Bra espirrou
e o seu espirro ouviu-se a quilómetros. Pan saltou com o susto. O eco perdia-se
pelo corredor afora. Atirou-se para cima dela e tapou-lhe a boca.
- Queres que
descubram a nossa presença? – Sussurrou zangada.
Como não
podia falar com as mãos da amiga na cara, negou com a cabeça, os olhos azuis a
brilhar, murmurou uma desculpa que soou como:
- Hummm… Hum.
Pan soltou-a.
Colou o dedo indicador nos lábios e pediu:
- Shhh… Pouco
barulho, estamos na casa do inimigo.
- Devem estar
a falar mal de mim, Pan-chan.
- Anda, vamos
continuar.
O Templo da
Lua era feio, pensou Bra. Demasiado escuro, frio, silencioso, com estalidos
estranhos e suspiros que saíam das paredes. Era feito de muitas casas quadradas
umas em cima das outras, como se tivessem sido despejadas do céu e ficado
conforme tinham caído. Uma parte estava em ruínas, lançando rolos de fumo para
a atmosfera, o que significava que tinha sido destruída recentemente.
Pan caminhava
à frente, liderando a diminuta comitiva.
- Estamos à
procura do quê? – Perguntou-lhe em surdina.
- Do
feiticeiro.
- Ahn?! E
isso… não será perigoso?
- Vamos
dar-lhe uma lição. E não vai ser perigoso, porque somos saiya-jin.
- Pois, mas…
- Mas, nada!
Estamos aqui para lutar contra Zephir.
Bra fechou a
boca, numa linha direita. Apertou os punhos, amaldiçoando a sua falta de
coragem e embrenhou-se de tal maneira nos seus pensamentos que não deu pela
amiga ter parado e enfiou-lhe uma marrada nas costas. Pan puxou-a pelo dogi.
- Vem
esconder-te!
Esgueiraram-se
para um buraco na parede, junto a uma coluna. Uns segundos depois, alguns
bichos pretos saltitaram pelo corredor, passaram sem que se tivessem apercebido
da presença delas e sumiram-se numa curva mais adiante.
- Ah! O que
era aquilo? - Perguntou Bra com os olhos muito abertos.
- Não sei…
Que criaturas tão feias. Vamos, o feiticeiro não deve estar longe.
Prosseguiram,
agora com cautelas redobradas para não voltarem a encontrar mais bichos pretos.
No fim do corredor descobriram uma porta e, passada a porta, estava um pátio
interior. Entraram e descobriram, sob a luminosidade esparsa da manhã que
nascia, uma estátua negra, enfeitada com um colar de flores brancas. Bra
analisou a escultura com uma careta.
- O que será?
- Talvez… uma
deusa – respondeu Pan com outra careta.
- É…
- Feia?
Parece, mas depois… deixa de parecer.
- Achas que é
uma estátua enfeitiçada?
- Hai, Bra-chan. Esta é a deusa do
feiticeiro. A lua.
- Hum… Mete
medo. – E Bra girou a cabeça para deixar de olhar.
Sentiu uma
cotovelada nas costelas, um toque leve mas impertinente. Olhou para Pan
espantada.
- Tu estás
com medo? Então, não és uma verdadeira saiya-jin?
A insinuação
irritou-a. Crispou os punhos.
- Eu não
tenho medo de nada.
- Ah, não?
Parece que tens medo de uma estátua de pedra que está ali parada e que não te
pode fazer mal nenhum, a não ser que caia em cima de ti. Mesmo assim, duvido
que te magoe, porque tens os músculos preparados.
- Ah,
cala-te, Pan-chan. Queres que eu te provo que não estou com medo?
- Quero. Vai
ali e tira uma flor do colar da estátua.
- Pois tiro!
Pan olhou de
relance por cima do cabelo apanhado em rabo-de-cavalo de Bra, o desafio ainda a
sair-lhe da boca, a amiga já a alçar o braço, a preparar o salto para responder
ao desafio e viu um movimento perturbador. Raios! Aquela pequena conversa
tinha-lhe roubado a concentração e esquecera-se completamente de estar atenta
às deslocações de energia. Puxou pelo dogi
de Bra, para afastá-la daquela criatura enorme que, pelo aspeto, só podia ser
um dos demónios do feiticeiro.
A criatura
sorria-lhes. E ainda a sorrir disse:
- Ora, ora… O
que temos nós aqui?
O ki indicava que era muito forte, um
adversário formidável. Pan arrepiou-se ao tentar medir mentalmente aquela
energia desmesurada mas, estranhamente, a alma vibrou-se-lhe de alegria por
encontrar alguém tão poderoso com quem pudesse medir a sua força. O sangue saiya-jin aqueceu dentro das veias.
