Nas oficinas da Capsule
Corporation o zumbido das máquinas, dos robots
e dos computadores permanentemente ligados enjoava-me. Impedia-me também de me
concentrar no que Bulma estava a explicar de uma maneira tão animada, o funcionamento
daquela máquina esquisita, preta, amarela e azul, de linhas aerodinâmicas. Entre
os dois motores tinha uma cabina entalada com uma cadeira revestida de couro
vermelho, um painel de comandos muito simples e fácil de controlar, dizia-me
ela. Apesar de me esforçar, não queria realmente escutar as explicações de
Bulma sobre o funcionamento da máquina das dimensões que me iria transportar de
volta à Dimensão Real.
Iria regressar a casa e
sentia-me a morrer.
- Com este botão grande amarelo
ligas o painel e depois o computador de bordo faz tudo. Calcula as coordenadas,
analisa os níveis de combustível e regula a potência dos motores. Não tens de
te preocupar com nada. Como a máquina só possibilita uma única viagem, julguei
que não seria necessário o piloto tomar a decisão que um simples computador,
devidamente programado, poderia tomar mais eficientemente. Assim, evitamos as
surpresas a meio do trajeto… O que acabaria por ser complicado, dada a
irreversibilidade da viagem.
Bulma carregou em alguns
botões rapidamente e um pequeno monitor verde acendeu-se onde correram
algarismos aleatórios até se fixarem num número que eu não decifrei.
- Aqui está o temporizador
da máquina – apresentou ela. – Marca o tempo, até aos minutos. Não o consegui
fazer mais preciso. Vais necessitar dele para entrares na tua dimensão no tempo
certo.
Tentei parecer interessada,
afinal a ideia de ter vindo conhecer o funcionamento da máquina tinha sido
minha.
Despertara naquela manhã com
um sorriso, sentindo-me fresca, saudável, relaxada, completa. Tinha dormido
durante três dias seguidos para recuperar do carrossel de emoções chamado
Templo da Lua e descobrira admirada que salvar o mundo podia ser bastante
cansativo. Estava feliz, até me lembrar da segunda parte do meu destino.
- Como o temporizador já
estava construído e a funcionar na Dimensão Real, gravou a coordenada temporal
exata do dia em que saímos dessa dimensão – continuou Bulma. - O que significa
que não tens de te preocupar com todos os dias que passaste aqui na Dimensão Z,
que significaram meses na Dimensão Real. Vais regressar no mesmo dia da nossa
partida, que te arrastou connosco, com a diferença de alguns segundos, para
diante ou para trás. Será como se nunca tivesses saído da tua dimensão. Esta
máquina é também, e um pouco à sua maneira, uma máquina do tempo.
Tomara a decisão de partir
ainda de cabeça no travesseiro e convencera-me que fazia o mais acertado. Seria
o melhor para mim, para todos. Tentara convencer Trunks, mas ele não mordera o
engodo. Quando lhe contara que iria pedir a Bulma que preparasse a máquina das
dimensões para o dia seguinte, voltara-me as costas e deixara-me abandonada no
corredor da Capsule Corporation sem uma palavra. Teria preferido um escândalo,
um gesto desesperado, mesmo uma bofetada. A indiferença dele acabou por ser aviltante
e ajudara a reforçar a minha decisão, envolvendo-a em duro cimento inquebrável.
Se tivesse havido uma réstia
de dúvida, Trunks tinha acabado com ela.
- As coordenadas temporais
são fixas, as espaciais também – acrescentou Bulma. – Como te disse, o
computador de bordo irá tratar de tudo. Sentas-te aqui e carregas neste botão
do painel de comandos, mais nada. Quando chegares à tua dimensão, não sei o que
poderá acontecer com a máquina, pelo que o melhor será abandoná-la rapidamente.
- Poderá desintegrar-se?
