Atrás de uns arbustos
cerrados, que formavam uma muralha verde natural, escondia-se a lagoa. As suas
águas eram tão transparentes que se via o fundo de seixos coloridos. Uma
cascata alimentava a lagoa, numa torrente límpida proveniente de uma depressão
rochosa mais acima, transbordando adiante para um ribeiro que descia pelas
montanhas. Nas margens da lagoa havia rochas lisas como plataformas e plantas
aquáticas viçosas nascendo entre os pedregulhos onde havia terra escura. Em
redor, árvores antigas, gigantes mudos que filtravam a luz do sol e espalhavam
uma sombra fresca.
- Que sítio lindíssimo! –
Exclamei.
Son Goten sorriu.
- Era aqui que vinha nadar
com o meu pai e com Ubo.
- Bem, já devias ter contado
que este sítio existia – censurou Trunks. – Há dois dias que preciso de um
banho!
- Estamos cá há dois dias,
Trunks-kun…
- Exatamente!
Era a manhã do segundo dia
nas montanhas e fazia calor. Estávamos todos necessitados de um encontro demorado
com a água, concordei.
O primeiro dia decorrera
modorrento. Trunks e Goten sentiam demasiada falta um do outro e estiveram
juntos praticamente todas as horas. Quisera compreender, lembrando-me das
lágrimas de Trunks na minha dimensão. Acabara por compreender, admitira-o com
relutância. Mas ser relegada para segundo plano magoava-me e irritava-me.
Estava roída de ciúmes.
No entanto, inesperadamente,
as coisas emendaram-se.
Adormecera dentro da cabana,
entediada e sozinha. Goten fora buscar-me, quando a tarde descaía para o fim.
Dissera-me que estavam a preparar um banquete, que haviam caçado um par de
javalis, mas que tínhamos de os comer longe. Tinham acendido uma fogueira que
podia denunciar a nossa presença nas montanhas e, por isso, o local era
afastado da cabana. Perguntara-me por que razão era Goten que me vinha buscar e
não Trunks, mas aceitei a boleia. Encavalitara-me nas costas dele e voáramos
pela floresta, rodeando as árvores, tão velozmente que fechei os olhos pois
afligia-me parecer estar quase a chocar com os troncos.
Sentara-me numa das três
pedras que se dispunham em redor da fogueira. A carne a assar cheirava
maravilhosamente bem, estava cheia de fome. Os dois rapazes tinham tratado de
tudo. Para além dos dois javalis havia amoras, maçãs e uns frutos estranhos,
como cabaças listadas.
Goten ficara a tratar do
fogo e Trunks sentara-se na pedra junto à minha. Dera-me a mão. Olhara-o
espantada com o gesto. Ele sorria-me com ternura, um brilho incandescente nos
olhos azuis. Derretera-me, rendera-me, quisera chorar de felicidade.
Sorrira-lhe de volta. Dera-me um beijo na cara, singelo e doce. Estávamos a
fazer as pazes, ou, pelo menos, eu com ele. Perdoara-lhe toda a indiferença,
percebera que se continha pois Son Goten estava ali connosco. Percebera que
entre ele e Goten nunca haveria de existir interferências.
Enquanto se servia o
repasto, entre piadas e risadas, Trunks provocando Goten, Goten respondendo a
Trunks, tomara a decisão de não forçar nada – estava na dimensão dele, as
regras era ele que mas ditaria.
***
A água da lagoa parecia-me
fria, mas tentadora. A manhã prometia mais um dia de calor nas montanhas e não
suportaria continuar sem me lavar. Já bastava não ter roupa decente com que me
vestir.
Trunks disse:
- Quem vai primeiro?
- Podemos ir ao mesmo tempo
– argumentou Goten.
