O Medalhão de
Mu era um objeto invulgar.
Agarrei na
corrente dourada e coloquei-o ao pescoço.
Olhei-me ao
espelho.
Era curioso,
mas o medalhão tinha vindo com uma corrente, como se fosse uma indicação
inequívoca que seria para usar ao pescoço. Era pesado, amarelo, ostensivo. E
também invulgar.
Não desfitava
o espelho. Pareceria vaidade a quem me visse, estava somente hipnotizada pelo
aspeto que me conferia a Dimensão Z e não conseguia apartar o olhar da imagem
que me devolvia o espelho. Era capaz de me reconhecer, os traços estavam lá
todos, os pequenos detalhes que faziam de um rosto algo único, mas agora estava
tudo ampliado. Grandes olhos, nariz arredondado, boca pequena, a pele branca e
lisa, cabelos volumosos. Em suma, um desenho animado e arrepiava-me porque era
como se um artista me tivesse feito um retrato para criar uma heroína de banda
desenhada japonesa.
Depois olhava
para o medalhão, para não me fixar demasiado no meu rosto que me era estranho,
apesar de detetar neste, sem sombra de dúvida, as minhas feições de sempre. E
concluía invariavelmente que o medalhão era um objeto invulgar.
Começava por
não ser redondo, mas triangular. As minúsculas saliências que tinha num dos
lados indicava que era ali que se encaixaria a outra metade e que, uma vez
juntas, formariam um perfeito triângulo equilátero. No centro ficaria um
círculo com raios, a representação de um sol, com inscrições a toda a volta
numa língua indecifrável. O outro lado era liso.
Assim, ao meu
pescoço, não passava de um adereço comum, uma bijuteria adquirida numa qualquer
loja de centro comercial, e não lhe senti nenhum poder especial. Era apenas um
medalhão invulgar.
Humedeci os
lábios. Assentei as mãos na cintura, inclinei a cabeça para a direita. Recuei
alguns passos para conseguir ver-me de corpo inteiro, até aos pés. Vestia
finalmente roupa normal que Bulma me tinha emprestado. Bem, já era a segunda
vez. Guardava dentro do armário, na minha dimensão, o conjunto de camisa e
calças que ela me tinha dado quando almoçara pela primeira vez com eles e
esperava sinceramente poder devolver-lhe as roupas assim que fosse possível. Mas,
com aqueles últimos desenvolvimentos, duvidava seriamente que o iria fazer.
Vestia uma
blusa amarela de decote redondo e manga curta, justa ao corpo, debaixo de um
casaco azul que me dava pela cintura, de meia manga. Usava finalmente um soutien que me moldava o peito,
tornando-o maior. Vestia ainda umas calças de ganga curtas, bainha acima do
tornozelo, meias brancas e sapatilhas encarnadas de atacadores também
brancos.
- Se queres
saber, continuas igual.
Olhei para a
porta do quarto que estava aberta. Trunks sorria-me.
- És tu, Ana,
com um corpo da Dimensão Z.
- Honto?
Trinquei a
língua, continuava sem perceber por que falava eu em japonês e percebia o que
dizia e o que me diziam.
- Igualzinha…
Mais bonita, até.
- Só estava a
ver-me… Ainda não me tinha visto.
Aproximou-se.
Abandonei o espelho, a cisma com a minha imagem que me perturbava, admitia-o.
Reparou no meu pescoço.
- Estás a
usar o medalhão?
- Não o devia
usar?
- Bem, o
feiticeiro quer esse medalhão.
- E quer-me a
mim também. Sou um isco ambulante, com ou sem esta coisa.
Cruzou os
braços.
- Ei… Estás
na minha casa, comigo. Mesmo que sejas um isco ambulante, não precisas ter
medo. Irei proteger-te. Tens mais gente que te irá proteger.
- Eu sei…
- O meu pai
incluído.
- Vegeta!
Acredito que sim, apesar de querer estrangular-me sempre que me vê.
- Sabes como
ele é…
- Por acaso,
até sei.
Ele olhou em
volta.