- Não sei. Não posso fazer
nenhum teste, pelo que desconheço como será o seu comportamento ao regressar ao
mundo físico da Dimensão Real. Mas se já fez uma viagem interdimensional sem
problemas, acredito que a segunda viagem também ocorrerá sem problemas.
- Mas da primeira vez não
tinha ninguém lá dentro.
- O computador de bordo está
preparado para inserir a variável do passageiro na equação e os cálculos não
irão falhar. Além disso, conto monitorizar a viagem desde a partida até à
chegada.
- Se alguma coisa correr
mal, poderás intervir?
- Se com isso queres dizer
abortar a viagem, a resposta é negativa. A viagem não poderá ser interrompida.
Mas posso corrigir algum cálculo que me pareça menos correto e que ponha em perigo
o sucesso da experiência.
- Uma experiência…
- Sei que não é agradável de
ouvir, mas não tenho outra forma de colocar a questão. Como te disse, não fiz
qualquer teste e a primeira viagem do protótipo será também a última, pelo que
o projeto fica encerrado – concluiu num tom analítico que, curiosamente, me
persuadiu.
As explicações terminaram.
- Wakarimasu, Bulma-san.
Ela observou-me.
- Não precisas ir embora já
amanhã. Toynara disse que podias ficar
connosco durante um ano.
Mordi o lábio inferior, escapando
ao contacto visual dela.
- Se ficar mais tempo…
poderá tornar-se mais doloroso ir embora.
- Amanhã temos a festa na
Capsule Corporation, para comemorar o fim do feiticeiro e o regresso da paz.
Poderias esperar para depois da festa, digo eu… Virão todos os nossos amigos,
será Chaozu quem irá preparar o banquete. Há muito tempo que não dava uma festa
desta magnitude na minha casa. Vai ser animado.
- E eu vou estragar a
animação.
- Não é isso, querida. - Alcançou
o maço de tabaco e retirou um cigarro que prendeu entre os dedos da mão
direita. – Seria diferente se tu também participasses na celebração. Afinal,
Zephir foi destruído por ti e tu acabaste por ter um papel ativo nesta história
toda.
- Vai ser uma despedida em
grande – disse eu forçando um sorriso. - Terei todos os amigos reunidos para me
dizerem adeus.
Bulma acendeu o cigarro,
soprou o fumo para o lado.
- Estás decidida… Não vou
conseguir fazer-te mudar de ideias, pois não?
Neguei com a cabeça. Não
percebia se queria que eu ficasse por causa da festa, se por causa do filho,
mas Trunks não devia ter-lhe pedido nada e o cimento endureceu um pouco mais.
Observou-me novamente e
depois anuiu com um ligeiro encolher de ombros.
- Está bem. Vou encher a
máquina de combustível e prepará-la para a viagem. Fica combinado para amanhã,
de manhã. É do teu agrado?
- Hai.
Agradeci a disponibilidade e
a atenção dela e saí da oficina. O zumbido persistente desapareceu e senti um
ligeiro alívio.
A seguir, fui passear, outra
decisão repentina e um pouco ilógica, admitia-o, mas apetecera-me subitamente
conhecer West City. A metrópole era gigantesca e não me afastei demasiado dos
arredores da Capsule Corporation. Vagueei deslumbrada pelas ruas arrumadas,
pelos bairros ordeiros, encontrei um bairro comercial muito colorido, passei
pela entrada de um parque de diversões e entrei num jardim imenso com aspeto de
bosque citadino. Como as pernas já me doíam sentei-me na relva, debaixo de um
conjunto de árvores frondosas que espalhavam uma sombra acolhedora.
Fechei os olhos, respirei
fundo, enterrando os dedos na terra. Cheirava a primavera, a desabrochar de
coisas novas, a inícios depois de penosos finais. Abri os olhos, o último
pensamento a ecoar, um novo início algures, um final ainda por penar, e
descobri a cúpula amarela da imponente Capsule Corporation ao fundo,
sobressaindo no mar de edifícios alvos e azuis. Como se me chamasse. Seria ali
que eu haveria de cumprir a totalidade do meu destino.
