Duas pancadas
ligeiras soaram na janela do quarto e ele despertou. Não era ela, só podia ser
ele. Levantou-se, esfregando os olhos. Vestiu umas calças e só depois foi abrir
a janela, porque também podia ser ela. Apesar de se terem despedido naquela
tarde e prometido encontrar-se no dia seguinte, havia vezes em que a ausência
pesava demasiado. Ela aparecia e visitavam a cascata das montanhas Paozu.
Era o amigo,
não era ela. Convidou-o a entrar. Antes, ele entrava a causar espalhafato, dono
do espaço, a falar alto e a admirar-se depois sem perceber por que razão devia
falar baixo. Mas ele agora estava diferente, mais sorumbático.
- O que é que
se passa, Trunks? Outro sonho?
- Não foi um
sonho...
O amigo sentou-se
na cadeira que se encostava à secretária e Goten fechou a janela. Sentou-se,
por sua vez, na cama, entrelaçou os dedos, à espera que o amigo começasse.
Trunks tinha o queixo colado ao peito e as mãos metidas nos bolsos do casaco.
Mas ele não começava e Goten perguntou:
- Porque é
que dizes que não foi um sonho?
- Porque
falei com ele. Fez-me perguntas… Acho que ele veio.
- Ele não
pode vir sem a máquina do tempo. E ele deixou de vir há tanto tempo… Deve ter
reconstruído a vida dele lá onde mora, na linha temporal alternativa, e tu
também deves reconstruir a tua.
- Não
consigo.
Goten
zangou-se.
- Trunks-kun,
não podes dizer essas coisas. Até parece que queres desistir…
Suspiro
prolongado, sofrido.
- Já desisti…
Limito-me a arrastar a minha carcaça pelos dias.
- Tu és um saiya-jin, um príncipe como o teu pai.
Os saiya-jin não desistem.
- Isso é
fácil dizer quando tens a vida organizada e preenchida.
Não se
encaravam enquanto falavam.
Goten fez um
esgar. Não conseguiu rebater o argumento do amigo, porque ele perguntou de
seguida, para mudar de assunto:
- Como está a
Maron?
Foi
surpreendido com o interesse de Trunks. Respondeu hesitante:
- Eh… Está
bem.
- A minha mãe
comentou, num destes dias, que vão casar dentro em breve.
- Mais um ano
ou dois. Não está assim tão para breve. Ela tem de completar dezoito anos e eu
tenho de acabar os meus estudos.
- Quem impôs
essas condições?
Goten
encolheu os ombros.
- Ora… A
minha mãe e o pai dela. Quem mais?
- Acho que
têm razão, sabes?
Trunks
deu-lhe uma cotovelada amigável e Goten viu que lhe sorria. Tentava sorrir como
antes, mas o esforço era tremendo para imprimir uma genuína alegria naquele
sorriso. Goten concordou:
- Mas eu
também acho. E a Maron é da mesma opinião. Às vezes zango-me com ela por querer
ir ao cinema com as amigas e não querer passar mais tempo comigo, mas depois
lembro-me que só tem dezassete anos.
- Ah… E tu,
Son Goten, és muito mais maduro que ela com vinte e um?
- Apetece-me
outras coisas – remoeu.
- Apetece-te
estar numa casinha bonitinha com ela. Olha que a Maron é rapariga da cidade.
- Eu sei, eu
sei!
- Ela gostava
de mim, sabes?
A revelação
apanhou-o de surpresa. Sentiu-a como um soco no peito. Goten gaguejou:
- Na-nani?
- Quando me
apercebi que era mesmo verdade que gostava de mim, eu já estava apaixonado pela
Ana. Não teria qualquer futuro. No entanto, nunca te iria trair.
Os olhos
azuis do amigo eram duas safiras brilhantes.
- Nunca
aconteceu nada… Ela não te contou?
Goten negou
com a cabeça.
-
Provavelmente, não encontrou a oportunidade e não achou que seria preciso contar-te.
Algum dia, vai dizer-te. Acredito que sim. Ela gosta muito de ti. Mas tens
razão… ainda é uma miúda.
Goten sentiu
uma segunda cotovelada.