- Gostaste do
teu quarto? Espero que estejas bem alojada.
Tinha passado
aquela noite ali, depois de termos chegado das montanhas. Estava cansada, não
me demorara a classificar o meu novo alojamento, aceitara-o agradecida e mais
nada. Deitara-me na cama e adormecera imediatamente. Quando acordara tomara um
duche na casa de banho privativa do quarto, já tinha a muda de roupa lavada à
minha espera e uma bandeja com o pequeno-almoço. Melhor que um hotel.
- Está tudo
perfeito. Não podia pedir mais.
O rosto dele
fechou-se. Desabafou:
- Hum… Conto
passar alguns dias em casa. Preciso de uma pausa.
- Achas que o
feiticeiro não vai atacar? Procurar por mim e pelo medalhão? Ele sabe que
pedimos o medalhão com a ajuda das sete bolas de dragão, não é estúpido.
- O mais
provável é isso acontecer. Mas agora, não quero falar no feiticeiro. Preciso
mesmo de um pouco de descanso.
Sorri-lhe.
- Aquele par
de dias na cabana das montanhas não foram suficientes?
- Foram
trabalho. – Sorriu-me de volta. – Estivemos a proteger-te, lembras-te? Os
sentidos sempre alerta, a trabalhar para comer.
- Não estavas
sozinho. Eu gostei desses dias… Para mim, foram quase como umas férias.
- Aposto que
sim… Gostas da Dimensão Z.
Acenei
afirmativamente, sem perceber e que queria ele alcançar com aquela afirmação.
- Claro que
gosto. Estou contigo, no teu mundo…
- Sabes que o
tempo aqui corre de maneira diferente da Dimensão Real?
Fiquei preocupada.
- O que
queres dizer?
- Já se
passaram quase quatro dias desde que chegaste, o que significa que se passaram
quase quatro meses na Dimensão Real.
Tapei a boca
com as mãos, escandalizada com a revelação.
- Ah! –
Exclamei. – Estou desaparecida há… quatro meses?!
- Já deves
estar em todos os jornais e televisões – observou com um sorriso torto. A
situação divertia-o. E depois percebi porquê quando acrescentou: – Será muito
difícil voltares e conseguires explicar onde estiveste durante esse tempo todo
em que estiveste desaparecida. Vão achar que estás louca.
- Já te tinha
dito que não vou a lado nenhum.
Encostou-se à
cómoda, por cima da qual se pendurava o grande espelho retangular, braços
cruzados.
- Tens a
certeza? – Perguntou.
Respondi, a
ficar nervosa porque ele estava tão sério:
- Claro que
tenho a certeza. A Dimensão Z é o teu lugar e quero estar onde tu estás…
Diz-me: mesmo que, por hipótese, quisesse regressar, saberias indicar-me como
fazê-lo?
Abanou a
cabeça, encolheu os ombros.
- Mas deve
haver uma maneira – disse-me, apartando o olhar.
- E isso é
importante agora? – Murmurei e espreitei o meu perfil no espelho. Realmente
aquele soutien fazia-me o peito
maior.
Acabou por
responder após uns momentos de silêncio:
- Não, não é.
Não vamos falar disso agora, pois não?
Olhou-me
intensamente, o azul límpido daqueles olhos a aquecer-me lentamente, como se me
estivesse a cozer em fogo lento. Tinha medo que eu me fosse embora e eu tinha
medo de me ir embora. Um pressentimento que nos fazia resguardar a alma e não
sermos totalmente sinceros. Abanei a cabeça, disse-lhe que também não queria
falar daquilo. Esquecer o feiticeiro, por uns tempos era uma excelente ideia,
porque até naquilo Zephir interferia.
Os dedos dele
esticaram-se até ao medalhão. Desviei-me.
- Não toques
nisso.
- Achas que
me vou desintegrar?
- Acho!
Riu-se. Os
dedos desistiram do medalhão, subiram, tocaram-me na face, ao de leve. Um
contacto mínimo, apenas com a superfície da pele, lânguido, em câmara lenta, a
prometer pressão mas a esquivar-se à profundidada de um toque normal. Fiquei
excitada e corei. Ele sorriu-me.