- Yo, Ana-san!
A silhueta inconfundível
dele recortava-se na contraluz e alegrei-me por tê-lo ali, a quebrar a minha
autoimposta solidão.
- Goku. O que fazes por
aqui?
- Estou de passagem. Estive
a treinar com Vegeta na Câmara de Gravidade e ia agora para casa.
Desviou-se ligeiramente, a
claridade do dia iluminou-o e pude comprovar que a alegria despreocupada das
suas palavras combinava com um sorriso que lhe enfeitava o rosto.
- E tu, o que é que fazes
aqui tão longe de casa?
- Vim dar um passeio.
- Queres que te leve de
volta?
- Não é preciso, arigato. Acho que consigo dar com o
caminho. Afinal, a Capsule Corporation vê-se bem ao longe. – Dei duas
palmadinhas na relva a convidar: – Senta-te comigo, vamos conversar um
bocadinho.
Sentou-se. Já não vestia o dogi alaranjado, mas umas calças
cinzentas e uma túnica comprida azulão que atava na cintura com um cinto escuro,
ligeiramente aberta no peito. Uma indumentária simples. Se tinha estado a
treinar, não devia ter deitado uma gota de suor, pois mostrava-se fresco e bem-disposto,
com um odor muito próprio e tentador. Corei e, para disfarçar o deslize, disse
num fôlego:
- Amanhã temos uma festa.
- Hai. Também virei com a minha família.
- Eh… Mas eu não vou estar…
Amanhã regresso à Dimensão Real.
- Honto? Porquê?
Não sabia muito bem como
responder a essa dúvida. Era uma decisão cimentada e pronto. Porque era o mais
acertado, porque era um novo início depois de um penoso final, porque Toynara
tinha dito que era o meu destino. Qualquer coisa serviria, mas ouvi-me dizer:
- É um dia como outro
qualquer. Algum dia teria de regressar.
- Então, quer dizer que não
vais à festa?
A pergunta genuinamente
inocente fez-me sorrir. Ele olhava-me descontraído, com o braço esquerdo
assente no joelho fletido.
- Pois… Não, não irei à
festa - respondi.
- Oh!… Vai ser uma pena. Vai
haver comida muito boa, preparada pelo Chaozu. Haverias de experimentar os
cozinhados dele, são uma delícia. A Chi-Chi cozinha melhor que ele, claro…
Tenho de dizer isto, senão ela zanga-se comigo, mas também não deixa de ser a
verdade e não me importo de o dizer.
- Tu gostas mesmo de comer…
- Hai! – Soltou uma gargalhada, mas ficou sério logo a seguir. – Tu
sabes tudo sobre mim, não é?
- Hum-hum…
Olhou para o céu,
confessando num murmúrio:
- Isso é tão estranho.
- Também para mim é estranho
estar aqui contigo, Goku, quando, na minha dimensão, saíste da mente de um
criador que te imaginou, deu vida, uma personalidade, que te apresentou ao
mundo como… um desenho.
- Isso só acontece comigo?
- Bem… Não.
- Também te sentes estranha
quando estás com Trunks?
Senti a cara avermelhar como
um semáforo.
- Quando estou com ele…
como?
- Quando estás sentada com
ele, assim como estou eu agora contigo.
A inocência dele era deveras
desconcertante. A minha boca estava seca, tentei engolir mas não tinha saliva
suficiente para o fazer. Respondi a gaguejar:
- No princípio, sim… Era
estranho. Mas o toque, esse… sempre foi igual. Habituei-me depois, mas às
vezes… ainda me sinto um pouco confusa… Ele tem essa aparência, igual à tua, de
desenho… Mas sei que é ele, quando estou a tocá-lo e fecho os olhos. Reconheço-o
ao recordar-me como é que era tocar nele na minha dimensão.
Depois achei que estava a
responder a algo que não tivera cabimento na pergunta dele. Perguntou-me a
seguir:
- Conheces o meu criador?