E sem esperar réplica, como
se fossem apenas um só, com um pensamento único perfeitamente sintonizado,
Trunks e Goten saltaram para a lagoa. Os dois afundaram-se, lançando uma
potente vaga de água que salpicou o sítio onde eu estava. Num reflexo, tapei a
cara com o braço esquerdo para me proteger, mas fiquei com os cabelos molhados.
Goten veio à tona, Trunks
apareceu a seguir. Esguichou água da boca. Chamou-me, acenando:
- Ana, vem!
Olhei para os limites do
pedregulho. A descida afigurava-se complicada, porque era a pique e uma altura
considerável separava-me da superfície da lagoa. Olhei para trás, à procura de
uma ladeira que me levasse até às margens. Trunks percebeu.
- Salta! – Pediu, tornando a
acenar. – É mais divertido.
- Saltar?
- Não tenhas medo. Estou
aqui.
Recuei um par de passos. Dei
uma ligeira corrida. Encolhi as pernas, agarrando-me aos joelhos. Fechei os
olhos, retive o ar nas bochechas.
A água penetrou no meu corpo
num abraço gelado. Encolhi-me com a sensação abrupta de ter passado do calor
para o frio. Sacudi os pés e alcancei a superfície, saltando, abrindo os braços
e espalhando um véu líquido em redor. A água doce era macia, não ajudava a
flutuar como a água salgada do mar e sentia-me sem sustentação. Esbracejei,
consegui alcançar um ponto da lagoa em que tinha pé e ergui-me, penteando os
cabelos molhados para trás com as mãos. Sorri com a sensação boa de estar a
lavar o suor e a poeira dos dias anteriores.
Quando abri os olhos tinha
Goten na minha frente, tão corado que, se enfiasse a cara na água, esta era
capaz de ferver.
- O que é que se passa? –
Perguntei.
- Ana-san… - gaguejou e fez
surgir timidamente o dedo indicador. – A tua… t-shirt.
- O que é que tem a minha t-shirt?
Olhei para baixo.
Tinha um grande problema.
Era branca e estava molhada, colada ao corpo, a realçar os contornos dos seios,
os mamilos escuros, todos os detalhes. Enfiei-me dentro de água, corando
também.
- Ah… Gomen nasai, Goten.
- Eu é que não devia ter
olhado… Gomen nasai, Ana-san.
E afastou-se com uma
braçada.
- Podes tratar-me apenas por
Ana.
Espreitou-me.
- Hum?
- Ana… É o meu nome. Não é preciso
que me trates por Ana-san. Afinal, somos quase da mesma idade.
Sorriu-me.
Trunks emergiu junto à
cascata. Chamou pelo amigo, para experimentar mergulhar ali, no centro da
torrente ruidosa. Goten submergiu, nadou debaixo de água até onde estava o
amigo.
Aproveitei para descontrair
e também nadei. Apanhei alguns seixos, pesava-os na mão, largava-os sentindo a
mão mais leve. Se fechasse os olhos eram como se fosse seixos e água da minha
dimensão. Adorava enganar-me dessa maneira, mentir que era tão real e concreto
como o meu mundo. Mas não passava de uma fantasia deliciosamente colorida e eu
era igual à fantasia, desenhada e animada. E queria ficar assim para sempre.
Os dois rapazes, como se
fossem ainda apenas miúdos, brincavam, chapinhando, rindo-se. Engoliam água no
meio da brincadeira, ouvia o gorgolejar quando algum se engasgava, os gritos de
prazer pueril. Perdiam-se entre as bolhas e a espuma, numa canseira louca,
divididos entre a superfície e as profundezas, competindo, provocando-se,
estreitando ainda mais a amizade que existia entre eles.
Saíram da lagoa, trepando
como macacos pelas pedras lisas que ladeavam a cascata. Fizeram uma competição
de saltos e de cambalhotas. Eu continuei a descontrair-me e a nadar, dando-lhes
todo o espaço. As saudades ainda não estavam inteiramente mitigadas e aqueles
dias sarariam as feridas abertas, os mal-entendidos gerados. Trunks precisava
de se reencontrar, de ser o Trunks que tinha sido antes de ter ido parar à
minha dimensão.