- Goten já
sabe que gosto de ti – revelou. – Conseguiu descobri-lo, mesmo antes de lhe ter
pedido que se afastasse naquele dia, na cascata, o que por si só é um milagre,
porque ele nunca percebe nada do nada.
- E não se
importa de perder o melhor amigo para uma rapariga que vem de uma dimensão
esquisita?
- Ele também
está apaixonado.
- Por quem?
- Maron, a
filha de Kuririn-san.
- Ah, que
interessante. E ela também gosta dele?
- Vai gostar.
Estranhei.
- Vai gostar,
como? Ainda não gosta dele?
Continuei a
falar, para ver se me acalmava, porque ele aproximou-se, eu continuava excitada
e corada e se ele continuasse não conseguiria dominar o desejo que me estava a
transtornar:
- Como é que
não se pode gostar de Son Goten? Ele é tão… adorável. Dá vontade de apertar nos
braços, como se fosse um peluche.
Trunks apoiou
as mãos na cómoda, entalou-me entre ele e o móvel, debruçou-se sobre mim.
- Para com
isso ou vou ficar com ciúmes.
Lembrei-me
que tinha gostado de abraçar Goten no colchão da cabana e corei mais ainda. A
ponta do nariz dele tocou na minha.
- O que é que
estás a fazer? – Perguntei.
- Estou a
tomar posse, mais uma vez, daquilo que é meu.
- Tu
consegues sempre tudo o que queres?
- Sempre.
- Isso
torna-te um pouco… presunçoso, não achas?
- E depois?
Dá-me também um certo encanto.
- Ah! Super
presunçoso. Pode chegar a ser desagradável.
- Tu gostas.
- Continuas a
esticar a corda.
- E estás a
implorar-me que vá mais longe.
- O que
queres dizer, Trunks Brief?
Calou-me com
um beijo.
Coloquei as
mãos em cima dos ombros dele e pressionei para tentar afastá-lo de mim, que me
empurrava decidido para cima da cómoda, forçando-me a abrir as pernas.
- Espera!
Estamos… na tua casa.
Sorriu. Agora
também ele estava corado.
- A Capsule
Corporation tem mais de duzentos quartos. Se estás a pensar que a minha mãe, ou
eventualmente o meu pai, ou até a minha irmã, vai aparecer aqui, esquece. É
virtualmente impossível. Cada um está no seu canto, nos seus afazeres.
- Mas… A
porta… está aberta – tentei explicar.
Beijou-me
demoradamente. Empurrou-me suavemente, moderando a força imensa que possuía e
era um deleite perceber como se controlava comigo, que era tão frágil para ele
como uma escultura de papel. Sentei-me na cómoda, enrolei as pernas na cintura
dele.
- E não
gostas do perigo? – Arfou enquanto me trincava a orelha. – Deixa a porta
aberta…
- Ah… Trunks
– suspirei. – Não…
Exercia sobre
mim um poder que derrubava qualquer pedaço de vontade que pudesse contrariar o
que ele queria. Era irritante que conseguisse sempre levar a dele avante, mas
essa faceta possessiva também me excitava e odiei-me por me entregar daquela
forma tão despida e incondicional. Mas era curioso como esse tipo de entrega acendia
ainda mais os sentidos.
Despiu-me o
casaco, apalpou-me os seios por cima da blusa, do soutien. Os lábios dele brincavam com os meus, chupando, trincando.
Tornei a suspirar o nome dele, aquecendo-o com esse murmúrio ardente. O calor
fazia ricochete e incendiava-me a seguir.
- Trunks-kun,
disseram-me que estavas aqui. Vinha saber se…
Aquela voz
sobressaltou-nos e interrompeu tudo.
A cena rubra
de desejo apagou-se subitamente. O vermelho converteu-se em preto.
Pestanejei
como se tivesse estado a sonhar e procurasse despertar de um sonho erótico que
ultrapassara as fronteiras do mundo irreal e que se estendera ao plano físico.