- Não conheço pessoalmente.
Conheço-o por ser alguém famoso. Sou capaz de o apontar numa reportagem de uma
revista, por exemplo.
- É famoso por causa de mim?
- Hai. Por causa da… Dimensão Z.
- Achas que ele gostaria de
me conhecer?
- Claro! – E sorri a
imaginar a possibilidade, a cena. – Eu também gostaria de conhecer o meu
criador.
- E tu tens um?
- Se calhar… Quem sabe?
Fomos todos criados por alguém, algures, noutra dimensão diferente da nossa.
Não foi isso que o Medalhão de Mu nos ensinou, que existem muitas dimensões que
podem ser unidas por um deus? Acredito que eu também seja a criação de alguém e
que isto de estar aqui não é mais do que um cross-over
esquisito, imaginado por outro criador sem pedir licença aos criadores
originais.
- Cross-over?
- Quando se misturam heróis
de duas histórias diferentes.
- Ah… Tu falas de coisas que
não consigo compreender muito bem, Ana-san.
- Beija-me.
Piscou os olhos confuso.
- Ahn?
Sustive a respiração, queria
também suster o coração. Mas o que raios tinha eu acabado de lhe pedir?
- Queres um beijo?
Não podia recuar agora, era
pior se o fizesse, depois não conseguiria explicar a razão objetiva e lúcida do
pedido, pois até nem havia uma razão objetiva e lúcida, era somente um mero
capricho, um devaneio embriagado. Tive de lhe responder afirmativamente, mas
sem pinga de convicção.
- Hai.
Inclinou-se para mim. Admirei-me.
- Espera aí! Vais beijar-me?
- Hai. Não me pediste para te bei…?
- Baka! – Exclamei zangada e ele recuou. – Mas tu não me podes
beijar!
- Ah, não? E porquê?
- Porque… Ora, porque… Acho
que tu deves saber, melhor que eu…
- Bem… Tu pediste-me e eu
nunca digo que não a…
- Tu fazes tudo o que te
pedem?
- Se não me custar muito.
- Nani?!...
- Pediste-me um beijo. Que
mal faz um beijo? Normalmente pedem-me para lutar, lutar é bem pior. Se o
combate for renhido, posso ficar ferido ou ferir o outro.
Os seus argumentos eram tão
simples que me despojaram de qualquer arma que pudesse arremessar para me
proteger da minha própria loucura.
- Queres o beijo, ou não?
Agora era ele que insistia
em dar-me aquilo que quisera cobrar-lhe. Continuava a não puder recuar, desta
vez respondi-lhe mais convicta:
- Hai.
Goku aproximou-se e
beijou-me ao de leve na face. Repliquei agastada:
- Não era um beijo desses,
Goku!
- Nani? Que beijo é que querias?
Sem recuar, portanto, o que
significava que iria seguir-se o ataque impiedoso para evitar a desonra.
Humedeci os lábios. Era a maior loucura da minha vida, mas seria memorável.
Guardaria aquele momento por toda a eternidade.
Debrucei-me sobre ele.
Assustou-se com a excessiva proximidade e tentou afastar-se, mas tinha um
tronco de árvore nas costas e acabou encurralado. Colei a minha boca à dele. Descobri
que era macia e deliciosa. Goku esbugalhou os olhos, admirado com o meu
descaramento.
Separei-me dele. Não quis
que o beijo durasse mais que um segundo, não era conveniente. Estava louca, mas
continuava sensata.
Encarei-o e não lhe
reconheci o olhar intenso, incendiado. Agarrou-me os braços, puxou-me. E fiquei
perplexa ao sentir a língua dele penetrar na minha boca à procura da minha
língua, para envolvê-la com a doçura da sua saliva. Foi a minha vez de
esbugalhar os olhos. Beijava-me lentamente, sensualmente. Derreti-me com a
provocação, perdendo-me na sensação daquele beijo tão caloroso. Baixei devagar
as pálpebras, acendendo luzes por todo o corpo.
