Era só uma questão de tempo.
Nada do que eu pudesse fazer poderia alterar o destino que me estava reservado
e que era, como Toynara afirmara, moribundo e extasiado, partir daquela
dimensão. Mas antes destruiria Zephir para sempre.
Aguardava calada, tentando
subtrair-me ao local horroroso onde me tinham deixado, pejado de criaturas
demoníacas e de lamentos assustadores, que gelavam o coração mais valoroso. Não
tinha a coragem suficiente para enfrentar aquele ambiente e por isso fingia que
não estava ali, resguardava-me na minha mente que eu enchera de vazio e repetia
um murmúrio de olhos fechados, para conseguir sobreviver àquela loucura
dominada pela magia negra.
- Hummmm…
O sol do Medalhão de Mu
tinha mudado de cor. Os seus raios brilhavam em múltiplos tons alaranjados, emulando
as chamas de uma fogueira, o que significava que o altar já tinha sido criado. Era,
realmente, só uma questão de tempo.
Usava novamente os dois
triângulos ao pescoço e quando mos devolveram, sorri porque já não me conseguia
ver sem aquele adereço. Sem medo do pretenso fogo, passara os dedos pelos desenhos
embutidos, sentindo o poder que derivava daquele símbolo, percebendo então e
pela primeira vez que era mesmo só uma questão de tempo.
Tinha as mãos pousadas no
regaço, encostava as costas à pedra fria da parede daquela câmara e cismava com
o deserto que implantara no cérebro. Percorria veloz e ansiosa a imensidão do
cenário cinzento despido, querendo encontrar uma ideia, que eu teimosamente
afastava para não sucumbir ao terror. Haveria de sobreviver com a ajuda do
deserto. Ainda vestia o mesmo vestido de sacerdotisa, bainhas rasgadas, gola laça,
manchado com o sangue de Vegeta.
Não me espantara quando
Keilo, o saiya-jin de Zephir, surgira
junto a Ten Shin Han, o chikyuu-jin
mais poderoso do planeta, à minha procura. O meu protetor aguentara um par de
segundos contra Keilo. Defendera o primeiro golpe, o segundo golpe desfizera-o.
Eu também não fugira ou lutara contra o meu iminente rapto. Olhara Keilo
diretamente nos olhos e reconhecera nestes o mesmo fulgor que eu conhecia em Son
Goku ou em Vegeta. Também o mesmo magnetismo, o mesmo carisma, apesar de ser um
inimigo imprevisível, um assassino impiedoso. Sorrira-me deleitado com o meu
descaramento. Os saiya-jin gostavam
de quem os olhava de frente, sem medo. Mas Keilo, apesar de adorar o desafio,
abominava o risco e para evitar problemas desnecessários, provavelmente porque
lhe haviam contado que eu era rebelde e esquiva, dera-me uma pancada na nuca e
eu perdera os sentidos.
Despertara com uma bofetada
que me torcera o pescoço. Arquejara, com as lágrimas a transbordar dos olhos
pela dor que me aquecia a face direita. Zephir observava-me analiticamente. A
cara medonha do feiticeiro não me amedrontara, continuava corajosa. Ele enxotara
de seguida Keilo, enviara-o para combater Son Goku que se aproximava
perigosamente. Agarra-me no pulso, puxara-me, enfiara-me à bruta as correntes
do medalhão no pescoço e metera-me novamente na câmara que me tinha apresentado
da primeira vez que me tinha aprisionado dentro do templo. Ficara abismada com
as reações de Zephir, estava ansioso e irascível, quando antes me tinha
parecido tão controlado e tão pouco emotivo.
Era tudo somente uma questão
de tempo.
O meu destino cumpria-se
inexorável.
Vislumbrei o espírito de
Toynara, transparente e imenso, a pairar sobre o Templo da Lua, sobre nós,
braços alçados, um maestro a orientar a orquestra, a música soando conforme
estava escrita na pauta, sem variações ou improvisos, uma sinfonia perfeita com
um único desfecho, que nunca poderia ser evitado ou mudado. Era ele que
fabricava o destino, era dele a vitória final.
Uma simples questão de
tempo.
As dobradiças da porta da
câmara chiaram. Desta vez, Zephir não me tinha trancado ali, talvez tivesse
percebido que eu não iria fugir. Perguntei-me se também via o espírito de
Toynara como eu o via, mas, em vez de assistir impassível como eu, tentava
alterar a sinfonia, tornando-a sua, com muitas variações e outro tanto
improviso.
