Não sabia explicar porque o fazia, mas
fazia-o.
O robot
deslizou pela oficina a apitar suavemente dirigindo-se para a porta aberta.
Saiu e deixou Bulma sozinha, sentada diante do computador que se ligava por um
grosso fio negro à máquina das dimensões. Dedilhava o teclado com firmeza,
concentrada nas informações que corriam no monitor.
Carregou na tecla Enter. Analisava o programa que tinha compilado, corrigindo-o para funcionar
corretamente: calcular de forma automática as coordenadas da Dimensão Z e da
Dimensão Real dentro do universo das dimensões possíveis. Afortunadamente,
quando da viagem interdimensional que ela e todos os outros amigos de Son Goku
tinham feito, o computador estava ligado na garagem da vivenda e fixara os
parâmetros da Dimensão Real. O temporizador também gravara na pequena memória a
data e a hora exatas da partida, o que significava que assim que conseguisse
que o programa calculasse os parâmetros da Dimensão Z, bastava substituir alguns
componentes do painel eletrónico, ajustar a consola interior dos comandos,
tornar o habitáculo apresentável e a máquina das dimensões ficaria finalmente
pronta.
Fazia o que Vegeta lhe pedira, incomodada por
saber que aquele mostrengo que ela abominara desde o início haveria de causar
um rombo, talvez impossível de sarar, no coração do filho. No entanto, no fundo
da alma, sabia que Vegeta tinha razão e que deveriam combater o feiticeiro com
todas as armas.
Mas haveria outra solução, pensava. Poderiam
combater Zephir com a arma que ele esgrimia soberbo, convencido que não havia
outro capaz de o rivalizar naquela arte: a magia! Se tivessem um feiticeiro do
lado deles, a anular todos os intentos de Zephir, a desfazer o que Zephir
construía, a ultrapassar Zephir em qualquer plano que gizasse, talvez
derrotá-lo fosse, afinal, uma coisa simples de se alcançar.
Uma lista infindável de números passava no
monitor. Até ali parecia que tudo estava a correr conforme o planeado. Uma luz
ténue azulada brilhava-lhe no rosto. Sem desviar o olhar do monitor, agarrou na
caneca e sorveu um pouco de café.
A porta da oficina abriu-se. Ela não se
voltou. Estava à espera de um dos robots
mecânicos que iriam ajudá-la a desmontar a parte inferior da máquina das
dimensões para remodelar o local onde iria ser inserido o motor energético. Se
estava na sua dimensão, iria afinar aquele mostrengo até à perfeição. Haveria
de sentir orgulho daquele projeto que a frustrara tanto nos últimos tempos.
No entanto, em vez de um robot mecânico, ouviu uma voz.
- Bulma-san?
Sobressaltada, levantou-se da cadeira.
O aspeto desleixado não a deixou reconhecê-lo
à primeira.
Depois, veio outra dúvida. Se ele era tão
dotado para as artes marciais e tão forte, por que razão não acompanhava Son-kun
na guerra contra Zephir?
Ele reparou no computador ligado.
- Bulma-san… Gomen nasai. Vejo que estava
a trabalhar.
Ela sorriu para o tranquilizar.
- Não é nada de importante. Não me estás a
interromper, Ubo-kun. – Mentia, pois queria saber o que fazia ele ali. – É a
primeira vez que me visitas na Capsule Corporation.
- Eh… Hai,
vim visitá-la, Bulma-san. Mas… – Baixou a cabeça. – Mas também vim para saber
uma coisa.
O acanhamento de Ubo era estranho. Bulma
puxou uma cadeira e disse simpática:
- Senta-te, Ubo-kun. Vou pedir que nos tragam
alguma coisa para comer. Leite e bolachas. Talvez um bolo… Aqui só tenho café.
Os olhos do rapaz eram como duas pérolas
negras, opacas, escondendo algo.
- Não é preciso, não tenho fome. Arigato… Bulma-san, não me vou demorar
muito. Vim perguntar-lhe se sabe onde é que Goku-san está.
- Goku? Estás à procura dele?
- Hai.
Ele… Desde que viemos da Dimensão Real que ele foi embora da ilha e… Disse-me
que voltava logo, mas ainda não voltou e nunca mais deu notícias.
