Estava de olhos fechados, a
respirar devagar o perfume que exalava da pele que eu acariciava. Descansava
momentaneamente sobre o corpo dele, macio, forte, quente, real. Mexeu um pouco
as pernas e eu oscilei como se estivesse a descansar num colchão sobre as ondas
do mar. Sorri, adorando cada pormenor daquela intimidade. Nunca tinha feito
amor daquela maneira com ele, em que se tinham ultrapassado todos os limites e
em que o tinha deixado fazer tudo o que lhe apetecia fazer, entregando-me sem
regras.
- Ana, estás acordada?
- Hum?… Estou.
- Ainda bem. Não quero que
adormeças.
- Sim, meu senhor.
Assentei o queixo sobre o peito
dele. Beijou-me.
- Não podemos adormecer –
reforçou. – Ou perdemos o tempo que ainda nos resta juntos.
- Tens mesmo de me lembrar
disso?
A noite corria mágica e
desenfreada. Apetecia-me amá-lo mais uma vez, mas ele levantou-se da cama com
um salto. Ordenou-me que me vestisse enquanto ia recolhendo as suas roupas que
se espalhavam pelo quarto.
Senti falta do calor, do
perfume dele. Queria era tê-lo comigo, dentro de mim, ao meu lado, debaixo de
mim, sobre mim, dormindo ou acordado, queria era simplesmente tê-lo. Mas também
saí daquela cama alvoroçada, manchada e amarrotada, que tinha o odor peculiar
de sexo consumado várias vezes.
- Vamos passear.
- Passear? – Admirei-me.
- Hai. Não querias que eu te desse as estrelas? Pois vou dar-tas.
Fui até ao roupeiro e vesti
um vestido, cobri-me com um casaco porque era de madrugada e tinha arrefecido,
calcei uns sapatos com um laço, tão embonecados que sorri para os meus pés.
Apanhei a mão que ele me estendia, fomos até à janela, abriu-a. Agarrei-me a
ele, segurou-me pela cintura e saltámos para o vazio. Não consegui evitar um
grito ao sentir a ausência da gravidade, mesmo que a queda fosse controlada.
Escutei a gargalhada que soltou e aninhei-me na curva do ombro dele, respirando
novamente o perfume adorável, aconchegando-me no calor tentador.
A brisa noturna carregou-nos
pelos céus. Sobrevoámos West City, vi o jardim onde tinha estado com Son Goku
naquela tarde, entrevi a cúpula da Capsule Corporation, apreciei deliciada o
meu último voo. Pois com quem iria eu voar na Dimensão Real, por cima das
cidades e dos montes?
Trunks aterrou numa pequena
colina de um bosque das cercanias. No horizonte escuro tremeluzia um mar de
luzes que pertencia à grande metrópole ocidental que nunca adormecia
verdadeiramente. Por cima de nós tínhamos o esplendor da abóbada celeste e ele
abriu os braços, exibindo todas as estrelas que me conseguia ofertar naquele
instante.
- Oh, Trunks! Tão… bonito!
Ficámos a contemplar aquele
espetáculo, estendidos no chão, num silêncio reverencial. As estrelas moviam-se
devagar no céu violeta e acho que adormeci embalada nesse movimento lânguido.
Sei disso porque despertei estremunhada com um beijo que me inundou a boca de
calor.
- Eu disse-te que não podias
adormecer.
- Gomen nasai… - balbuciei.
Sorria-me, debruçado sobre
mim. Pensei que iria arrancar-me o vestido e que iríamos fazer amor mais uma
vez, mas observou-me simplesmente. Depois disse melancólico, como se fosse um
pensamento que se lhe tivesse escapado:
- Amanhã regressas à tua
dimensão e eu nunca mais te vou ver.
Sentei-me.
- Trunks… Não quero falar
disso agora. É a nossa… última noite.
- Mas temos de falar,
precisamente porque é a nossa última noite. Ou então vão ficar coisas por
dizer.
- Vão sempre ficar coisas
por dizer. É impossível falarmos tudo o que temos para dizer um ao outro.
- Acho que não.
- Tu és tão…
Olhou-me com um meio
sorriso.
- Convencido! – Acrescentei
irritada.
- Tu adoras-me assim.
- Isso chega a ser
insuportável, Trunks Brief.
Estávamos os dois sentados,
ele tinha os braços sobre os joelhos fletidos. Baixou a cabeça entre as pernas,
pareceu-me definhar de tristeza. Disse-me:
- Julgas que não aceito a
tua decisão, mas aceito-a. Não concordo é que o faças já amanhã, podias esperar
mais uns tempos e só depois ires embora… Depois de saber o que te vai
acontecer, prefiro que partas, mesmo que isso me desgrace o coração. Prefiro
saber-te viva, mas longe de mim, a saber-te morta por teres ficado comigo.
As lágrimas apareceram, tão
inesperadas e inoportunas. Limpei a cara num gesto seco, aborrecida por ter
sucumbido à emoção daquela confissão.
- Vou sentir tanto a tua
falta… Trunks.