De repente, terminou.
- Era este o beijo que
querias?
Perguntava-me com a cabeça
ligeiramente inclinada para a esquerda, analisando a minha reação. Mas não
havia malícia na voz dele, apenas curiosidade. Sentia os braços dormentes onde
ele tinha agarrado, tinha a boca dormente, tudo estupidamente dormente.
Murmurei:
- Hai…
Sem me aperceber do gesto,
voltei-lhe as costas. Depois daquilo, era insuportável olhá-lo de frente. Ele
encostou-se a mim e as luzes tornaram a acender-se.
- Estás zangada comigo?
Surpreendeu-me com a dúvida.
Resolvi ser sincera.
- Não. Estou… envergonhada.
Não te devia ter pedido o que pedi.
- Porquê?
- Porque não devia… Não
achas?
- Não sei.
Não percebera o vestígio de
maldade no que tinha acabado de acontecer. Estava a desarmar-me e a enervar-me.
Encostado a mim, devia sentir o meu coração a bater e a perceber o que eu
estava a experimentar, mas não alcançava o significado global daquilo. Mesmo
depois de sentir a raiva dos super
saiya-jin no sangue, continuava a ser o mesmo menino puro que um dia
viajara na nuvem kinton…
E, nesse instante, eu sabia
que o amava.
- Está a fazer-se tarde,
tenho de me ir embora – disse ele, mas não se desencostou.
- Eu também me vou embora…
Daquela dimensão, não do
jardim. Não entendeu.
- Chi-Chi está à minha
espera para o jantar.
- Jantam cedo…
- Hai. Agora, estou em casa. Por uns tempos. Ubo também está
connosco. Estamos como que a fazer as pazes, depois do que aconteceu. Preciso
de reconquistar a confiança dele. Disse-me que me tinha perdoado, mas quero ter
a certeza que tudo vai voltar a ser como era antes.
- Claro que vai. Afinal, tu
devolveste a paz à Terra.
- Com a tua ajuda, Ana-san.
- A paz também vai regressar
à tua casa.
- Hai.
Continuava encostado.
Nunca mais teria Son Goku
tão perto de mim como naquela ocasião, mesmo que estivéssemos de costas
voltadas. Estava quieta a absorver os detalhes inverosímeis, adorando aquele
calor, retendo a lembrança daquele calor, de como tinha sido bom sabê-lo real e
já pensava como se fosse tudo passado, porque, de facto, sê-lo-ia em breve.
Confessei emocionada:
- Vou ter saudades tuas.
Levantou-se, espreguiçou-se.
Desencostava-se, por fim. Espreitei-o, ele espreitou-me. Ofereceu-me um sorriso
cristalino, travesso, a troçar daquele momento que tínhamos partilhado antes e
depois do beijo. Quando lhe respondi também com um sorriso, as lágrimas que
guardava desesperadamente atrás da minha falsa coragem rolaram-me das pestanas,
cara abaixo.
- Oh… Não chores. Haveremos
de nos voltar a encontrar.
Continuava a sorrir-me, a
troçar daquilo tudo. Mesmo a chorar, eu dei uma risada. O coração doeu-me.
Acenou-me uma despedida com dois dedos.
- Djá ná, Ana-san.
Vi-o levantar voo, perder-se
entre as nuvens. Limpei a cara.
- Hai, Son Goku. Haveremos de nos voltar a encontrar.
***
Cheguei à Capsule
Corporation no final da tarde. Deixara-me ficar no jardim a olhar para o
horizonte, a tentar organizar as ideias, a aproveitar o que restava daquele
mundo, dedos enfiados na terra, a cheirar a primavera e o tempo passara num
instante.
Os corredores da Capsule Corporation
estavam desertos. Eu caminhava devagar, tinha a impressão que o relógio corria
mais depressa se andasse e haveria de abrandar se a minha velocidade fosse
mínima. Se ficasse quieta, sem me mexer, talvez o tempo acabasse mesmo por
parar.