Bulma estranhou, franziu um sobrolho. Tentou
explicar:
- Ele não deve ter tido tempo para dar
notícias, acho… Desde que chegámos à nossa dimensão não tem parado. Primeiro,
esteve no Templo da Lua. E agora anda à procura das bolas de dragão, com
Vegeta.
- É por causa de… de Zephir?
- Hai,
Ubo-kun. Existe um medalhão que Zephir não poderá obter. Goku e Vegeta estão a reunir
as sete bolas de dragão para pedir a Shenron esse medalhão. Temos de combater
Zephir com todas as armas.
E espreitou a máquina das dimensões.
Ubo aquiesceu com a cabeça em sinal que
percebia.
Nisto, o pensamento de há pouco, enquanto via
uma lista numérica correr no monitor do computador, reapareceu. Ela estremeceu.
Outra solução era, de facto, possível!
Perguntou:
- Ubo, sabes onde fica o Palácio Celestial,
onde mora o kami-sama?
- Hai.
Nunca lá fui, mas Goku-san ensinou-me o caminho.
- Ótimo! Preciso que vás ao Palácio Celestial
buscar uma pessoa. Fazes-me esse favor, Ubo-kun?
- Hai.
- No Palácio Celestial está um rapaz que se
chama Toynara. É um antigo sacerdote do Templo da Lua que conseguiu sobreviver
quando Zephir atacou o templo. Quero que o tragas para a Capsule Corporation, preciso
falar com ele. Compreendido?
- Hai.
Bulma admirou-se com a disponibilidade do
miúdo.
- Não me vais perguntar porque é que te estou
a pedir que me tragas esse rapaz?
- Será por causa de Zephir, não é?
- Hai.
O sorriso de Ubo foi tranquilizador, mas,
curiosamente, não combinou com o seu olhar, que continuava negro e opaco.
- Devemos todos combater Zephir – disse ele.
– A Terra está em perigo.
- Ah… E por que é que não estás com Goku a
lutar contra os guerreiros de Zephir?
Os cantos da boca de Ubo descaíram,
estilhaçando o sorriso.
- Goku-san diz que… que sou muito pequeno
para lutar.
- Muito pequeno? – Estranhou Bulma.
Aquela era uma novidade! Nunca Gohan fora
considerado muito pequeno, nem o seu filho Trunks, nem mesmo Goten, quando
estavam a braços com terríveis inimigos como Freeza ou Cell ou Majin Bu. As crianças saiya-jin tinham lutado sempre ao lado
dos guerreiros adultos e eram muito mais jovens do que Ubo, que já contava com
treze anos. Talvez a regra se aplicasse apenas às crianças saiya-jin.
Ubo afastou-se às arrecuas.
- Bulma-san, vou imediatamente para o Palácio
Celestial buscar Toynara-san. Não me vou demorar. Prometo.
- Queres uma cápsula hoi-poi para ires até ao Palácio Celestial? Tenho aqui comigo um veículo
aéreo que inventei há dois anos e que é muito fácil de pilotar.
- Arigato,
Bulma-san. Não será necessário. Já sei voar, a técnica Bukuujutsu foi das primeiras que Goku-san me ensinou.
Despediu-se com um aceno de cabeça e saiu da
oficina calmamente. Só no corredor é que desatou a correr. Bulma sorriu. Os
modos educados de Ubo eram engraçados em alguém da sua idade.
***
Ubo não levou muito tempo a chegar ao Palácio
Celestial. Assim que os seus pés descalços tocaram nas lajes brancas do recinto,
encontrou o olhar perplexo do kami-sama.
- Ubo-kun?
Devia-lhe o maior dos respeitos, porque era o
ser mais sagrado da Terra e a sua cabeça inclinou-se numa profunda reverência.
- Ubo-kun, o que fazes aqui?
- Venho buscar uma pessoa que se chama
Toynara.
Um rapaz, que estava junto aos canteiros que
Mr. Popo regava, olhou para ele sem uma expressão definida no rosto. O kami-sama deixou cair o bordão de
madeira, Mr. Popo parou de regar as plantas
- Toynara?! Quem é que te falou de Toynara?
Ubo lembrou-se de Goku a perguntar-lhe aflito
quem é que lhe tinha falado de Zephir. E o kami-sama
usara o mesmo tom de voz que o irritava. Dominou a sombra que lhe endurecia o
coração. Ocultou ferozmente a raiva surda que lhe aqueceu o sangue.