Desapareceram por alguns
instantes. Ouvi-os rirem atrás da vegetação enquanto ensaiavam uma espécie de
treino. Não conseguiam ficar muito tempo sem lutar, era contrário à natureza
guerreira deles. Escutei os golpes e as gargalhadas, as tiradas espirituosas,
as réplicas engraçadas.
Sorri. Descobri que adorava ver
Trunks feliz.
***
Boiava no centro da lagoa,
olhando para o céu que se escondia atrás das copas das árvores que fechavam num
abraço verde e protetor aquele recanto do paraíso. Por momentos, esqueci-me que
aquilo não era umas férias.
A água moveu-se subtilmente,
alguém entrava na lagoa deslizando como um crocodilo silencioso. Voltei-me e
descobri Trunks. Estava encantador com o rosto molhado, os cabelos púrpura
colados à testa, os olhos cintilando com os matizes das gotas de sol refletidas
na superfície da lagoa. Adorei-o naquele segundo.
O meu sorriso desapareceu
quando ele se colou a mim.
- Onde é que estão as tuas
roupas? – Perguntei.
- Não vamos precisar de
roupas.
- Não… vamos? Nós…?
Beijou-me de repente. Com um
gesto rápido tirou-me a t-shirt,
desenfiando-a pela cabeça. Afundei-me envergonhada na lagoa até ao queixo, mas
esta era tão transparente que se veria tudo.
- Trunks! O que é que pensas
que estás a fazer?
Beijou-me outra vez,
trincando-me ligeiramente o lábio inferior.
- Tem sido uma tortura estar
contigo e não te poder tocar como quero.
- Eh… O que é que queres
dizer?
- Não aguento mais.
O beijo seguinte foi ainda
mais demorado. As mãos desfizeram o nó do cinto que me prendia as calças.
Tocou-me nos quadris, puxando-me para si, aconchegando-me ao corpo dele debaixo
de água. Afastei-o, pressionando-lhe os ombros.
- Espera! E Goten?
- Mandei-o embora. Disse-lhe
que precisava estar contigo.
Procurou pela minha boca,
desviei-me ligeiramente para poder continuar a esclarecer aquela situação.
- Mas ele pode voltar…
- Não vai voltar enquanto
não acabar.
- E como é que ele vai
saber…?
Lambeu-me o pescoço até à orelha,
cheirando-me, aquecendo-me a pele.
- Eu e ele temos uma ligação
especial – explicou, beijando-me. – Somos irmãos, conseguimos comunicar mesmo
sem palavras. Ele irá saber quando deve voltar. Não te preocupes, Ana… Estamos
sozinhos.
Olhei em volta para me
certificar que era mesmo assim, que estávamos sozinhos. Distraiu-me com novo
beijo.
Agarrou em mim pela cintura,
sentou-me em cima dele. Estávamos numa zona menos funda da lagoa, os meus
joelhos rasparam nos seixos. Enrolei os braços em redor da cabeça dele.
Sorrimos um para o outro.
Acariciei-lhe o rosto
devagar, limpando com os meus dedos frios o excesso de água.
- Vai ser diferente –
sussurrou-me ele. – Tens o corpo da minha dimensão.
- Continuo a confiar em ti.
Fizemos amor entre as
plantas aquáticas, numa rocha lisa e quente, banhados por um raio de sol.
Lembro-me de ter visto borboletas por cima de nós, de ter visto estrelas em
plena luz do dia.
Quando terminámos, olhou-me
com intensidade.
- Irei lutar sempre para que
fiques comigo. És minha. Não irei abrir mão de ti… Nunca!
Respondi-lhe:
- Não irei a lado nenhum.
Fechei os olhos,
embalando-me num último beijo.
Sem comentários:
Enviar um comentário