A criatura
ficou séria e rugiu:
- Intrusas! E
vão pagar o preço por terem entrado num sítio que não deviam perturbar. –
Volveu os olhos vermelhos para Bra, pois parecia-lhe a mais impressionável.
Inclinou-se ligeiramente, apoiando os punhos na cintura e revelou divertido: –
Sabias que como meninas ao pequeno-almoço? E hoje ainda não tomei o
pequeno-almoço…
Bra nem
pestanejou. Se estava assustada, escondia muito bem o que estava a sentir. Pan
preparou-se para intervir. Iria tentar um golpe que o deixasse atordoado,
esperava consegui-lo para fugirem dali, já que a criatura tapava a porta, a
única via de fuga. Mas antes de se lançar no que planeava, Bra fê-lo – atacou a
criatura. Desferiu-lhe um pontapé com tanta força nos queixos que a criatura
acabou estendida no pequeno pátio, batendo com a cabeça na parede criando um
conjunto de rachas.
Pan abriu a
boca de espanto. Bra desatou a fugir pelo corredor, atravessando a porta
desimpedida e chamou por ela com um grito:
- Não fiques
aí, baka! Não vês que ele vai
levantar-se?
A criatura
apoiou o queixo numa mão, rugindo:
- Kuso!... Ninguém ataca Kumis desta
maneira e fica impune!
Antes que Pan
pudesse reagir, a criatura levantou-se com uma agilidade surpreendente e
disparou um raio de energia que reduziu a porta a escombros. Apontava a Bra,
que se escapulira pelo corredor. Pan chamou pela amiga, voltou-se, ia
impulsionar-se para sair daquele pátio a voar. Ainda viu o rosto da estátua
negra e pareceu-lhe que aquela boca de pedra se torcia num sorriso malévolo.
Piscou os olhos, distraiu-se nesse milésimo de segundo e a sua oportunidade
esfumou-se. Uma manápula agarrou-se à sua perna e deu-lhe um puxão tal que o
chão chocou violentamente contra as suas costas. Pan gemeu com a dor que a
paralisou.
A claridade ensombrou-se
e ela viu o demónio parar à sua frente. Apertou os dentes, estava em
desvantagem, à mercê daquele adversário. Mas nunca iria dar a conhecer como era
inferior naquele combate. E talvez nem precisasse. Talvez a criatura soubesse.
Isso
irritou-a. Ela era filha de Gohan e de Videl. Ela era a neta de Son Goku!
A criatura
inclinou a cabeça para a esquerda, sorrindo.
- Adeus,
intrusa.
Mostrou-lhe
uma mão ameaçadora, dedos abertos. Pan reagiu, movida pelo instinto da
preservação. Antes de receber o disparo da criatura, esticou também o seu braço
e envio um ataque de ki. Era fraco,
uma descarga mínima, a energia que tinha latente no braço, mas serviu para
surpreender a criatura que não se conseguiu defender e apanhou com este em
cheio na cara. A expressão sorridente desapareceu numa nuvem de fumo. Pan
levantou-se, ia fugir, mas apanhou com um pontapé em cheio nas costelas e
tornou a cair, cuspindo uma bola de sangue.
As gargalhadas
da criatura furaram-lhe os tímpanos que zuniam.
- Dás luta e
gosto disso… Muito bem, queres brincar. Então, vamos brincar mais um pouco,
intrusa.
Pan arquejou.
Tinha de ser
mesmo muito rápida, sem pensar na precisão do ataque, apenas na força deste.
Uma coisa desesperada, inconsequente sabia-o, mas não sabia o que mais podia
fazer para se escapar.
Atacou a
criatura, saltando para cima desta com um punho em riste. O soco foi defendido
facilmente, a criatura insistia nas gargalhadas. Ela tentou outros socos e
pontapés, numa luta corpo-a-corpo que estava a cansá-la, sabia-o, mas também
que distraíam a criatura que continuava a rir.
Então,
afastou-se, uniu as mãos diante de si, soltou um grito profundo e disparou uma
esfera energética vermelha como o sangue que se revolvia com a saliva dentro da
sua boca. A explosão engoliu a criatura e uma convulsão tremenda varreu o pátio.
A estátua negra da deusa e o colar de flores brancas desapareceram no mar de
fogo.
Pan fugiu,
esgueirando-se por uma racha maior que se abrira na parede mais afastada.