- Disseram-me para vir buscá-lo – respondeu.
– Alguém acredita que poderá ajudar a lutar contra Zephir.
As palavras saíram pesadas da boca do kami-sama:
- Foi Goku-san que te falou de Zephir?
As perguntas estavam a incomodá-lo. Olhou
para o rapaz. Continuava impassível, como que distante daquele lugar, deslocado
de qualquer lugar.
- Toynara-san, pode confiar em mim. Irei
levá-lo para um lugar seguro, tão seguro como o Palácio Celestial.
Toynara ficou calado, medindo o que ouvira.
Depois disse:
- Acredito nele.
O kami-sama
perdeu a paciência e exclamou:
- Não, Toynara! Tu não podes sair daqui!
- Devo ajudar-vos a derrotar Zephir. Ficando
aqui, continuarei apenas a ser um fardo.
- Concordo contigo. Mas peço-te que esperes
que Son Goku e Vegeta encontrem as bolas de dragão. Depois…
- Poderá ser tarde demais.
Uma rajada de vento silenciou a cena.
Toynara dobrou-se numa vénia demorada.
- Agradeço-vos a hospitalidade. Foi para mim
uma honra inimaginável ter estado no Palácio Celestial.
A seguir, anunciou:
- Estou pronto para partir.
Ubo aproximou-se do rapaz.
Mr. Popo colocou-se atrás do kami-sama, como se o fosse amparar se
ele resolvesse cair de indignação, por estar a ser desafiado. Tinha um olhar
esgazeado e suava copiosamente. Escondia o jogo e Ubo detestava que lhe
escondessem o que quer que fosse.
Toynara encavalitou-se nas suas costas e Ubo
saltou para o vazio. No embalo do vento, a raiva que lhe incendiara a alma
desapareceu e sentiu-se menos prisioneiro da sombra que se alimentava dos seus
pensamentos sombrios, o que era estranho porque nunca soubera que existia
aquilo dentro dele.
Espreitou o sacerdote que se mantinha calado.
Apesar de não lhe ter perguntado nada, achou que deveria esclarecê-lo:
- Estamos a ir para West City, Toynara-san.
Foi Bulma-san, uma amiga de Goku-san, que me pediu que o levasse para a Capsule
Corporation. Quer conversar consigo.
Mas se o esclarecimento ajudara a aplacar
qualquer fímbria de curiosidade, Toynara não esboçou o mínimo indício de que
assim acontecera. Manteve-se mudo, petrificado, lutando para manter aquela pose
altiva mesmo a ser chicoteado com o vento das alturas.
A viagem decorria em silêncio, quando Ubo
sentiu uma impressão. Esfregou o peito incomodado e então ouviu a voz de
Toynara:
- Apesar de seres tão jovem, já és um grande
guerreiro. Vejo que és muito forte, Ubo.
Pelo canto do olho viu que Toynara continuava
na mesma pose.
No entanto, mesmo sem mover os lábios, ele continuou
a falar-lhe:
- A Terra precisa de ti. Também deverás combater
Zephir. Queres combatê-lo?
Cerrou os dentes. A sombra ria-se dentro
dele, onde a voz do sacerdote ressoava.
- Não vamos para West City… Tu não queres ir
para West City. Queres ir para o Templo da Lua. E eu sei o caminho para lá.
Deixa-me guiar-te.
Conseguiu contestar, com um murmúrio, a
vontade a quebrar-se:
- Bulma-san está à nossa espera na Capsule
Corporation.
- O sacerdote que conhece os pontos fracos de
Zephir e o guerreiro mais poderoso da Terra… Nada nos irá derrotar no Templo da
Lua. Seremos vitoriosos. Até agora, Son Goku não tem conseguido descobrir a
solução para eliminar Zephir. Tem perdido todas as batalhas, uma por uma,
apesar de julgar o contrário. Mas eu sei como eliminar Zephir, sei o que é
preciso fazer para acabar de vez com esse maldito que nos ameaça a todos… Só
que preciso também da tua força, Ubo. Ajuda-me! Vamos terminar esta guerra…
Hoje. Tu e eu.
Ubo susteve a respiração.
- Vamos para o Templo da Lua.
O sussurro de Toynara foi estranhamente
convincente.
E Ubo obedeceu.
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