- Eu também vou sentir a tua
falta. Sabes que te amo, Ana.
Era a primeira vez que dizia
que me amava. Endireitei as costas, sentia-me tensa. Ia responder-lhe, mas ele
interrompeu-me acrescentando:
- Quero que te lembres de
mim.
- Todos os dias. Todos…
- Vou dar-te uma coisa que
quero que uses, na tua dimensão. Vai ajudar-te a que nunca te esqueças de mim,
de todos os momentos que passámos juntos.
- Mas eu não me vou esquecer
de ti.
- Oh, quem sabe?… Haveremos
os dois de reconstruir as nossas vidas… Mais tarde, quando a dor acabar. E
depois a memória vai ser tão distante, que até nem vai parecer memória, mas um
sonho louco de uma tarde de outono.
- Não! – Gritei horrorizada.
Sorriu-me. Levou a mão ao
interior da blusa que vestia. Mostrou-mo e arrepiei-me quando o vi brilhar
sobre a palma das mãos dele.
- O Medalhão de Mu! - Exclamei.
Os dois triângulos estavam
separados, as correntes douradas balançavam levemente e o sol desenhado no
centro estava apagado. Após a surpresa inicial, recordei que aquele era um
objeto perigoso para ele. Assustei-me e roubei-lhe o medalhão.
- Tu não podes tocar nisto!
- Só se estiver unido.
- Como é que o encontraste,
Trunks? Pensei que depois do fim de Zephir isto se tivesse desintegrado. Havia
tanta luz…
- Encontrei-o nos escombros
do pátio onde foi utilizado no altar mágico. Foi mesmo antes de virmos embora,
vi qualquer coisa a brilhar e descobri admirado que era o medalhão. Como estava
separado, apanhei-o. Escondi-o, não contei nada a ninguém. Acho que por as duas
metades estarem na Terra, nesta dimensão, irão continuar por aqui.
Apertei os triângulos como
me habituara a fazer, reconheci o toque e estremeci de satisfação. Era
delicioso, fazia-me regressar ao passado, transportava lembranças de quando
fizera o mesmo. As memórias que era suposto emular. A mão de Trunks agarrou a
minha, a que segurava a segunda metade do amuleto.
- O Medalhão de Mu tem duas
metades. Eu ficou com uma, tu ficas com a outra. Essa é a tua metade.
- Hai - concordei.
Com dedos trémulos enfiei a
corrente dourada da segunda metade do Medalhão de Mu pela cabeça. Era a metade
mais especial, pelo menos para mim. Tinha sido uma dádiva de Shenron e das
magníficas bolas de dragão. Ele colocou ao pescoço a primeira metade do
Medalhão de Mu e anunciou:
- Quando o Medalhão de Mu se
voltar a unir, nós voltaremos a ver-nos.
Abracei-o num impulso,
enchendo-me de perfume e de calor. Queria-o para sempre naquele abraço. Os dois
triângulos tocaram-se, retinindo ao de leve. Senti o metal palpitar, reagindo à
proximidade da outra metade. Apesar de nos unir, também nos separava e empurrei
Trunks assustada com uma possível reação do medalhão que acabasse por
prejudicá-lo. Ele riu-se.
- Não sabia que o medalhão
fazia isto.
- Às vezes, parece que está
vivo – confessei.
- Interessante. Vou aprender
a conviver com esta coisa.
- Vais usá-lo sempre?
- Tu também o vais fazer.
- Oh… Claro que sim.
Voltei a cabeça para oriente
e descobri uma faixa azul clara que indicava que o dia ia nascer. Empalideci. O
tempo tinha passado inexorável e tinha-se esgotado. E eu tinha estado
distraída, ocupada, docemente alheada. Talvez tivesse sido melhor assim, não
sentira a picada dos segundos a passar, a areia a escoar-se para a metade
inferior da ampulheta. Trunks estava levantado.
- Temos de regressar.
- Para onde? – Perguntei.
Levantei-me com a ajuda da
mão que ele me estendia. Olhou-me com uma expressão vazia.
- Tens de ir dormir alguma
coisa, Ana. Não vais fazer a maior viagem da tua vida num estado lastimoso.
Quero-te bonita, porque vais enfrentar uma audiência respeitável. Todos os
amigos da minha mãe vão lá estar e eles querem ver a heroína que nos salvou de
Zephir. Não podes aparecer como uma condenada à morte a subir o cadafalso.
Estranhei:
- Que conversa é essa?
- Vamos. Mais uns minutos e
estamos em casa.
- Trunks…
- O dia que escolheste para
a viagem é perfeito. Vais tê-los a todos para te dizerem adeus.
- Explica-te, não te estou a
perceber.
- Os heróis de “Dragon
Ball”… nena.
Falou-me em castelhano, com
o timbre da voz que tinha quando eu o conhecera, porque não sabia ainda falar
português. Pensava que ali, na dimensão onde pertencia, ele só soubesse falar
com o timbre da voz japonesa.
- Como é que fizeste isso?