- Ei… Não
fiques a pensar nisso. Não tem importância.
- Porque é
que me contaste?
- Não tenho
segredos contigo, Goten-kun.
- Isso
aconteceu na Dimensão Real?
- Hai.
Analisou-lhe
a reação. A tensão de Trunks era visível numa pequena veia pulsando na testa,
nos músculos dos braços desenhados sob o tecido do casaco, as mãos continuando
escondidas nos bolsos.
- Ainda não
te esqueceste da Ana.
- Nunca o
farei, Goten.
- Já se
passou um ano, Trunks-kun – observou numa voz com um timbre tão infantil que o
amigo olhou para ele, pestanejando furiosamente.
Por momentos,
tinham sido apenas dois meninos que queriam ser mais fortes, sem aquelas preocupações
desnecessárias. Trunks respondeu:
- Hai, um ano. Trezentos e setenta e sete
dias, para ser exato. O que significa que se passaram trezentos e setenta e sete
meses na Dimensão Real. Pelas minhas contas, qualquer coisa como trinta anos.
Ela agora tem a idade da minha mãe. Provavelmente, já deve ser avó… e já me
esqueceu.
Goten reparou
no breve brilho lançado pela corrente dourada que o amigo tinha ao pescoço. Já
sabia o que aquilo era, tinha apanhado um susto quando o vira com uma das
metades do Medalhão de Mu, mas depois ele explicara-lhe que era uma recordação
e que ela tinha ficado com a outra metade.
- Eu também
lhe pedi que me esquecesse.
- Mas tu não
o fazes.
- Uma vez,
Goten, quando era miúdo, ouvi o meu pai dizer à minha mãe que, quando os saiya-jin escolhem uma companheira, é
para a vida toda. A minha mãe andou radiante durante uma semana, mesmo que o
meu pai, durante esse tempo, tenha ido treinar-se para um local remoto e não se
tivessem visto. Tu sabes que assim é com a Maron. O teu pai com Chi-Chi-san, o
teu irmão com Videl-san. E eu também já escolhi… É para a vida toda, Goten.
- Mas
poderás… tentar encontrar a felicidade noutro lado.
Encolheu os
ombros.
- Pois posso.
Fingir que me esqueci… Mas a ligação ficará sempre. Impossível de desfazer.
Goten
remexeu-se na cama, incomodado com o sofrimento do amigo. Por vezes, sentia-se
culpado por estar tão feliz e Trunks tão triste.
Deviam mudar
de assunto, mesmo que o que tinha em mente não fosse mais agradável.
- Queres
contar-me esse teu último sonho? – Pediu.
Trunks
respirou fundo.
- Já te
disse… Não foi um sonho.
- Conta-me
lá.
Fechou os
olhos, como que a querer convocar todos os detalhes, para que o relato fosse
fiel ao que tinha realmente sucedido. E Trunks contou:
- Tinha
ficado a estudar até tarde e acabei por adormecer em cima dos livros. E então,
começou o que parecia um sonho… Era de noite, corria numa floresta e estava
escuro. Corria muito depressa, sentia o vento na cara. Quanto mais corria, mais
me apetecia correr. O meu coração batia depressa, parecia que queria saltar do
peito… Usava o Medalhão de Mu inteiro, ao pescoço, e dava-me muito poder, maior
que o poder de qualquer super saiya-jin…
De repente, o chão fugiu-me e comecei a cair. Fechei os olhos. A minha energia
aquecia-me o corpo…
***
O ar era pesado. Trunks sufocou no início,
pois o corpo pesava uma tonelada, a mesma sensação de quando estivera na
Dimensão Real. Depois, compreendeu que era a força da gravidade multiplicada
por um número absurdo que ele não decifrou no monitor da máquina da câmara onde
o seu pai se treinava todos os dias. Transformou-se em super-saiya-jin e foi mais fácil. Ao abrir os olhos, e não
se lembrava de ter estado de olhos fechados, estranhou o local, não era onde o
seu pai se treinava todos os dias. A claridade ofuscou-o no início. Lutou contra
o frio e o calor, contra o sono e a vigília, contra uma exultação estranha que
lhe chupava toda a força que tinha. O tempo congelou e passou num corrupio. Gritou,
fazendo tremer tudo em redor.