Trunks puxou-me da cómoda, escondeu-se atrás de mim.
Goten olhava
para nós com a cara a arder, qual estátua parada na porta aberta.
Sussurrei
para Trunks:
- Pensava que
tu e ele tinham uma ligação especial e que ele conseguia sentir o que tu
sentias e que só aparecia quando tudo estivesse terminado.
- Tenho de o
avisar primeiro. – Pigarreou. – Ei, Goten, o que é que fazes por aqui?
- Eu… Eu
posso voltar mais tarde – gaguejou.
- Não voltas
nada. Diz-me lá o que é que queres? Se já fizeste a viagem… - Acrescentou em
surdina: – E se já me interrompeste, baka…
- O que é que
fazes atrás de mim? – Perguntei-lhe entredentes.
- Tenho de me
acalmar. Espera mais um pouco e já saio daqui.
Mostrei um
sorriso forçado, tentava compor a cena embaraçosa, mas Goten evitava a todo o
custo olhar para mim e julgo que nem olhava para o amigo. Os olhos dele focavam-se
num ponto qualquer acima dos cabelos de Trunks.
- Eh… Pensei
em aparecer para irmos até ao nosso local secreto e… treinar. Treinar contigo.
Mas estás ocupado e posso voltar noutro dia…
De repente,
Trunks saiu das minhas costas, enfiando as mãos nos bolsos das calças.
- Está bem,
não tinha mesmo nada para fazer esta manhã. Vamos treinar. Devemos estar na
nossa melhor forma quando enfrentarmos os guerreiros do feiticeiro, para que
não volte a acontecer o que aconteceu na primeira vez que estivemos no templo.
Comecei a
pentear os cabelos com as mãos, Trunks olhou para mim e parei.
- A Ana vai
connosco. Já não estamos nas montanhas, mas devemos continuar a protegê-la. Até
porque ela tem o medalhão.
Vi os olhos
de Goten passarem, de relance, por aquilo que eu usava ao pescoço.
- Hai – concordou sem hesitar.
- Espera
aqui, vou só vestir o meu dogi. Serei
rápido.
Saiu do
quarto.
Vesti o
casaco devagar. Sorri para Goten que analisava os meus gestos e ao perceber que
tinha-o descoberto a fixar-se em mim, resmungou um pedido de desculpas e girou
os calcanhares, ficando de costas para mim.
- Espero que
não te importes em levar-me atrás.
- Não, claro
que não – respondeu-me sem se voltar. – Tenho passado os últimos dias contigo.
- É verdade.
Já deves estar farto de mim.
Encarou-me.
- Não. Tu és
uma boa companhia.
- Só que não
sei lutar.
- As
raparigas, normalmente, não sabem lutar… Acho que isso é mais um defeito da
minha família.
- A Maron
sabe lutar?
Corou
escandalosamente.
- Ups… -
Franzi a boca. - É um segredo?
Encolheu os
ombros.
- Acho que já
deixou de ser segredo…
- Mas eu não
conto a ninguém. Juro!
Soprou o ar
com que tinha enchido as bochechas.
- Hai, a Maron sabe lutar – respondeu.
Compreendi
aquilo que ele vira nela, o encanto sublime de uma mulher lutadora, defeito de
família sem dúvida e sorri. Confessei divertida:
- Bem, já vi
que sou uma boa companhia mas que podia ser melhor.
Trunks voltou
vestindo um dogi verde, uma versão
adulta daquele que costumava usar quando era miúdo. Fui às cavalitas dele,
sobrevoando West City numa viagem pelo ar que me divertiu por ter tido o que
observar abaixo de mim, o rebuliço peculiarmente colorido de uma grande
metrópole. Aterrámos num bosque que ficava próximo, num sítio amplo e muito
verde. Sentei-me na relva, debaixo da sombra de uma árvore frondosa.
Os treinos
começaram. Sem ataques flamejantes, sem super
saiya-jin, combinaram previamente, o que acabou por transformar a ocasião numa
exibição pouco emocionante de técnica e de força. Adormeci alguns minutos, embalada
no calor primaveril da manhã, despertei com as gargalhadas de Goten quando
Trunks se tentava levantar depois de um soco que o tinha apanhado desprevenido.
