos. Um terceiro encontrão e a porta caiu com estrondo no chão. O
terramoto parou. Ela entrou com um salto.
- Ana-san!
Sorvi o ar
todo de uma vez, deu-me fôlego e deu-me voz para falar. Reconheci-a como se ela
me tivesse dado uma estalada. Olhei espantada para a filha de Kuririn.
- M-Maron?!
- Não podemos
ficar aqui! Um dos demónios persegue-me. Descobriu-me aqui dentro e quer
apanhar-me. Vamos embora, Ana-san.
Não havia
tempo para hesitações. Corri atrás de Maron por aqueles corredores húmidos.
Perguntei-lhe num fôlego, continuando a correr:
- O que é que
fazes aqui?
- Vim atrás
daquelas duas meninas reguilas que não sabem ficar quietas, porque têm sangue saiya-jin a correr nas veias.
- Vieste
atrás de Pan e de Bra?
- Hai. Soube por Videl-san que Pan estava
desaparecida, assim como Bra, e percebi logo que tinham vindo para cá.
- Estás
sozinha?
- Não te
preocupes. Sei lutar e posso defender-te.
- Olha, ainda
bem que vieste… Assim, conseguiste salvar-me. Mas Pan e Bra, apesar de terem
vindo para o templo, já cá não estão. Estão as duas a salvo, na Capsule
Corporation.
Maron
estacou, eu parei atrás dela. Franziu o sobrolho.
- Honto?
- Hai – confirmei com um aceno decidido.
Ela sorriu e
murmurou:
- Ainda bem…
- Apagou o sorriso com tanta rapidez que me incomodou. – Bem, mas tu também
precisas ser salva. Anda lá!
No fundo do
corredor ouviram-se passos. Ela pediu-me silêncio, ficou à escuta, depois
ordenou-me que corresse e eu obedeci. Corri como uma louca. Maron vinha atrás,
voltou-se e disparou dois tiros de energia. Um guincho duplo soou, tinha
acabado de fritar dois kucris.
De repente,
travei a fundo e Maron chocou contra mim. Gritei de horror.
O demónio
soltou uma gargalhada. O brinco na orelha direita brilhou, tratava-se de Julep.
Agarrou-me no
braço, deu um puxão. Maron investiu, golpeou-o com ambos os punhos, o demónio
soltou-me com um urro. Rematou-o com um pontapé na cabeça que o enviou contra a
parede. O embate atordoou-o momentaneamente.
- Eu disse-te
para correres! – Berrou-me.
Saltei para o
lado esquerdo, subi três degraus, entrei noutro corredor. Maron apareceu pouco
depois, na mesma corrida desenfreada. Empurrou-me para mudarmos de direção e
desembocámos num pequeno átrio. Enfiámos por uma passagem com um teto muito
baixo, virámos à direita, tornámos a virar à direita, descemos uns degraus
carcomidos e sujos.
Entrávamos
nos subterrâneos do templo.
Maron revelou,
ofegante:
- Não o
despistámos, continua no nosso encalço. Persegue-nos de perto.
- Como é que
sabes?
- Sinto-lhe o
ki.
Puxei-a para
uma sala à nossa direita e fechei a porta de ferro, trancando-a, rodando uma
chave pesada, também de ferro.
- O que é que
estás a fazer? Achas que nos conseguimos livrar do demónio trancando-nos dentro
de uma sala? Ele rebenta com a porta com toda a facilidade!
- Ganhamos
tempo – expliquei. – E tu também consegues rebentar com o teto com a mesma
facilidade. Vá! Tira-nos daqui – completei apontando para cima.
Percebeu o
estratagema e não se demorou muito. Maron elevou um braço e disparou um raio
que abriu um buraco no teto até ao exterior. A claridade do dia entrou na sala num
feixe luminoso e iluminou o compartimento. Era um santuário, com um pequeno
altar, colunas embutidas nas paredes, uma escadaria que viria do exterior. Maron
chamou-me.
- Agarra-te a
mim.
Mas um
detalhe deteve-me.
- Do que é
que estás à espera? O demónio está cada vez mais perto e eu não sou capaz de o
derrotar. Vamos ficar em apuros.
- Espera…
- Espero? Não
podemos esperar!
Um vulto
estendia-se no pavimento, a tremer e a gemer. Aproximei-me.
- Ana-san,
vem cá imediatamente! Ou deixo-te aqui em baixo.
Calou-se,
furiosa comigo. Nisto, atirou-se contra a porta trancada do santuário para
aguentá-la com os braços esticados. A porta agitou-se com um impacto surdo e
poderoso. Julep acabava de nos descobrir.
Ajoelhei-me
junto ao corpo. Quando o reconheci fiquei aguada, dormente. Senti como se me
tivessem despejado por cima um líquido espesso que me cristalizou, que me
impediu de reagir normalmente. Fiquei em choque por estar a presenciar algo tão
macabro.
Ele estava
deitado de costas e quando percebeu que eu estava ao lado dele, abriu os olhos
e sorriu-me. Falou num murmúrio arranhado:
- A Deusa
continua comigo… Ela não me abandonou. Disse-me que iria encontrar-te neste
santuário e aqui estás tu.
