Sentado no
seu cadeirão favorito, acendeu um charuto e começou a fumá-lo religiosamente. O
fumo saía-lhe da boca em argolas perfeitas. Quando praticava aquele ritual,
conseguia relaxar-se totalmente ao ponto de não pensar em nada. O médico já o
tinha avisado para deixar de fumar, mas ignorava ostensivamente esses conselhos
que o deprimiam. Um charuto seria sempre o passatempo favorito de Mr. Satan.
Os escritores
tinham acabado de sair e sentia-se, pela primeira vez desde que começara aquela
empresa, satisfeito com a sua biografia. Os capítulos dedicados ao Cell Game estavam completos e contavam
exatamente como tinha acontecido – ou pelo menos, tinham sido fiéis à versão
oficial. Estava tudo tão bem descrito que ele chegara a emocionar-se. Ao verem
as lágrimas do grande campeão, todos os escritores se levantaram ao mesmo tempo
e aclamaram-no em uníssono durante mais de meia hora.
Continuava a
ser amado e isso era uma sensação melhor que a de fumar um charuto
especial.
Ao abrir os
olhos tinha o mordomo postado à sua frente. Endireitou o charuto entre os
dedos.
- O que foi?
- Mr. Satan,
a sua filha veio visitar-vos.
Esqueceu
prontamente a emoção daquela tarde. Saltou do cadeirão, correu para apertá-la
nos braços.
- Videl!
- Papa… Esqueces-te que já não sou a tua
menina pequenina?
O mordomo
saiu discretamente da sala, fechando a porta dupla silenciosamente. Mr. Satan
corou enquanto pousava a filha no chão.
- Pois… Gomen nasai. É verdade, esqueço-me que
és uma menina crescida.
- Uma mulher.
- Hai, uma mulher. Bonita como a tua mãe.
- Papa! – Foi a vez de ela corar.
Reparou nas
folhas de papel espalhadas pelo sofá, pela mesa e pelo bar, pela sala inteira
como se tivessem sido dispersas por uma ventania que por ali entrara.
- Tiveste trabalho
hoje.
- Hai.
- Os
biógrafos não te perguntaram onde passaste os últimos nove meses, papa?
- Claro! – O
charuto fumegava-lhe entre os dedos. – Disse-lhes que tinha estado de férias,
numas ilhas do sul. Ficaram satisfeitos, não perguntaram mais nada.
- Vês como
foi fácil justificar a tua ausência?
Ela sentou-se
no sofá, ele regressou ao cadeirão.
- Mais uma
vez, safo-me bem inventando uma mentira qualquer… Não é assim?
- Remorsos
nesta fase, papa?
- Eh… – Tirou
uma passa ao charuto, esquivando-se à resposta.
- A biografia
já está do teu agrado?
- Está
perfeita!
Sorriu e as
rugas em redor dos olhos apareceram em todo o seu esplendor. Videl sorriu com
ele, mas depois, bateu com as mãos nos joelhos e disse:
- Bem, papa, venho buscar a Pan-chan. Podes chamá-la.
Nem sei como é que conseguiste trabalhar com ela a cirandar pela casa.
Enviaste-a para os jardins para brincar com o Beh e com Mr. Bu, não foi?
O sorriso de
Mr. Satan desapareceu.
- Nani?
Os dedos de
Videl crisparam-se, as unhas arranharam a pele dos joelhos.
- Pan-chan…
Manda chamá-la, está bem?
E como o pai
continuava pasmado, ela adiantou levantando-se:
- Então,
chamo-a eu. Não preciso de mordomo para chamar a minha filha. Lá em casa, não
tenho mordomo! – E riu-se da espécie de piada.
Mr. Satan
também se levantou. Hesitou, mas acabou por dizer:
- Pan-chan
não está comigo.
Houve uma
pausa, como o tempo que se leva a esticar a corda do arco antes de disparar a
flecha. Pontaria. Mais um instante. E então a flecha partiu, atravessou o
cérebro de Videl que levou as mãos à cabeça e berrou:
- Papa, Pan-chan não está aqui?!!
- Não, Videl…
Desde que chegámos daquele sítio esquisito que nunca mais a vi… Passa-se alguma
coisa?
Videl saiu
esbaforida da mansão do pai, enfiou-se no automóvel e atravessou metade da
cidade numa velocidade alucinante, sem olhar para nada, nem semáforos, sinais
de trânsito, peões, outros automóveis. Julgava ter escutado as sirenes da
polícia algures, no meio do trajeto. Entrou em casa aos gritos.
- Gohan!
Gohan! A nossa filha desapareceu!
Ele correu
para junto dela, a atirar para o chão o livro que tinha nas mãos.
- Nani? Mas ela não passou a noite na casa
do teu pai?
- O meu pai
não sabe onde é que ela está! – Arrepanhou os cabelos, suada, vermelha de medo.
– Ela desapareceu. A minha querida Pan… desapareceu!
Tapou a boca
com as mãos, arregalou os olhos.
- Foi do
castigo. Ela não quis comer as ervilhas e eu mandei-a para o quarto de castigo.
Ele abanou a
cabeça.
- A Pan não
aceita mal os castigos. Aconteceu outra coisa…
Sem destapar
a boca, Videl perguntou:
- Mas onde é
que ela está?!
- Já viste se
está com a Maron?
- Hai, telefonei hoje de manhã para a casa
de Kuririn-san. Ninguém me atendeu.
- E com Bra?
- Também não.
Bulma-san disse-me que não estava lá.
De repente,
Gohan empalideceu.
- O que foi?
- Masaka…
- Gohan-san,
o que foi? – Gritou-lhe.
- Zephir.
- Ahn?!
Zephir, o quê? Estás a dizer-me que… que a nossa filha… O que é que queres
dizer?
Ele correu
para o quarto, escancarou o roupeiro, puxou uma caixa da prateleira de cima.
Despiu a blusa, tirou as calças, sacudiu os sapatos dos pés. Arrancou a tampa à
caixa, começou a vestir o dogi. Videl
apareceu na porta, de braços abertos a segurar a ombreira como se acontecesse
um tremor de terra e ela estivesse a aguentar a casa inteira. Ofegava.
- Pan foi
para o Templo da Lua? Mas por que estúpida razão foi a nossa filha para o
Templo da Lua?! Diz-me, Gohan!
- Ela quer
combater Zephir. Desde o início que o quer combater.
- Nani? E o que é que tu estás a fazer?
Os dedos dele
tremiam enquanto enrolava o cinto na cintura, a prender a túnica e as calças.
- Vou atrás
dela… O que é que querias que eu fizesse?
Como ela
estava a tapar a porta, abriu a janela do quarto.
- Tu também
vais combater?
- Se for necessário…
Espreitou-a
por cima do ombro. A brisa que penetrava no quarto agitava os cabelos dele e
também os cabelos dela. Ficaram parados, à espera de se despedirem, a não
querer fazê-lo.
- Trarei a
nossa filha, sã e salva, Videl.
E saltou pela
janela.
Videl
regressou à sala, devagar, sonâmbula. Afundou-se no sofá. O silêncio da casa
pesava como chumbo. As lágrimas estavam prestes a saltar-lhe dos olhos
escancarados, mas estava tão assustada que não chorou.
Deixou-se
ficar a olhar fixamente para a porta, à espera.
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