Deixei-me
ficar onde estava. Levava a mão ao medalhão e brincava com ele, passando o
polegar pelos desenhos, sentindo cada um dos raios do sol, cada um dos
estranhos símbolos que fariam parte de uma língua antiga. Perguntei-me quem
teria sido esse Mu que dera o nome ao medalhão, perguntei-me o que me estaria
ainda reservado. Pensei no feiticeiro e interroguei-me se ele também pensaria
em mim, se andava à minha procura com a sua magia diabólica. Dormitei outra
vez.
E sonhei que
via a minha dimensão por um telescópio gigantesco. A lente no fim do enorme
tubo mostrava-me uma versão reduzida e cinzenta do que tinha acontecido antes
de ter interagido com Trunks, rebobinando o filme rapidamente, as cenas
sucedendo-se do fim para o princípio. Detestei ver aquilo, queria tirar o olho
do telescópio mas não conseguia.
- Nunca mais
quero voltar para ali!
O meu grito
despertou-me, porque o feiticeiro dizia-me que não e ameaçava-me com uma mão
esquelética onde brilhavam umas unhas afiadas.
***
Goten
estendeu-se na relva, braços e pernas abertos. Trunks sentou-se ao lado dele.
Os dois suavam copiosamente, mas sorriam um para o outro e elogiavam-se
mutuamente.
- Estamos a
melhorar bastante. Se enfrentássemos hoje os dois demónios do feiticeiro, o
resultado seria bem diferente.
- Podemos
voltar a treinar amanhã se quiseres, Trunks-kun.
- Hai. Vamos treinar todos os dias. Até
sermos chamados novamente para a ação.
- Quando é
que isso irá acontecer?
- Sei lá… Até
pode ser agora, Goten.
- Ah, não me
importava nada. Sinto-me em plena forma.
- Olha que os
demónios são imortais.
- Mas deverão
ter algum ponto fraco.
- Talvez…
Bati palmas,
fingindo que tinha acompanhado o treino ao pormenor.
- Parabéns,
rapazes!
Olharam os
dois para mim, com sorrisos cansados e não consegui apontar qual o que me
parecia mais bonito naquele momento. Eram os dois deslumbrantes, devido certamente
ao sangue alienígena que lhes corria nas veias. Continuei em jeito de troça:
- São grandes
campeões, dignos de honrarem a memória de Mr. Satan! Qualquer dia, até poderão
ser aceites na sua escola de artes marciais.
Trunks soltou
uma gargalhada. Deu uma cotovelada ao amigo, Goten sentou-se e puseram-se os
dois a erguer o braço, de punho fechado a um ritmo constante, fazendo em coro a
saudação característica dos apoiantes do campeão:
- Sa-tan!
Sa-tan! Sa-tan!
Bati mais
palmas.
- Mr. Satan é
um grande campeão, seria uma honra frequentar a escola dele – concordou Goten divertido,
limpando o suor da testa com o braço. – Mr. Satan é uma lenda, salvou-nos a
todos quando eliminou o terrível Cell. E também quando acabou com Majin Bu, apesar de ninguém se lembrar
que isso aconteceu.
Fiquei mais
séria.
- Como é que o
mundo inteiro acredita que foi Mr. Satan que eliminou o Cell quando existe um
filme em que se consegue ver todos os grandes guerreiros da Terra, incluindo
Son Goku que se enfrentou ao monstro com melhores resultados que esse fanfarrão
que se intitula de grande campeão?
Goten olhou
para Trunks.
- Esse filme
ainda existe, não é? – Perguntei.
- Acho que
sim – respondeu Goten.
- Nunca o
vimos – acrescentou Trunks e levantou-se. Goten levantou-se atrás e eu também o
fiz. – Mr. Satan proibiu que o filme fosse exibido, depois de ter aparecido
numa transmissão televisiva há alguns anos atrás, levantando algumas questões
incómodas. Acho que todas as cópias foram destruídas e a única que existe está
guardada num cofre na mansão de Mr. Satan.