Levantei-me, séria. Tinha
chegado a hora e sentia-me preparada. Tinha também alcançado o fim do deserto,
a minha mente reorganizou-se e encolhi-me ligeiramente, cedendo, por breves
instantes, ao medo. Os meus joelhos vacilaram.
A porta abriu-se.
A responsabilidade de salvar
o Universo era esmagadora, mas eu aceitava-a sem complicações. Quando fosse a
altura de agir, agiria e o destino cumpria-se. Simples, como conduzir uma
orquestra.
Ele entrou com um salto,
estendendo uma mão.
- Ana-san, vem comigo.
A minha expressão rígida
desfez-se.
- G-Goku?!
- Depressa!
Puxou-me pelo braço – e
voltava aquela mania de me puxarem pelo braço –, antes de sairmos da câmara
disparou um raio de energia com a mão livre que rebentou mais adiante. As
paredes tremeram. Perguntei:
- E… Keilo?
- Ahn? O que é que tem
Keilo?
- Não o encontraste?
- Não. Vamos, não podemos
perder tempo. – Olhou para o meu peito e eu corei. – Tens o Medalhão de Mu,
excelente! O altar mágico já foi criado, agora só precisas de o usar e acabar
com o feiticeiro.
Corremos os dois pelos
corredores que oscilavam como se se fossem desfazer. Num reflexo tapei a cabeça
com um braço. Por todo o lado via demónios, monstros e assombrações. Cheirava a
enxofre, havia fogo e fumo e era como se estivesse a correr com Goku através da
profundeza dos Infernos.
Perguntei, para afastar o
pânico:
- Sabes onde está o altar?
- Hai.
- E o altar…?
- Imperfeito. Tem o losango
de que falou Toynara. Ouve lá, viste-o? Ele também veio para cá, mas não
consigo sentir-lhe o ki. Talvez se
esteja a esconder…
- Ele… Toynara morreu, Goku.
Parou de correr, parei
também. Os dedos dele apertaram-me o pulso, calcaram suavemente na pele, senti
uma descarga elétrica.
- É uma pena. E já não o
podemos ressuscitar com as bolas de dragão.
Olhou por cima do meu ombro,
enviou um disparo energético, escutei um silvo e um guincho. Acabava de matar mais
um demónio. Sorriu-me para afastar tristezas.
- Prometi que te viria
salvar porque tu pertences a nós, Ana-san, e eu não costumo faltar às minhas
promessas.
- Eh… Hai. Eu sabia que virias.
Apagou o sorriso, assentou
as mãos nos meus ombros, olhou-me diretamente nos olhos, com a mesma
intensidade que Keilo tinha no seu olhar exigente.
- Agora, sabes que
precisamos de ti. Vais utilizar o medalhão no altar e destruir o feiticeiro
para sempre. Estás preparada para o fazer?
O meu estômago apertou-se
numa cãibra de medo. Acenei afirmativamente.
Era o meu destino e o tempo
que se tinha esgotado.
Vi Toynara executar um gesto
elaborado, a batuta puxando o dramatismo, a orquestra de cordas chorando em
uníssono, em triunfo.
Nisto, uma explosão destruiu
o local onde estávamos. Gritei. Goku atirou-se para cima de mim, protegendo-me
com o seu corpo. Escutei os pedregulhos desabando, toneladas sepultando-nos num
amplexo abafado e escuro, um barulho ensurdecedor a rodear-nos. Tapei a cara
com as mãos, encolhida debaixo dele, sustendo a respiração.
Um raio de luz irrompeu pela
escuridão. Espreitei por entre os dedos e vi Goku afastar as ruínas com um
braço, enquanto me segurava com o outro. Ofeguei, deslumbrada com aquela
exibição de poder do herói, que me tinha beneficiado diretamente.
Estávamos agora no exterior.
Olhei em volta, não havia um edifício de pé, eram só ruínas. Combatia-se nos
céus. Voltei a cabeça para cima e reconheci um dos lutadores. O meu coração deu
um salto.
- Trunks!
Um demónio gordo e verde lutava
com Trunks. Socou-o, ele oscilou desequilibrado. Gritei aflita.
- Trunks!