Correu até as pernas lhe doerem, sem olhar para trás. Ao perceber que não
estava a ser perseguida, parou. Encostou-se, a tentar conciliar a respiração, a
perceber que os corredores tinham escurecido e que tinha descido escadas
enquanto corria desatinada. Olhou em volta, engoliu a saliva que tinha o
peculiar sabor metálico do sangue. O coração batia frenético. Lembrou-se que
tinha perdido Bra de vista e dispôs-se a procurá-la, ficando atenta ao ki da criatura para não ter outro
encontro desagradável. Esfregou o estômago, não lhe apetecia lutar outra vez
com o demónio Kumis.
Apareceram mais
daqueles bichos pretos, escondeu-se e esperou que passassem. Teve sorte, não
foi descoberta e retomou a caminhada. Não conseguia detetar o ki de Bra e assustou-se.
Viu luz mais
adiante e correu para lá. Era uma sala cuja porta estava entreaberta e entrou.
Em cima de um
altar, ladeado por dois castiçais onde ardiam as velas que iluminavam a sala,
estava um livro aberto. Espreitou as páginas amareladas e não conseguiu perceber
uma palavra do que lia, pois era uma língua estranha, cheia de símbolos
esquisitos. Lembrou-se que o pai lhe dizia sempre que os livros eram muito
importantes e murmurou:
- Isto deve
ser um livro de magia. Deve ser o livro de Zephir.
Passou uma
folha e apareceu o desenho de um monstro com grandes dentes que a sobressaltou.
Fechou o livro com um safanão, soltando uma baforada de pó. Tossiu um pouco e
resolveu levar o livro com ela.
- Se levar
isto comigo, ninguém se vai zangar comigo por ter vindo até ao templo do
feiticeiro. Pode ser que isso ajude o ojiisan
a derrotá-lo.
Puxou o
livro. Mas, ao fazê-lo, encalhou num pequeno vaso azul cheio de terra que
também estava no altar. Ainda tentou agarrar no vaso, mas este escorregou-lhe
da mão e caiu no chão partindo-se.
- Ups…
Os cacos do
vaso tremiam. Da terra saiu uma nuvem de fumo negro que tentava tomar forma.
Ouviu-se um guincho, Pan estremeceu de medo e recuou para a porta. Mas como a
terra estava toda espalhada e já não se continha dentro do vaso encantado, a
nuvem diluiu-se e a forma que guinchava também se diluiu e antes de ser o que
estava programada para ser, feneceu num silêncio agonizante.
- Era… um
daqueles bichos pretos…
Voltou-se
para a porta. Deparou-se com outro bicho preto, mas real e ameaçador, não era
nenhuma nuvem disforme de fumo. Preparou a defesa, mas o livro atrapalhou-a. O
bicho foi rápido e socou-a na barriga.
Enraiveceu-se
por ter sido atingida. Utilizou a mão direita para esmurrar o bicho. Viu a
carantonha descrever uma curva, escutou os ossos de alguma coisa parecida a
pescoço estalar. E viu também a raiva nos pequenos olhos vermelhos do bicho.
Mas não viu o golpe traiçoeiro que o bicho lançou com as garras em riste.
Pan deu um
passo atrás. A face esquerda estava aberta com um rasgão doloroso. Susteve a
respiração com o ardor que lhe paralisou o rosto. Encarou o bicho que guinchava
satisfeito por tê-la atingido. Largou o livro. Solta daquele peso, conseguiu atacar
o bicho com um pontapé que o enviou pelos ares. Antes de este cair no chão, fritou-o
com um disparo de energia.
Uma náusea obrigou-a
dobrar-se, quase a vomitar. Ouviu o matraquear de passos no fundo do corredor.
Um bando de bichos pretos aproximava-se. Afastou a tontura, agarrou no livro e
começou a correr. Ao fim de alguns metros, tropeçou e caiu. Estava ofegante e
não percebia o que é que lhe estava a acontecer. Levantou-se resoluta. Não
podia sucumbir, porque tinha com ela o livro de magia do feiticeiro.
Abriu um
buraco no teto e saiu dali a voar. Queria fugir, não pensava mais em Bra. Tinha
uma missão mais importante do que resgatar a amiga, pensava confusa. Tinha de
guardar aquele livro com ganas, com a própria vida. A cabeça era um remoinho de
tonturas que nasciam da face e subiam e desciam, conquistando-lhe todo o corpo.
O sol matutino
queimava-lhe a pele e provocava-lhe uma estranha sede de água fresca. Cruzava
os céus, os olhos já tinham deixado de ver, movia-se por instinto. E disse,
alucinada, a enfraquecer:
- Casa… Quero
ir para casa… ’Tousan, tenho o livro
de Zephir.
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