- Questões
incómodas? Pudera! – Exclamei. – A começar pela exibição humilhante frente a
Cell, que expulsou o grande campeão do tatami
com apenas um golpe, a acabar nas imagens dos guerreiros. Não é preciso ser
muito inteligente para conseguir identificar os quatro saiya-jin no meio desses guerreiros e deduzir que só eles teriam a
capacidade necessária para acabar com o monstro.
O olhar de
Trunks foi estranho.
- Quatro saiya-jin? – Perguntou-me. – Mas só
havia três saiya-jin nessa altura
disponíveis para lutar.
- Não,
quatro. – Mostrei os dedos da mão que fui dobrando à medida que ia dizendo: -
Goku, Gohan, Vegeta… e mirai Trunks.
Goten
meteu-se entre mim e Trunks dizendo alto:
- Eh, não
estás com fome? Eu estou com fome, muita fome. Os treinos deixam-me sempre
esfomeado… Vamos comer, Trunks-kun?
Trunks
empalidecera.
- Na-nani? – balbuciou.
Provavelmente,
Mr. Satan tinha agido corretamente ao ter encerrado o filme do torneio de Cell
no seu cofre pessoal, dentro da sua mansão, porque causava tantos problemas,
levantava tantas questões. Um gesto ajuizado que evitava tantos prejuízos
estéreis.
Trunks
afastou Goten, colou-se a mim.
- Quem é esse
mirai Trunks?
Fechei a
boca, olhei para Goten que estava mortificado.
- É… Ninguém
importante. – Forcei um sorriso. - Olha, eu também estou com fome. Vamos comer?
Mas Trunks
não desarmava. Agarrou-me pelos braços.
- Responde-me!
Mirai Trunks era um saiya-jin adulto na época do torneio do
Cell? De onde é que ele veio?
- Bem…
Olhei para Goten
que abanou a cabeça. Olhei para Trunks. Respondi, porque as mãos dele
apertavam-me os braços:
- Veio do
futuro, numa máquina do tempo. De um futuro diferente, de um mundo que tinha
sido destruído pelos humanos artificiais número 17 e número 18 e onde Son Goku
tinha morrido com uma doença cardíaca e não estivera presente para tentar
salvar a Terra. Fez a viagem para modificar este
mundo e construir outro futuro.
Soltou-me com
um safanão. Afastou-se numa corrida veloz e levantou voo, na direção de West City.
Sustive a
respiração.
- Ele não
sabia…
- Não –
confirmou Goten.
- Porque é
que ninguém lhe contou? – Perguntei e o meu coração deu um salto.
- Não sei…
- E tu
sabias?
- Hai. Gohan costumava contar-me as
histórias dos grandes combates do passado quando eu era mais pequeno.
- E por que é
que nunca lhe disseste?
- Não sei…
Nunca foi importante ou necessário.
Esfreguei os
braços, o sítio onde ele me apertara estava a doer-me.
- E agora
também não é importante ou necessário, pois não? Oh… fiz asneira.
O sorriso de
Goten tentava tranquilizar-me.
- Algum dia
ele haveria de descobrir que existiu esse mirai
Trunks.
- O que é que
vai acontecer agora?
- Agora,
tenho de te levar comigo, porque ainda estamos longe de West City e nunca mais
lá chegas se fores a pé.
Olhei-o
desconcertada. Tentava gracejar para que me esquecesse da tempestade que tinha
acabado de provocar ao ter falado mais do que devia, mas a sua atitude
sorridente destoava dos olhos que estavam tão tristes. Como os meus, sabia-o e
talvez aquela tristeza fosse uma resposta à minha e vice-versa.
Aceitei a
boleia, não podia fazer outra coisa. Subi para as costas dele, abracei-me com
força e, ao contrário da primeira viagem, não me encantei com o regresso. Só
pensava em Trunks e no choque estampado no seu rosto lívido ao conhecer um
segredo do passado.
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