Passei por uma porta aberta
de onde saía um cone de luz amarela que contrastava com as sombras do corredor
e, sem parar, espreitei para dentro daquela sala. Vi Vegeta e Vegeta viu-me. Vestia
apenas uns calções pretos. Acabava de sair do duche e limpava o corpo e os
cabelos molhados com uma toalha.
- Vem cá! - Chamou.
Parei, hesitei. Não devia,
mas entrei na sala. Ao fundo, reconheci a entrada para a Câmara de Gravidade.
Vegeta atirava a toalha para cima de um banco.
- Bulma disse-me que vais
embora amanhã.
Acenei que sim com a cabeça.
Vegeta aproximou-se
repentinamente, obrigou-me a andar alguns passos para trás e encostou-me à
parede. Apoiou um braço nesta, mesmo ao pé da minha cara.
- Porquê? - Perguntou-me.
Não gostei daquela atitude.
- Porquê o quê?
- Porque é que queres ir
embora amanhã?
- Tenho de regressar à
Dimensão Real. Escolhi amanhã, é um dia como outro qualquer.
Dissera algo parecido a Goku
e começava a soar-me como a desculpa esfarrapada perfeita.
- Hum…
- Posso sair?
- Pensas que eu não gosto de
ti… Ana?
Era a primeira vez que me tratava
pelo nome. Estremeci ao ouvi-lo pronunciá-lo. O turbilhão de sentimentos dúbios
e loucos que sentira por Goku vieram novamente ao de cima ao estar ali tão
perto de Vegeta.
- Gosto de ti. És alguém interessante.
Parece que tens medo de tudo, mas não é verdade. Nem tu própria sabes a coragem
que tens!…
- Isso é um elogio?
- Se tu não fosses de
Trunks…
- E Bulma? - Perguntei
escandalizada.
- E se eu não fosse de
Bulma…
A conversa estava a ir para
caminhos perigosos e eu não sabia o que dizer a seguir para desfazer qualquer
possível equívoco. Mas também não queria dizer nada, porque desejava,
secretamente, que tudo se embrulhasse e que a cena debaixo da árvore daquela
tarde, de algum modo, se repetisse, mas com outro saiya-jin. Estava a ficar zonza e a perder a força nas pernas, pois
Vegeta estava tão perto que a ponta do nariz dele roçava na minha.
- Estás a tremer.
- Não estou, não…
Subitamente, rasgou um meio
sorriso.
- Queres que eu te beije.
A frase foi como uma chicotada.
Sentia um calor muito grande no estômago e era como se ele olhasse para a minha
alma, toda nua, e o corpo também, já agora, e corei com a vergonha de me saber
assim, tão vulnerável ante ele. Gaguejei:
- Nani?
Farejou-me levemente,
mantendo o meio sorriso.
- Queres, sim… Tens aquele
cheiro. Já percebo porque é que o Kakaroto ficou tão perturbado.
- Ahn?...
Como sabia ele o que…?
O hálito dele confundia-me
de uma maneira mais intensa do que Goku. Ou mesmo, arrisquei pensar por um
segundo, do que Trunks. Havia algo de animalesco naquele hálito, o perigo em
forma de perfume. Pelo canto do olho via os contornos firmes do músculo do
braço dele. Se eu não estivesse tão cozida no fogo lento que nascia do meu
estômago, teria levantado os meus braços e segurado na cara dele e arriscado a
ousadia de tomar a iniciativa de juntar os nossos hálitos.
De repente, afastou-se,
retirando a mão da parede e endireitando as costas.
- Mas não o vou fazer, só
porque tu o queres.
- Na… na-nani? – Gaguejei novamente. Soprei: – Eu não quero nada…
- Não costumo andar por aí aos
beijos. Prefiro um bom combate.
Afastou-se, encaminhou-se
para a Câmara de Gravidade. Olhou-me de lado, a sorrir perverso:
- Agora vai-te!