Não me esclareceu. Agarrou
em mim e dirigimo-nos para West City, voando calados e sem qualquer resquício
do romantismo inocente do primeiro voo. E foi em silêncio que percorremos os
corredores da Capsule Corporation, de mão dada. Com passos resolutos
encaminhava-me para o meu quarto. Depois de me ter obrigado a comer, haveria de
me obrigar a dormir e comandava-me como se eu precisasse de um guia para me
orientar as atitudes.
A aurora clareava tudo,
afastando a noite mais inesquecível da minha vida. E talvez o dia acabasse por
quebrar o encantamento da noite e mudasse o Trunks que eu conhecia para aquele
rapaz distante, calculista e frio como um pedaço de gelo. Ou estava disposto a
transformar-se nesse rapaz, para suportar a minha ausência.
Inesperadamente, puxou por
mim. Parámos.
Perguntou-me:
- Quem é o teu personagem
favorito de “Dragon Ball”?
Dei uma risada.
- Ora… És tu!
Repetiu a pergunta:
- Quem é o teu personagem
favorito de “Dragon Ball”?
- És tu.
- Quem é o teu personagem
favorito?
Fazia-me a pergunta sério, quase
rude. Acabei com o sorriso, mas insisti na resposta:
- És tu, Trunks.
Ele respirou fundo,
contrariado.
- Quem é o teu personagem
favorito de “Dragon Ball”?
Engoli em seco.
- Porque é que me estás a
perguntar isso?
Pressionou-me os dedos da
mão. Estava a irritá-lo e as sombras do corredor tornavam-no assustador.
- Responde ao que te
perguntei.
Baixei os olhos.
- Mirai Trunks.
Tornou a pressionar-me os
dedos da mão.
- Porquê? E quero que olhes
para mim quando me responderes.
Fiz o que ele me ordenava.
- Porque… precisava ser
amado. Tinha perdido quase tudo o que lhe era querido, era demasiado solitário…
Introspetivo. Mas continuava a sentir esperança. Tinha o orgulho do pai, a
força da mãe, a sabedoria do mestre, havia gentileza nos seus gestos. Tinha uma
tenacidade sem igual. Era bonito… na sua solidão. Lutou e cresceu sozinho,
suportou todas as tristezas que era possível suportar, mas acabou por vencer.
Acredito que deve ser feliz, agora. Quero que seja feliz, pois ele merece sê-lo.
Houve silêncio, que foi
físico e esquisito. Movi a mão para me libertar de Trunks. Por um momento, não
quis que ele me tocasse.
Sorriu-me, os olhos azuis
dele estavam brilhantes.
- Mas esse Trunks… não sou
eu, Ana.
Admirei-me. Continuava sem
perceber o que queria ele provar com aquela conversa.
- Eu sei que não és tu.
- Mas cheguei a ser, não
foi? Quando me conheceste na Dimensão Real e quando me chamava Tiago.
- Não te estou a perceber…
- Através de mim…
conseguiste amar o teu querido mirai
Trunks. Que precisava de ser amado.
Foi ele que acabou por me
soltar a mão. Acariciou-me a face com dois dedos, numa carícia ligeira, como se
tivesse medo de me partir em mil pedaços.
- Não digas isso – pedi-lhe.
- É ele que tu amas, não sou
eu. Este Trunks convencido, presunçoso e que consegue sempre, sempre… tudo o
que quer.
Não fui capaz de rebater o
que me dizia. Não me indignei, protestei, nem sequer neguei o que me afirmava tão
convicto.
- Minha doce Ana. Jamais te
esquecerei.
Fiquei muda, a tentar
encontrar um argumento que conseguisse provar, sem qualquer margem de dúvida,
que ele estava errado, quando ao mesmo tempo confirmava dentro de mim, no meu
interior calado e resignado, que aquela era a verdade, sim, que eu gostava era
de mirai Trunks.
E a nossa despedida foi
aquela.
- Perdoa-me se te
dececionei.
- Tu não…
Calou-me com um beijo.
As nossas bocas ficaram
unidas numa humidade doce, que nunca mais se iria repetir. Sentia-lhe a mágoa
nos lábios, quase como se a saliva fosse parte das lágrimas que não queria chorar
ao pé de mim, por causa de mim.
Segurava-me na cara com
ambas as mãos, olhou-me. Acho que me sorriu ao de leve, mas também podia ter
sido apenas confusão das sombras do corredor.
Afastou-se, às arrecuas, a
aumentar o plano sobre a minha pessoa, um grande realizador de cinema a amar a
sua atriz favorita com a câmara, captando-a no silêncio de um palco nu, a reter
o meu rosto, o meu busto, o meu corpo inteiro e perpétuo no filme da sua mente.
Aquele preciso instante, a Ana da Dimensão Real, de pé, no corredor da Capsule
Corporation.
Continuava a parecer-me que
me sorria ao de leve, a mágoa vestindo-o de cima a baixo.
Foi-se embora.
Deixou-me sozinha e foi o princípio
do meu mundo sem ele.
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