Na mão esquerda tinha a
primeira metade do Medalhão de Mu e, na mão direita, tinha a segunda metade.
Diante de mim tinha um Zephir ávido e cada vez mais nervoso.
A noite rodeava-nos, o céu
trovejava zangado, os sismos eram intensos e ininterruptos, o Inferno
continuava solto na Terra, ou pelo menos naquele lugar.
- Sacerdotisa, une as duas
metades do medalhão.
Fi-lo devagar, tentando
dominar o medalhão pois, uma vez as saliências e as reentrâncias frente a
frente, estas atraíam-se como ímanes. Devagar, portanto, mas como se não fossem
as minhas mãos que praticavam o ato.
Uni as duas metades do
Medalhão de Mu e aconteceu um clarão que submergiu a união, batizando-a de luz.
Seria a luz que nos guiaria pelas trevas, a partir daquele momento.
O medalhão palpitou nos meus
dedos que o seguravam firmemente. O sol gravado no ouro era como uma chama viva
no centro do amuleto que, agora reconstruído, recuperava a sua forma original
de um triângulo geometricamente perfeito.
Zephir estava maravilhado,
completamente hipnotizado com o poder magnífico que o medalhão emitia.
Continuava nervoso, porém e eu sabia que não podia vacilar. Demasiada coisa
dependia de mim, do meu sangue frio. Ele indicou o altar com um dedo
esquelético, a voz entrecortada com a emoção avassaladora que deveria agitar
como nunca aquele corpo mirrado:
- Agora… Vais usar o
Medalhão de Mu… no altar mágico… E farás de acordo com o que eu te ordenar,
sacerdotisa.
Fui até ao altar. No tampo
inclinado desenhava-se um losango. As mãos invisíveis do maestro Toynara
seguraram nas minhas.
Zephir deixou as últimas
indicações:
- Irás encaixar o Medalhão
de Mu nesse espaço. Ao fazê-lo, deverás pronunciar o meu nome para que eu receba
a sua bênção. Diz: “Em nome de Zephir!” e depois afastas-te. Sacerdotisa, prepara-te
para me obedecer.
Fechou os olhos. Permitiu-se
descontrair o corpo ansioso. Abriu os braços, inspirando profundamente,
emulando um anjo maldito.
- Fá-lo, sacerdotisa.
Aproximei o Medalhão de Mu
do losango, com o vértice principal voltado para cima. Eu segurava numa coisa
viva, quente, palpitante, que agora se atraía para a pedra escura do altar,
para se fundir naquele espaço, onde pertencia. O poder era deveras imenso e
cativante, arrastava-nos para um mundo onde tudo era permitido e onde não havia
dúvidas ou morte ou dor ou cansaço. As prerrogativas de um deus, realmente.
Ou era eu que me sentia deus
naquele instante em que cabia a mim a suprema decisão.
Percebi a subtil agitação de
Zephir. Eu estava a demorar-me.
O Medalhão de Mu rodopiou
nas minhas mãos, o vértice principal ficou voltado para baixo. De um golpe
apliquei-o no altar, encaixei-o na metade inferior do losango e gritei:
- Em nome de Zephir!
O feiticeiro regozijou-se. Abriu
os olhos com uma expressão feroz afivelada no rosto medonho.
Recuei, a olhar para as
minhas mãos, à procura das mãos de Toynara. Não vi nada, mas ainda sentia o
toque frio do fantasma.
Escutei o grito desesperado
do feiticeiro:
- Mas… O que foi que tu
acabaste de fazer?!!
Atirou-se aflito ao altar,
cravou as unhas no medalhão para tentar arrancá-lo da metade inferior do
losango.
No entanto, o que fora feito
não podia ser desfeito. Estava consumado.
- Não!! Não!!
Endireitou os ombros,
compreendendo que os seus esforços seriam em vão. Voltou-se para mim,
respirando apressado, tremendo de raiva e de ódio.
- Vou matar-te, traidora!
Não senti medo. Era tudo e
só uma questão de tempo.
Toynara completou a
sinfonia, recebeu, com um sorriso, o aplauso deliciado que o consagrava como o
grande vencedor daquele confronto.
A última nota da composição
musical foi absolutamente épica. E eu sorri. O meu destino cumpria-se.
Do altar mágico irrompeu uma
torrente de luz que alcançou os céus num feixe imparável e brilhante. Zephir
olhou para o altar, eu recuei até sentir uma parede nas costas e a solidez da
pedra fez-me regressar à realidade e comecei a tremer, a coragem toda
esvaindo-se, convertendo-me na rapariga assustada que eu verdadeiramente era.
E vi.
A torrente de luz abateu-se
sobre o pátio e o cenário converteu-se num mar branco, onde emergia o altar
escuro e o Medalhão de Mu a faiscar sobre o tampo do altar. O amuleto emitiu um
raio triangular, coberto de fagulhas e de estrelas, que atravessou Zephir de
lado a lado, separando-o em dois.
Sangue.
Voltei a cara, fechei os
olhos.
Um grito lancinante vibrou
no pátio.
Seguiu-se um trovejar
tenebroso. Milhentos fantasmas encheram o sítio, roçavam por mim, enleavam-se
nos cabelos, mas não abri os olhos. O feiticeiro continuava a gritar e, mesmo
de olhos fechados, eu via a cena como se os tivesse abertos. O medalhão
desfazia Zephir em pedaços e espíritos horripilantes carregavam os pedaços e
incineravam-nos, de modo a que nada restasse do feiticeiro, nem a ínfima
possibilidade de um minúsculo espectro que vagueasse atormentado no Outro
Mundo.
Solucei. A parede onde me
apoiava desmoronou-se, o pátio desfazia-se numa tempestade de luz e num
terramoto. Gritei à medida que os escombros se amontoavam perto de mim, por
cima de mim, por todo o lado.
Zephir morria pelo poder do
Medalhão de Mu.
E eu perdia o conhecimento.
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