A Sala do Espírito e do Tempo estendia-se diante
dele, na sua imensidão nua. Anos atrás combatera ali Majin Bu. Ele e Son Goten.
- Goten!!!
Nem o eco lhe respondeu. Estava sozinho. Endureceu
os músculos do corpo, cintilando como uma estrela em rápida combustão.
Do vazio, surgiu ele. No momento em que o
viu enormes pedaços de gelo irromperam da ilusão do chão. Trunks fixou nele um
olhar intenso, ele postou-se à sua frente, desafiando-o.
Trunks e mirai Trunks entreolhavam-se e partilhavam o impossível.
- Vieste na máquina do tempo?
- Não. Vim porque alguém me pediu que
viesse.
- Quem?
- Pensei que tivesses sido tu.
- Talvez. Por causa de uma rapariga. Ela
amou-te através de mim…
- Queres combater comigo por causa dela?
O ódio inquinou-lhe a alma magoada.
- Quero! – Gritou.
- Não posso combater contigo. Eu e tu somos um
só…
- Não!!!
Trunks atacou o seu espelho. A imagem desfez-se
em fumo e reapareceu noutro ponto da imensa paisagem branca. Mirai Trunks enviou um ataque flamejante. Uma
explosão. Trunks saltava para escapar das labaredas. Lutaram no céu. Lutaram na
terra.
A sua respiração tornou-se irregular, não
estava a aguentar a força da gravidade. Sem ar nos pulmões sofridos, caiu
inanimado. Nas traseiras de um pesadelo de fogo, todo ele incendiando-se no
centro de um anel de gelo, escutou a voz de mirai Trunks:
- Não posso combater contigo. Não existe
nenhum motivo suficientemente forte… Nem mesmo ela.
- Cala-te!
A atmosfera vibrou. Ele estava outra vez de
pé e disparou um raio vermelho com as mãos. O adversário desviou o raio e
socou-o, enchendo-lhe a boca de sangue.
Mirai Trunks puxou-lhe os cabelos, apertou-lhe o
pescoço com um braço, imobilizou-o. Segredou-lhe com uma voz firme e
autoritária:
- O ódio que sentes por mim não tem razão de
ser. É ridículo e inútil… Tão inútil como este combate.
- Eu… vou derrotar-te…
- O que pretendes provar com isso? Mesmo que
me derrotes… ela não vai voltar.
- Solta-me!
- Trunks, ouve-me. Conheci-te quando eras
apenas um bebé. Houve um dia em que olhei para ti e invejei-te. Irias ter tudo
o que eu nunca tivera. Irias ser feliz… Não desperdices o que conquistei para
ti, todos os sacrifícios que foram feitos.
A dor foi mais forte e deixou-se cair de
joelhos. Chorou.
- Como está Vegeta?
A voz de mirai Trunks soou-lhe estranhamente familiar. Era a sua própria voz,
compreendeu amargamente.
- O… o meu pai…?
- Hai.
Como está Vegeta?
Levantou-se. Mirai Trunks sentava-se numa árvore tombada. A Sala do Espírito e do Tempo
dissolvera-se e estavam agora na mesma floresta onde ele tinha corrido, mas a
escuridão tinha-se ido embora e era de dia.
Sentia-se tonto. Sentou-se no chão, ao lado
da árvore tombada. Respondeu com a cabeça entre as mãos.
- Vegeta continua a treinar-se… Todos os
dias.
- E Bulma?
- Distrai-se a trabalhar nas suas máquinas
esquisitas e a gerir a Capsule Corporation. Pensa em ti muitas vezes.
Foi capaz de sentir o sorriso do outro,
queimando-o por dentro, luminoso e perfeitamente sincero. Ouviu-se a
acrescentar:
- Eu… tenho uma irmã.
- Uma irmã? Como é que ela se chama?
- Bra. Tem quase nove anos.
- Preferia ter um irmão.
- Também tenho um irmão. Considero-o como um
irmão… Chama-se Son Goten, é o filho mais novo de Son Goku. Tem menos um ano
que eu.
