Toynara sentiu um arrepio. Voltava a casa.
Saiu das cavalitas de Ubo, a controlar a emoção avassaladora de
contemplar novamente o Templo da Lua, mesmo que estivesse parcialmente
destruído e envolto numa névoa maligna. Adotou a postura própria de um digno filho
da Deusa Suprema da Noite e depois olhou para o rapaz.
No céu aconteceu uma explosão. Ubo apontou excitado:
- Estão a lutar. É Goten-san!
A tensão sacudiu-lhe o pequeno corpo esguio e musculado. Toynara percebeu
como a energia crescia dentro de Ubo, acumulando-se sem que se conseguisse ver
um limite. A ânsia dos guerreiros estava-lhe no sangue. Toynara observou-o em
silêncio. Estava decidido a fazê-lo e atuou.
Ubo ia dizer-lhe que ficasse ali pois iria aproximar-se do combate,
Goten-san podia precisar de ajuda. Travou-o com uma mão. Uniu dois dedos sobre
a testa do rapaz, emudecendo-o. Tinha uma mente forte, mas ingénua e infantil,
fácil de subjugar. O feitiço surtiu efeito imediatamente, Ubo não teve tempo
para protestar ou escapar. Quando Toynara recolheu o braço, os olhos de Ubo
fecharam-se e caiu, a dormir profundamente.
O seu destino morava no Templo da Lua e Toynara estava pronto para
enfrentar o seu destino. Rumou para lá, decidido. Desde o dia em que acordara
curado de todos os seus ferimentos, que sonhava com aquele dia. E preparara-se.
Durante a estadia no Palácio Celestial, com toda a paciência, fortalecera-se na
magia. Encerrara-se em si mesmo numa meditação própria, vagueara pelas sombras
de um sítio longínquo e inacessível aos descrentes. Agora, achava-se finalmente
pronto.
Entrou no pátio principal, os pés deslizaram pelas lajes negras. As
ruínas do Santuário das Oferendas não o afetaram, nem a lembrança fugidia que o
Salão da Luz estava feito em pedaços. Nada o distraiu.
A terra tremeu. Dos portões escancarados apareceu o amaldiçoado. A leitura
do espírito dele mostrava que estava agitado, aterrorizado, encolerizado. Mas a
frieza do rosto ocultava na perfeição esses sentimentos menores.
Encontraram-se. Toynara observou-o. O seu maior inimigo.
- Voltei.
As trevas e o mistério vibraram com a voz do jovem sacerdote. Ao
longe, um relâmpago iluminou o céu e um trovão ribombou poderoso.
Os olhares eram vazios, mas carregados.
Zephir e Toynara não se mexeram, postados diante um do outro, no
centro do pátio principal. O mundo deixou subitamente de existir e ficaram
apenas os dois sacerdotes do Templo da Lua.
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