Goku tinha-me agarrado
novamente o pulso e puxava por mim, para me obrigar a mexer, para me chamar a
atenção.
- Ana-san, temos de ir. Não
te preocupes com Trunks, aquele demónio não é suficientemente forte para lhe
causar qualquer dano.
- Mas…
- Trunks é um super saiya-jin. Sabe desenvencilhar-se
sozinho.
Apertei os dentes. Concordei
relutante.
O Medalhão de Mu faiscou.
Chamava-me para o meu destino. A sinfonia ainda não tinha terminado. Estava
perto do fim, era certo, mas ainda não tinha terminado. O maestro, confiante,
suava.
Ah, até Toynara duvidava do
final?
Corremos outra vez, desta
vez a galgar escombros, ferros retorcidos, tijolos partidos e pedras
fumegantes. Até que Goku estacou. Largou-me, empurrou-me. Tropecei nos próprios
pés, amparei-me numa parede que ainda estava de pé, solitária, no meio de um
mar de cascalho.
- Tens de continuar sozinha,
Ana-san – disse-me ele, de costas para mim. - Desculpa, mas já não te posso
acompanhar.
Keilo sorria.
- Estava à tua procura,
Kakaroto.
- Encontra o altar e usa o
Medalhão de Mu, Ana-san. Confio em ti. Todos nós confiamos em ti.
Os dois saiya-jin entreolhavam-se parados como estátuas. A energia latente
entre eles era tão imensa que eu conseguia senti-la, atravessava o tecido do
vestido, experimentava-a como uma carícia morna na pele. Escutava o bater do
meu coração, os uivos dos fantasmas, o ronco surdo da terra que tremia.
O berro de Goku foi como uma
chicotada.
- Ana-san!
- Hai.
Girei sobre os calcanhares e
fugi. Fugi o melhor que pude, mas não foi o suficiente. Ao dobrar a esquina de
um pórtico esventrado, um braço agarrou-me repentinamente e a minha fuga
terminava.
- Onde é que pensas que
vais?
Gritei. Zephir apanhava-me.
Os dedos gelados e ossudos
do feiticeiro estrangularam-me a circulação do pulso. Tão diferente do toque de
Goku… Encolhi-me com o asco e com o terror de estar a ser tocada por aquele ser
repulsivo.
- Tu vens comigo,
sacerdotisa.
Mirou-me de cima a baixo,
lambeu os lábios. Voltei a cara. Sussurrou-me ao ouvido, num tom imbuído de
lascívia:
- Depois de me transformares
num deus, vou desposar-te. Vais unir-te a mim sobre o altar que me irá
consagrar. Destruirei aquilo que Trunks te deu e que estás a gerar dentro de ti,
para substituí-lo pela minha cria. Pretendo repovoar o Universo com criaturas
das trevas, perfeitas, nascidas da união de um deus e de uma deusa.
Estremeci desconcertada. Reprimi
um vómito quando me lambeu a orelha, arfando demoradamente para selar aquela
ameaça. Pareceu pensar… Acrescentou com maldade:
- Ah… Tu ainda não sabes o
que Trunks te deu, pois não?
Completou com o hálito
fedorento junto à minha boca:
- Vais ser minha.
Deu-me um puxão irritado.
- Anda!
Esgueirámo-nos por uma
abertura escura, estreita, de onde saía uma espiral de fumo amarelo, e tive a
impressão que era arrastada por uma ratazana gigante, cinzenta e magra, que
farejava todos os cantos para evitar os perigos que a poderiam esmagar. Não o
devia provocar, tinha de me deixar ir submissa e obediente, pois Zephir estava
tão nervoso que contra-atacaria à mais mínima suspeita de sabotagem. Ouviu-o
resmungar:
- Malditos guerreiros das
estrelas!...
Entrámos num pátio. Um
enorme monstro com quatro braços e quatro pernas guardava uma pedra retangular,
mais alta que larga. Com um gesto brusco, Zephir ordenou ao sinadelfo que se
retirasse. Depois, soltou-me e disse em tom solene:
- Sacerdotisa, estamos
perante o altar mágico.
Devolvi-lhe o olhar gélido e
percebi que era tão poderosa quanto ele. Toynara sorria em êxtase, comandando a
orquestra frenético, a melodia fantasmagórica gritava-me nos ouvidos,
juntamente com um pensamento, resumido numa sentença seca.
Zephir, chegava o teu fim.
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