Encarou o outro que lhe pedia sério, como se
não tivesse sorrido antes:
- Diz-lhes que o meu mundo está em paz e que
sou feliz.
- A Ana desejava que fosse assim… Queria
muito que fosses feliz.
- Não acredito que ela não te tenha amado.
Houve, pelo menos, algum momento, em que isso aconteceu.
- Porque é que dizes isso?
- Porque é a verdade.
- E que sabes tu?
Mirai Trunks levantou-se.
- Vais voltar? – Perguntou-lhe, aflito
porque ele se ia embora. Não queria ficar outra vez sozinho.
- Não. Tu já não queres que volte.
- Vieste cá por causa de mim?
- Chamaste-me, lembras-te?
- Não… Não me lembro.
- Quando despertares, irás lembrar-te…Irás
também saber porque é que eu vim hoje ter contigo.
Mirai Trunks acrescentou vacilante:
- Diz a Vegeta que… Não. Não ficou nada por
dizer.
O remoinho gigante que varreu a floresta
levou-o. Mirai Trunks era uma miragem
que se diluía no horizonte com o pôr-do-sol. E o seu corpo brilhava, porque
estava transformado em super saiya-jin…
***
- …Lutei
contra muitos fantasmas. O combate pareceu durar uma eternidade, tinha os
braços dormentes mas não podia parar ou os fantasmas engoliam-me. Acordei
sobressaltado, a suar, com febre. Os livros espalhavam-se pelo chão do quarto. Deitei-me
na cama e dormi a noite inteira, a manhã inteira e só acordei quando a minha
mãe apareceu a abanar-me, a dizer que eu tinha faltado ao exame e que lhe
tinham telefonado da universidade, porque não sabiam o que era feito de mim. Eu
não percebia nada do que ela me estava a dizer. Disse-lhe que mirai Trunks me tinha vindo visitar. Ela
deu-me um beijo na testa e disse-me que eu devia mesmo descansar…
Goten
perguntou:
- E o que foi
que aconteceu a seguir?
- Descansei. Depois
de tanto dormir, estava como novo… Menos dor no coração, não te sei bem
explicar. Tinha de vir contar-te isto.
- E já sabes
por que é que tiveste esse encontro com ele?
- Acho que
sim… Mirai Trunks apareceu para me
dar paz.
- Paz?
- Hai. – Inspirou ruidosamente. –
Curiosamente, sinto-me melhor. Mais tranquilo… Cheguei a odiá-lo, mas agora
compreendo que estava só a ser estúpido. Ele não é mais do que um fantasma do
passado… Não me pode magoar mais do que já magoou.
- Por causa
da Ana.
- Hai.
- Pensas nela
todos os dias?
- A todas as
horas, talvez…
Trunks
levantou-se, Goten acompanhou-o. Pousou-lhe uma mão no ombro.
- Sempre que
precisares conversar, eu estou aqui, amigo.
- Eu sei,
irmão.
Abraçaram-se.
Goten sentiu Trunks estremecer, sacudia a tristeza com determinação, mas ela
haveria de regressar e então ele haveria de o acordar noutra noite, batendo-lhe
na janela do quarto. Quando fosse casado, não saberia muito bem como é que esse
esquema funcionaria, mas haveria de arranjar uma maneira de ter aquelas
conversas noturnas e clandestinas.
Trunks
olhou-o com um brilho novo nos olhos intensamente azuis.
- Desafio-te
para um combate. Agora.
O rosto de
Goten abriu-se num sorriso.
- Estava a
ver que nunca mais falavas nisso.
Os dois
rapazes saíram para o exterior, escolheram uma clareira nas cercanias. Transformaram-se
em super saiya-jin em simultâneo. A
energia a inundar-lhes o corpo, a engrandecer-lhes a alma, fazia-os recordar
que vinham de um longínquo planeta perdido na poeira dos tempos. O fluxo
selvagem da vida pulsava com eles quando se sentiam puramente saiya-jin.
O combate
começou.
E, por um
instante, tudo voltou a ser simples, verdadeiro e natural, como naqueles dias
descontraídos, antes de Zephir e antes do Templo da Lua.
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