Cheirava a queimado. Abri os
olhos devagar.
Deitava-me de borco em cima
de grandes pedregulhos regados de areia. Alguém se aproximava. Não tive ânimo
para me mexer e não iria fazer nada para me proteger do que aí vinha.
Simplesmente, estava exausta.
Não queria pensar muito,
doía-me até essa simples coisa que era pensar, pois havia algo que ligava os
meus pensamentos ao coração e deste até à alma e aos ossos. Estava demasiado
sensível também, qualquer mudança no ambiente que me rodeava disparava
mensagens equívocas que puxavam à emoção e à lembrança. Recordava-me por que me
encontrava ali, deitada de borco em cima de um pedregulho. O começo fora
inocente, semelhante a um sopro que desfaz um dente-de-leão. Mas essa era uma
certeza, uma verdade incontornável e toda eu estremecia ao considerá-la uma
afirmação insofismável. Tudo começara porque eu me apaixonara pelo rapaz
errado.
Assim… Em revolução na minha
mente enevoada, a frase retumbante, quase tão maravilhosa quanto aquela luz que
destruíra o ambicioso feiticeiro.
Eu apaixonara-me pelo rapaz
errado.
Mas a aventura tinha sido
inesquecível e eu não me arrependia de nenhum passo dado, nenhuma decisão
tomada, mesmo que me sentisse igual a uma carcaça quebrada, deitada de borco em
cima de um pedregulho e que estivesse rodeada de ruínas. Talvez uma alegoria ao
que iria ser, dali para a frente. A seguir à luz e à vitória, os escombros de
uma existência apagada.
Voltei a estremecer,
gemendo.
Precisava que me salvassem,
urgentemente e talvez não fosse daquele pedregulho e daquelas ruínas, mas de
uma imagem desconchavada de um futuro que não me pareceu totalmente meu.
As divagações cessaram.
Alguém se aproximava e parou
junto a mim, ajoelhou-se nos pedregulhos. Içou-me e aconchegou-me num abraço
tão delicioso que eu sorri enlevada, derretendo-me no calor dele. Pestanejei,
queria vê-lo, tentei vê-lo, mas a imagem veio distorcida.
- Ven-vencemos… – sussurrei.
- Hai, Ana-san – disse Son Goku igualmente num sussurro. – Vencemos.
E, sabendo-me a salvo, nos
braços do meu herói, caí num sono profundo.
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