A cara de
Toynara estava horrivelmente queimada, com múltiplas feridas que lhe
desfiguravam as feições e enquanto falava torcia-se grotescamente, tudo
movendo-se de uma forma pouco natural. Mas eu continuava apática, mirando-o,
sem conseguir sequer ensaiar um gesto de conforto, uma palavra sã.
Maron
gritou-me, agarrada à porta:
- Ana! O que
foi? Temos de ir embora daqui!
Do outro lado,
Julep tornou a golpear a porta.
Toynara
agarrou-me no braço. Era a garra descarnada de um ser agonizante, desesperada.
Os dedos negros tinham a pele pendurada, escorriam sangue.
- Sei que não
gostas de mim… Julgas que sou igual a Zephir. Eu digo-te, rapariga. Tens razão.
Sou igual a ele. Tenho a mesma ambição, os mesmos sonhos. Mas, ao contrário de
Zephir… era incapaz de destruir o templo, era para mim inconcebível ofender a
Deusa. Como me mantive fiel… ela ajudou-me. Ela está ao meu lado. Ampara-me a
cabeça nesta minha viagem para o Outro Mundo.
- O que é que
me queres? – Perguntei num cicio.
Bufou sem
fôlego. Do peito soou um silvo quando tentava respirar. E eu permanecia
estranhamente insensível.
As paredes do
santuário chocalharam com outro impacto de Julep. Maron colou as costas à
porta, apoiou os pés no chão, fez força.
- Ana! –
Gritou – Despacha-te… onegai shimass!
Toynara insistiu
no discurso:
- Tu, minha
querida sacerdotisa…
Devia ter
reparado nas vestes que o feiticeiro me tinha dado. Ou então já estava a
delirar.
- Cabe-te a
ti destruir Zephir. Essa é a tua tarefa hoje, no Templo da Lua… Foi a Deusa que
mo revelou. Suspira-me essas palavras doces ao meu ouvido… Agora. E posso,
finalmente, descansar em paz.
Arrepiei-me.
De repente, a bolha que vedava as minhas reações desintegrou-se. Comecei a
chorar.
- O que
dizes? Eu… não consigo destruir Zephir.
Toynara
continuava a sorrir, procurava ver-me mas percebi pelo olhar errático na minha
direção que acabava de ficar cego.
- Vim para
eliminá-lo… Não o consegui eliminar, mas a Deusa guiou-me até este lugar, onde
tu esperavas por mim. E mostrou-me a glória do fim, o Templo da Lua triunfante.
Ouve-me… Era esse o meu destino, salvar o templo. O teu destino… O teu destino
é partires da Dimensão Z, Ana. Mas antes, acabas com Zephir… para sempre.
Agora,
chorava por essa evidência que me rasgava a alma em pedacinhos impossíveis de
reagrupar. Eu não os queria deixar. Queria ficar ali para sempre, na fantasia,
mergulhada em felicidade, embriagada nesse sonho impossível, lutando para me adaptar,
apesar de ainda estranhar aquele corpo etéreo.
Com as
últimas forças, com mãos hesitantes, as duas porque só uma já não seria
suficiente, ele retirou um objeto que guardava entre os farrapos da roupa que
vestia. Entregou-me os dois triângulos dourados, as correntes douradas
balançando.
- O Medalhão
de Mu pertence-te. Usa-o… sabiamente.
Recebi a
oferenda de Toynara com um gesto solene – não apenas o amuleto, mas o seu
sacrifício.
- Quando o
enfrentei… no pátio… já tinha comigo… o medalhão. O herético, cego de raiva,
nem se apercebeu… Era essa a minha missão. O meu… destino.
A garganta dele
moveu-se dolorosamente, tentando engolir.
- Mas… tem um
preço - acrescentou.
- Tudo o que
quiseres, Toynara – ouvi-me dizer e não me reconheci.
- Tu sabes…
quem destruiu a lua. Conta-me.
E eu contei:
- A lua foi
destruída para impedir que a Terra fosse arrasada pelos saiya-jin que habitavam o nosso planeta. Nas noites de lua cheia,
os saiya-jin transformam-se em
monstros terríveis chamados oozaru. Na
altura, para que o pequeno Gohan, o filho mais velho de Goku, não se
transformasse nesse monstro, Piccolo fez explodir a lua.
Quando
terminei, Toynara continuava a sorrir, mas os olhos escancarados, uma alvura
que destoava daquele rosto negro e massacrado, já não se moviam. Estava morto.
Solucei:
- Faz boa
viagem, Toynara.
Fechei-lhe as
pálpebras. Pus-me de pé, coloquei ao pescoço as duas metades do Medalhão de Mu.
Agarrei num dos triângulos e senti-me tranquila com o toque agreste das arestas
afiadas. Deixei o rasto molhado das lágrimas no rosto, não o limpei, seria como
uma profanação se o fizesse. Eram por Toynara, por mim, pelo fim próximo, por
todos os fins.
Maron
gritou-me, ao mesmo tempo que se afastava da porta correndo na minha direção:
- Acabou-se o
tempo!
Puxou-me pela
cintura, saltou pelo buraco que derramava a luz do exterior para dentro daquele
lugar escuro que cheirava a morte. Reparou no que eu tinha ao pescoço, cerrou
os dentes.
A porta de
ferro era destruída por uma explosão, Julep entrava no santuário.
Mas eu e
Maron tínhamos conseguido fugir.
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