Ainda sentia o hálito dele naquela
ordem fria que não penetrara no calor do meu corpo em rebuliço. Enxotava-me sem
cerimónias. Pestanejei para despertar, estava mole como um trapo.
Vegeta completou no mesmo
tom de despeito:
- Trunks deve estar à tua
espera para se despedir de ti. Na cama. Terás dele todos os beijos que precisas
para acalmar esse cheiro. E até poderás fechar os olhos e imaginar que sou eu
que te estou a beijar.
Aquela conclusão deixou-me
estarrecida. Mais desagradável que aquilo não podia ser. Que imbecil! Mas por
Vegeta sentia uma admiração muito especial. Ele era o saiya-jin que todos gostavam de odiar. Eu também…
- Odeio-te, Vegeta! Com
todas as minhas forças!
- Ah… Ainda bem. Pensava que
havia aqui algum mal-entendido.
- E também te adoro.
Vegeta parou. Tinha uma
perna dentro da Câmara de Gravidade, com a mão segurava a pesada porta blindada
que fechava aquele compartimento onde se treinava todos os dias. Parou, mas não
se voltou para mim.
- Hai.
É verdade… Não me importa o que possas pensar de mim, já que eu e o teu filho…
Bem, sentiste um cheiro qualquer, não foi? Sei lá, pode até ser verdade! Vocês,
saiya-jin, também devem ter um
qualquer cheiro especial que me deixa completamente fora de mim. Não me importa
dizer-te isto. Amanhã vou-me embora e nunca mais voltarei. Posso dizer-te tudo,
tudo… Mesmo que me mates depois de ouvires, não me importo. Morrer será melhor
do que ir-me embora!
Solucei, a voz quebrou-se-me.
Baixei a cabeça, duas lágrimas pingaram no chão.
- Sempre… que aparecias,
arrebatavas as cenas. O grande príncipe dos saiya-jin
que nunca se vergou… Que nunca perdeu aquele seu carácter tão único. O teu
orgulho, tão excessivo e tão monstruoso, era palpável, mesmo que fosses apenas
um desenho animado para todos nós, do outro lado de um ecrã. Sentíamos o teu
coração duro, a tua intransigência, a tua maldade e arrepiávamo-nos por
gostarmos de tudo isso. Admiro-te, Vegeta. Amanhã deixo a Dimensão Z e quero… Quero
que saibas que, sem ti, a Dimensão Z perdia metade da piada. Chorei de todas as
vezes que morreste. Rezei pelo teu regresso. Tu e Son Goku são os pilares deste
mundo… Kuso! Eu adoro-te, Vegeta!
Sei que se voltou para mim, mas
saí esbaforida pela porta fora. Corri pelo corredor a chorar, punhos apertados,
olhos fechados. Os meus pés tropeçaram num dos robots que monitorizavam o corredor, mas não parei. Corri como uma
doida.
Chorava de culpa. Não
compreendia as minhas atitudes das últimas horas. Não me reconhecia. Portava-me
como um condenado à morte a quem todos os devaneios são possíveis. Tinha tomado
a decisão e agora, em face das consequências, vacilava indecentemente,
agarrava-me a qualquer escolho para escapar do naufrágio, quando tinha
resolvido não me salvar.
Entrei no meu quarto.
Estranhei porque pensei que Trunks estivesse ali, à minha espera, tal como
Vegeta me havia feito crer. Sentei-me na cama, limpei as lágrimas.
Inexplicavelmente, procurei
pelo fantasma de Toynara.
Apesar de querer muito, ele
nunca mais voltaria. Depois do fim de Zephir, fizera a boa viagem que eu lhe
desejara e descansava no Outro Mundo, liberto das aflições terrenas que me
minavam a alma.
E eu também haveria de fazer
a minha viagem, com a mesma certeza e com a mesma resolução.
Porque afinal, era o meu
destino.
Hai, Toynara. Não irei desapontar-te.
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