Devolveu o
murro recebido com outro murro bem colocado nos queixos do outro. Escutou o
osso estalar, mas não se partiu. Ele era rijo, o adversário mais rijo que já
havia enfrentado. E agora fazia-o pela segunda vez, com acérrima raiva e uma
vontade terrível de vencer.
Fixou o
adversário. Estava transtornado com o que experimentava dentro da alma, um
tropel tumultuoso de memórias que varriam toda a noção que tinha de bom senso.
Sentia-o e não refreava o seu descontrolo.
Havia muito
tempo que não se sentia tão excitado com um combate.
Talvez porque
estava a perder e isso irritava-o acima da razão, alimentando a besta selvagem
que dormia dentro daquele corpo aparentemente civilizado e domado de acordo com
os requisitos da Terra.
O adversário
endireitava o pescoço. Olhava-o e mostrava-lhe todos os dentes que tinha na
boca bem apertados, numa dentadura impressionante. Uma gota de suor
escorreu-lhe pela têmpora. Perfeito! Ele também estava a sentir a inquietude
que o dominava e que ameaçava explodir em algo imparável.
E iria acontecer…
naquele momento!
De punhos
apertados, espetou o peito, cerrou as pálpebras, lançou a cabeça para trás.
Soltou um brado que foi escutado do outro lado do mundo, reverberou até aos
confins do Universo, tocando nos limites infinitos do espaço e do tempo.
Sentia-se
desfazer em pedaços, os átomos fundindo-se gerando outra entidade, um poder
imenso nascendo de toda a frustração acumulada, das memórias mais antigas. Era
doloroso, mas gloriosamente soberbo. Deixou-se embarcar na sensação de
invencibilidade enquanto se transformava no guerreiro poderoso que sempre fora
destinado ser, desde o berço, desde o antigamente, quando conseguia sonhar com
as impossibilidades e com os mitos.
Quando
terminou, o corpo cintilava como uma estrela imortal. Os cabelos compridos
tocavam-lhe nas costas numa cascata loira, o rosto tinha as feições esbatidas e
os olhos estavam de um verde mais escuro.
Vegeta
tinha-se transformado em super saiya-jin,
nível três.
Não exultou.
Limitou-se a olhar o adversário com despeito.
Majin Bu arquejou, surpreendido com a
mudança radical. Fechou a boca, fazendo desaparecer a dentadura, recuou
ligeiramente para ganhar espaço e ser capaz de suster o próximo ataque.
Que não podia
ser sustido.
Vegeta uniu
as mãos à frente do peito.
O último Final Flash estava preparado,
latejava-lhe entre os dedos com impaciência para se soltar e desfazer o
adversário. Majin Bu reunia
rapidamente a sua energia numa barreira que lhe permitisse aguentar com toda a
potência de um ataque de um super
saiya-jin de nível três.
Depois
daquele último Final Flash era o fim
daquele maldito Majin Bu que
regressara da tumba para o atormentar. Então Vegeta sorriu. Mas também lhe
tinha mostrado o caminho para alcançar aquele nível de poder e agora estava
igual a Kakaroto.
Uma torrente
luminosa vinda do Templo da Lua invadiu o cenário daquela batalha mortal e
Vegeta rosnou irritado com a interrupção. Não demorou muito, contudo, apenas alguns
segundos que aproveitou para insuflar o seu próximo ataque flamejante com mais
energia. Quando a luz se dissipou, teve a sensação esquisita que algo mudara no
mundo mas não desfez o ataque. Mantinha-o apontado certeiro ao adversário que
recuou mais um pouco.
Um círculo
elétrico rodeou-lhe os pulsos.
Um grito
ecoou pelos ares.
- Não! ’Tousan!!
Era a voz de
Trunks. Mas nada o iria impedir de rematar aquele odiado Majin Bu que lhe arregalava os olhos como se o estivesse a ver pela
primeira vez. Nada…
Juntou a energia
que faltava e exclamou:
- Final Flash!
Novo grito.
- Não!
Vegeta soltou
uma gargalhada. O seu ataque era indefensável.
A vitória por
que tanto ansiava naquela malfadada tarde acontecia.
Primeiro, era
super saiya-jin nível três. Depois,
matava o seu adversário.
Repentinamente,
calou as gargalhadas ao ver outro disparo de energia a intercetar o Final Flash. Os dois raios chocaram com
estrondo, o primeiro levou o segundo para os céus e, no vácuo do espaço
explodiu, neutralizando o ataque de Vegeta.
Fora Trunks,
que passou por ele em direção a Majin
Bu.
- Mas o que
raios estavas tu a fazer? Queres matá-lo?!!
A sensação
extasiante de invencibilidade esvaiu-se e Vegeta regressou ao seu estado
normal. Cuspiu para o lado. Aterrou a ver o filho aterrar uns passos mais
adiante com o seu patético adversário nos braços que tinha perdido os sentidos.
Experimentou
um cansaço extremo que o fez dobrar os joelhos trémulos. A energia que
consumira quando se convertera no nível três dos super saiya-jin tinha-o drenado mais do que desejava admitir.
Disfarçou a fraqueza com um berro, lembrando que acabava de ser interrompido:
- Larga-o,
Trunks! Vou acabar com esse maldito!
O filho não
se afastou. Perguntou-lhe mais admirado que zangado:
- Mas por que
é que queres acabar com Ubo, ‘tousan?
Enlouqueceste?
- Ele não é
Ubo, é Majin Bu…
- Já terminou
tudo. Zephir foi eliminado.
Um arrepio
fê-lo estremecer.
- Nani?!
A solução
fácil que abominava. O Medalhão de Mu tinha sido utilizado num altar imperfeito
e a magia derrotara o feiticeiro. Fechou os olhos, respirou fundo. Tentou
acalmar-se, tinha ainda o coração a bater acelerado no peito. Repetiu num
sopro:
- Nani?...
- Não sentes?
Zephir já não existe… Keilo também desapareceu. Então, também Ubo deixou de
estar enfeitiçado e já não está contra nós.
Olhou por
cima do ombro. Piccolo e Goten chegavam. Enquanto o primeiro carregava um homem
ao ombro, o filho de Kakaroto tinha uma rapariga nos braços que não era a
intrometida. Não procurou reconhecê-la. Trunks estava de braço estendido.
- ‘Tousan, preciso de um senzu. Rápido! Deixaste Ubo em muito mau
estado.
Atirou a
sacola castanha, Trunks agarrou-a no ar. Vegeta sentou-se abatido, deixou
pender a cabeça.
A vitória
tinha sido amarga. Mas escondeu um sorriso… Tinha descoberto o segredo para
mais um estágio de poder e, no final de contas, pessoalmente, fora o que mais ganhara
com aquela aventura.
Trunks enfiou
o senzu na boca entreaberta de Ubo.
Obrigou-a a mastigar. O corpo do rapaz deu um esticão, escancarou os olhos e a
primeira coisa que disse foi:
- Toynara-san?
No céu
passava Goku que entrava no Templo da Lua.
- ’Tousan… – murmurou Goten.
Levantaram
voo e foram atrás dele.
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